O som do helicóptero voando baixo é o anúncio de uma operação policial. Essa é a realidade vivida não somente pelos moradores de Manguinhos, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, mas em quase todas as comunidades da Região Metropolitana. É também a imagem que abre o documentário “Coisa de Favela”, seguida do barulho de tiros. Em contraponto, surge a figura de um bailarino fazendo passinho de funk, que finaliza a apresentação em posição de combate, simulando um arco e flecha.
A cena faz parte do curta-metragem que conta as vivências de seis produtores culturais de Manguinhos, trazendo a perspectiva de que arte e cultura são práticas coletivas de pertencimento, resistência e cuidado. Franciele Campos, cineasta e diretora do filme, contou que a abertura foi uma escolha artística para mostrar que embaixo do helicóptero e do tiroteio — o que todos veem — tem muita vida pulsando e sendo criada.
Radis conversou com Franciele e as outras duas roteiristas do documentário, Bruna Ribeiro e Silvia Monnerat, para saber mais sobre o projeto que chegou a contar com a participação de 40 produtores culturais de Manguinhos nas áreas de esporte, direitos humanos, cidadania, arte, cultura, educação, meio ambiente e comunicação.

Produção de vida
“A gente segue produzindo vida, contrariando as expectativas do Estado”, diz Ana Paula Oliveira, do projeto Mães de Manguinhos, no filme, uma síntese da mensagem que o documentário quer passar. Franciele aponta que os movimentos sociais na favela “são a estrutura que leva a pensar todas essas dinâmicas, principalmente as movimentações da luta contra o genocídio do povo negro”.
A cineasta é também pesquisadora, educadora e realizadora cultural. Quando se apresenta à Radis, coloca outras qualificações na frente: artista e moradora de favela. Ela conta que o curta nasceu da pesquisa que levou à elaboração do catálogo “Estratégias Culturais de Manguinhos: olhares sobre o cuidado em saúde mental e o protagonismo de moradores de favelas”, por meio de uma parceria entre a Fiocruz, a Universidade Queen Mary de Londres e a Fundação Getúlio Vargas (FGV).
“A gente foi percebendo que tinha algo muito maior para ser contado”, afirma Silvia Monnerat, professora adjunta da Escola de Ciências Sociais da FGV e doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional (UFRJ). As pesquisadoras se depararam com situações que evidenciavam a importância de registrar as produções culturais que existem na favela e que muitas vezes se perdem, destacando o papel do relato oral. Durante o processo, vários fazedores de cultura sentaram pela primeira vez para falar de si mesmos e do trabalho que desenvolvem.
Franciele explica que as dinâmicas da favela são multifacetadas: as crianças ainda brincam nas ruas e nas praças, na contramão das estatísticas que apontam infâncias cada vez mais digitalizadas. Segundo ela, há vida sendo produzida por diferentes grupos. A gravação do curta contou com o apoio de pessoas que sabiam que nem iriam aparecer em cena, mas que fizeram questão de dar suporte ao projeto. As documentaristas brincam que transformaram um bar local no QG [quartel-general] do filme, praticamente ocupando o espaço.

Não é só saúde mental
“A minha mãe gosta pra caramba de ver borboletas aqui. Isso já ajuda na saúde mental dela”, diz, com um sorriso, Luis Cassiano Silva, conhecido como Sanduba, em um trecho do filme. Ativista cultural e ambiental do projeto Teto Verde Favela, ele incentiva a comunidade a cultivar plantas em casa. Além de deixar a favela “mais bonita”, diz, o verde atrai a presença de borboletas.
A valorização da saúde mental passa por todas as iniciativas culturais apresentadas no filme: a busca por justiça de mães que não se renderam à tristeza; o aumento da autoestima que jovens bailarinos encontram na dança; a educação em saúde promovida por palhaços junto às crianças; e a endorfina liberada com a prática esportiva nas escolinhas.
Franciele ressalta que as iniciativas na área de cultura fortalecem o senso de pertencimento e de comunidade — em que um cuida do outro. O catálogo resultante da pesquisa reforça essa perspectiva ao afirmar que “arte e cultura não se restringem à função terapêutica ou ao entretenimento”.
Outra roteirista, Bruna Ribeiro, jornalista e doutora em Informação e Comunicação em Saúde (Icict/Fiocruz), lembra que são projetos que vão além do discurso de que “é preciso tirar os meninos das drogas”. Segundo ela, os relatos dos produtores culturais não são um recorte de superação momentânea para uma câmera: “A gente traz um recorte que é o enfrentamento ao genocídio o tempo todo”.
“Era também uma questão para a gente que a polícia não aparecesse, para que a imagem das pessoas pobres não fosse sempre atrelada à militarização”, declara Franciele. As roteiristas buscaram sair da ótica repressiva: “O que nos interessa é discutir por que políticas públicas tão violentas são financiadas, enquanto a gente não tem uma política de cultura que dê conta das pessoas”, ressalta.
Um ponto amplamente discutido entre os produtores culturais e que afeta a saúde é a desvalorização da cultura como trabalho. Muitos enfrentam dificuldades financeiras para viver da arte ou precisam arranjar outro emprego que sustente a dedicação aos movimentos sociais.
As documentaristas dão o exemplo do bailarino e coreógrafo do início do filme, Iguinho Imperador. Atualmente, ele mora em outro país contratado pela sua arte — uma exceção. “As pessoas têm uma ideia muito fixa do que é a produção de cultura em uma comunidade. Acham que vão chegar lá e só encontrar o funkeiro ou o rapper”, comenta Bruna. Os fazedores de cultura ressaltaram que a identidade de uma pessoa de favela não deve ser limitada. Outro objetivo da pesquisa foi buscar as inúmeras dimensões culturais para que essas pessoas não sejam vistas apenas como “vulnerabilizadas”.

Quem faz a cultura
Apenas seis pessoas foram escolhidas para representar no filme todos os produtores culturais que participaram da pesquisa. Antes de começarem as filmagens, as pesquisadoras chamaram os entrevistados para que eles dissessem como queriam se ver no filme e o que não poderia faltar. Também foi colocado no projeto um cachê para os participantes. Franciele diz que pagar o profissional para ele disponibilizar um tempo “é o mínimo”, considerando a informalidade do trabalho dessas pessoas.
Para entender o papel dos projetos culturais, a pesquisa mergulhou na ótica dos produtores: como essas iniciativas se percebem e como avaliam seu impacto no território. A arte, nesse contexto, deixa de ser apenas expressão simbólica e passa a operar como ferramenta de vínculo social, capaz de criar identificação, pertencimento e ação coletiva.
Quando a palavra não basta, a arte fala. Um jovem encontra na música e na dança uma forma de existir e se posicionar. Mães que, isoladas, não seriam ouvidas, juntas constroem uma voz. Assim, práticas culturais rompem silêncios, fortalecem redes de cuidado e transformam o cotidiano em experiência compartilhada.
Serviço
Lançamento oficial no YouTube previsto para julho de 2026. Até o momento, o filme está inscrito em festivais e ainda não foi disponibilizado online pela equipe.
Assista ao trailer: https://www.youtube.com/watch?v=_nO-41qqVbg
Acesse o catálogo: https://peoplespalaceprojects.org.uk/pt/publications/estrategias-culturais-em-manguinhos/



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