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Nas redes sociais, muito se falou sobre a polilaminina e a pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana Sampaio, principalmente após um paciente viralizar com vídeos contando como está se recuperando de uma lesão medular que poderia ter sido um diagnóstico irreversível. A pesquisa conduzida na UFRJ, sob liderança de Tatiana, em parceria com o laboratório Cristália, desenvolveu uma molécula promissora no tratamento de lesões medulares agudas.

A polilaminina é fruto de anos de investigação, que agora começam a apresentar resultados em um estudo preliminar que envolveu oito pacientes com lesões medulares agudas, com diferentes níveis de recuperação motora em seis deles. O grupo de pesquisa já havia obtido resultados promissores em estudos com animais.

Contudo, é fundamental manter cautela, pois ainda há etapas clínicas e metodológicas a cumprir. O cuidado é necessário para que a medicação se mostre eficaz e segura. Em editorial conjunto (20/2), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) ressaltaram que a ciência exige um longo processo, com diferentes etapas, até que a eficácia de um medicamento seja comprovada. 

“Em áreas como neuroregeneração, o percurso entre descoberta científica, validação pré-clínica, ensaios clínicos e eventual incorporação tecnológica é necessariamente longo, complexo e dependente de evidências acumulativas”, escreveram Francilene Procópio Garcia, presidente da SBPC, e Helena Nader, presidente da ABC. Por enquanto, não se pode perder de vista que a polilaminina “é uma promessa de tratamento”, como afirmou a própria pesquisadora da UFRJ ao G1 (20/2).

Um ponto destacado por SBPC e ABC é o fato de o estudo ter surgido no âmbito da ciência pública brasileira. Isso reforça a importância das universidades e dos institutos de pesquisa como protagonistas na geração de conhecimento inédito, especialmente em áreas consideradas estratégicas para o país, declararam as instituições. 

Porém, elas também chamam atenção para a necessidade de tomar cuidado com a pressa por resultados que geralmente se vê na cobertura midiática: é importante celebrar os resultados, sem criar falsas esperanças. “A comunicação sobre pesquisas em estágio inicial exige cautela, precisão e responsabilidade institucional, de modo a evitar a construção de expectativas desproporcionais em relação ao estágio real de desenvolvimento científico”, declararam.

Confira um compilado com as principais informações sobre a descoberta:

Como a polilaminina funciona no corpo?

A polilaminina atua como uma espécie de “cola biológica”, estimulando a reconexão de neurônios e favorecendo a regeneração de tecidos lesionados na medula espinhal. É um composto recriado em laboratório a partir da laminina — proteína produzida no corpo humano. Durante o desenvolvimento embrionário, essa molécula exerce um papel fundamental na organização dos tecidos e no crescimento celular. Dessa forma, quando inserida no local da lesão, ela age estimulando nervos a criarem novas rotas de comunicação com o cérebro.

Qualquer pessoa pode usar?

Não há ainda evidência científica de que a polilaminina possa funcionar no tratamento de lesões medulares crônicas, ou seja, em pacientes que já têm a paralisia há mais de 90 dias. Isso não foi pesquisado pela equipe da UFRJ nessa etapa que estuda lesões agudas — quando o trauma ocorreu há pelo menos 72h.

É possível afirmar que a polilaminina é uma cura para lesão medular?

Ainda não. No estudo preliminar, nem todos os pacientes tiveram recuperação completa, como o caso que viralizou nas redes sociais. O estudo também precisa passar por outras etapas, a exemplo da revisão por pares, que é o processo em que especialistas independentes analisam a metodologia, os dados e as conclusões para validação. Também não é possível afirmar, com base nos dados de um estudo feito com um pequeno grupo de pessoas, que a substância é realmente eficaz. Amostras reduzidas dificultam conclusões definitivas. Principalmente porque uma porcentagem das pessoas com lesão aguda podem recuperar algum grau de movimento mesmo sem a medicação, segundo pesquisadores.

O Brasil perdeu patente do produto?

Um dos vídeos mais compartilhados sobre o assunto foi uma entrevista da pesquisadora ao site 247, em que ela declarou que o Brasil perdeu a patente internacional da substância após os cortes de verbas para pesquisa na universidade entre os anos de 2015 e 2016. Segundo ela, a concessão da patente nacional levou 18 anos para ser finalizada, ocorrendo apenas em 2025. Como o prazo total de validade é de 20 anos, restam somente 2 anos de exclusividade no país, noticiou o site InfoMoney (20/2). Já o registro internacional foi perdido por falta de pagamento das taxas obrigatórias. Isso significa dizer que a descoberta não tem proteção intelectual e comercial em outros países. O que reacende o debate da defesa da manutenção orçamentária da pesquisa científica no Brasil. A SBPC destacou que o caso evidencia “limitações estruturais do país na consolidação de estratégias robustas de patenteamento internacional, onde custos, prazos e competitividade tecnológica impõem desafios adicionais”.

Como as pessoas estão usando ou até vendendo polilaminina? 

Notícias ou mensagens como essas são falsas. Ainda não existe medicamento e muito menos a comercialização. É importante ressaltar o alerta para que as pessoas não caiam em golpes.

Quando vai chegar no SUS?

Para que a polilaminina chegue, de fato, aos hospitais e ao SUS, ainda é necessário percorrer todo o caminho que um medicamento precisa para se provar eficaz: fases de ensaios clínicos, avaliação da eficácia e registro sanitário para que ele possa começar a ser comercializado.

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