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É inegável que o YouTube ocupa hoje uma posição de destaque em transmissões esportivas. A Copa do Mundo 2026 deixa isso ainda mais evidente, ao olharmos o alcance desses veículos.Referência no assunto, o canal comandado pelo criador de conteúdo Casimiro Miguel, a Cazé TV reúne mais de 35 milhões de inscritos. Junto com tamanha visibilidade, cresce também o interesse dos anunciantes. 

Nos últimos anos, as propagandas de casas de apostas dominaram o ambiente do futebol. As chamadas “bets” patrocinam clubes, estádios, competições, atletas e, claro, as transmissões dos jogos. É nesse aspecto que a Cazé TV tem sido pivô, na internet, de uma discussão necessária: qual o limite ético da publicidade de produtos com potencial nocivo à saúde e à vida das pessoas? A ressalva protocolar “jogue com responsabilidade”, ao fim de cada anúncio, terceiriza a culpa, mas deveria voltar-se a eles próprios: “anunciem com responsabilidade”.

Fenômeno entre jovens e fãs do futebol, Cazé e sua turma apresentam as partidas de forma descontraída, como se o espectador estivesse em sua própria roda de amigos, e assim ampliam seu poder de influência. Para além de divulgarem as bets, por vezes, os narradores incentivam apostas arriscadas — as chamadas “odds altas”. Em pesquisa realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, o Procon-SP apontou que quase 40% dos apostadores entrevistados se endividaram após começarem a utilizar plataformas de apostas online. Os efeitos à saúde física e mental podem ser devastadores (Radis 275).

Especialistas em saúde mental alertam para o aumento do risco de desenvolvimento do transtorno do jogo. Outro agravante é o envolvimento de pessoas com menos de 18 anos nas apostas. Em abril de 2025, dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública apontaram que adolescentes de 14 a 17 anos estão acessando sites ilegais — apesar de restrições das plataformas — e representam o grupo mais vulnerável, com 55% dos apostadores com algum grau de risco ou transtorno relacionado ao vício.

A jornalista Milly Lacombe, em sua coluna no UOL (22/6), cita um dos destaques da primeira fase da competição para ilustrar o impacto da Cazé TV: o estrondoso aumento de popularidade do goleiro cabo-verdiano Vozinha, catapultado de cerca de 50 mil a mais de 15 milhões de seguidores, após uma rápida campanha no canal. “Quando os comentaristas da Cazé TV falam, a galera escuta. Imaginem se essas vozes estivessem se pronunciando para chamar de babaca todo pai que deixa de pagar pensão alimentícia. Imaginem se estivessem mobilizados pelo fim da violência contra a mulher praticada por homens. Infelizmente, não é essa a agenda deles”, pontuou.

Em movimento recente, grandes nomes da cultura e música brasileira — como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Anitta e Emicida — publicaram vídeos nas redes sociais pedindo o fim da normalização desses jogos, com a campanha “Block no Tigrinho”.

Copa também é dos filhos da diáspora

Mas nem só das bets vive a Copa do Mundo 2026. Outro destaque da competição é o número de jogadores atuando por países em que não nasceram: 289. O que representa 23% do total de atletas inscritos na competição. O maior diferencial é que dessa vez um movimento contrário do habitual também é observado: em vez de apenas receber, a Europa também cede jogadores a países africanos e latinos, por exemplo. “A Copa do Mundo de 2026 é a Copa dos chamados ‘filhos da diáspora’, marcada pelo fenômeno da globalização e movimentos migratórios resultantes de séculos de colonização europeia pelo mundo”, destaca o repórter Guilherme Padin (UOL, 13/6).

O professor e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP), Alexandre Coelho, faz uma importante ponderação na mesma reportagem: “Claro que representar o país dos pais ou dos avós pode aumentar as chances de disputar uma Copa. Mas há também uma busca real por pertencimento. Muitos desses atletas estão dizendo, de certa forma: ‘minha história não começa apenas no país onde nasci’. Ela passa pela família, pela diáspora, pela memória colonial e pelas raízes ancestrais”. Isso tudo nos Estados Unidos de Donald Trump, um país construído pela imigração, mas que hoje a nega e a persegue.

Participações marcantes de seleções periféricas — como a da ilha caribenha, Curaçao, com seus 160 mil habitantes, e o arquipélago de Cabo Verde — também são destaque. Mas esses merecem um texto à parte.

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