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“Ei, pessoal!

Vem, moçada!

Carnaval começa no Galo da Madrugada”

O “Hino do Galo” anuncia que o maior bloco de carnaval do mundo está começando no sábado de Zé Pereira, na cidade do Recife. Com estimativa de receber 2,5 milhões de pessoas em um percurso de 6,5 km, o Galo da Madrugada é tradição no carnaval de Pernambuco.

O Galo Gigante 2026, que chama atenção na Ponte Duarte Coelho, é criação de Leopoldo Nóbrega, com tema que reflete “a arte como instrumento de cuidado e promoção da saúde mental”. Neste ano, 30 trios elétricos e mais de cem artistas se apresentam das 9h às 18h. 

Nos bastidores, a equipe do Samu Metropolitano do Recife se prepara desde o ano anterior para ofertar os cuidados necessários em casos de urgência e emergência que envolvam risco imediato à vida ou necessidade de socorro médico rápido para evitar complicações. 

Ao longo do percurso, há cinco postos médicos avançados distribuídos nos seguintes locais: Praça Sérgio Loreto, Rua São João esquina com Av. Dantas Barreto, Pátio do Carmo, Praça da Independência (conhecida popularmente como a Praça do Diário) e Rua do Sol esquina com Matias de Albuquerque. 

Apenas durante o Galo, há uma média de 550 atendimentos. Cada unidade mede 15x6m², tem seis leitos (sendo um de estabilização para pacientes graves) e cerca de 20 profissionais de plantão. O leito de estabilização tem os mesmos recursos de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), com aparelhos como respirador artificial, monitor cardíaco e cardioversor, entre outros.

— Foto: divulgação.

“Alguém com parada cardíaca, com insuficiência respiratória, qualquer agravo de saúde muito grave a gente consegue estabilizar nesse leito. Todo posto tem uma ambulância do Samu do lado para apoiar o transporte”, explica Leonardo Gomes, coordenador geral do Samu Metropolitano do Recife.

Ao todo o cortejo conta com 25 motolâncias, sete ambulâncias e um helicóptero com UTI aérea disponível para os foliões que precisarem de remoção mais rápida. A efetividade do serviço é tanta que, de acordo com Leonardo, menos de 2% dos casos precisam de transferência. 

Na última reunião online com a equipe plantonista, que Radis acompanhou em 5/2, a gerente de regulação médica Rebeca Gonçalves Rocha reforçou a capacidade que o grupo tem de resolver entre 90 e 95% dos casos nos postos avançados, sem necessidade de transferência. Também reforçou a importância do preenchimento detalhado dos prontuários para que o setor de estatística consiga coletar melhor os dados para preparar o carnaval do ano que vem.  

Desde setembro de 2025 nossa reportagem acompanha os bastidores dessa preparação que envolve muita logística e conhecimento técnico. Vale lembrar que não é qualquer profissional de saúde que trabalha no Samu Recife. Cadu Macedo, gerente administrativo, explica os requisitos básicos: “Tem que ter feito um curso de APH [atendimento pré-hospitalar] nos últimos 12 meses, estar vinculado a um Samu ou a uma unidade de pronto-atendimento, pelo menos no último ano, com experiência comprovada”, explica.

— Foto: divulgação.

“Ah, meu bem, sem você não há carnaval”

— Foto: divulgação.

Engenheiro agrônomo de formação, Cadu é pós-graduado em Gestão de Emergência em Saúde Pública pelo Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, com aulas ministradas no Recife. Ele é responsável por fazer os processos licitatórios para compra de materiais e equipamentos que serão utilizados durante o Galo. Esse processo começa em julho do ano anterior ao desfile. 

Há 16 anos trabalhando no carnaval da capital pernambucana, ele conta quais são as suas responsabilidades para que a festa aconteça com segurança: “eu cuido de toda logística. Desde a montagem do posto e toda estrutura de iluminação, de checar com a empresa de energia a ligação, do abastecimento de água, ver se os equipamentos estão funcionando, se tem água mineral, de pensar rota de fuga de ambulância, de enviar as equipes, até montar a escala para quem vai estar de plantão naquele dia”, enumera. Ele diz que é meio que uma figura “coringa”, que se não fizer o trabalho bem-feito, o carnaval do Samu Recife acontece com “sérias restrições”.

Leonardo Gomes, coordenador geral do Samu Recife, trabalha no Galo há 17 anos, com exceção dos dois anos em que não houve carnaval, por causa da pandemia de covid-19. O baiano de Itapetininga conta que nos primeiros anos o cenário lembrava uma guerra, com falta de estrutura e espaço físico suficientes, para realização dos atendimentos. Com a profissionalização da equipe e o aperfeiçoamento da estrutura, a turma do Samu hoje trabalha com mais resolutividade. 

“Acho que o pernambucano tem o Galo como uma entidade que respeita muito. Então, mesmo com os pequenos problemas, a multidão alcoolizada, a gente monta um plano operacional de emergência que atende bem toda a demanda de quem vem brincar, de quem vem arrumar confusão e do turista que passa”, explica. 

— Foto: divulgação.

Cibele de Lima Souza, gerente operacional de enfermagem do serviço, lembra que em 2016 faltou energia em um dos postos e foi necessário descer as divisórias (paredes) para que o atendimento continuasse acontecendo, devido ao calor e à falta de iluminação. “Foi uma situação bem inusitada. Todos fomos para lá e ficamos atendendo até conseguir transferir todos os pacientes para os outros postos”, disse. Foram cerca de 170 atendimentos naquele dia.

Naquela época, ainda não existia o Centro de Operações Integradas do Recife (COP), um local onde ficam, de plantão, representantes de vários órgãos municipais para resolver problemas durante o carnaval, como falta de água e energia. O COP começou a atuar no Galo em 2024. Neste ano, uma enfermeira supervisora estará no Centro para facilitar a comunicação entre o Samu e as demais serviços municipais.

— Foto: divulgação.

“Deus é brasileiro”

Leonardo brinca que “Deus é brasileiro e pernambucano”, porque um evento das proporções do Galo tinha tudo para dar muito errado, em termos de segurança, e costuma ser um evento com raras intercorrências graves. Ele conta que os casos mais frequentes são de pessoas com intoxicação alcoólica, desmaios, desidratação, algum dedo fraturado, uma sutura necessária, depois de uma queda ou briga. Já Cibele Souza lembra que crises de ansiedade também têm se tornado mais frequentes com o passar dos anos.

Leonardo conta que mais mulheres, entre 30 e 50 anos, recebem atendimento. E que também é comum, infelizmente, crianças e adolescentes que usam cola passarem mal durante o bloco. Crianças perdidas, sem os responsáveis, também chegam aos postos em busca de ajuda. Ou crianças em situação de trabalho infantil. A equipe aciona a Assistência Social para esses casos.

Em relação à estrutura, Leonardo lembra que o Samu pediu durante anos para que o desfile saísse da Rua da Concórdia, por ela ser muito estreita, conter muita cabeação elétrica e embaixo terem galerias para esgotamento sanitário. 

“Tinha tudo para afundar o chão e o povo cair dentro, o trio cair por cima. Muito fio na lateral e o povo que está em cima do trio pulando, bebendo, não podia tocar num fio daquele. Depois de uns dois ou três carnavais que fui entender que perigo era aquela rua”, relembra. Durante 32 anos o Galo desfilou pela Rua da Concórdia, tendo seu trajeto modificado em 2011.

Enfermagem em ação

Cibele fica responsável por fazer a relação dos insumos que serão utilizados nos postos de atendimento do Galo, onde trabalha há 12 anos. Ela dimensiona a quantidade de soro que vai estar nas ambulâncias e nos postos, quantas macas serão utilizadas, faz a entrega dos medicamentos controlados no dia do desfile, organiza os materiais para intubação, entre outras funções. Ela também pensa em como esses produtos vão ser disponibilizados dentro do posto, para que haja um padrão que facilite a busca durante os atendimentos. 

Na reunião online da semana anterior ao desfile, ela reforçou a necessidade das pessoas plantonistas se familiarizarem com o espaço antes dos pacientes chegarem, pois a pior hora para ficar procurando um insumo é durante uma intercorrência. E tranquilizou quem está trabalhando pela primeira vez no Galo ao dizer que em todas as equipes há profissionais experientes. 

Cada posto é projetado para ter autonomia para 150 atendimentos durante o bloco, mas, ao longo do dia, ela vai recebendo informações na Central, no bairro da Boa Vista, e avaliando se há necessidade de enviar novos materiais. Os postos são abastecidos como uma linha de montagem: cada dia um setor passa pelos locais preenchendo com os materiais de sua área. Exemplo: equipe de esterilização passa com o material em ferro, kit cirúrgico; farmácia abastece com os descartáveis. 

Às 6h, ela, Leonardo e Cadu já estão na base do Samu para fazer o receptivo dos profissionais, porque os postos abrem pontualmente 7h, com exceção do Posto da Rua do Sol, que abre às 9h, por ser o último do trajeto do bloco e fechar mais tarde. Caso haja paciente tomando medicação ou se recuperando em outras unidades perto da hora do fechamento, o Samu realiza a transferência para a unidade na Rua do Sol. 

Enquanto ela fica na base, Leonardo, João Paulo Martins (diretor médico) e Cadu circulam em um carro de apoio pelos cinco postos. Cada local recebe a visita da equipe três vezes, para ver as necessidades ao longo do plantão, seja um problema com uma instalação elétrica ou um paciente mais difícil de manejar.Leonardo tem um extenso currículo de trabalho em situações limítrofes pelo Brasil. Ele esteve presente em mais de dez catástrofes, incluindo desabamentos de prédios em Olinda e Paulista, na Região Metropolitana do Recife; 18 dias no Rio de Grande do Sul, ajudando as vítimas das enchentes em 2024; e 15 dias em Nova Friburgo, região serrana do Rio de Janeiro, em 2011. O episódio mais recente foi a ajuda às vítimas do terremoto, em Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, no final de 2025. Inclusive, quando Radis esteve na sede do Samu Recife, em dezembro de 2024, não conhecemos Leonardo pessoalmente por ele estar trabalhando com a Força Nacional do SUS.

Conheça o trabalho da Força Nacional do SUS

Incidente de Múltiplas Vítimas (IMV)

A enfermeira conta que todos os anos eles esperam por um IMV, sigla muito comum na rotina do Samu, que significa Incidente com Múltiplas Vítimas. “O Galo é um evento muito propício a ter esse acidente em massa, tipo uma queda de arquibancada, um arrastão que as pessoas podem ser pisoteadas. Então, a gente faz esse treinamento prévio. Todos os postos têm material para isso”, explica. IMV é considerado a partir de cinco vítimas. 

Na mala para IMV há lonas coloridas e fichas destacáveis que ajudam na triagem de pacientes. A própria natureza do protocolo internacional para esse tipo de atendimento já considera que não haverá recursos suficientes para atender a todas as pessoas, por isso, é essencial setorizar com as lonas (verde, amarela, vermelha e preta/cinza) e crachás destacáveis aquelas com maiores chances de sobrevivência.

No Samu Recife há um núcleo de educação permanente que realiza treinamentos anuais para esse tipo de incidente. O último foi feito no final de agosto de 2025, em parceria com a Força Nacional do SUS. 

Na semana do dia 2 a 6 de fevereiro, houve treinamento aéreo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF). Durante o exercício, foi simulada uma operação de pouso e decolagem de emergência com o helicóptero da PRF, para coordenar a atuação entre equipes de segurança e de atendimento pré-hospitalar. O objetivo foi treinar a resposta a ocorrências de alta complexidade, além de aprimorar a comunicação entre os órgãos envolvidos e reduzir o tempo de resposta em situações críticas. A equipe entrevistada por Radis disse que a UTI aérea nunca chegou a ser utilizada diretamente por pacientes atendidos nos postos do Galo. O que acontece geralmente é precisar utilizar a aeronave para socorrer alguma vítima que bateu o carro em alguma rodovia estadual, depois de ter bebido no bloco e dirigido.

SUS até nos camarotes privados

Leonardo fala que muita gente acredita que não utiliza o SUS por estar em camarotes privados, mas ele lembra que a Vigilância Sanitária que faz a inspeção é SUS e enumera outras atuações do sistema nos dias de folia: “O Carnaval passa pelo SUS quando distribui camisinha, a PrEP [Profilaxia Pré-Exposição], quando atua com redução de danos, quando orienta sobre ISTs. É toda uma estrutura pensada para o Carnaval dar certo”, enumera. A organização do bloco também tem cinco postos médicos privados que, em caso de necessidade, podem pedir ajuda do Samu.

Leia a reportagem sobre redução de danos no carnaval

Samu em dias comuns

A capital pernambucana sedia a Central de Regulação Médica do Samu 192 Metropolitano do Recife, que, além do município-sede, regula também os chamados de 71 municípios pernambucanos e do arquipélago de Fernando de Noronha. Atualmente são realizados, em média, 3.700 atendimentos por mês. Por dia, a central recebe cerca de duas mil ligações.

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