Fotografia: Lela Beltrão.

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As Doenças do Brasil, de Valter Hugo Mãe, é crítica lírica e política sobre a colonização

Uma terra imaginária, inspirada nas narrativas dos povos originários e descrita com doses particulares de lirismo; uma mistura poética e política de personagens, que se confundem com os cenários e trazem em seus corpos as marcas violentas da invasão estrangeira. Os elementos constituintes de As doenças do Brasil (Editora Globo), do escritor português Valter Hugo Mãe, lançado no fim de 2021, resultam em um livro curioso e surpreendente, cuja narrativa deve ser degustada aos poucos, como se fosse uma coletânea de poemas.

O tema central bem poderia se resumir à crítica feita à mistura racial que muitos celebram como resultado positivo da formação étnica brasileira — ou ainda uma visão estrangeira e romantizada do processo de colonização do Brasil, mas ultrapassa a análise teórica ou a recuperação histórica para se tornar uma articulada aventura linguística baseada em mitos e na imaginação do autor, que surpreende por narrar fatos e criar situações em um português que foge do convencional luso ou das variações brasilianas.

Radis236 Valter Hugo Mae Livro As doencas do Brasil“O meu livro é um lugar de escuta”, declarou Valter, em entrevista concedida ao jornal O Público, quando do lançamento do livro em Portugal, em 2021. De fato, a maneira como “ocupa” e subverte o idioma e torna essa subversão reflexo da ocupação dos territórios e dos corpos de personagens traz um frescor ao livro, que assim foge das armadilhas propostas pelo politicamente correto ou por alguma visão de mundo que tenha o compromisso em estabelecer a verdade ou criticar versões da realidade sobre a qual se propõe a criar.

Pode-se arriscar que o livro é, em si, sobre a criação de um território, e trata de diferentes modos de ocupação, sejam externos, violentos, invasivos, sejam internos, negociados e orgânicos. A ocupação está presente na construção das personagens-cenário do mesmo modo que as palavras que, escolhidas com certo rigor imaginativo, assumem novos sentidos e dão sentido a uma narrativa política e poética da vida.

“Minha cor é ferida. Sou ferido por essa cor e não terei como sarar. Estou sempre ferido. Meu nascimento é um golpe inimigo no corpo de minha mãe que foi atacada sem permissão pelo branco”. O lamento repetido de Honra, personagem principal do livro, fruto de um estupro cometido por um homem branco contra uma mulher abaeté, descreve a ocupação principal do livro, uma metáfora para a invasão colonial que se reflete no corpo do guerreiro mestiço e no medo declarado do poder da imposição de palavras e costumes estrangeiros.

“O cadáver de todas as coisas está na língua”, defende o protagonista, que teme a invasão do idioma “sujo” do invasor como quem se defende de um vírus capaz de alterar percepções e macular o sentido original das coisas, na medida em que é capaz de silenciá-las. “Naquilo que se pronuncia sobra tudo quanto foi, e a existência não se livra do cúmulo do que já passou. Para que cada palavra seja criadora, é também inevitável que saiba que sepulta dentro de si mesma”, defende o autor.

Outra personagem, também inadequada — do mesmo modo que se apresenta, invadida e infeliz — o negro Meio da Noite se vê “ocupado” por costumes herdados pela cultura escravocrata que o constituíram, evidentes quando foge da vida cativa e se depara com os nativos abaetés, que leem os sinais da floresta, não contam o tempo de modo linear e duvidam da sua capacidade de ser “gente”. “Tenho sempre dúvida que o negro exista... Onde o negro é existe uma ausência. É como um nome ausente, por pronunciar, adiado. Isso começa a entristecer meu ser. Não traz tanta fúria. Traz tristeza”, declara Honra à sua mãe.
Assim, a partir de um jogo de duplos — Honra e Meio da Noite, herói, anti-herói, interior e exterior, orgânico e espiritual, legítimo e importado, negro e branco — Valter questiona valores, verdades históricas e versões antropológicas em uma fábula, celebrada em sua beleza por seu descompromisso teórico e profundo compromisso político.

“O Valter Hugo Mãe me anima a paraquedas coloridos desde o outro lado do Atlântico, com palavras que voam, fazem parábolas de afetos e sopram nos ouvidos”, comenta sobre o livro o ativista indígena Ailton Krenak; “É preciso ler As doenças do Brasil nas linhas e nas entrelinhas. Valter Hugo Mãe nos ofereceu uma narrativa de mil e infinitos sentidos, e podemos construir outros. O texto nos convida”, diz a escritora Conceição Evaristo, ao apresentar a obra.

O convite é, sobretudo, ao diálogo. Ao contrastar claros e escuros, a partir da narrativa fantástica e colorida de aproximação entre “dois aflitos de cor”, o autor propõe o respeito às diferenças, sem cair na armadilha de promover uma pretensa superioridade civilizatória europeia, mas também sem incorrer na tentação de construir um libelo pós-colonial ou decolonial.
Ao fantasiar a invasão colonial, prática ainda vigente, ainda que sob outros moldes e modelos, o autor acende, no escuro de uma floresta imaginária, uma luz que indica como resgatar uma humanidade ainda possível. É o que diz Meio da Noite à Honra, quando este duvida de sua lealdade: “Serei teu amigo até que saibas ser meu amigo também”.