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Condições precárias de moradia podem provocar ou agravar problemas de saúde: encosta do Morro do Andaraí (RJ) - Fernando Frazão/Agência Brasil
viver sem banheiro pode parecer uma realidade distante para parcelas da classe média e alta da população que vive em metrópoles ou mesmo uma imagem restrita ao passado — mas não é. Essa ainda é a situação de milhares de brasileiros que moram em periferias ou em áreas rurais. Em algumas casas, o banheiro é um balde; em outras, uma vala do lado de fora.
Casas improvisadas, marcadas pela ausência de saneamento básico, infiltrações, umidade e esgoto a céu aberto, são apenas um dos retratos das condições precárias de moradia às quais pessoas que vivem em favelas estão sujeitas. E sua saúde é diretamente afetada pelas condições de habitação.
Morador da favela Cidade de Deus (RJ), o arquiteto e urbanista Lucas Perpetuo — conhecido nas redes sociais como @luscafusca150 — conta que até a década de 1980 a casa era o espaço que a pessoa tinha para fazer a permanência dela e lutar contra tudo que existe do outro lado, portanto, um “lugar seguro”. “A gente fala isso desde o começo da humanidade. A caverna era o espaço para se proteger do que acontecia de ruim”, comenta. A casa, por conceito, deveria ser o espaço que promove segurança, quase como um paraíso.
Hoje perdemos essa noção com o crescimento das metrópoles, criando casas que mais parecem celas do que habitação, comenta o arquiteto. No lugar que deveria ser seguro, a pessoa está exposta a inúmeros perigos à saúde, segurança e bem-estar.
O que fazer quando sua casa não é refúgio? Radis conversou com integrantes de movimentos sociais, pesquisadores e moradores de favelas para abordar como as condições precárias de moradia interferem na saúde e na qualidade de vida, além de refletir sobre a urgência da ampliação de políticas públicas de habitação digna.
Zona Oeste paulistana. Seguindo pelas vielas do Jardim Colombo, bairro de Paraisópolis, favela de São Paulo com a maior população (58 mil habitantes), encontra-se uma casa que surpreende pelo tamanho. Francisco da Silva, mais conhecido como “Tiquinho”, 58 anos, trabalha com reciclagem e morava em uma minicasa de quatro metros quadrados, que estava em condições extremamente insalubres. Sem banheiro, o espaço não tinha água encanada nem acesso a rede de esgoto e a gás, além de ter infiltrações, entulho e falta de ventilação.
Tiquinho não via muita saída, ainda tendo que lutar contra uma depressão. “Eu não tinha espaço para nada. Até para me movimentar tinha que ser calculado”, relata. Com uma cama suspensa no teto, ele tomava banho de caneca e não podia armazenar comida por não ter geladeira. Na época que comprou o imóvel, há mais de 10 anos, custou dois mil reais.
Outro caso, também em São Paulo, chama atenção pela insalubridade. Maria Trindade, aos 75 anos, se viu acamada e com múltiplas comorbidades, incluindo doenças crônicas pulmonares graves. A pequena casa em que vive com o marido estava com as paredes úmidas, mofadas, assim como o chão com infiltrações, o que provocava crises de asma.
Por diversas vezes, a idosa caiu enquanto descia os três degraus para ir da sala até o banheiro. Ela passou a ter mobilidade reduzida e precisou do auxílio de bengala para se locomover. Não conseguia mais ter acessibilidade na casa onde morava há 33 anos.
O casal vive em Heliópolis, maior favela do estado em extensão, com mais de 55 mil habitantes, segundo Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, há apenas oito quilômetros do Centro. O sustento da família vem da aposentadoria de Maria. O marido precisou ser afastado do trabalho por causa do diagnóstico de esquizofrenia. A maior parte do dinheiro é utilizada na compra de medicamentos, o que impossibilitava qualquer melhoria na casa.
Quanto mais próxima do centro comercial ou empresarial de uma cidade, o metro quadrado fica mais caro, inclusive na favela. Muitas famílias acabam se sujeitando às condições precárias de moradia para estar mais perto do trabalho ou porque sempre viveram naquele bairro. Condições como risco de desabamento, mofo e infiltrações, ausência de saneamento básico, falta de ventilação, risco de acidentes e choques elétricos, superlotação, calor extremo, proliferação de insetos e roedores e espaços muito apertados compõem a realidade de uma parte da população.
O modelo de desenvolvimento urbano centrado mais na expansão quantitativa do que na qualidade produziu periferias afastadas, marcadas por infraestrutura insuficiente e dificuldade de acesso a empregos e serviços. Essa lógica impõe deslocamentos longos e desgastantes, aprofunda a segregação socioespacial e estabelece obstáculos que limitam a mobilidade social e o acesso a direitos fundamentais.

A habitação segura e o saneamento básico são alguns dos determinantes sociais da saúde de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), assim como as condições de trabalho e o contexto socioeconômico. Eles definem como as condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem — assim como o acesso a poder, dinheiro e recursos — têm influência nas desigualdades em saúde.
Essas são as diferenças injustas e evitáveis no estado de saúde observadas dentro de um mesmo país e entre países diferentes. O psicólogo Richarlls Martins, doutor em Saúde Coletiva pela Fiocruz e mestre em Políticas Públicas e Direitos Humanos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que os determinantes estabelecem a perspectiva da promoção da saúde a partir da estruturação das desigualdades sociais, pensando também a interdependência, a interseccionalidade e a intersetorialidade.
“É fundamental entender os componentes que atravessam as condições que permitem sujeitos e grupos populacionais desenvolverem altos padrões de bem-estar psíquico e social, associado com as dimensões ambientais”, comenta Richarlls, que preside a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento da Presidência da República (CNPD) e é coordenador executivo do Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro na Fiocruz.
A saúde é historicamente marcada por processos de desigualdade. O psicólogo afirma que é necessário entender condições associadas às dinâmicas de classe, gênero, raça e território, que atravessam o pensar e o fazer saúde, para que se consiga implementar uma agenda de bem-estar para a população.
Território é um atravessamento histórico e social, segundo Richarlls. Ele conta que morar em Copacabana, bairro da Zona Sul carioca, é diferente de morar em Japeri, cidade da Baixada Fluminense, em termos de acesso a rede de serviços, bens e cuidados em saúde. “Mas, ao mesmo tempo, Copacabana não é um bairro homogêneo. É diferente você morar na Avenida Nossa Senhora de Copacabana do que na Travessa dos Tabajaras, que é uma favela”, explica. A dinâmica territorial está marcada por cisões e elas organizam o modo de pensar e de fazer saúde.
Compreender a determinação social da saúde é entender que existem marcadores históricos, culturais e políticos. “Para que a gente consiga pensar uma perspectiva de equidade em saúde, é fundamental reconhecer esses marcadores e pensar políticas universais, que consigam responder a essas perspectivas históricas presentes na constituição do tecido social”, explica.
A precariedade habitacional é uma construção histórica, não é um dado natural, afirma Richarlls. Reflete escolhas sociais implementadas no país ao longo de séculos. “São marcadores do período histórico colonial ou do pós-abolicionismo brasileiro, quando se finaliza o processo escravocrata no Brasil e não se possibilita que a população negra ex-escravizada tenha acesso à terra e moradia”, conta.
É necessário ampliar uma política universal de habitação e moradia adequada com enfoque nas diretrizes de uma nova agenda urbana que tenha como elemento central a sustentabilidade, a inclusão e a resiliência. “Atualmente, no panorama brasileiro, a saúde não está pensada em projetos de planejamento urbano nas cidades”, declara Richarlls.

Tiquinho, o morador do Jardim Colombo mencionado no início desta reportagem, foi um dos beneficiários do projeto Fazendinhando, que reforma casas de pessoas que vivem em situações precárias nas favelas de São Paulo. Sua história viralizou nas redes sociais pelo tamanho da minicasa, além de não ter banheiro. Com a reforma, foi possível construir um banheiro utilizando o espaço embaixo da escada de uma vizinha.
Ester Carro, arquiteta e urbanista social responsável pelo Fazendinhando, criou o projeto para ajudar moradoras de favelas a ter mais dignidade habitacional e saúde, como o caso de Wallece de Souza, entregador de delivery de 33 anos, morador do Jardim Colombo, que vive em apenas sete metros quadrados. No espaço, mal cabia uma cama, e não havia banheiro, lavanderia ou cozinha. Era menor que uma vaga de estacionamento.
Assim como os dois casos narrados aqui, a arquiteta traz, em suas redes sociais, situações de pessoas que moram em lugares muito pequenos, sem saneamento básico, como famílias de três pessoas que vivem em dois cômodos pequenos, evidenciando que não são “casos isolados”.
Lucas Perpetuo comenta que as casas estão diminuindo em metragem. É um fenômeno que atinge até mesmo a classe média, em que as construções estão cada vez mais sendo entregues com menos qualidade nos materiais. Ou seja, casas menores, com menos qualidade e, em contrapartida, cada vez mais caras [Leia entrevista no site de Radis].
Ele explica que o conceito de “tiny house” [casa pequena] surgiu como uma ideia de moradia temporária, voltada para jovens estudantes, solteiros ou viajantes. Era um tipo de casa vendida como estilo de vida, porém o mercado imobiliário tem glamourizado ambientes assim, renomeando kitnets para studios, como um novo conceito de moradia.
Lucas afirma que possibilitar casas de dez ou sete metros quadrados é abrir caminho para lugares com três ou dois metros quadrados, a exemplo do que aconteceu em Hong Kong com os “apartamentos caixões”. São lugares que viralizaram em vídeos nas redes sociais em que só existe o espaço para a pessoa ficar deitada.
Enquanto isso, a glamourização também atinge a favela, com a normalização de espaços cada vez mais apertados. “É uma cidade que começa a crescer com crianças que não tem espaço pra brincar”, comenta Lucas, apontando problemas que afetam também a saúde mental.
O arquiteto relembra um caso ocorrido na Cidade de Deus durante a pandemia de covid-19. Os vizinhos começaram a criticar uma mãe de três filhos porque, mesmo com a obrigatoriedade do isolamento social, as crianças passavam o dia inteiro na rua. Ao conversarem com ela, descobriram que a família vivia em um espaço precário e muito apertado, sem condições de permanecer os quatro trancados em casa durante todo o dia.
Para aquela família, a rua funcionava como uma extensão da casa, onde os filhos precisavam passar boa parte do tempo. “Ela colocava na balança o risco de pegar covid e o risco de entrar em depressão dentro de casa, porque não havia como habitar o mesmo lar durante 24 horas. Era quase um rodízio. Eles só se encontravam na hora de dormir, com um único ventilador para todos”, lembra.
“A gente começa a disputar território em uma cidade que tem território de sobra. Por isso, gosto muito de trazer esses exemplos de fora, porque acho que eles funcionam quase como uma previsão”, explica o arquiteto, que produz vídeos na internet sobre o direito à cidade. “Hong Kong tem apartamentos de 120 m² e outros de apenas 3 m². Como podem existir esses dois cenários em uma cidade que não é pobre? Não é uma cidade em que isso deveria acontecer.”
As casas “apertadas” nas favelas de grandes metrópoles geralmente têm um ou dois cômodos e várias não têm banheiros. Os moradores acabam tendo que pagar para usar banheiros públicos, pedem ajuda de vizinhos ou fazem as necessidades em recipientes e depois despejam em valões ou rios próximos.
Segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil tem mais de 1,2 milhão de famílias que vivem em casas sem banheiro, sendo 83,5% delas chefiadas por pessoas negras (pretas e pardas), e 70% por mulheres. 300 mil pessoas vivem sem banheiro no meio urbano.
Atualmente, 16,3 milhões de famílias brasileiras vivem em casas com diferentes deficiências na infraestrutura. Os problemas relacionados a saneamento básico, como falta de banheiro, ausência de abastecimento de água pela rede pública e de esgotamento sanitário, atingem quase 40% das famílias inscritas no CadÚnico (2024). O estudo do Ipea também indica políticas públicas necessárias para melhorias das habitações inadequadas. O custo estimado para superação dos problemas é de quase R$ 274 bilhões.

Rose Silva mora com o marido e os três filhos no Jardim Colombo. A fachada da casa já dava indícios de como era o interior: tijolos aparentes, sem reboco, cobertos de limo. Dentro de casa, não importava a cor da tinta, as paredes permaneciam pretas, tomadas pelo mofo. A residência não tinha janelas, o que reduzia a ventilação. O imóvel acabou sendo apelidado de “a casa do mofo”.
Em dias de chuva, a água escorria pelo teto e pelas paredes. A família inteira se reunia para dormir em um quarto pequeno e escuro, o único lugar da casa em que não ficava pingando água, enquanto o quarto dos fundos era inabitável.
Assim como acontece nas casas de Rose e Maria — do início desta reportagem —, a umidade e a falta de ventilação são uns dos principais problemas arquitetônicos prejudiciais à saúde. São fatores que contribuem para doenças infecciosas, dermatológicas e respiratórias, como a tuberculose.
Socorro Leite, arquiteta e urbanista, com mestrado em Geografia Urbana pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é diretora executiva nacional há 13 anos da Habitat para a Humanidade Brasil, uma organização que promove ajuda humanitária para a construção de habitações dignas. Ela afirma que a maior parte da população brasileira constrói suas próprias casas.
“Essa é a dinâmica do Brasil, principalmente das comunidades”, conta. A arquiteta afirma que muitas vezes as casas são erguidas sem orientação técnica, ao longo do tempo. Socorro cita como exemplo paredes que não são rebocadas por causa do custo e, quando chove, ficam úmidas. “A casa não é protegida o suficiente para a chuva. Então, surgem problemas de umidade, seja no teto, nas paredes ou no piso”, explica.
Segundo a arquiteta, várias casas atendidas pela Habita Brasil em favelas até tinham banheiros, mas sem revestimento e, em alguns casos, sem encanamento adequado. Com a umidade, o espaço acaba tomado por mofo e limo. O teto, construído em laje e sem impermeabilização, com o tempo começa a apresentar infiltrações. O mesmo acontece com o chão. “Quando chove, a água se infiltra na terra e começa a transpassar o piso. Por isso muitas casas têm o piso gelado, úmido, porque não foi feito da forma adequada”, explica.
O maior problema é o custo. Colocar uma janela em uma casa durante a construção é caro, ressalta Socorro; por isso, várias pessoas deixam de fora do projeto. Além disso, em muitas favelas, o espaço entre as moradias é tão reduzido que não há possibilidade de instalar janelas, já que as construções ficam coladas umas às outras.
A diretora do Habitat Brasil, Socorro Leite, afirma que a falta de condições adequadas de saneamento ainda é o principal problema nas casas brasileiras, sejam rurais ou urbanas. E a ausência tem um recorte de classe. Segundo o Ipea, a falta de alternativa de esgotamento sanitário acomete mais de nove milhões de famílias no país, sendo o tipo mais prevalente de inadequação habitacional com 21,88% das pessoas registradas no CadÚnico. Em seguida vem a ausência de abastecimento de água por rede pública (17,17%) e de água canalizada (6,99%).
“Muitas das áreas em que a gente vai atuar, não tem saneamento implementado. É comum ver esgoto a céu aberto ou no quintal da casa. Esse é um tipo de precariedade que exigiria uma intervenção do poder público”, comenta. Projetos como o da ONG de ajuda humanitária apenas auxiliam pontualmente casos de famílias em vulnerabilidade social, mas se trata de um problema estrutural que exige a promoção de políticas públicas.
Socorro cita que o dano à saúde é muito evidente quando o esgoto está na rua e tem crianças brincando no mesmo espaço. “É muito comum chegar em comunidades que ainda não têm um sistema de coleta e tratamento de esgoto. E tem áreas que até têm o sistema de abastecimento da água, mas a água não chega todo dia. Então, o que as famílias fazem? Armazenam água, muitas vezes de forma inadequada, o que também pode causar problemas à saúde porque essa água pode ser contaminada”, explica.
A ausência de saneamento básico se relaciona diretamente à transmissão de doenças, ressalta Richarlls. “Algumas pessoas estão mais vulnerabilizadas a terem infecções, problemas gastrointestinais, doenças parasitárias associadas à falta de tratamento adequado de água e esgoto, além de doenças vetoriais associadas à acumulação de lixo, como dengue, chikungunya, zika e leptospirose”, aponta.
Em algumas partes das cidades, a coleta de resíduos é inexistente ou acontece de forma irregular, lembra Richarlls. Em um país de clima tropical, a falta de tratamento e coleta adequadas afeta principalmente as favelas de forma sistêmica.
Rosângela Santos, aos 47 anos, abria o portão da casa escura ao chegar do trabalho de serviços gerais em uma noite de chuva. Dentro, encontrava a mãe aos 75 anos com uma toalha pendurada nos ombros enquanto cozinhava o jantar. Essa era a estratégia para se manter menos molhada, já que chovia dentro de casa. A idosa também usava agasalho porque fazia muito frio na moradia úmida.
Além das duas mulheres, a casa na comunidade do Boqueirão, próxima à Heliópolis (SP), abriga ainda duas crianças. Rosângela nunca tinha pensado em gerar filhos, até que sua irmã morreu deixando dois órfãos. Assim, em 2019, a auxiliar de limpeza se tornou mãe, dividindo a criação da menina de 8 anos e do bebê de 5 meses com sua mãe.
O teto da casa estava prestes a cair por falhas na estrutura. Na parede da frente havia uma rachadura grande, demonstrando o risco iminente. Dentro da habitação, os cômodos eram escuros. Nas paredes, mofo. O chão do banheiro era tão escorregadio de limo que apresentava riscos para a senhora idosa e as crianças, que frequentemente estavam com problemas respiratórios.
Mesmo com a família em risco, Rosângela não tinha muito o que fazer, uma vez que seu salário mal dava para as contas. “Mesmo trabalhando, não tinha condições de fazer uma reforma. Ou comprava as coisas pra dentro de casa (comida, coisas das crianças, remédio para a mãe) ou fazia a reforma”, conta.
Essa é a realidade de muitas famílias, que acabam não tendo outra opção além de viver em espaços que oferecem riscos por causa da estrutura ou da localização. São pessoas que moram em encostas sujeitas a deslizamentos, em construções com problemas estruturais ou com instalações elétricas precárias, sob risco de choques e incêndios.
Também é preciso levar em conta que famílias em situação de vulnerabilidade social estão também mais propensas a serem atingidas pelos efeitos das mudanças climáticas, como casas com telhados que transpassam muito calor, ambientes pequenos com superlotação de pessoas e locais propensos a enchentes e desmoronamentos.
Richarlls explica que existem três fatores associados aos determinantes sociais da saúde e moradia, que são: saneamento básico, estrutura adequada e aglomeração. “Todos esses elementos falam sobre doenças crônicas transmissíveis e muito diretamente sobre problemas de saúde crônicos, a que determinados grupos sociais são historicamente submetidos”, aponta.
Ele explica que o déficit habitacional nas cidades está diretamente associado à aglomeração. “Não é meramente ter moradia. Quantas pessoas estão nessa moradia? Em que condições essas pessoas estão?”, analisa.
É preciso também considerar os fatores relacionados à saúde mental. Rosângela contou sobre o medo constante de não ter condições de reformar a casa; os filhos sofriam bullying e eram tratados como “nojentos” por causa das condições da moradia. “Lógico que eu queria dar uma vida melhor para eles”, comenta.
“O impacto [na saúde mental] envolve questões relacionadas à individualidade, espaços superlotados, ansiedade, acessibilidade e também acidentes em ambientes residenciais que não oferecem uma estrutura adequada para habitação”, explica Richarlls.
Rosângela teve sua casa completamente reformada pela ONG Habitat Brasil. As paredes foram impermeabilizadas, o teto reforçado, a parede da frente derrubada e reconstruída, o banheiro completamente revestido e reformado. A mudança foi grande na vida da família. A mãe idosa não tem mais problemas respiratórios e está melhor de saúde.
Maria Trindade, de Heliópolis, também teve sua casa reformada pela ONG. Com o banheiro no mesmo nível da sala e a porta mais próxima de sua cama, a idosa reduziu o risco de queda e aumentou a mobilidade. Também foram adaptadas barras de metal para que ela pudesse ter apoio, além do novo revestimento e pintura antimofo, que diminuíram suas crises respiratórias.
Para além da atuação direta nos territórios com os projetos de reforma, construção de banheiros, cisternas e sumidouros, a ONG Habitat Brasil também utiliza a sua experiência para influenciar políticas públicas. “É estar junto com outras organizações atuando em rede e nos espaços de discussão de políticas públicas institucionais para influenciar essas políticas”, explica Socorro.
A “casa do mofo” de Rose já não existe mais. A história da mãe de família retratada aqui mudou completamente após a reforma da moradia, que passou a ser impermeabilizada e ganhou janelas e uma claraboia para garantir iluminação e ventilação. A obra foi realizada pelo projeto Fazendinhando, assim como as reformas das casas de Tiquinho e Wallece.
O projeto da arquiteta Ester Carro também visa unir a comunidade por meio de mutirões, capacitar mulheres para realizar serviços de construção civil e gastronomia, promover conscientização ambiental e construir espaços comunitários, como a transformação de um lixão em praça e horta.
As iniciativas das ONGs praticam a chamada arquitetura social. Lucas explica que seria um campo da arquitetura que, em síntese, deveria ser majoritariamente feita pelo Estado para fornecer espaços de qualidade para pessoas em vulnerabilidade social. Na ausência de políticas públicas, os movimentos sociais organizados buscam apresentar alternativas.
Lucas cita o Fazendinhando como exemplo, explicando que é um projeto muito atacado nas redes sociais por proporcionar casas dignas dentro da favela, sem a intenção de tirar as pessoas de lá. “Essa é uma perspectiva de que a favela é quase o inferno, que a pessoa precisa sair. A favela é vista como símbolo de negatividade”, comenta sobre a percepção de que a pessoa só “vence na vida” quando deixa o lugar onde vive.
Na contramão dessa visão, o arquiteto ressalta que a favela é um solo fértil e a existência de projetos como o de Ester Carro é uma prova disso. “Gosto muito de fazer paralelo com uma plantação. Ela brota daquele solo, mostrando que ele é fértil, e eu acho isso mais importante”.
Na Plataforma Colaborativa IdeiaSUS, que concentra diversas experiências em saúde no Brasil, existem iniciativas voltadas para a melhoria de condições de habitação, como o projeto Nenhuma Casa Sem Banheiro, do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU/RS). O objetivo foi construir 1,6 mil banheiros em casas de famílias em vulnerabilidade social de cidades gaúchas e atrelar o trabalho à Estratégia Saúde da Família (ESF), com os beneficiados sendo selecionados a partir de atendimentos em saúde e serviço social.
Outro projeto foi desenvolvido pela Fiocruz em 2023, no Complexo de Manguinhos. Com o objetivo de evitar a disseminação de tuberculose, o Habitação Saudável buscava implementar soluções simples e de baixo custo como o uso de cobogós (tijolos vazados), abertura de janelas e melhoria no caimento de lajes. Foram capacitados 130 agentes comunitários para a produção de vídeos e cartilhas com instruções.
Desidratação, exaustão térmica
e sobrecarga cardiovascular
Risco de desabamentos,
choques elétricos e
acidentes domésticos
Umidade favorece fungos
que agravam asma,
alergias e tuberculose
Espaço apertado impede movimento,
ítens básicos e impacta saúde mental
Fungos e bactérias: risco de micoses,
quedas e doenças respiratórias
Exposição a água contaminada:
diarréia, verminoses e infecções
Localização expõe moradores
a enchentes e deslizamentos
Desidratação, exaustão térmica
e sobrecarga cardiovascular
Risco de desabamentos,
choques elétricos e
acidentes domésticos
Umidade favorece fungos
que agravam asma,
alergias e tuberculose
Espaço apertado impede movimento,
ítens básicos e impacta saúde mental
Fungos e bactérias: risco de micoses,
quedas e doenças respiratórias
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diarréia, verminoses e infecções
Localização expõe moradores
a enchentes e deslizamentos
Desidratação, exaustão térmica
e sobrecarga cardiovascular
Risco de desabamentos,
choques elétricos e
acidentes domésticos
Umidade favorece fungos
que agravam asma,
alergias e tuberculose
Espaço apertado impede movimento,
ítens básicos e impacta saúde mental
Fungos e bactérias: risco de micoses,
quedas e doenças respiratórias
Exposição a água contaminada:
diarréia, verminoses e infecções
Localização expõe moradores
a enchentes e deslizamentos
Fonte: Levantamento da redação de Radis.
Arte: Lara Souza e Felipe Plauska.
Pneumonia, tuberculose, gripe, asma, covid-19, dermatites, leptospirose, lesão ortopédica por queda, diarreia, alergia, depressão, estresse, ansiedade, verminoses, infecções, chikungunya, zika. A lista é extensa de condições de saúde que podem ser causadas ou agravadas por problemas de habitação. O SUS é o primeiro a receber os impactos, com surtos ou epidemias evitáveis, como o caso da alta taxa de tuberculose na Rocinha (RJ), como mostra a reportagem de Radis (278).
É necessário investir em políticas públicas de habitação no Brasil e relacionar com a saúde. Todos os entrevistados desta reportagem citaram o programa Minha Casa, Minha Vida como um importante acerto para a melhoria das condições de moradia da população, e defendem sua ampliação.
Richarlls aponta que existem iniciativas públicas que tentam desconstruir ou produzir novas narrativas em relação à pauta da política habitacional urbana. Ele comenta que o programa promove marcadores sociais associados à ascensão e mobilidade social, e a possibilidade de herança como elementos fundamentais, especialmente para a população de menor renda. “Essa é uma política central e estrutural que precisa ser universalizada”, afirma.
Em âmbito global, ele cita a Agenda Urbana da ONU Habitat, que pensa processos de desenvolvimento urbano sustentáveis, inclusivos e resilientes, na perspectiva da Agenda 2030 e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS). Richarlls defende que as políticas públicas brasileiras devem incorporar os elementos dessas agendas para um planejamento adequado que foque na organização das cidades com um eixo central de moradia e mobilidade, ampliando também a sustentabilidade e a promoção de áreas verdes.
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