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A vacinação é a forma mais rápida para estabilizar os sistemas de saúde, restaurar serviços essenciais e estimular uma recuperação verdadeiramente global da economia. Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS

A Região Norte do Brasil é grande em quase tudo. Possui a maior floresta tropical do mundo com dois terços das florestas naturais do país, o que contribui para a regulação do clima, e o maior rio em volume d’água, com enormes bacias que formam o maior bioma do Brasil. Seu território traz desafios e características únicas que fazem jus ao seu tamanho, complexidade e importância ainda desconhecidos para a maior parte do Centro-Sul, como apontado por pesquisadores nesta edição.

A região que só é notícia pelos conflitos de terras com grileiros, fazendeiros e garimpeiros que invadem tanto terras públicas quanto territórios indígenas demarcados sofre com a febre amarela, a malária e a desnutrição infantil que já atinge 80% das crianças de até 5 anos nas aldeias indígenas — segundo estudo da Unicef realizado em parceria com a Fiocruz e o Ministério da Saúde. Nesta semana, a foto de uma criança Yanomami de apenas oito anos, em avançado estado de desnutrição, estampou a primeira página de um jornal de grande circulação, provocando grande consternação. Também dezenas de mortos asfixiados por falta de oxigênio e leitos para tratamento de covid alcançaram grande repercussão na mídia e chamaram atenção para o “Brasil do Norte”.

A ausência do Estado em um território com características únicas, cidades isoladas e carência de políticas públicas que invistam em infraestrutura com preservação ambiental e proteção dos direitos sociais marcam o subdesenvolvimento da região com suas extensas fronteiras, em relação a outras partes do país, e contribuem para que esses estados não alcancem visibilidade para suas potencialidades.

O Programa Nacional de Imunizações (PNI), responsável pela política nacional de imunizações no Brasil, é um investimento em saúde com excelente custo × efetividade. Milhões de mortes têm sido evitadas, assim como o risco de adoecimento e manifestações graves de doenças e incapacitações. Graças ao sucesso de seus resultados, é reconhecido e respeitado tanto no Brasil como no exterior, servindo como referência para muitos países e comunidades científicas. Apesar de um histórico no mundo como liderança em saúde pública, o país ainda não vacinou 20% de sua população com a primeira dose de uma vacina capaz de proteger a população do vírus causador da covid.

Zé Gotinha, criado para incentivar a vacinação contra a poliomielite, que era administrada na forma de gotinha, tornou-se uma representação lúdica da vacina no Brasil. Infelizmente ele parece ter sucumbido à inércia, ao descaso e ao negacionismo dos que não acreditam na ciência. O atraso e escassez de vacinas podem custar a vida de milhares de brasileiros. O PNI, antes motivo de orgulho, foi vencido pela incompetência e ineficiência. Na campanha “atrasada” de mobilização para a covid, lançada pelo Ministério da Saúde, tendo à frente “Zé Gotinha e sua família”, uma frase “Nunca é tarde para se começar” — proferida para tentar justificar o atraso — soou fora de contexto, porque depois de 430 mil mortes é tarde sim para se começar.

Segundo declarações do representante da Pfizer no Brasil, algumas propostas de oferta de vacina foram recusadas e ignoradas pelo país. Esta ação resultou em muitos meses de atraso e 18,5 milhões de doses que não chegaram a tempo de imunizar pelo menos mais de 9 milhões de brasileiros. E quantos entre estes 9 milhões poderiam estar hoje saudáveis e vivos, trabalhando, produzindo e fazendo a roda da economia girar?

Para além das mortes provocadas pela pandemia e pelo acesso lento às vacinas, aos leitos e insumos para tratar a doença, outros sofrimentos ligados às condições sociais e econômicas assustam e adoecem emocionalmente os brasileiros, como a demora e diminuição do auxílio emergencial, o desemprego, a insegurança alimentar e a fome — que retorna depois do Brasil estar fora do Mapa da Fome desde 2014, como citado na seção Pós-Tudo.

Não é demais lembrar que o acesso à alimentação, educação, saúde e outros direitos sociais figura na Constituição do Brasil como direitos básicos e indispensáveis para assegurar condições de sobrevivência e bem estar a todas e todos os brasileiros. 

■ Justa Helena Franco subcoordenadora do Programa Radis