O atual surto de ebola na República Democrática (RD) do Congo foi declarado o mais letal da história do país, em 16 de agosto, quando o número de mortes (2.325 pessoas) ultrapassou o do surto de 2018-2020 (2.299). O Instituto de Saúde Pública da RD Congo registrou 4.945 casos até a data, causados pela espécie Bundibugyo do vírus Ebola, para a qual não existem vacinas ou tratamentos aprovados.
A taxa de letalidade subiu de cerca de 20% no início de junho para 46% em agosto, de acordo com dados do governo, o que significa que quase um em cada dois casos confirmados é fatal.
“Normalmente, à medida que um surto progride, a taxa de letalidade deveria cair, pois o rastreamento de contatos melhora e os pacientes são identificados e tratados mais cedo”, disse à imprensa Thomas Parisch, especialista em saúde pública que atua na área com a organização Médicos Sem Fronteiras (Reuters, 16/8). “Em vez disso, ainda vemos muitos casos detectados tardiamente, quando o tratamento tem menos probabilidade de sucesso, e muitos são identificados apenas depois de morrerem na comunidade.”
Autoridades ouvidas pela CNN (22/5) relacionaram o surto ao enfraquecimento dos organismos multilaterais de saúde após a posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. Sua gestão retirou financiamento do país à OMS, dissolveu a Agência para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), fez cortes no Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e reduziu a ajuda à saúde que fornecia à RDC e à Uganda. O financiamento dos EUA à RDC caiu quase 90%: de US$ 1,4 bilhão em 2024 para US$ 146 milhões em 2026.

Histórico negativo e conflitos armados agravam a crise sanitária
Análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) ressalta o contexto de fragilidade histórica do sistema de saúde congolês, a desconfiança comunitária herdada de surtos anteriores e a lentidão geral de resposta a doenças emergentes. Alerta também que conflitos armados e mineração ilegal na região de Ituri e nas províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul são obstáculos estruturais à contenção do surto.
Milícias como as Forças Democráticas Aliadas e o grupo M23 controlam rotas de contrabando de ouro e coltan que movimentam bilhões de dólares por ano. O acesso de equipes de saúde às áreas representa uma ameaça direta a essas operações, o que faz da violência armada um obstáculo estrutural à contenção do surto.
Desde a declaração da emergência de saúde pública de interesse internacional do ebola, em 17 de maio, a OMS registrou ao menos 12 ataques a instalações de saúde nas províncias mais afetadas.
O custo de chegar tarde
Em artigo publicado nos Cadernos Fiocruz de Saúde Global e Diplomacia da Saúde (edição 14 de 2026), Paula Reges, Luana Bermudez e Luiz Augusto Galvão apontam que um dos aspectos mais relevantes dessa resposta é a tentativa de desenvolver conhecimento e tecnologias específicas para o vírus Bundibugyo em meio à própria emergência.
Pela primeira vez, duas vacinas desenvolvidas especificamente contra esse vírus chegaram à fase de testes em seres humanos. Paralelamente, uma vacina diferente apresentou proteção cruzada em estudos com animais e está sendo conduzida em direção a um estudo de fase 3. No campo terapêutico, o ensaio clínico Partners, patrocinado pela OMS, já havia incluído 100 pacientes.


