Presidente da Academia Brasileira de Ciências, Juliano Moreira recebe visita de Einstein em 1925

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Médico negro foi pioneiro na psiquiatria brasileira e na luta contra teorias racistas

Um menino negro e pobre da Bahia que se torna um dos mais importantes nomes da ciência brasileira, com contribuições inúmeras para a saúde. Este foi Juliano Moreira, considerado fundador da psiquiatria brasileira, cujo nome é homenageado em diferentes instituições de saúde no país, mas que continua desconhecido de boa parte das pessoas. Radis ouviu os autores de dois livros sobre o cientista, Ronaldo Jacobina e Ynaê Lopes dos Santos, sobre a vasta produção de Juliano, que viveu entre 1872 e 1933. Ele não somente contestou cientificamente a teoria da degenerescência racial — que, em sua época, associava doenças à mistura de raças — como deixou inúmeras outras contribuições para o campo da Medicina, como o estudo da sífilis — sua tese de formatura, defendida aos 18 anos, até hoje é uma referência no assunto — e o pioneirismo na divulgação científica, entre outras áreas. Acima de tudo, foi um terapeuta do afeto.

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Ele atendeu ao telefone já empolgado, como se recebesse o chamado de um velho amigo. “Eu já esperava sua ligação”, disse do outro lado da linha. Era a primeira vez que eu falava com o professor Ronaldo Jacobina, mas sua acolhida calorosa já antecipava a boa conversa que viria pela frente. Diante da atribuição de escrever um perfil do sanitarista Juliano Moreira (1872-1933), seu nome me foi recomendado pelo seu amigo Paulo Amarante, que foi seu orientador no curso de doutorado que fez na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz).

Quando eu o procurei para falar sobre Juliano, Paulo imediatamente me disse que eu tinha que ouvir o Ronaldo, que além de ser um grande entusiasta da sua história, havia escrito um livro sobre ele. Acatei a sugestão e liguei para o pesquisador baiano, mesmo antes de pesquisar sobre seu livro. Quem é jornalista sabe como é: não se perde uma fonte boa assim; melhor garantir a conversa, ainda mais quando se trata de um pesquisador, com mil e uma ocupações. A primeira ligação seria para marcar a conversa, mas Ronaldo me mostrou que não era dado a protocolos e já começou a falar sobre Juliano. Pedi a ele um tempo para me preparar e disse que retornaria em meia hora. Ele riu, assentiu e me lançou um teaser irresistível: “Meu livro tem seis descobertas originais! Aguardo seu retorno!”

Antes de perder o fio da meada, permitam-me apresentar meu interlocutor. Ronaldo Jacobina é professor titular aposentado do Departamento de Saúde Preventiva e Social da Universidade Federal da Bahia (UFBA), mesma universidade onde concluiu a graduação em Medicina, em 1978, e o mestrado em Saúde Comunitária, em 1982. Além de sanitarista, ele também é psiquiatra, tendo atuado como servidor público no Centro de Saúde Mental Aristides Novis e no Sanatório São Paulo, em Salvador, e comunicador — entre 1992 e 1997, esteve à frente do programa Rádio Saúde, na Rádio Excelsior da Bahia.

No curso de mestrado, Ronaldo pesquisou a constituição da psiquiatria na Bahia a partir do Asilo São João de Deus — que anos depois, viria se tornar o Hospital Juliano Moreira, tema para o qual se voltou no doutorado, concluído em 2001. Foi neste período que ele resolveu investigar a história do sanitarista. “Eu quis saber mais quem era o Juliano que nomeava o hospital. Foi uma viagem sem retorno”, explicou-me, animado. Ronaldo me lembrou, neste momento, que sua pesquisa foi construída a partir de muitas referências, uma delas a obra de Lima Barreto (1881-1922), em especial o romance inacabado Cemitério dos vivos, que se baseia no diário escrito entre 1919 e 1920, quando o autor esteve internado no hospício da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro.

Ao reler a obra, Ronaldo percebeu nas páginas do livro as impressões positivas de Lima acerca da bondade do psiquiatra baiano, que era diretor da instituição, e como este era um ponto fora da curva em seu tempo. Naquele período, posterior à abolição dos escravos e da instauração da República no país, seguia-se à risca por aqui as chamadas teorias raciais, importadas da Europa, que tentavam atribuir à miscigenação a responsabilidade pelas desigualdades, pela loucura e pela criminalidade.

“A mestiçagem era compreendida como responsável pela produção de um tipo híbrido, inferior física e intelectualmente”, situa a psicóloga Audrey Rossi Weyler. No artigo que escreveu para o dossiê Psicologia e Ideologia — O Preconceito Racial, publicado na revista Psicologia USP, a pesquisadora explica que, tomada como sinônimo de degeneração não só racial como social, era a partir da miscigenação que se previa a loucura, se entendia a criminalidade e, posteriormente, se definiram programas de melhoramento da raça”. Juliano não só não acreditava nisso, como conseguiu comprovar cientificamente que a teoria era infundada.

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AINDA DESCONHECIDO?

Voltando à nossa conversa, perguntei ao Ronaldo por que, diante de um currículo tão vasto e tão importante sanitarista permanecia desconhecido do grande público. Ele reconheceu que Juliano realmente ainda não tinha a visibilidade que merece. Disse-me que a despeito de o médico ter sido o responsável por democratizar a estrutura que humanizou o manicômio no Brasil, mesmo na Bahia muitas vezes seu nome ainda é lembrado como sinônimo de ameaça: “Eu vou levar você para o Juliano” — é uma expressão ainda usada para assustar alguém com a possibilidade de internação no hospital que leva o nome do sanitarista.

No livro que escreveu, Juliano Moreira da Bahia para o Mundo — A Formação Baiana do Intelectual de Múltiplos Talentos (1872-1902), lançado pela Editora da UFBA em 2019, Ronaldo apresenta a vida do cientista desde o nascimento, passando por sua formação intelectual até a sua ida ao Rio de Janeiro, quando “já estava pronto”, como gosta de dizer. São tantas as conquistas e as contribuições deixadas por ele para a saúde que, a cada pergunta que faço a Ronaldo, aparecem três ou quatro em sua resposta.

“Você sabia que ele foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Ciência?”, me indaga. “E que ele fez o discurso de recepção ao Einstein, em 1925?” O pesquisador cita inúmeros exemplos: a classificação das doenças mentais feita por Juliano, me diz, inspirada na psiquiatria alemã, foi usada até anos 1960, no século seguinte; seu estudo sobre a paranoia foi um marco; foi ele o primeiro a introduzir laboratórios dentro de hospitais. Coisas que consideramos hoje banais, mas que sem Juliano não existiriam.

Mas, para Ronaldo, a contribuição “mais fascinante” de Juliano para a saúde mental foram as mudanças implementadas no asilo. Removeu as grades, retirou as algemas que prendiam internos e instalou janelas que arejavam o ambiente; separou adultos de crianças. O pesquisador citou, emocionado, uma foto que está em seu livro onde se vê Juliano e um grupo de crianças ao redor de um gramofone. “As crianças se alegravam com sua presença”, narrou o escritor, resumindo a atuação do biografado em uma palavra: Humanização. “Ele abominava a ideia de o hospital ser visto como prisão”, acentuou.

PRECURSOR DA PSICANÁLISE

Outro dado original de seu livro, me conta Ronaldo, é mostrar que Juliano Moreira foi o primeiro pesquisador latino-americano a discutir a psicanálise. Segundo ele, como o brasileiro dominava a língua alemã, poucos meses depois de Freud lançar seus livros ele já discutia seu conteúdo no asilo São João de Deus, na Bahia: “Ele não foi psicanalista, mas foi sensível para entender a contribuição de Freud para a psiquiatria”. O sanitarista baiano também se destacou no estudo da ainhum (também conhecida como doença de Silva Lima, causa alteração nos dedos do pé).
A versatilidade do cientista, comentou Ronaldo, é algo que se apresenta desde a sua formação. Seus primeiros estudos foram na área de dermatologia, onde teve trabalhos pioneiros sobre leishmaniose tegumentar americana e sífilis. Em se falando da sífilis, este foi o tema da famosa “tese inaugural” de Juliano, quando concluiu o curso de Medicina. Escrito quando o pesquisador tinha apenas 18 anos, o trabalho conta com citações em sete línguas — entre elas o latim —, foi traduzido em diversos países e se tornou referência internacional no estudo da doença. Foi a observação de um componente psiquiátrico da sífilis que abriu caminho para que Juliano se interessasse pelo estudo da saúde mental, observou o escritor.

Mas há outras facetas de Juliano que não são tão celebradas, chamou-me a atenção. Em mais uma descoberta original de sua obra, ele assinalou o perfil sanitarista de Juliano. Quando se formou, aos 19 anos, ele foi designado a debelar uma epidemia de malária, em uma região chamada Jacobina. “Você vê que os astros já haviam determinado sobre o que eu iria escrever, no futuro”, ri-se Ronaldo, ao constatar a coincidência com seu sobrenome. “Você imagina o vigor com que aquele jovem de 19 anos, filho de uma emprega doméstica, se dedicou à tarefa. Chegaram a desconfiar que ele estava gastando demais com remédios”, disse, entusiasmado. “Ele era um sanitarista, foi discípulo de Virchow [Rudolf Virchow, patologista alemão, considerado o pai da Medicina Social], assistiu às suas aulas, na Alemanha”, reforçou.

Mas para Ronaldo, embora múltiplas e inúmeras, a maior herança de Juliano Moreira é a contribuição que deixou para a saúde mental, e que anos depois foi resgatada pela Luta Antimanicomial. “O mais importante legado dele foi a orientação de não deixar que o hospital psiquiátrico se tornasse uma prisão”. Ele não aceitava que o doente mental fosse tratado de forma ameaçadora e era a favor de uma assistência que respeitasse o paciente como ser humano. “Quando você reler o Lima Barreto você vai ver que ele bate forte nos médicos da época, com aquela bazófia e aquela pose francesa. Quando chega o Juliano ele reconhece nele uma figura humana que o escuta, que atende suas demandas”, recomendou meu interlocutor. Segundo ele, é possível identificar a aproximação do escritor com Juliano em trechos de sua obra, muito em parte escrita graças à sua intervenção, fosse fornecendo lápis e papé is, fosse dando seu aval para que escrevesse. “Ele era reconhecido por sua bondade”, acentuou.

VATAPÁ PARA EINSTEIN

Neste momento, interrompo Ronaldo e conto a ele que, enquanto conversamos, está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, uma exposição em homenagem à psiquiatra Nise da Silveira (Radis 266), que registra a relação entre Juliano Moreira e Lima Barreto e onde pude ler uma frase de seu discípulo Afrânio Peixoto, que o define como “terapeuta do afeto”. Ele se mostra interessado e reafirma a postura humana de seu biografado, que no período em que convive com o escritor, já tinha prestígio e renome mundial. “Juliano não sabia que estava diante de um gênio negro, que enfrentava o racismo e o preconceito racial, um homem culto sensível que narraria sua experiência de quando esteve internado”, pontuou. Mas, mesmo assim, dispensava a ele “a mesma simplicidade de quem senta, ouve e humaniza as relações”.
A esta altura, Juliano Moreira já havia feito inúmeras viagens ao exterior e recebido as mais altas honrarias em diferentes países. Segundo Ronaldo, ele coordenou e foi presidente de mais de 12 congressos internacionais, recebeu das mãos do imperador japonês a Ordem do Tesouro Sagrado, maior comenda do país, foi homenageado em várias universidades com medalhas científicas, mas continuava sendo o homem simples que fez questão de transferir a sala onde trabalhava para o andar térreo do hospital, onde poderia melhor atender as demandas de seus pacientes. Sua simplicidade, porém, não impediu que seu prestígio e sua formação fossem chancelados por um dos maiores cientistas do século 20, ninguém menos que o físico alemão Albert Einstein (1879-1955).

Quando visitou o Brasil, em 1925, Einstein foi recebido na Academia Brasileira de Ciências. Já era uma estrela mundial. Juliano, que era o presidente da ABC, fez um curto discurso de recepção ao convidado, destacando a influência da relatividade em várias áreas da ciência. Ronaldo contou que até hoje não teve acesso ao conteúdo da fala de Juliano, mas que supõe ter sido muito importante, já que a fala deixou Einstein impressionado. “Sabe o que aconteceu na véspera de ele ir embora do Brasil?”, indagou-me. “Quebrou o protocolo e aceitou o convite de Juliano para visitar o Hospital Nacional dos Alienados”. Em sua investigação, o escritor apurou que o cientista alemão ficou particularmente interessado no setor de laborterapia — a terapia pelo trabalho, outra inovação proposta por Juliano e que daria origem aos hospitais-colônia ou hospitais rurais.

Na ocasião, mais um protocolo foi quebrado, quando Einstein aceitou o convite para almoçar na casa de Juliano. Neste momento, o médico já estava casado com Augusta Peick, enfermeira alemã que conheceu durante sua estadia em um sanatório na cidade do Cairo, para tratar da tuberculose. “Você imagina que, sendo casado com uma alemã, ele serviria ao convidado uma comida alemã, mas ele oferece sabe o quê? Um vatapá, uma comida afro-baiana!”, diverte-se Ronaldo, contando-me que mais tarde, lendo a biografia do físico, descobriu que ele havia registrado ter comido “uma comida brasileira com muita pimenta”. “Eu desconfio que ele sentiu os efeitos”, ironizou, supondo que repercussão teria hoje, já que os jornais da época não deixaram barato e publicaram: “O pai da teoria da relatividade conheceu o absoluto: o vatapá”.

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RESERVADO E TRANSGRESSOR

O episódio curioso foi o mote para que Ronaldo destacasse que, a despeito do tratamento recebido por Juliano em sua terra natal, ele continuava amando a Bahia. “Ele saiu magoado da Bahia, que fechou os campi para ele, um reflexo do racismo deste país perverso”, contou, revelando que Juliano se mudou para o Rio de Janeiro mesmo antes de ser nomeado diretor do Hospital dos Alienados. Antes disso, ele montou um pequeno consultório em Botafogo, até ser nomeado por J.J. Seabra [então ministro de Viação e Obras Públicas]. “Seu amor pela terra continuava”, assinalou.

Neste momento, coloco ao meu interlocutor que percebo outra característica nos relatos e na obra de Juliano, para além de sua bondade. Digo a ele que o psiquiatra me parece um homem reservado e transgressor, ao mesmo tempo. “Exatamente!”, diz-me empolgado. “De sua forma, educado e sutil, ele era um homem muito à frente do seu tempo”, defendeu, o que se comprova nos temas que elegeu pesquisar, nas mudanças que conseguiu implementar. “Daí a reforma que fez no manicômio. Era uma nova maneira de lidar e de olhar”, exemplificou. Para ele, Juliano foi um homem culto, de múltiplos talentos, que teve que enfrentar muitas adversidades, ressaltou.

“Preciso contar algo fundamental, porque deus está nos detalhes e o diabo nos pormenores”, me preparou Ronaldo. Ele relembrou que Juliano era filho de Galdina, empregada doméstica, e do português Manoel, funcionário municipal, que não o assume como filho de início. Galdina convida então o Barão de Itapuã, que era seu patrão, para ser padrinho de Juliano. O barão, na verdade Adriano Alves de Lima Gordilho, obstetra e professor da Faculdade de Medicina da Bahia, incentiva os estudos do menino, que se inspira no padrinho para seguir a carreira médica. “Pense aí nele, com 14 anos, negro, na escola mais elitista que existia, onde todos eram filhinhos de papai. Não sei nem se ele tinha algum colega negro”, relatou-me o escritor.

O impacto foi severo, no primeiro ano, e Juliano foi reprovado em física e obteve notas mínimas nas outras disciplinas; no segundo ano — Ronaldo explica que o curso não era semestral, naquela época — as suas notas foram básicas, até concluir sua tese com distinção e citações em sete línguas. “Acho interessante não romantizar a sua biografia, nem negar os fracassos que teve que enfrentar em sua história”, ressaltou, destacando que seu trabalho final foi citado por estudiosos no mundo todo, sem que soubessem que havia sido escrito por “um pivete da Bahia”.
Mesmo assim, Juliano ainda correu o risco de não ser aprovado, logo depois, no concurso que fez para professor da mesma Faculdade de Medicina onde havia se formado. “Ele foi avisado que seria rifado no concurso, porque três dos examinadores eram racistas”. Sabendo disso, o amigoAfrânio Peixoto mobilizou os formandos para que fossem assisti-lo, já que as provas eram públicas e mesmo os exames escritos eram lidos.

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Juliano (ao centro), com o amigo Afrânio Peixoto (à direita), que mobilizou formandos da Faculdade de Medicina para impedir racismo em concurso

 

Ronaldo se empolga ao me contar que os alunos explodiam em aplausos após as apresentações de Juliano, que obteve 15 notas 10 dos avaliadores. “Mesmo os escravocratas foram capazes de reconhecer o gênio e o aprovaram em primeiro lugar”, contou-me. Disse ainda que Juliano agradeceu “à mocidade acadêmica”, em uma fala em que critica: “Há quem receie que a cor da pele seja nuvem capaz de marear o brilho desta faculdade, mas o negror está na subserviência”, teria dito. “É como você me disse: ele é transgressor, educado, mas muito duro. você captou um dado fundamental dele”.

Encerrei a conversa feliz por ter conhecido Ronaldo, com muita vontade de ler o seu livro, e de saber mais sobre Juliano Moreira. Diante da conversa gravada, decidi relatar nossa conversa subvertendo o formato tradicional de entrevista, incluindo sensações e observações. Antes de escrever, no entanto, acatei a sugestão e tirei da estante o Lima Barreto esquecido. Ao folhear suas páginas, aleatoriamente o vejo descrever o primeiro encontro com o médico: “O diretor nada disse, e eu percebi; mas foi preciso ele vencer, com a sua doçura, a sua paciência e a simplicidade de sua alma, a indelicadeza desse seu hospitalizado. Hei de falar mais longamente sobre ele, que é uma interessante figura que conheci”.

Comecei então a escrever estas linhas, com a certeza de que são sobretudo os encontros os responsáveis pela boa saúde mental. Em silêncio, agradeço a Ronaldo, Juliano e Lima Barreto pela ótima conversa que tivemos.

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