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O carnaval é divertido, cultural e representativo. Os tradicionais desfiles das escolas de samba, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, são considerados grandes espetáculos. Além disso, são capazes de reverenciar e transformar temáticas atuais e relevantes no imaginário brasileiro. Radis apresenta alguns enredos de 2024 que abordam temas sociais.

Acadêmicos do Salgueiro — Hutukara

No Grupo Especial, o Salgueiro, neste ano, vai trazer à Marquês de Sapucaí a luta Yanomami. Com o Enredo “Hutukara”, a vermelho e branco do Rio de Janeiro vai representar o povo indígena que vive nos estados do Amazonas e Roraima, nas bacias do Rio Negro e do Rio Branco. A expressão Hutukara refere-se ao chão sagrado de Omama, uma figura central na cosmologia Yanomami, representando a criação do mundo. O povo, que existia quinhentos anos antes de o Brasil se formar, tornou-se uma das questões mais discutidas em 2023, com a declaração de Emergência Sanitária de Importância Nacional (Espin), pelo governo federal, em razão da desassistência em saúde na Terra Indígena Yanomami (Radis 247). 

O samba da escola que está no grupo especial cita o descaso da população não indígena na proteção do povo Yanomami — ou a atenção “oportunista”. A letra afirma: “Você diz lembrar do povo Yanomami / Em 19 de abril / Mas nem sabe o meu nome e sorriu da minha fome / Quando o medo me partiu / Você quer me ouvir cantar em Yanomami / Pra postar no seu perfil / Entre aspas e negrito, o meu choro, o meu grito / Nem a pau, Brasil”.

Portela — Um defeito de cor

A escola de samba do Grupo Especial que vai completar 101 anos, em 2024, leva à Avenida o enredo “Um Defeito de Cor”, de autoria dos carnavalescos André Rodrigues e Antônio Gonzaga. Baseado na obra da autora Ana Maria Gonçalves, o desfile vai refazer o caminho de Luísa Mahin, símbolo da resistência contra a escravidão. Ao reverenciar a cultura africana e a ancestralidade, esse enredo chama atenção também para a luta contra o racismo. “O samba genuinamente preto / Fina flor, jardim do gueto / Que exala o nosso afeto / Me embala, ô Mãe, colo da saudade / Pra fazer da identidade nosso livro aberto”.

Arranco do Engenho de Dentro — Nise da Silveira

Na Série Ouro da Sapucaí, a agremiação Arranco do Engenho de Dentro traz o enredo “Nise — Reimaginação da loucura”. A médica psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999) vai ser lembrada, ao abordar o seu legado para a saúde mental brasileira, de uma forma afetuosa e carnavalizada. Essa figura importante teve sua trajetória ligada ao atual Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira (IMASNS), que existe até hoje no bairro Engenho de Dentro e se tornou um polo disseminador do Movimento da Luta Antimanicomial. Para falar de saúde mental, a ideia da escola é brincar com a loucura e ressignificá-la. Afinal, “Reimaginando a insanidade / Loucura é não saber amar”, diz a letra do samba.

Estácio de Sá — Ancestralidade africana e resistência

A agremiação Estácio de Sá, conhecida por ser a primeira escola de samba, desfila na Série Ouro da Sapucaí com o enredo “Chão de Devoção: Orgulho Ancestral”. A escola conta a história de duas mulheres importantes para a cultura afro-brasileira, duas Pretas Velhas. As Vovós Cambinda e Maria Conga são símbolos de resistência e devoção nas religiosidades de matriz africana, e também referências para a história da escola. Além disso, a agremiação vai trazer meninas, mulheres, guerreiras, princesas e rainhas, orgulhosas de seus corpos, sua pele e seus cabelos. “Chegaram e plantaram nesse chão / Imensidão de cultura e memória / Saberes e sabores de candura / Bravura que ficou na história / Baixam nos terreiros de Umbanda / Pra vencer demanda com a luz de Oxalá / Às Pretas Velhas, mães de todo estaciano / Um batuque africano e uma vela no gongá”.

Inocentes de Belford Roxo – Trabalhadores informais

Em homenagem aos trabalhadores informais, a Inocentes de Belford Roxo leva para a avenida o enredo “Debret pintou, camelô gritou: ‘Compre 2 leve 3!’ Tudo para agradar o freguês”. A escola da Baixada Fluminense exalta o cotidiano dos trabalhadores camelôs e ambulantes. O samba cita locais como Madureira, Pavuna, Central do Brasil e Uruguaiana, conhecidos pelo comércio de rua, e ressalta a luta por direitos. “Ambulante tudo tem / o trem que sai da Central / No vai e vem da Uruguaiana / Tem pirata e original / Eu fui pro informal / Por falta de oportunidade / A margem da sociedade / Mas se deixar eu me vender (vender) / Na luta desigual /Mostro minha qualidade / Palestro na universidade / Viro dono de TV.”

Independente Tricolor — Mulheres pretas guerreiras

A escola de samba Independente Tricolor vai dar cor ao enredo “Agojie, A Lâmina da liberdade!”, no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo. O desfile vai contar a história do exército de mulheres guerreiras que defenderam o reino de Daomé, na África. O desfile no Grupo Principal de São Paulo promete relacionar as Agojies e as mulheres pretas da atualidade. O samba fala de empoderamento, africanidade, legado e resistência. “A vitória e o legado, é resistência de mulher / A luta e o fundamento / Vieram de lá / A lâmina, é o exemplo pro futuro que virá / Preta, tenha cabeça sempre erguida / Seja valente e destemida, em teu valor / Orgulho dessa cor.”

Nenê de Vila Matilde — Lia de Itamaracá

Na capital paulista, a escola de samba Nenê de Vila Matilde vai desfilar com o enredo: “Cirandando à vida prá lá e prá cá. Sou Lia, sou. Nenê sou de Itamaracá”. Em homenagem à Lia de Itamaracá, compositora, cantora, dançarina e maior cirandeira do Brasil, que completará 80 anos em 2024. A escola virá em tons de azul, tradição da escola e cor usada por Lia. A Nenê de Vila Matilde do Grupo de Acesso I não é a única escola que reverenciará a artista, reconhecida como Patrimônio Vivo de Pernambuco. No Rio, a Escola Império da Tijuca terá o enredo “Sou Lia de Itamaracá, cirandando a vida na beira do mar”.

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