Fotografia: Alass Derivas.

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“Filho do sol, também somos da Terra.
Ela não é nossa.
Nós que somos dela”
Rapper Owerá, canção “Moradia de Deus”

Quem olha de cima logo percebe um mapa de destruição da Floresta Amazônica. O que era beleza hoje são árvores centenárias derrubadas, rios contaminados por mercúrio, pistas de pouso, enormes pastos com milhares de cabeças de gado e áreas desmatadas para dar lugar à exploração de grãos que serão exportados. Homens com motosserras, tratores e balsas avançam sobre as terras indígenas num cenário de desmatamento, contaminação da água e assoreamento dos rios, trazendo como consequência a fome, doenças como a malária, pneumonia e as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), além de alcoolismo, drogas e estupros de crianças e adolescentes indígenas.

Um cenário de brutalidade e tensão vivido por indígenas, ativistas, população ribeirinha, fazendeiros e grileiros que convivem nas mesmas áreas em clima de violência e medo, patrocinados por autoridades que buscam visibilidade e recursos que lhes garantam os votos necessários para permanecer com seus mandatos em Brasília.

Os avanços ilegais que acontecem sob a vista grossa de alguns órgãos ambientais correm o risco de se tornar legais caso seja aprovado o Projeto de Lei (PL) 191 de 2020, encaminhado pelo governo, que autoriza a mineração, exploração florestal e construção de hidrelétricas em terras indígenas, algumas já demarcadas, contrariando a Constituição de 1988. Para a deputada federal indígena Joenia Wapichana: “Tudo que o governo sonhou explorar em terras indígenas está no PL 191”.

Para protestar e resistir contra a retirada de direitos dos verdadeiros guardiões da natureza, indígenas de vários estados e etnias presentes no Acampamento Terra Livre marcharam pelas ruas de Brasília, como relata o jornalista e editor da Radis Luiz Felipe Stevanim, que também entrevistou o jovem rapper Owerá para esta edição. O artista, em suas músicas, descreve a resistência de seu povo aos mais de 500 anos de colonização para defender da degradação ambiental as terras que habita.

Com uma trajetória a favor da vida e incondicional defesa da ciência, Cesar Victora é motivo de orgulho para todo o Brasil, tendo tido papel de destaque em diversas universidades pelo mundo, entre as quais a de Harvard, Oxford, Johns Hopkins e Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.

Suas principais contribuições científicas incluem a documentação da importância do aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade para prevenir a mortalidade infantil que definiram políticas internacionais de amamentação e nutrição infantil — que atualmente são adotadas em mais de 140 países, além de estudos para avaliação do impacto de programas de saúde sobre a mortalidade infantil e sobre desigualdades sociais em saúde.

Victora recentemente protagonizou um ato político com a recusa da promoção da Ordem do Mérito Científico concedida pelo atual governo. Na carta endereçada ao ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, para declinar da homenagem, o pesquisador tornou público sua discordância com o boicote às recomendações da epidemiologia e da saúde coletiva em relação à pandemia por covid-19, com os cortes nos orçamentos federais para a ciência e com as perseguições aos colegas cientistas que foram críticos ao governo por não concordarem com suas teorias negacionistas.

As cartas que chegam à Radis, como parte das comemorações dos 40 anos do Programa e 20 da revista, trazem relatos de como os leitores utilizam os conteúdos que são publicados e sua importância na vida pessoal e profissional de quem a recebe. Os depoimentos deixam toda a equipe entusiasmada com os resultados alcançados. Saber que a informação tão cuidadosamente pensada e escrita é capaz de se comunicar de forma positiva com quem lê a Radis traz sempre a certeza de que a missão aqui, de cada um do Radis, está sendo bem cumprida. E isto será sempre motivo de muito orgulho.

Boa leitura!

■ Justa Helena Franco subcoordenadora do Programa Radis