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O Carnaval está chegando e é bom ficar de olho nos efeitos das interações entre remédios controlados e álcool e outras drogas. Radis conversou com Rafaela Lima, psiquiatra, cuja prática clínica se baseia na Redução de Danos, para saber quais combinações são mais perigosas e podem transformar os momentos de festa em preocupação e desconforto. Confira:

1. Benzodiazepínicos – Clonazepam, alprazolam, diazepam

  • Alto risco na associação com álcool. Ambos causam depressão do sistema nervoso central, podendo gerar sintomas como: sonolência, confusão mental, desmaio, coma, respiração fraca e parada respiratória.

2. Antidepressivos ISRS (Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina) – Sertralina, fluoxetina, escitalopram

  • Risco na associação entre ISRS e álcool: apesar do álcool atuar como depressor do sistema nervoso central, ele pode reduzir o efeito terapêutico da medicação e intensificar tanto alguns sintomas depressivos como também efeitos colaterais do medicamento. 
  • Sintomas possíveis: agitação psicomotora, confusão mental, crise de ansiedade, coração acelerado, tremores, tontura, enjoo, vômitos.
  • Associação entre ISRS e estimulantes (MDMA, ecstasy, cocaína): risco de síndrome serotoninérgica (tremores, sudorese, confusão mental, febre, agitação psicomotora, coma).

3. Antidepressivos IRSN (Inibidores de Recaptação de Serotonina e Noradrenalina)
– venlafaxina, desvenlafaxina, duloxetina

  • Risco na associação com estimulantes (MDMA, ecstasy, cocaína): tanto o antidepressivo quanto as metanfetaminas atuam na noradrenalina, um neurotransmissor que regula a pressão arterial. Essa combinação pode levar a um aumento significativo da pressão e desencadear crise hipertensiva, AVC, infarto cardíaco, arritmias cardíacas, crises convulsivas e até morte. 
  • Sintomas possíveis: agitação psicomotora, confusão mental, boca seca, tremores, sudorese, náuseas, vômitos, taquicardia, falta de ar, dor torácica, crise de ansiedade, desmaios, tontura, crise convulsiva.
  • Risco na associação com álcool: agitação psicomotora, confusão mental, crise de ansiedade, coração acelerado, tremores, tontura, enjoo, vômitos.

4. Psicoestimulantes – Metilfenidato (ritalina), Lisdexanfetamina (Venvanse)

  • Associação entre psicoestimulantes e drogas estimulantes (MDMA, ecstasy, cocaína): combinação perigosa, pois ambas as drogas são estimulantes do sistema nervoso central. Pode levar a um aumento significativo da pressão arterial e desencadear crise hipertensiva, AVC, infarto cardíaco, arritmias cardíacas, crises convulsivas e até morte.
  • Sintomas possíveis: agitação psicomotora, confusão mental, tremores, sudorese, boca seca, náuseas, vômitos, taquicardia, falta de ar, dor torácica, crise de ansiedade, desmaios, tontura, crise convulsiva.

5. Lítio

  • Risco na associação entre lítio e álcool: o álcool pode levar à desidratação e ao aumento dos níveis de lítio no sangue, o que pode ocasionar um quadro clínico grave de intoxicação por lítio, com sintomas como vômitos, diarreia, tremores, sonolência, confusão mental, movimentos involuntários, desequilíbrio corporal, desmaios, crise convulsiva, coma.

Outras dicas

  • Beba bastante água, pois o risco de desidratação é maior com o calor, o que potencializa a concentração dessas substâncias no sangue e seus efeitos indesejados;
  • Tente se alimentar bem, mesmo estando fora da sua rotina, especialmente antes de sair de casa;
  • Esteja com pessoas de sua confiança ao fazer uso dessas substâncias. Comunique as medicações que utiliza ou tenha essa informação por escrito. Isso facilita o trabalho das equipes de saúde, caso aconteça algum desfecho desfavorável.
Rafaela Lima é psiquiatra com abordagem clínica em redução de danos — Foto: Acervo pessoal

Para a psiquiatra Rafaela Lima, que atuou na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS-SUS) e em um centro de saúde LGBTQIA +, em Olinda, Pernambuco, a estratégia de redução de danos entende a dependência química como uma questão de saúde pública e não moral. 

“A RD se mostra importante por que tem o vínculo terapêutico como grande fio condutor de uma prática que respeita a autonomia e acolhe os possíveis espaços terapêuticos existentes no cotidiano, atuando além dos limites da exigência da abstinência como único caminho aceitável no tratamento da dependência e dos danos psicossociais”, afirma.

Redução de danos no Brasil

Ação de redução de danos no carnaval de Olinda (PE)— Foto: Acervo/Escola Livre de Redução de Danos

Radis consultou a Escola Livre de Redução de Danos, do Recife, para entender melhor o nascimento dessa estratégia de saúde no país. A escola explica que a política de redução de danos (RD) tem origem na Reforma Psiquiátrica dos anos 1970, que defendeu o cuidado em liberdade e o fim dos manicômios. 

Ganhou força nos anos 1980, em Santos, São Paulo, durante a epidemia de HIV/AIDS entre usuários de drogas injetáveis, quando a distribuição de seringas limpas se afirmou como estratégia de saúde pública, baseada na preservação da vida e na garantia de direitos, em contraposição à lógica punitiva e da “cura” compulsória.

Apenas em 2005 a RD passou a integrar oficialmente as estruturas do Estado, tornando-se eixo central das políticas do Ministério da Saúde no enfrentamento ao HIV, às ISTs e às hepatites virais. 

Mais recentemente, a criação dos Centros de Acesso à Inclusão Social (CAIS), vinculados ao Ministério da Justiça, reforçou a mudança de enfoque da repressão para a cidadania. O marco mais significativo veio com a aprovação do novo Plano Nacional de Política sobre Drogas (Planad), no fim de 2025, que regulamenta a profissão da pessoa redutora de danos, reconhecendo-a formalmente como agente da saúde e do campo social.

Trabalho da Escola Livre

A Escola Livre afirma que suas ações são pautadas na formação crítica, capacitando agentes de saúde e comunidades, para que o cuidado não seja uma imposição de classe, mas uma construção de território; pragmatismo ético, atuando diretamente nos espaços de convívio, do carnaval às periferias, fazendo com que a informação seja acessada onde o “Estado costuma chegar de farda, coturno e fuzil na mão”; e através da gestão de riscos, compartilhando saberes, entendendo que saúde também se faz com água, alimentação e redução dos efeitos adversos das substâncias, sem exigir o “não” antes do “como você está?”.

Rafael West é co-fundador e um dos diretores da Escola Livre de Redução de Danos — Foto: Acervo pessoal

Para Rafael West, co-fundador e um dos diretores da Escola Livre, “superar o encarceramento em massa e o genocídio em curso em nome da ‘guerra às drogas’ é um dever civilizatório para agora e não pode retardar para as próximas gerações”, afirma. 

A Escola defende que a RD é o que resta de humanidade em uma política de drogas que ainda insiste em ser guerra, apesar dos inúmeros avanços no campo dos direitos humanos. “A lógica da RD tem comprovado que outro caminho é não só possível, mas já está sendo trilhado”, afirma o texto institucional.

Para a Escola Livre de Redução de Danos, a saúde pública só faz sentido se for capaz de abraçar o corpo tal qual ele se apresenta, sem filtros e sem assepsias morais.

IdeiaSUS

A Escola também teve um projeto selecionado pela Plataforma Colaborativa IdeiaSUS Fiocruz, um espaço que concentra diferentes experiências desenvolvidas por unidades e trabalhadores do SUS em todo Brasil. 

A iniciativa selecionada foi: “redução de danos como estratégia para aumentar a adesão ao tratamento do HIV e outras IST entre pessoas em alta vulnerabilidade usuárias de drogas na cidade do Recife (PE)”. 

Entre março de 2024 e fevereiro de 2025, a experiência alcançou diretamente 2.393 pessoas, promovendo acesso à prevenção combinada, fortalecimento social e vínculos comunitários. Foram 152 testagens de HIV realizadas, com 128 pessoas vinculadas aos serviços de prevenção e tratamento. 

As ações móveis em cenas de uso e territórios de alta vulnerabilidade garantiram presença contínua e escuta qualificada, aproximando o SUS dessa população e viabilizando encaminhamentos para saúde, assistência social e regularização documental. Para saber mais, leia aqui. 

— Foto: Acervo/Escola Livre de Redução de Danos.
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