A

Menu

A

Quando se mudou para Guaratinguetá, no interior de São Paulo, em 1996, a carioca formada em jornalismo Maria Cristina Bahia de Almeida se deparou com um projeto inovador, sobretudo para a época: o ensino de capoeira para pessoas com as mais diversas deficiências, desenvolvido por mestre Ponciano Carlos de Almeida. Mestre Ponciano, falecido há quase três anos, foi seu companheiro de vida – e o tema da inclusão se tornou uma grande bandeira daquela que hoje é conhecida como mestra Morena.

A chamada capoeira inclusiva e adaptada, voltada para pessoas com deficiência, nasceu inicialmente em espaços de cuidado, como a APAE [Associação de Pais e Amigos]; mas logo mestra Morena e Ponciano perceberam que os alunos tinham melhor desenvolvimento na prática quando participavam das aulas junto com outros capoeiristas, ditos “normais”. “Isso abriu um mundo novo para essas pessoas que viviam isoladas dentro de uma instituição, com objetivos educacionais e terapêuticos”, conta.

Produtora cultural, gestora de projetos, coordenadora do Grupo Biriba Berimbau Capoeira e presidente do Instituto Mestre Ponciano, em Guaratinguetá, mestra Morena é referência no tema da inclusão e da diversidade na capoeira. Também ajudou a fundar e é vice-presidente do Instituto Baobá, formado por mulheres pretas, lideranças em suas comunidades, e voltado para a valorização da cultura afro-brasileira, e conselheira da Associação Sábios da Paz, que reúne integrantes da Umbanda, do Candomblé e outras denominações na região.

Em entrevista à Radis, ela fala sobre o potencial da capoeira em transformar mentalidades. “Quando se começa a praticar capoeira, ela permite que você inicie uma reflexão: primeiro, sobre você mesmo e suas práticas, o seu dia a dia, o seu entendimento sobre a vida, mas também nos faz refletir sobre as necessidades da liberdade, e isso vai nos remeter à nossa história no Brasil”, pontua.

Foi o que o projeto promoveu na população de Guaratinguetá, que passou a ver as pessoas com deficiência nas praças, nas apresentações e nos eventos culturais de capoeira, como ela relata. “Esse trabalho nos ensinou que aquelas pessoas que ficavam presas em casa podiam mostrar para seus familiares que elas percebem mais do que os outros acreditavam”, ressalta. 

Mestra Morena também aborda o seu papel como liderança feminina e as barreiras que precisou vencer, defende que a educação antirracista proposta pela capoeira é um “caminho para a paz mundial” e acredita que a prática pode contribuir para a conexão do ser humano com o planeta Terra, em um momento em que é urgente pensar em ações de preservação ambiental.

No lugar da inclusão, hoje ela passou a falar em diversidade. “Como uma mulher preta e comunicadora, eu vejo que para a gente alcançar a paz, a proteção do nosso globo terrestre, a diversidade se faz necessária”, pontua. “A inclusão também é ambiental. É de novas práticas para que a gente possa manter a nossa floresta de pé e permitir às novas gerações terem ar para respirar no futuro”, defende.

[Leia a matéria completa sobre capoeira e saúde aqui]

O que a capoeira ensina sobre história e resistência africana no Brasil?

A capoeira é uma prática totalmente associada a um movimento de resistência. Quando se começa a praticar capoeira, ela permite que você inicie uma reflexão: primeiro, sobre você mesmo e suas práticas, o seu dia a dia, o seu entendimento sobre a vida, mas também nos faz refletir sobre as necessidades da liberdade, e isso vai nos remeter à nossa história no Brasil e, consequentemente, vai nos levar a uma reflexão mais ampla. Como a capoeira é uma atividade que exige uma ação de defesa, ela trata intimamente, dentro da gente, a questão da proteção: primeiro, dentro do movimento; e, depois, no convívio com outras pessoas e realidades. Ela vai te levando para outros círculos de ação, não apenas o seu local de prática. Você inicia capoeira, praticando nas comunidades, seja nos interiores ou nas capitais, mas depois ela vai te levar não só para dentro de você, mas para conhecer o que está em seu entorno. Isso nos leva a fazer uma avaliação mais ampla que penetra na história do Brasil.

A senhora é referência em projetos voltados para a capoeira inclusiva e adaptada. Qual é a importância de se pensar a inclusão na capoeira?

Hoje sou referência na capoeira inclusiva e adaptada por causa do trabalho que passei a acompanhar, após sair do Rio de Janeiro e chegar em Guaratinguetá, em São Paulo [em 1996], do Mestre Ponciano Carlos Santos de Almeida, que foi meu companheiro, falecido há quase três anos. Ele foi um pioneiro na capoeira inclusiva e adaptada. Foi a primeira pessoa que iniciou a construção da prática de pessoas com deficiência em grupo. Ele começou na APAE [Associação de Pais e Amigos, que atende pessoas com deficiência] e, durante 21 anos, fez esse projeto lá. Eu cheguei durante a execução e passei quatro anos e meio com ele, trabalhando com turmas saindo da estimulação precoce até alunos mais velhos. Ele foi organizando essa metologia — e eu participei junto — para a compreensão e a prática da capoeira por pessoas com deficiência, que hoje compreendo que são pessoas com diferentes capacidades. 

Mestra Morena coordena projeto da chamada capoeira inclusiva e adaptada, voltada para pessoas com deficiência, iniciado por seu esposo, hoje falecido, Mestre Ponciano, em Guaratinguetá (SP) — Foto: Acervo pessoal.

E como foi essa experiência com pessoas com deficiência (PcD)?

Quando Mestre Ponciano iniciou esse projeto, ele falava em inclusão. Mas muitos rejeitavam a palavra, porque achavam que mais importante era a integração, necessária na época, porque as pessoas com deficiência ficavam em suas casas, guardadas por suas famílias, algumas escondidas. Comecei a perceber que todos os alunos que a gente levava para dentro da nossa sede da capoeira tinham resultado mais rápido no entendimento e na prática. Isso acontecia porque eles ficavam no meio dos ditos “normais”, pessoas aparentemente sem deficiência. E com isso eles evoluíam mais rápido do que os que estavam no ambiente somente com PcD. Foi quando percebemos que era importante a inclusão. Começamos a levar os alunos para dentro da academia, das festas, das viagens, para outros centros de capoeira, para dentro das nossas apresentações. Isso abriu um mundo novo para essas pessoas que viviam isoladas dentro de uma instituição, com objetivos educacionais e terapêuticos. Os próprios técnicos e profissionais da instituição traziam as necessidades deles, o que nos ajudou muito. A capoeira tem muitos instrumentos para trabalhar a multidisciplinaridade: a gente tinha o psicólogo, a fonoaudióloga, o fisioterapeuta, o neurologista; assim a gente conseguia agregar essas outras necessidades e trabalhar em cima do que os profissionais nos diziam. Com isso, tivemos resultados muito importantes.

E como esse projeto beneficiou toda a comunidade?

Pudemos constatar o benefício para as pessoas com deficiência, mas também para nossos alunos, amigos e parceiros profissionais. Hoje a gente sabe que esses termos — adaptado e inclusivo — têm outras significações. O inclusivo é quando coloco todas as pessoas dentro da mesma aula; no adaptado, trabalho com um grupo específico — na época, era a turma de cadeirantes, deficientes visuais e auditivos. Naquele tempo, a gente estava fazendo uma capoeira adaptada, porque eles estavam ali dentro. E sentimos a necessidade da inclusão. Realmente a inclusão se mostrou presente e isso foi alterando a comunidade de Guaratinguetá, que passou a ver as pessoas com deficiência que existiam na sua cidade e estavam dentro de uma instituição e dos lares. Passaram a vê-los nas praças, nas apresentações, nos eventos de capoeira, onde se veria a princípio somente um atleta de alto rendimento, as pessoas saltando com alto condicionamento físico. Essas pessoas agora estavam com aquele corpo “perfeito”, com aquela performance incrível, jogando com um cadeirante num tatame. Elas estavam interagindo com uma pessoa com síndrome de Down, com deficiência intelectual ou um autista, e com isso tivemos que criar novas formas de comunicação.

Como a capoeira pode contribuir com uma educação antirracista e com a valorização da cultura afro-brasileira?

A capoeira já vem contribuindo com isso há muitos anos, quando os mestres por si só iniciam essa troca, inicialmente dentro do mundo da capoeira. Mas a capoeira consegue alterar os locais onde ela se faz presente, no Brasil ou fora dele, onde ela foi penetrando e participando de realidades diferentes das nossas, com culturas diferentes. Ela começa a fazer a transmissão de hábitos e comportamentos da nossa cultura para outras culturas. A gente começa a valorizar a nossa ancestralidade indígena — que aparentemente a gente não percebe no nosso dia a dia, no nosso idioma, a gente fala palavras indígenas sem perceber — e a nossa cultura afro-brasileira, da ancestralidade africana. Os povos fora do Brasil foram incorporando essas brasilidades no seu dia a dia, como se reunir em círculo, a noção de que estamos “ombro a ombro” na roda e precisamos ter uma visão circular. 

O que ensina o espírito de comunidade presente na roda de capoeira?

A visão circular nos remete a essa ancestralidade, a uma forma diferente de ver o mundo e de praticar a vida comunitária, com os elementos muito presentes nas culturas africanas e indígenas. Percebemos a valorização do movimento circular, que faz as pessoas se verem, em que ninguém está atrás de ninguém, e que faz com que você sinta que aquilo que você faz está dentro de um ritmo. A capoeira não é só a luta. Essa luta está envolta num ambiente musical, com cantos e outras expressões, que o tempo inteiro estão trabalhando os nossos pensamentos, tanto que as pessoas chegam com muitos problemas e terminam a aula mais leves, despreocupadas. Isso nos levou a buscar o legado africano que estava nas nossas práticas por meio da capoeira, mas não estava nos nossos hábitos. Reforçou a valorização da pele negra e da palheta de cores que existem no Brasil, o empoderamento da beleza negra, do cabelo negro, e a aceitação da brasilidade. 

E como a educação antirracista praticada pela capoeira pode ajudar a mudar a sociedade como um todo?

A educação antirracista agora vem como um elemento de conscientização e principalmente de mudança de hábitos, porque o nosso povo passou pela colonização europeia e não tinha identidade com a sua própria cultura. A capoeira é um caminho muito forte de expansão da educação antirracista, não só para o povo brasileiro, mas no mundo todo. Na minha vida, ela me levou a ser, por exemplo, vice-presidente do Instituto Baobá, que nasce de um encontro de pessoas pretas de Guaratinguetá e hoje se tornou um braço cultural da nossa cidade, trabalhando esse tema nas escolas, nas universidades, nas praças. Nos próprios grupos que trabalham com as culturas negras, às vezes temos pessoas negras que não se reconhecem assim; e pessoas não pretas que participam dessas culturas sem uma informação do porquê aquilo mexe com elas, o porquê elas se identificam com essas expressões. Não está na cor da pele. Uma pessoa não preta se identifica, mas ela não entende. A educação antirracista vem para contribuir com a paz mundial, para a gente poder perceber que no futuro vamos dar mais importância ao ser humano do que a essa paleta de cores que tem na humanidade.

Nas tradições africanas, o corpo geralmente é considerado sagrado. Como a capoeira pode ajudar no equilíbrio entre corpo, mente e espírito?

Aprendemos isso com os africanos e com os povos indígenas. Ter consciência disso nos permite alcançar o entendimento da vasta complexidade da mentalidade humana. Não trabalhamos apenas corpo ou espírito, mas também a mente. Mestre Ponciano e eu sempre dissemos isso: na capoeira, se é livre para ter qualquer religião. A capoeira não tem religião. Quem tem religião é esse ser humano que pratica capoeira. E hoje em dia a gente vê isso mais do que nunca, porque ela é praticada por pessoas das mais diversas religiões, trazendo até uma “sanidade” — digamos assim — para alguns povos. Quando a gente vê um judeu jogando com um mulçumano, em uma roda, a gente sabe que realmente conseguiu atingir essa consciência de que não somos religiões, nem cores. Isso para mim remete a uma mente sã, podemos assim dizer. A capoeira trabalha com a saúde mental, por nos colocar com o pé no chão ao mesmo tempo em que nos possibilita trabalhar a nossa mente. Fazemos um trabalho que nos liga à Terra e ao mesmo tempo nos equilibra com a extensão que cada ser humano pode alcançar através da sua mentalidade. 

Você poderia dar alguns exemplos?

Conseguimos fazer com que uma pessoa com autismo, por exemplo, por meio da prática da capoeira, possa aprender e atingir todas as suas potencialidades, como o Mestre Curumim [Valter Fernandes, da Escola Capoeira Cidadã, no Rio de Janeiro] comprovou em seu estudo, na universidade. Nós também tivemos esses resultados no trabalho de 45 anos da capoeira inclusiva e adaptada do Mestre Ponciano, que hoje é patrimônio cultural imaterial de Guaratinguetá, no estado de São Paulo. Esse trabalho nos ensinou que aquelas pessoas que ficavam presas em casa podiam mostrar para seus familiares que elas percebem mais do que os outros acreditavam, que elas entendem mais do que os outros imaginavam. [Isso é reforçado] Quando vemos um mestre com síndrome de Down, como Mestre Gerrão, o primeiro mestre com síndrome de Down no mundo, tocar vários toques no atabaque, saber entrar em diferentes tipos de jogos de capoeira, com práticas diferentes, pois para cada toque é um tipo de jogo; saber aplicar aquilo em uma criança ou saber jogar de forma ofensiva com um adulto. Foi o que afirmou o neurologista Antenor Chicarino, que acompanhou por 21 anos esse projeto [da capoeira inclusiva], por meio da multidisciplinaridade, quando deu uma entrevista para a revista Superinteressante, em 2001: ele fala que a capoeira consegue acionar partes do cérebro com uma facilidade, não somente com exercícios fatigantes e repetitivos, mas através de uma troca com prazer.

Como as técnicas de defesa propostas pela capoeira podem ajudar em uma relação mais saudável com nosso corpo?

Ela propõe uma atitude de defesa que rapidamente é percebida por uma pessoa com deficiência. É o instinto do ser humano. Você vê um pé que vai bater em você e precisa sair daquele pé. Se a pessoa não percebe isso, a gente vai ensinar que aquele pé é perigoso e que ela tem que se defender. A capoeira tem vários níveis de trabalho. Um dos níveis realmente é mental, é de reconhecimento, e esses processos não são externos. Eles são internos. Ela promove benefícios imensos na saúde mental, não só para pessoas com deficiência, como também pessoas idosas, promovendo uma reação muscular que melhora a qualidade de vida, porque o corpo reage com prazer. E isso faz com que a pessoa se entregue mais e o resultado seja mais rápido. Hoje em dia, por exemplo, estou levando a capoeira para uma prática dentro de uma Unidade Básica de Saúde (UBS). É o novo projeto social da Secretaria de Esportes [de Guaratinguetá]. Eles pegaram a capoeira inclusiva, que fazemos em comunidades carentes ou com jovens num complexo esportivo, e levaram para uma unidade de saúde. E eu entendi que esse treino não deveria se chamar capoeira, e sim “treino cultural”, para tirar alguns preconceitos que as pessoas têm que os limita fisicamente e mentalmente. Com isso, tenho feito esse projeto na UBS, com o treino cultural por meio da capoeira e das nossas danças afro-brasileiras. Assim, a pessoa consegue encontrar um ambiente em que ela é acolhida. Esse é o primeiro passo para ela poder se sentir à vontade e segura para alcançar alguns lugares da mente que ela não conhece.

Qual é o papel das lideranças femininas na capoeira? Que tipos de resistência você enfrentou ao longo da trajetória? 

Eu iniciei a capoeira em 1980. Na época que eu comecei, havia poucas mulheres, duas ou três no máximo. Criança não tinha. Às vezes vinha o filho de um graduado participar, mas não eram crianças numa turma. Isso não tinha na década de 80, no Rio de Janeiro. Aqui em Guaratinguetá, tinha, porque o Mestre Ponciano já trabalhava com umas 100, 120 crianças naquela época. A capoeira realmente era masculina, pela característica de luta, porque ela é uma luta. Ela estava associada à prática do contato, com resultados dentro da roda. Eu senti que tinha que achar um espaço para poder praticar. Eu tive que insistir muito para que as pessoas aceitassem que aquela mulher iria entrar na roda mais vezes do que eles estavam acostumados. Quando comecei a tocar e a cantar, eu tive que insistir mais para poder me manter tocando e cantando. 

Mestra Morena é uma liderança do movimento de mulheres negras da região de Guaratinguetá (SP). — Foto: acervo pessoal.

Como foi sua trajetória até se graduar como mestra?

Eu iniciei no Grupo Senzala no Rio de Janeiro e depois passo pelo Grupo Cordão de Ouro, quando venho para Guaratinguetá. E há três anos, nós resgatamos a primeira construção de Guaratinguetá, que foi a Associação Conceição da Praia, que tem um símbolo com dois homens jogando capoeira, que hoje nós trouxemos para o nosso grupo Biriba Berimbau. No Grupo Cordão de Ouro, é que vejo essa grande mudança, pois foi onde alcancei a minha mestria, através do reconhecimento do meu mestre Ponciano e de um grande mestre da capoeira, Reinaldo Ramos Suassuna [Mestre Suassuna], que é uma pessoa com muita representatividade, por ser um baiano em São Paulo, que movimentou o mundo da capoeira. Quando ele me gradua, ele faz questão de reconhecer a importância das mulheres, ao dizer: “Você canta, você toca, você joga, mas claro! Por que não? Você é uma mestra!”. Eu fui a primeira mestra graduada no grupo Cordão de Ouro e eu não me lembro de muitas outras no período. Me lembro da mestra Edna e a mestra Sueli no Rio. Mas não tinham muitas. 

O que a presença das mulheres trouxe de transformações para a capoeira?

Esse reconhecimento permite que a presença da mulher venha junto com a entrada das crianças. A capoeira passa a dizer: “não sou só para homens, eu sou para mulheres, eu sou para crianças”. E quando vem a capoeira inclusiva e adaptada, eu acho que ela diz: “eu sou para todas as pessoas”. E hoje em dia ela é para todas as pessoas, alcançando até um público LGBT, que também utiliza a capoeira para buscar reconhecimento. Atualmente, sou presidente do Instituto Mestre Ponciano Arte, Cultura e Diversidade. Hoje eu uso a palavra diversidade no lugar de inclusão. Com o trabalho que faço hoje, percebo que a inclusão não é mais somente social. Nós temos um trabalho na Amazônia há 33 anos. A inclusão também é ambiental. É de novas práticas para que a gente possa manter a nossa floresta de pé e permitir às novas gerações terem ar para respirar no futuro. A inclusão passou a ser um termo que ficou pequeno para a capoeira. Como mulher, como uma mulher preta, como uma mulher que tem uma formação universitária, no campo do jornalismo, como comunicadora, eu vejo que para a gente alcançar a paz, a proteção do nosso globo terrestre, a diversidade se faz necessária. 

Como esse olhar para a diversidade contribui para pensar o futuro?

Pelo resgate que a mulher vem fazendo da sua liberdade, do seu espaço, da sua fala, ela pode contribuir muito com o entendimento e a administração de estratégias para melhorar o nosso mundo. A mulher preta também está tendo que rever seus conceitos, e eu digo por mim, no sentido de pensar que essa luta não é só minha. Essa luta é da humanidade — e passa por se reconhecer e achar a sua liberdade. Quem realmente está livre e livre de quê? O que é liberdade para você? Você se conhece? Esse processo não é só meu. Esse processo é seu também, porque você sabe quem você é? Esse processo não é preto, não é branco, não é de mulher, não é de homem. É um processo do ser humano que está sendo prensado pelo tempo para que possa reagir, para que esse mundo possa existir por mais longos anos sem se acabar em guerras, em bombas, em falta de água, como a gente tem visto nessas catástrofes. É uma necessidade do ser humano alcançar esse autoconhecimento — e rápido. Quando começo a trabalhar no Conselho Municipal de Cultura, a ajudar a formar o Coletivo Baobá, que depois vira o Instituto Baobá, a fundar a Associação Sábias da Paz, que reúne Umbanda, Candomblé, espíritas e sábios da espiritualidade em Guaratinguetá, que é uma instituição com a qual eu também contribuo, é porque vejo que hoje em dia precisamos acordar o máximo de segmentos, e esses segmentos precisam trabalhar juntos. A nossa luta não pode ser só individual ou só de um coletivo. Ela tem que ser um trabalho de conscientização. E essa conscientização é um processo de busca de saúde mental do ser humano, pelo ponto em que ele está hoje em dia, perdido de si. Nós precisamos acordar todos, com esse trabalho circular, deixando os nossos preconceitos, buscando estratégias para sermos rápidos e podermos salvar o nosso planeta.

Sem comentários
Comentários para: Capoeira para todas as pessoas

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anexar imagens - Apenas PNG, JPG, JPEG e GIF são suportados.

Radis Digital

Leia, curta, favorite e compartilhe as matérias de Radis de onde você estiver
Cadastre-se

Revista Impressa

Área de novos cadastros e acesso aos assinantes da Revista Radis Impressa
Assine grátis