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Ao pé do berimbau, mestre Curumim reverencia outros mestres e mestras que, antes dele, salvaguardaram os saberes da capoeira, na grande roda da vida. “Peço licença para os nossos ancestrais”, diz o verso de uma ladainha, um tipo de canção em forma de louvação, lenta e ritmada, que ele mesmo compôs para saudar a memória desses verdadeiros guardiões da cultura popular. Mestre Pastinha, mestre Bimba, Canjiquinha, Leopoldina, Valdemar, Ezequiel e tantos outros nomes são invocados, um a um, na abertura do ritual. Ao som do atabaque, do berimbau e do pandeiro, eles permanecem vivos.

Ao levar a capoeira, arte popular que ele pratica desde os 13 anos de idade, para a universidade, em uma pesquisa que busca compreender os efeitos dessa prática no cérebro humano e no desenvolvimento cognitivo infantil, ele faz questão de repetir este gesto de reverência à ancestralidade e lembrar que a capoeira antes de tudo se aprende na roda, com os saberes transmitidos pela oralidade. “A capoeira possibilita conversar com a educação e trazer o corpo e o movimento para o processo de aprendizagem”, ressalta.

Nascido Valter Fernandes, mestre Curumim respira capoeira: com 50 anos de vida, 37 deles dedicados à atividade, ele é diretor da Escola Capoeira Cidadã (ECC), instituição que desenvolve projetos sociais para estudantes de escolas públicas na região de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, além de oferecer treinos para todas as idades. Educador físico de formação, cursou o doutorado no Programa de Pós-graduação em Psiquiatria e Saúde Mental do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB/UFRJ), onde atualmente faz o pós-doutorado, no Laboratório de Neurociência do Exercício.

Na ginga entre capoeira e ciência, Curumim busca compreender como a atividade pode ser utilizada para promover saúde mental e auxiliar no desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes. Seu estudo já comprovou que a prática ajuda na melhora da coordenação motora e das chamadas funções executivas, habilidades cognitivas que permitem controlar pensamentos, emoções e ações, fundamentais para a aprendizagem. “É essencial que a educação pública e a ciência consigam, com a capoeira, encontrar respostas para questões que não estão encontrando”, afirma.

Ao valorizar a cultura afro-brasileira, a capoeira contribui também para fortalecer a consciência cidadã e a autoestima, principalmente de crianças e adolescentes negros e estudantes de escola pública. Ao som das palmas, dos cânticos e dos instrumentos, aprende-se sobre a história do Brasil e da diáspora africana. “Quem faz capoeira resgata esse inconsciente coletivo da escravidão que está na cultura brasileira e começa a entender melhor a nossa história e a importância de termos uma postura antirracista”, pontua.

A pedagogia afro-centrada das rodas, transmitida de geração a geração, como legado vivo de antigos mestres e mestras, pode ser um instrumento transformador para a educação. Por isso, Curumim defende que a atividade seja utilizada nas escolas e estabeleça um diálogo contínuo com a inclusão e a diversidade — como ele tem lutado para promover, com o projeto social da ECC, há mais de 20 anos.

[Leia a matéria completa sobre capoeira e saúde aqui]

O saber popular reconhece que a capoeira faz bem ao corpo, à mente e ao espírito. Mas qual é o diferencial de levar esse entendimento para a ciência e como isso pode ajudar no reconhecimento da capoeira? 

É sempre um desafio quebrar as barreiras do saber popular para o saber acadêmico. Acredito que muito do que se fala na capoeira em termos de pesquisa tem um viés etnográfico, de estar dentro da roda e buscar entender essa realidade. Quando a gente traz isso para pesquisas quantitativas, a gente começa a dialogar com outros campos do conhecimento. Não que a capoeira precise ir para uma ciência quantitativa para ser valorizada. Porém, a gente acredita que precisamos sim desenvolver um olhar mais abrangente. É importante abrir novas portas para a capoeira, principalmente na educação, mas também é essencial que a educação pública e a ciência consigam, com a capoeira, encontrar respostas para questões que não estão encontrando. A gente tem uma educação hoje que carece de respostas sobre como diminuir as diferenças de desempenho acadêmico e de desenvolvimento, as iniquidades que vemos, que eu costumo dizer que são iniquidades de oportunidades para o desenvolvimento. A gente tem uma desigualdade de oportunidades para o desenvolvimento infantil, que gera diferenças no desempenho acadêmico, junto com outros fatores, como estrutura da escola e familiar. 

Dentro da sua pesquisa, o que já se sabe sobre os efeitos da capoeira na cognição e no desenvolvimento infantil?

Primeiro, temos dados sobre o desenvolvimento da coordenação motora, principalmente óculo-manual, que é a nossa habilidade de coordenar as mãos em relação ao espaço, na relação olho e mão. Ou seja, diz respeito aquilo que tem a ver com coordenação visuoespacial, das mãos para atingir o alvo, como segurar uma bola, manusear uma raquete, bater um atabaque, fazer uma esquiva e proteger o rosto. Essa coordenação óculo-manual tem relação intrínseca com o desempenho acadêmico. Também existem evidências de resultados nas funções executivas [conjunto de habilidades cognitivas que permitem controlar pensamentos, emoções e ações], essenciais para que as crianças possam aprender. As funções executivas estão ligadas à nossa capacidade de associar e relacionar conhecimentos e memórias recentes e já estabelecidas. Elas têm a ver também com nossa habilidade de inibir impulsos e focar a nossa atenção num conteúdo específico, como por exemplo no que a professora fala e não no que o colega ao lado fala, e com a nossa capacidade de pensar fora da caixa, de repensar decisões, de acordo com as demandas ambientais. A gente viu uma melhora nessas funções executivas em crianças que mantiveram ao menos 70% de frequência nas aulas de capoeira. 

Aula de capoeira na Escola Municipal Victor Hugo, em Jacarepaguá (RJ). — Foto: Luiz Felipe Stevanim.

E que outros impactos positivos podem ser percebidos?

A primeira coisa que a gente percebe, e isso ainda estamos caminhando para avaliar, é uma melhora no comportamento das crianças que fazem capoeira. Isso é algo que a gente vê desde o início. E além do comportamento, uma melhora na autoestima. A criança começa a entender que é capaz de ficar melhor, de ser mais inteligente. Uma das coisas que a gente percebe de fato e muitas vezes não consegue medir é essa melhora na percepção de eficácia, o que afeta a autoestima da criança.

Além de todos os benefícios individuais, existe o elo coletivo, pois a capoeira é uma arte ancestral e conecta o capoeirista com os povos tradicionais e com a cultura popular. Que benefícios existem nesse sentido?

Esses resultados coletivos têm a ver com a melhora da autoestima, principalmente quando estamos falando de uma população de maioria preta e de escola pública. A criança que chega começa a se identificar mais com a sua cultura, a valorizar sua própria origem, e cada vez mais a se autodescrever como preto. Muitas vezes, as crianças pretas e pardas têm dificuldade de se identificar, vão dizer que são “morenas”, usar termos autodepreciativos, e até dizer que são brancas. Isso está relacionado ao racismo estrutural: a criança está imersa nessa cultura racista, mas quando ela pratica a capoeira e começa a entender a importância da cultura africana para a nossa identidade brasileira, ela passa a falar e a se reconhecer de outra forma, e a perceber o valor da sua cultura. Isso afeta positivamente não somente as crianças, mas a sua comunidade, as suas famílias, que também participam e estão envolvidas. Quando conseguimos trazer a família para perto, é muito melhor. Quem faz capoeira resgata esse inconsciente coletivo da escravidão que está na cultura brasileira e começa a entender melhor a nossa história e a importância de termos uma postura antirracista. Toda hora a gente está evidenciando essa questão, da defesa da capoeira e da postura antirracista na sociedade, que passa também pelos próprios pretos e pretas se reconhecerem e valorizarem a sua cultura. Isso tem um impacto na sociedade como um todo. Começa no indivíduo, vai para a família e chega até a sociedade.

O que a história da capoeira diz sobre a resistência da cultura popular?

A história da capoeira faz parte do conteúdo das aulas, por meio das músicas e das falas, as chamadas ‘papoeiras’, que acontecem no final das aulas. Na história da capoeira, ela se manter, em si, já é um ato de resistência. Logo após a escravidão, quando vem a República, o Estado tentou colocar a capoeira numa caixinha, transformá-la em ginástica nacional. A capoeira é abraçada como símbolo de identidade, mas tentam tirar dela signos que têm mais a ver com a cultura africana e colocá-la somente como ginástica brasileira. Houve um diálogo, a capoeira bebeu nesse diálogo também, até com a educação física, na época muito militarizada, mas esse projeto não foi para a frente. O que se manteve foi a capoeira como ritual, como cultura. Quando há um movimento para enquadrar a capoeira dentro de uma caixa, dentro de uma categoria de manifestação esportiva ou cultural, ela entra, bebe e volta para aquilo que ela é. Aquilo que ela é, como ritual, jogo, luta, dança e cultura, quando ela é essa coletividade, ela realmente é capoeira. Isso já é um exercício de liberdade e de salvaguarda dos saberes populares, e é ensinado aos alunos pela própria história da capoeira.

O que a roda ensina? Qual é a importância de se trazer a capoeira para o espaço educacional?

A pedagogia afrocentrada, que é a roda de capoeira — onde há uma horizontalidade, pois dentro da roda todo mundo está olhando todo mundo, todo mundo está aprendendo com todo mundo —, precisa ser trazida para a educação brasileira. Outra coisa é a capacidade de fazer o aprendizado em movimento, em canto, palmas e ginga: estudar história, por exemplo, em uma música, contextualizando temas a partir do movimento. O lugar da criança é o movimento. O estado natural da criança é se movimentar, é brincar. E quando a gente consegue fazer a criança se movimentar, em algum momento ela vai sentar e ouvir uma ladainha [tipo de canção de capoeira geralmente lenta e longa, que conta uma história] e vai prestar atenção, porque aquilo faz parte de uma história que ela vivencia com o seu corpo. A capoeira possibilita conversar com a educação e trazer o corpo e o movimento para o processo de aprendizagem. Não tem que haver dicotomia entre teoria e prática. A gente pode vivenciar esses saberes no corpo; e nesse corpo da criança, que precisa de movimento, com certeza vai ser um instrumento potencializador da aprendizagem.

O que a capoeira significa para o Valter e como a trajetória do mestre Curumim foi importante para a sua vida?

Hoje isso se confunde. A minha esposa me chama de Curumim. Eu não consigo mais ter uma identidade separada. Eu sou o Valter Curumim. A capoeira foi fundamental para mim. No começo, eu não era o cara talentoso, era o cara que não tinha talento para a capoeira. Quando comecei [aos 13 anos, em 1987], a primeira pessoa com quem tive contato disse para mim que eu não levava jeito. Fiquei muito revoltado e saí da aula. Tempos depois veio o Mestre Boneco [Beto Simas, fundador do Grupo Capoeira Brasil], que foi uma pessoa determinante na minha trajetória, ele é um mestre que faz o aluno acreditar que é possível aprender. Isso foi a coisa mais importante que ele me ensinou. Quando ele me ensinou isso, e me convencia todos os dias que era possível aprender, a capoeira começou a me mostrar que com dedicação eu poderia chegar aonde queria. Para um garoto que não tinha muitas habilidades esportivas e muita facilidade na escola, ela me ensinou que se eu me empenhasse eu poderia chegar. Isso me trouxe grandes oportunidades de aprendizado na vida, tanto de trabalho em equipe, quanto de liderança. A capoeira me ensinou o convívio com pessoas diferentes, com ideias diferentes, de culturas e até países diferentes, pois ela hoje está no mundo todo. Essa competência socioemocional que a capoeira traz é fantástica, inclusive a gente precisa medir mais isso. Você entrar numa roda em que o cara daqui a pouco pode realmente querer te dar uma galopante, uma cabeçada, algo que poderia machucar, mas está todo mundo brincando. É um autocontrole constante. O jogo da capoeira mimetiza os relacionamentos humanos. Existe um diálogo, é como se fosse uma conversa. E nas conversas pode haver discussões. 

Você se considera um capoeirista cientista?

Com certeza. Antes de tudo eu sou um capoeirista. Meu olhar para a ciência e a educação não consegue tirar a capoeira. Eu não consigo excluir de mim a forma da capoeira olhar o mundo. A capoeira para mim é uma lente. Dentro da ciência, eu tenho dado muita sorte, de estar no Laboratório de Neurociência do Exercício [no IPUB/UFRJ], com a professora Andrea Deslandes, que é uma pessoa que tem um olhar muito focado para as interseccionalidades da pesquisa. A gente entende a capoeira como atividade diferenciada, mas ela é um instrumento. Um instrumento diferenciado na mão de um profissional diferenciado faz muita coisa, mas esse instrumento precisa usar toda sua potencialidade.

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