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O Dezembro Vermelho deste ano nos traz os 40 anos de pandemia do HIV/aids. Pensarmos a configuração inicial da aids, especificamente em mulheres, e a configuração atual nos remete a um esforço de reflexão amparado nos contextos sociais, econômicos, culturais e políticos do nosso país, nos quais essas mulheres estão situadas, sem a qual não conseguiremos entender a amplitude de um fenômeno tão complexo.

No início dos anos 80, quando tivemos os primeiros casos de HIV, que foram primeiramente identificados no público masculino, mais especificamente em homens gays, usuários de drogas injetáveis e pessoas que receberam transfusão de sangue, tínhamos uma proporção de 25 homens infectados para uma mulher. No entanto, no decorrer do percurso histórico, a infecção do HIV foi adquirindo um retrato mais amplo, o qual se caracterizou pela interiorização, pauperização, juvenização e feminização da infecção — o que, atualmente, nos mostra quase dois casos em homens para um caso em mulheres e, se pensarmos em mulheres adolescentes, o número de meninas infectadas já chega a superar o número de meninos.

Nossa sociedade apresenta contextos em que há papéis sociais e sexuais rígidos e cristalizados, reflexo do patriarcado e do machismo, nos quais a maioria das mulheres se encontra em desvantagem e vulnerabilizadas, para lançar mão de contextos de prevenção, ainda mais se essas mulheres estiverem em configurações conjugais mais longas e mais estáveis, que levam as mesmas a pensar que estão protegidas e livres de se infectar com o HIV e/ou com qualquer outra infecção sexualmente transmissível (IST).

As lutas que essas mulheres (cis, trans, hetero, bissexuais, lésbicas, brancas, negras, pobres, ricas, indígenas, com deficiência, jovens, idosas, em situação de rua, profissionais do sexo e demais) travam para vencer os estigmas que envolvem a infecção por HIV e as demais situações decorrentes dessa condição sorológica vêm desde o momento em que elas buscam o serviço de saúde para ter acesso à testagem. 

Ressaltamos que a evolução do tratamento foi bastante favorável e reduziu muito os casos de transmissão do HIV, notadamente em um país em que, nos anos 80, 90 e até mais ou menos o ano de 2016, chegou a ser referência mundial em termos de políticas públicas voltadas para HIV/aids. Passamos a ter a oferta de testes (principalmente os testes rápidos), em larga escala, o que resultou nos diagnósticos em tempo certo e no tratamento, chegando, atualmente, em termos de cargas virais indetectáveis e intransmissíveis, o que é um ganho expressivo em qualidade de vida.

Precisamos entender e oportunizar o entendimento à população de que não existe “grupo de risco”, ou seja, existem situações de vulnerabilidades, fatores de risco e de proteção, que fazem com que as pessoas se vejam e se sintam passíveis ou não de virem a se infectar. Sendo assim, compreendemos que todas as pessoas que têm vida sexual ativa, sejam homens cis ou trans, mulheres cis ou trans, das diversas orientações sexuais, brancas, negras, escolarizadas ou não, com nível social e econômico elevado ou não, em contextos de violências ou não, poderão vir a se infectar, caso não sejam usadas medidas de prevenção. É fato que temos uma epidemia que chamamos de concentrada, pois essa distribuição de casos não é uniforme, mas se concentra ainda, em sua maioria, em homens, homens jovens gays, mulheres negras e periféricas e com dificuldade de acesso aos serviços e demais redes de atendimento.

Necessário se faz entendermos, também, que essas medidas preventivas precisam fazer parte de políticas públicas de saúde e de educação, levando em conta esses atravessamentos, ou seja, essas interseccionalidades em que essas mulheres vivem e o nosso momento atual, em que retrocessos fragilizam a oferta de políticas públicas, notadamente para as populações mais vulnerabilizadas.

Quanto mais essas mulheres estiverem em contextos de vulnerabilidade, mais desafiadora será essa luta. Apesar de retrocessos nas políticas de prevenção às IST/aids e de criminalização dos movimentos sociais, precisamos apostar em um SUS de qualidade, a partir de lutas, resistências, persistências e insistências cotidianas e coletivas, através de coletivos, redes de apoio e de proteção e movimentos, a exemplo do Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas (MNCP).

A pandemia de covid-19 e suas múltiplas consequências e expressões soma-se às velhas questões e demandas relacionadas à epidemia de HIV/aids, complexificando, mais ainda, o enfrentamento de duas questões de tão grande magnitude.

A nós, coragem, pois como bem nos disse Guimarães Rosa: “O que a vida quer da gente é coragem”.

* Iolanda Santos, cearense, graduada em Serviço Social, trabalha com HIV/aids desde os anos 1990 e atualmente é colaboradora do MNCP+CE.
Comentários para: 40 anos de aids e a luta das mulheres

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