Nosso conhecimento sobre as coisas da vida e do mundo vem de um saber acumulado, daquilo que aprendemos, não só na escola, mas também na família, nos grupos, nas relações sociais de modo geral. Vem também das informações que circulam e que recebemos — em quantidade cada vez maior — diariamente. O conjunto de informações circulantes sobre determinado assunto pode ser visto como um grande mercado; poderíamos imaginar uma feira ou um camelódromo, onde cada negociante quer que sua mercadoria seja escolhida. Como estamos falando de informações e saberes e não de mercadorias concretas, podemos chamar esse mercado de simbólico.
Como num mercado, cada organização ou pessoa que apresenta uma informação quer que ela seja incorporada por quem a recebe. Cada um tem a própria estratégia para apresentar sua informação, concorrendo pelo “poder de fazer ver e fazer crer”, que o pensador francês Pierre Bourdieu, grande mestre da Sociologia e das relações de poder na sociedade, chamou de “poder simbólico”. Mas, como são muitas as informações e como as pessoas já têm os próprios saberes, aquela informação que chega vai ser combinada com outras. Por isso se diz que, se cem pessoas diferentes recebem uma informação, são cem possibilidades de sentidos diferentes que aquela informação pode ter. As pessoas se apropriam diferentemente do que recebem, de acordo com seus contextos particulares.
Um modo de compreender um pouco mais sobre como se formam nossos saberes é fazer um mapeamento da comunicação. O mapa nos ajuda a perceber melhor o mercado simbólico de um assunto, em relação a um grupo de pessoas, desde os moradores de um bairro até a população de um país. Alguns exemplos podem ajudar a entender melhor a proposta: o mapa da comunicação (ou do mercado simbólico) do aleitamento materno para as mães da cidade X que estão amamentando; o mercado simbólico da prevenção do tabagismo para os estudantes da escola Y; ou da nutrição para os adolescentes brasileiros etc.
Um mapa pronto pode ajudar ainda mais. Acima, vemos um que foi feito durante a pesquisa Avaliação da comunicação na prevenção da dengue (Icict/Fiocruz/PDTSP), que teve como referência a população de Manguinhos, comunidade situada no bairro de Bonsucesso, Rio de Janeiro.
Com base nas entrevistas realizadas com moradores da região, pudemos visualizar o mercado simbólico da dengue para esses moradores, que responde à pergunta: de onde vêm as informações e conhecimentos sobre a dengue para essas pessoas? Observe que vem de muitos lugares, organizados no mapa em três núcleos: o da comunidade, o institucional e o midiático (dos meios de comunicação).
Em azul escuro, estão as fontes identificadas como mais presentes na vida das pessoas: escola, posto de saúde, agente comunitário de saúde, vizinhança, TV e Sucam [Superintendência de Campanhas de Saúde Pública, órgão extinto em 1990]. O posto de saúde e a TV eram previsíveis. Mas foi possível verificar também que a escola está agindo positivamente, a vida familiar sendo afetada pelo que os alunos aprendem. E é melhor ainda ver o reconhecimento do papel do agente comunitário de saúde (ACS). Outro destaque é para a vizinhança, tão importante na produção e circulação dos saberes e tão frequentemente esquecida pelas instituições de saúde nas suas estratégias de comunicação. E a Sucam, como foi parar ali, se não existe mais? As pessoas mencionaram muito a Sucam, referindo-se à ação dos guardas de saúde, que colocam remédio e caçam as larvas do mosquito. Como se tratava de uma pesquisa, foi importante deixar registrada a existência da forte memória da Sucam, como dado relevante. Um outro grupo de fontes, representado em letras menores, também está nesse mercado simbólico, de formas diferentes. As setas podem ajudar a observação, elas indicam fluxos. Quando têm duas pontas, há comunicação nas duas direções.
Algumas setas mostram a presença da fonte, porém intermediada pela fonte local. Assim, filhos, garis comunitários, rádio e jornal comunicam-se diretamente; ministério, secretarias estadual e municipal de Saúde falam através de várias outras fontes, inclusive a mídia.
O dia D recebe destaque diferente por não ser fonte permanente, mas um evento no qual estão presentes várias fontes. Por fim, as ondas em verde claro indicam que esses núcleos interagem, sendo difícil separar rigorosamente quando o discurso é de um ou de outro. A mídia alimenta seu discurso no das instituições e da população e vice-versa.
O mapa pode ser feito de dois modos: com base em entrevistas ou outro registro da fala das pessoas; ou por meio de debates e desenho do mapa junto com essas pessoas. Este segundo caminho é mais rico, porque, no momento da elaboração do mapa, os participantes se dão conta de coisas que normalmente passam despercebidas ou são vistas como naturais quando de fato são produzidas pelas relações de poder que ocorrem na sociedade. Assim, o mapa ajuda a dar forma a um conhecimento crítico sobre aspectos da realidade dos grupos participantes. Esse conhecimento crítico é, como sabemos, uma das condições de transformação da realidade.
■ Pesquisadora do Laboratório de Pesquisa em Comunicação e Saúde (Laces). Acesse a seção Excusivo para a web do site do RADIS, para saber mais sobre mapas da comunicação (www. ensp.fiocruz.br/radis/100/web-02.html)


Sem comentários