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Os olhos são vivos, o pensamento é rápido e a mente, inquieta. Uma das principais vozes do campo da comunicação e saúde no Brasil, Inesita Araújo é voz ativa na produção de conhecimentos , presença atuante na sala de aula e na orientação de pesquisadores e não se acomoda quando convocada a pensar sobre as interseções possíveis entre a saúde e a comunicação. 

Laureada em 2025 com a Medalha Virgínia Schall de Mérito Educacional, da Fiocruz, a pesquisadora carioca, que atua no Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), considera que a saúde já reconhece a importância da comunicação, mas ainda se comunica mal. “A gente não sabe criar debate, a gente sabe dar ordem”, afirmou, na entrevista que concedeu à Radis em fevereiro, quando defendeu o respeito ao conhecimento do outro e a ampliação de espaços que promovam interlocução.

Na conversa, que ocorreu na Seção de Obras Raras da Biblioteca de Manguinhos, no Castelo construído no início do século 20 por Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, Inesita relembrou sua atuação profissional, pautada pela curiosidade típica de quem morou em muitos lugares e pelo inconformismo com as verdades absolutas. Falou de práticas e encontros — com a população do campo, com povos indígenas e sobretudo com a Amazônia, determinantes na formulação da construção teórica que desenvolveu ao longo da vida. 

“A gente se conhece a partir do outro”, observou, à medida em que explicou por que considera a comunicação central na condução de políticas públicas e de que modo reconverteu o olhar para enxergá-la como um mercado de ideias e de visões de mundo. Para Inesita, é preciso deixar de ver a comunicação como um processo mecânico de transferência de informação e tratá-la como um mercado simbólico, em que a disputa de sentidos das coisas da vida e do mundo é permanente. 

Ela ainda problematizou as discussões sobre desinformação e linguagem simples, advogou uma maior aproximação dos saberes não acadêmicos e se mostrou atenta aos desafios impostos à comunicação, à saúde e às políticas públicas diante do uso das novas tecnologias e da inteligência artificial. Aos 73 anos, senhora de seus contextos e de suas escolhas, criticou o discurso midiático sobre a maturidade e revelou disposição para continuar produzindo: “Meu pensamento está mais forte e vivo do que nunca. E a minha vontade de escrever, de ensinar e de aprender, sobretudo de aprender, também”.

No início de sua carreira você trabalhou a comunicação com organizações não governamentais (ONGs) e pequenos agricultores. Como foi atuar com eles em um momento em que o modelo de comunicação valorizava a ideia de desenvolvimento?

Naquele tempo, as ONGs eram uma proposta de alternativa ao modelo de desenvolvimento do Estado. Fui trabalhar justamente em organizações que se posicionavam politicamente contra o modelo de desenvolvimento que o Estado propunha — o que afetava profundamente o modo como se enxergava a comunicação. Eu trabalhei com uma ONG — O Programa de Aplicação de Tecnologia Apropriada às Comunidades (Patac) — que questionava isso e queria produzir uma comunicação que apoiasse seu projeto, o que fazia todo sentido para mim. 

Já havia uma coerência em suas escolhas…

Sim, as instituições às quais eu me vinculava já contestavam o modelo de desenvolvimento. Então para mim foi muito fácil desenvolver a parte de comunicação, fazer com que ela fosse coerente com a proposta dos projetos. Isso foi há tanto tempo e até hoje a comunicação continua sendo tratada como neutra, como se não tivesse relação com os outros modos de estar nas instituições, como se ela só pudesse ser de um jeito. Desde sempre eu entendi que a comunicação ou favorece aquele modelo ou o contesta, não tem meio termo. Eu queria fazer diferente. Isso foi definitivo para o meu trabalho depois.

E qual foi a grande contribuição que a atuação com pequenos agricultores trouxe para o seu trabalho? 

Aprendi com as famílias camponesas quase tudo que, depois, eu desenvolvi conceitualmente. Aprendi que a comunicação é um processo de interlocução, de muito respeito entre saberes e conhecimentos que vêm de origens diferentes e se completam. Foi fundamental entender que o outro sabe coisas que eu não sei; que o meu trabalho é fazer aparecer e potencializar o que eles sabem; permitir que este saber converse com outros, de outras matrizes. Além do respeito mútuo, também aprendi com eles o respeito aos contextos. A ideia de contexto na minha proposta teórica já começa a se formar muito claramente a partir daquela convivência.

“A comunicação não é um conjunto de técnicas, mas sim algo que atravessa toda a prática social”

De que modo?

Eu trabalhei com eles na perspectiva da agroecologia, mas por uma ótica mais abrangente em termos de ação. Por exemplo, acompanhei um grupo de pessoas reivindicando terra, desde o momento da ocupação da cidade até a entrada na terra pura, sem nada; com eles fizemos um diagnóstico participativo dos recursos locais, físicos e humanos, produzimos materiais de comunicação, como jornais comunitários e livretos. A comunicação estava associada diretamente às lutas das pessoas. A ideia de que a comunicação não é um conjunto de técnicas, mas sim algo que atravessa toda a prática social foi muito formada nessa época. 

Depois de muitos anos de prática, como foi voltar ao mundo acadêmico? Que autores te ajudaram a reconverter o olhar?

Quando tomei contato com a semiologia dos discursos sociais, me deparei com uma série de autores, principalmente os que trabalhavam com a linguagem. E daí um foi puxando o outro. Foram muitos… Ferdinand de Saussure (1857-1913) trouxe a discussão linguística fundacional; Mikhail Bakhtin (1895-1975) é um autor central; a partir de um livro de meu marido, que é sociólogo, mergulhei na obra de Pierre Bourdieu (1930-2002), que formou um dos principais eixos estruturantes do pensamento que produzi naquele momento e até hoje é central para mim. Antes dele também me encantei por Michel Foucault (1926-1984) e Roland Barthes (1915-1980). O conhecimento é assim, não há um só autor que te mude. É um conjunto de ideias que vai se formando. E eu também não sou muito de “seguir” uma pessoa. Hoje em dia se fala muito em seguidores, eu jamais seria “seguidora” de alguém. Cada autor abre um caminho e ali outros vão entrando, conversando, articulando ideias. Michel de Certeau (1925-1986) também foi e é muito importante, até hoje. Mais tarde, na  pesquisa de tese, foi importante ter Norman Fairclough (1941/…) e Eni Orlandi (1942/…), entre outros.

O seu primeiro livro, “A reconversão do olhar”, é produto de sua dissertação de mestrado. Quando você fala em reconversão do olhar, a que se refere? 

Esse título parte de uma junção do pensamento de Bourdieu com o de Certeau. Bourdieu fala na conversão do pensamento, necessária para romper com tudo estabelecido, com os cânones da produção do conhecimento. Romper para poder ver além daquilo. Só que ele é bem radical no modo de apresentar. Michel de Certeau, por outro lado, fala na revolução do olhar, uma ruptura instauradora. Quando se rompe, instaura-se uma nova coisa, mas mantendo-se vínculos com aquilo que veio antes. Eu juntei os dois para construir a ideia de reconverter o olhar. Eu trazia muita coisa do meu conhecimento empírico, trabalhando com os agricultores, e estava conhecendo a teoria, que me mostrava outros caminhos. Então, quis juntar aquelas duas concepções em uma proposta diferente, que não fosse nem uma nem outra. 

— Foto: Fernanda Andrade.

“A gente se conhece a partir do outro.”

Ainda sobre encontros e interlocuções, como foi a experiência de estar na Amazônia e trabalhar com os povos indígenas?

Esta é outra experiência bastante formadora da minha pessoa. Quando cheguei à Fiocruz, aos 50 anos, eu era uma pessoa muito marcada pela convivência com os camponeses, mas também pela Amazônia, mais breve em termos de tempo, mas muito importante. Eu me aproximei da região por conta de cursos de especialização em Roraima e de formação em comunicação para técnicos, no Amazonas. Mas me aproximei mais das pessoas no Amazonas, quando fui incorporada a um projeto no Alto Rio Negro. Ali sedimentei, sobretudo, um conhecimento muito grande sobre mim, a partir do outro. A gente se conhece a partir do outro. Quando eu me vi na Amazônia, a grande diferença minha em relação àquelas pessoas, infinitamente mais aptas à vida do que eu, me fez perceber com muita nitidez meus limites, físicos, psicológicos e epistemológicos.  Ali também ficou muito clara para mim a noção de capital simbólico, de Bourdieu. Nada valia naquele contexto o meu capital cultural, não tinha nenhuma legitimidade, não se convertia em capital simbólico.

Em que sentido?

Ficou claro que eu estava em um mundo onde eu não sabia de nada, era incapaz de sobreviver, de produzir minha comida, de me movimentar sem que os outros me ajudassem. Eu dependia de pessoas que não tinham curso nenhum e os meus títulos acadêmicos não faziam sentido nenhum. Eu não sabia sobreviver naquele mundo, tinha que receber e aprender tudo com eles. O meu capital cultural, que tinha tanto valor na Fiocruz (mestrado, doutorado, pós-doutorado), não tinha nenhuma importância para eles. Ali eu era apenas uma pessoa fraca, que não conseguia nem carregar a minha própria bagagem. Isso foi muito marcante na minha vida. Eu posso realmente dizer que a minha vida tem um marco: antes e depois da Amazônia. Uma mudança sobre a visão de mim mesma que foi fundamental nas escolhas que eu começaria a fazer depois. 

A experiência contribuiu para aproximar o seu olhar para as políticas públicas? 

A experiência vivida na Amazônia representou um avanço importante para minha compreensão, já iniciada com a vivência rural, de que as relações comunicacionais no campo das políticas públicas são fundamentais. Depois de escrever a minha tese de doutorado, vim para a Fiocruz. Teve então início um novo processo de crescimento, amadurecimento e aprendizagem, em um novo contexto, o de uma grande instituição pública científica e um novo campo, o da saúde.   

De que modo o encontro com a Fiocruz e com o saber científico ajudou a modelar o campo de comunicação e saúde?

Cheguei à Fiocruz através de Áurea Pitta e Janine Cardoso. Eu trazia uma construção teórica baseada na minha experiência rural e com as pessoas indígenas. Essa conformação teórica foi convocada a ser aplicada no universo muito concreto de políticas públicas e tendo como referência permanente a produção e circulação de um saber científico. Foi um desafio maior e mais concreto do que as experiências no campo, onde o poder público era quase ausente e a referência maior era a tecnologia. Então eu tive que aplicar a reflexão teórica a esse novo contexto e produzir sentidos dentro de outro universo. A comunicação e saúde foi o território específico que me acolheu e eu passei a ser parte de seu desenvolvimento.

Quais os principais reflexos deste encontro?

Há um universo próprio das políticas públicas de saúde. É uma área temática com a qual eu não convivia, a não ser algumas experiências na saúde indígena. Na Fiocruz foi possível produzir, por exemplo, a reflexão sobre a relação da comunicação com os princípios do SUS. Isso jamais poderia ser produzido se eu não estivesse aqui. Porque aqui se permitia — e mesmo se incentivava — pensar conceitualmente. Eu cheguei à Fiocruz com receio. Vinha do mundo das ONGs e entrei em um universo muito estruturado, mas fiquei porque pareceu um lugar onde o pensamento era permitido, era possível criar, propor. Foram tempos muito frutíferos.

Essa liberdade contribuiu para estruturar o campo da comunicação e saúde?

Sim. Aqui já havia um grupo que trabalhava na formação desse campo há algum tempo. Eu entrei nesse movimento. Foi aqui que consegui fazer florescer toda a elaboração teórica que eu havia produzido no mestrado e no doutorado, de forma aplicada a um campo específico. Talvez eu não conseguisse fazer isso se eu tivesse voltado para trabalhar com o meio rural e a agroecologia. A Fiocruz foi fundamental por me dar condições de fazer uma construção teórica comunicacional e operar concretamente no campo da saúde e das políticas públicas. 

E qual é a contribuição do entendimento de que a comunicação opera como um mercado simbólico para os profissionais do SUS? 

Primeiro quero deixar claro que a ideia de mercado simbólico é de Bourdieu. Ele não se refere à comunicação, mas sim a todo processo social. A minha construção foi juntar esta ideia a de outros autores, como Foucault e Bakthin, e propor a comunicação como um mercado simbólico, porém em uma sociedade desigual. Como eu trabalho com a ideia de contexto, não posso dizer que existe uma receita de bolo, porque tudo será sempre contextual. Mas o grande salto da proposta é oferecer aos profissionais do SUS a possibilidade de repensar a comunicação, deixar de vê-la como um processo mecânico de transferência de informação de um polo a outro e vê-la como uma rede de comunicação, em que há um movimento permanente de interlocução, em constante processo de produção e circulação de modos de ver e praticar a saúde. Nessa rede o que se busca e se disputa é o “poder de fazer ver e fazer crer”, que é a expressão que Bourdieu usa para explicar o que é poder simbólico. Eu sempre tentei fazer com que as pessoas percebessem que os agentes de saúde são parte ativa desse mercado simbólico, porém ocupando não uma posição de centralidade, mas sendo parte de um processo em rede, descentrado e disputado. Esse é o grande salto.

— Foto: Fernanda Andrade.

“A grande contribuição de se pensar a comunicação como mercado simbólico é abrir espaço para fazer funcionar efetivamente o que se chama participação ou diálogo”

E como isso contribui concretamente para as ações de saúde?

Se o profissional consegue perceber a sua prática dentro dessa lógica, ele muda a sua perspectiva, respeitando o conhecimento do outro e o lugar do outro como interlocutor não como um mero receptor. Isso não pode ser alcançado se a gente continua agarrado ao modelo que diz que um dos lados da comunicação (o da instituição) tem a prerrogativa da informação certa. Isso é muito importante hoje, quando se fala tanto em desinformação e fake news. É fundamental questionar este modelo, que coloca as instituições em um lugar central e o outro em um lugar inferior, desigual. A grande contribuição de se pensar a comunicação como mercado simbólico é fazer funcionar efetivamente o que se chama participação, através da ideia de interlocução. O modo como você concebe a comunicação é fundamental para a sua prática e para sua relação com o outro. Neste sentido, esta perspectiva permite que as pessoas se percebam em outro movimento, em outro fluxo de ideias, que não é linear e nem horizontal, mas que é uma rede de sentidos. 

“A palavra ‘desinformação’ é equivocada. Primeiro, porque a desinformação supõe que pode haver alguém não informado. Tudo comunica, tudo contém alguma informação. Não existe uma pessoa desinformada, existe a pessoa que tem outra informação”

E como esta perspectiva auxilia no entendimento sobre desinformação e novas tecnologias?

A palavra “desinformação” é equivocada. Primeiro, porque a desinformação supõe que pode haver alguém não informado, o que não existe. Não existe a não-informação. Tudo comunica, tudo contém alguma informação. Não existe uma pessoa desinformada, existe a pessoa que tem outra informação. Então essa perspectiva é equivocada. Porque se você acha que existem pessoas que não têm a informação correta ou que não têm informação, você vai fornecer informação. Mas essas pessoas já estão cheias de informação. E a estratégia para lidar com uma pessoa desinformada teria que ser diferente daquela usada para lidar com a pessoa que tem uma informação “errada”, diferente. Além da estratégia ser equivocada, ela produz uma comunicação meramente transferencial. 

“Quando você estabelece que tem a verdade e o outro está no erro, você cai em uma cilada, em termos comunicacionais”

E a segunda questão…

O segundo ponto é perceber que esse conceito de informação traz com ele a ideia de que existe apenas uma verdade. Em 1970, Foucault já falava que as instituições arrogam para si a exclusividade da verdade para determinado tema e exercem pressão discursiva para garantir essa prerrogativa. Quando você estabelece que tem a verdade e o outro está no erro, você cai em uma cilada, em termos comunicacionais, já que você vai se deparar com outra pessoa, que tem também a sua verdade. Se você diz que isto é falso, você simplesmente pretende invalidar tudo o que essa pessoa pensa. A ideia de desinformação traz o problema original de achar que alguém pode ficar desinformado; de achar que informação é só aquela que você acha que é certa; e de não entender que, você concordando ou não, aquela visão está circulando. É o mercado simbólico operando o tempo todo, e você cai no erro de estabelecer que existe apenas uma verdade, que é sua.

“Vejo as instituições engajadas no combate à desinformação, mas isso não contribui em nada, e ainda fortalece a comunicação autoritária, a partir da ideia de que a verdade está nas instituições e não é possível outras formas de ver.”

Pode dar um exemplo? 

Na época da pandemia, eu vi em algum espaço de circulação de narrativas negacionistas a seguinte frase: “A cloroquina é o único medicamento que pode curar a covid. Seu uso já salvou ‘x’ vidas. Isto é fato”. Se isso é fato para algumas pessoas — e é visto dessa forma — qual é a utilidade de trabalhar com a noção de fato ou fake? Nesse exemplo estamos diante de uma disputa entre fatos. Então, fico vendo toda essa movimentação, com todo mundo escrevendo sobre desinformação, sem muitas esperanças que vá dar em alguma coisa frutífera. Muito desse esforço (vão) decorre da palavra desinformação, que traz em si a visão autoritária da presunção da verdade, quando a gente sabe que até mesmo a Ciência só existe porque existe o erro. A Ciência não existiria se não existisse a consciência do erro. Então considerar que a única verdade possível é a da Ciência, e que o que é diferente é erro, isso é religioso e é equivocado. Eu não gosto de trabalhar com a ideia de desinformação por isso, embora hoje seja quase um consenso. Vejo as instituições engajadas nisso, no combate à pretensa desinformação, mas isso não contribui para o que se deseja, e ainda fortalece a comunicação autoritária, a partir da ideia de que a verdade está nas instituições e não é possível outras formas de ver.

Quais as alternativas para lidar com esse cenário de informações nocivas à saúde? 

A gente tem que concorrer melhor no mercado das ideias, dos modos de ver a saúde e seus problemas. Nós temos uma missão institucional, mas concorremos mal. Temos que entrar e disputar, mas não desqualificando o outro. Desqualificar o outro também é uma estratégia, mas uma estratégia ruim. Então como concorrer nessa disputa? Primeiro, é preciso buscar conhecer o outro. Não adianta você querer enfrentar o problema se nem sabe o que o outro está pensando ou qual a necessidade dele de tomar conhecimento de algo. Eu já ouvi muita reclamação sobre isso. “Por que não falam sobre as coisas que interessam à gente?”; ou “a gente está precisando de ouvir sobre umas coisas e vocês falam de outra, que ninguém entende ou nem quer saber”.  

“É preciso investir em outras formas de comunicação, que funcionem de forma enraizada, ramificada”

Como fazer isso?

Temos que encontrar outro jeito de criar o debate. A gente não sabe criar debate, a gente sabe dar ordem. A comunicação na saúde é autoritária, até na palavra. Os verbos são todos imperativos. Então é preciso voltar à ideia de mercado simbólico, mas respeitando o outro, o conhecimento do outro. Se ele defende um ponto de vista, é preciso saber onde e como aquele modo de ver se formou e encontrar um modo de falar que estabeleça um diálogo, uma interlocução, e não uma oposição. E ainda temos que enfrentar o desafio de ter que fazer isso de forma centralizada, de Brasília para um país inteiro. É preciso investir em outras formas de comunicação, que funcionem de forma enraizada, ramificada. Não tem receita, mas tem que mudar o modo de disputar os sentidos da saúde, os sentidos da pandemia, os sentidos da vacina.  

— Foto: Fernanda Andrade.

Você já falou em alguns momentos sobre “darwinismo comunicacional”. Gostaria que você falasse um pouco sobre isso.

O problema é achar que a tecnologia em si resolve as questões de comunicação. Dá-se muita ênfase à tecnologia. Sempre foi assim. Cada tecnologia audiovisual que apareceu ao longo do tempo prometeu salvar a comunicação, desde os slides. Quando falo sobre darwinismo comunicacional, eu me refiro a isso, e ao fato de as pessoas acharem que estão descobrindo algo novo, sempre que tratam de uma nova tecnologia. Outro problema do foco na tecnologia é que ele leva a considerar que o que resolve o problema da comunicação é o código. 

Por que isso acontece? 

Porque continua-se considerando que a comunicação é um problema de ajuste de códigos. É a mesma coisa que acreditar que a grande solução para o problema da comunicação é a linguagem simples, que até virou política pública. Cuidar da compatibilização do código é necessário. Se eu falo grego e você fala chinês, realmente não vamos nos entender. Os códigos comuns aos interlocutores são necessários. A linguagem simples está sendo tratada como a grande descoberta, mas o modelo de comunicação de Claude Shannon (1916-2001) e Warren Weaver (1894-1978) já falava isso, em 1948. Você precisa falar um código comum, senão não se entende. Mas não é isso que resolve o problema da comunicação. Por outro lado, usar uma linguagem simples, por exemplo, não significa ter que falar a mesma linguagem do outro, mas ter que falar com respeito à linguagem do outro. Isso é necessário, mas também não vai resolver o problema da comunicação. É apenas um elemento da prática comunicacional. 

Como isso vem sendo tratado no campo da saúde?

A saúde sempre foi um espaço muito renitente. Continua com dificuldade de falar com jornalistas, continua usando muitas siglas, não se apropria dos avanços teóricos da comunicação e agora está de novo inventando a roda com a defesa da linguagem simples, depois de mais de meio século, ao invés de promover  uma comunicação cujo princípio fundamental seja o respeito ao outro. Mas para respeitar o outro é preciso saber o contexto do outro e não somente falar a linguagem dele.

De que modo os contextos dos outros (alunos, orientandos, colegas de trabalho) interferem no seu trabalho? 

Interferem na medida que eu organizo o que tenho para dar, respeitando o que o outro tem e o modo como ele pode receber aquilo. Com o aluno, vou levantar o que ele não sabe e começar a discutir, sobretudo abrindo espaço para a sua voz. Você não dá voz, você abre espaço. O espaço que via de regra é tomado pela voz institucional, pela voz do professor, pela voz do palestrante. Então é preciso abrir espaço para aquelas pessoas que costumamos chamar de “público”. Eu lembro de um Congresso de Ciências Sociais da Abrasco, no Rio Grande do Norte, em que nos pediram para montar uma mesa para falar de mídia e saúde. Convidamos um jornalista da Globo e tinha mais uma pessoa da academia, que era eu, e uma pessoa da prática. Eu propus que ao invés de falarmos nós, da mesa, as pessoas nos fizessem perguntas. Foi um sucesso, todo mundo quis perguntar e nós falamos sobre coisas que não nos ocorreriam. Fomos levados a considerar o desejo e a visão deles. Isso é um exemplo de interlocução. Você respeita o que o outro tem para dizer, escuta as suas dúvidas, fala e a interlocução se estabelece. Quando a comunicação é vista como interlocução, você respeita o outro. É uma locução entre pessoas, que são interlocutores. Não é uma comunicação em que alguém fala para outro. É por isso que eu considero o máximo desrespeito, na comunicação, você chamar os outros de público. Mas, hoje, os congressos são lugares de centralização da palavra e de subalternização do outro. Três ou quatro pessoas consideradas especialistas falam e os outros só contam com poucos minutos para fazerem perguntas. 

Você é uma pessoa curiosa, que já trabalhou com assuntos e contextos muito variados. Qual é o seu interesse atual?

Eu estou cada vez mais querendo aprender sobre os saberes das pessoas que não vêm do ambiente acadêmico. Como estou muito dedicada a pesquisar, ensinar e aprender sobre pensamento decolonial e como se desconstrói as estruturas coloniais, estou muito interessada na matriz africana de pensamento decolonial. Conheço pouco, mas quero aprender mais. Então quero aprender sobre pessoas como o Nêgo Bispo (1959-2023) e muitos outros que vem aparecendo nas camadas populares. Estou muito interessada em ouvir e aprender com eles, que não são sacramentados pela academia. Até porque os saberes sacramentados pela academia são quase majoritariamente europeus ou norte-americanos, produzidos em outra realidade, não a nossa. Os autores latino-americanos são pouco estudados e os autores que não são acadêmicos são nada estudados. Essa seria a grande revolução a se fazer e isso me interessa, particularmente. 

O Brasil vive um período de transição demográfica, com um número cada vez maior de pessoas mais velhas. Como isso interfere no seu trabalho e na sua vida pessoal? 

Aos 73 anos, quase 74, tenho uma certeza: meu pensamento está mais forte e vivo do que nunca. E a minha vontade de escrever, de ensinar e de aprender, também. Estou em estado de graça quando estou aprendendo. Acredito que isso acontece hoje com as pessoas que também têm essa idade. Só que o discurso sobre essas pessoas, sobre nós, não leva em consideração (ou não colocam em pauta, midiaticamente falando) a sua competência, seu pensamento, sua fala, suas ideias. As pessoas da minha idade são estimuladas a fazerem coisas secundárias na vida social, de caráter puramente individual e ligadas a melhoria de sua saúde e longevidade. Essa mudança demográfica ainda não produziu grandes efeitos sobre isso. Por enquanto ela aparece mais como problema, como pressão sobre o INSS e o orçamento. Discursivamente, o que se constrói ainda é um grande preconceito contra as pessoas mais velhas. A mudança demográfica está começando a mostrar que é preciso mudar essa perspectiva, mas eu não vejo ainda mudanças significativas. Pretendo continuar ativa até 100 anos, brigando pela minha capacidade de fazer as coisas. 

Hoje você disse, ao subir a escadaria do Castelo de Manguinhos, que ainda se emociona ao entrar aqui. O que você diria à jovem Inesita, que nem sonhava em trabalhar na Fiocruz?

O Castelo de Manguinhos é obra de um homem extraordinário, que teve visão, enfrentou todas as dificuldades e teve coragem de levar à frente um projeto que transformou a saúde, transformou a ciência e o próprio país. Eu acho isso inspirador. Construir isso aqui, naquele tempo, é uma prova da audácia do seu pensamento, da coragem que ele tinha. Então eu diria para aquela menina: “Siga seu caminho. Isso vale a pena”. Interessante que eu sempre fantasiei que queria ter vivido no tempo de Oswaldo Cruz e fazer parte da sua equipe. Acho que ele não pensava em comunicação, mas pensou em bibliotecas e produção de conhecimento. Isso mostra que ele sabia que o conhecimento muda a face da realidade. O problema é que nossa sociedade dissociou a comunicação do conhecimento. Ao se atribuir centralidade à tecnologia, na comunicação, a produção de conhecimento fica a cargo da academia e a comunicação fica a cargo dos técnicos. Um profissional de comunicação hoje é formado para ser um produtor de conteúdo. Essa noção de conteúdo que se tem hoje, que é só informação, transforma o profissional em um técnico, não em uma pessoa que produz pensamento crítico ou conhecimento que mude a sociedade.

Como é a comunicação dentro das instituições acadêmicas?

Hoje eu sou uma pessoa da academia, mas fui fazer meu mestrado aos 40 anos e terminei o meu doutorado aos 50. Metade da minha vida profissional trabalhei com a realidade concreta das pessoas neste país, dirigindo em muito leito de rio seco, para falar com uma metáfora do meio rural no Nordeste. Posso dizer que nós precisamos urgentemente fazer uma grande mudança, uma revolução mesmo, nas instituições acadêmicas. Elas são muito antigas. Sempre comento que ao visitar a Universidade de Salamanca [na Espanha], que é do século 12, aprendi que o formato de defesa de tese deles é o mesmo, desde aquele tempo. Nós estamos agarrados a práticas e rituais que não correspondem há muito tempo à dinâmica e às mudanças da sociedade. Então essa mudança é necessária. Com o advento da inteligência artificial, que radicaliza o que a tecnologia digital já vinha trazendo, essa mudança vai ser inevitável. Não vai ser mais possível trabalhar com as formas, formatos, tempos e processos que se vem trabalhando até hoje. A comunicação passa por aí. Em geral ela é pautada por uma hierarquia que define quem pode falar, e quem deve ouvir, quem tem o poder de definir as modalidades e a temporalidade da comunicação.

Pode dar um exemplo?

Falando especificamente da Fiocruz e de outras instituições científicas de saúde, percebemos que as ciências sociais, por exemplo, nunca conseguiram um lugar igual às ciências biomédicas, sempre ficaram como secundárias no mundo científico e acadêmico, tendo que operar com parâmetros do mundo biomédico. Isso é uma mudança que já poderia ter acontecido, mas não aconteceu. Como essa, há muitas outras coisas que têm que ser mudadas, e muitas delas vão ser mudadas na marra, com a inteligência artificial. Já passou da hora das instituições acadêmicas reverem seus processos de formação. Até agora, há poucas iniciativas. A revista “Nature” tem um concurso que se chama “Dance a sua tese”. Esse é um exemplo de abertura e movimento, ainda que inicial, que espero que seja reproduzido e se amplie rapidamente.  

Como você avalia o papel e os desafios da comunicação, no contexto geral de conservadorismo e ascensão da extrema direita no mundo?

Esse lado da sociedade está muito mais atento ao poder da comunicação e à sua capacidade de mover mundos e produzir realidades. O nazismo, por exemplo, conseguiu produzir realidades nas quais as pessoas acreditaram. As pessoas agem sobre a realidade que acreditam ter. Os setores da sociedade que podemos chamar de extrema direita levam muito mais a sério a capacidade da comunicação de produzir sentidos. E manipula isso. Cada vez mais, eles vão levar vantagem se não houver uma mudança. O outro lado (não só a esquerda, porque esse lado que não é fascista, ultradireitista, não é só a esquerda) nunca soube lidar com a comunicação, sempre agiu a partir de uma compreensão linear e unidirecional do processo comunicacional, que leva apenas e melhorar a mensagem, mesmo assim sem atenção aos contextos. Esse erro de base, que atravessa todas as épocas, continua. Enquanto isso, o mundo da extrema direita segue lançando mão de vários recursos, capilarizando as estratégias, inclusive usando as plataformas e todas as possibilidades de trabalhar com os algoritmos a seu favor. E a gente continua engatinhando e pensando em linguagem simples. Eles se dão melhor com isso porque entendem o poder da comunicação. Não o poder de falar para as pessoas entenderem, mas de produzir sentido. Eles buscam o poder de fazer ver e de fazer crer. 

Você acredita que a saúde já entende a importância da comunicação?

A comunicação é central na produção de conhecimento, mas as instituições ainda não se deram conta dessa importância, da comunicação como lugar de produção do conhecimento, de produção de sentidos sobre o mundo e sobre a vida. As pessoas agem no mundo a partir dos sentidos que atribuem ao que veem, ouvem, recebem. E quem produz sentidos é a comunicação. Aliás, esse é o grande poder da comunicação: fazer ver, fazer crer e fazer agir. Acho que a gente entende a importância da comunicação mais do que a gente entendia. Após a pandemia, no campo da saúde, todo mundo acha que a comunicação é o centro, só que não consegue fugir de ideias que foram configuradas há três quartos de século. Hoje a comunicação adquire uma grande centralidade, mas reforça modelos muito antigos, criados há 75 anos. Parece que quanto mais se evolui no entendimento da importância da comunicação, mais se agarra a essas formas antigas, que já não fazem mais sentido (ou nunca fizeram).  

E por que isso acontece?

Por conta dos modelos. Mesmo que a pessoa não saiba que existe um modelo, ela age sob a sua influência, a partir de uma teoria. São eles que organizam a prática. Então, se não há uma percepção crítica, se não tem uma abertura para mudar, o modelo vai ficando cada vez mais forte, sempre produzindo práticas que já não levam a lugar nenhum, não vão levar. Infelizmente. 

Inesita, o que lhe atraiu à Comunicação?

Talvez por eu ser geminiana, não sei. Acho que as circunstâncias foram se sucedendo e se sobrepondo. Meu pai queria que eu fizesse Diplomacia no Instituto Rio Branco. Quando eu fiz vestibular em 1970, no Recife, o que havia mais próximo do que ele queria era o curso de Relações Públicas na Universidade Católica. Mas também havia o curso de Comunicação na Universidade Federal. Eu passei para os dois cursos e, contrariando a vontade dele, escolhi fazer Comunicação, porque gostava mais da ideia de estar em uma universidade pública. Por outro lado, sempre fui atravessada por um viés de inconformismo com as coisas estabelecidas, quase uma compulsão para mudar, fazer diferente. Desde sempre quis estar no lado não-convencional, o que me fez, por exemplo, no curso de comunicação, optar por não estudar o mundo das mídias ou fazer Publicidade e Propaganda. Eu me dediquei à área de tele-educação, e a uma outra, que se chamava polivalente, o que me permitia fazer um pouco de tudo. Mas uma vez na Comunicação, me identifiquei plenamente, desde então trilhando nesse campo em diferentes interseções.

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