Já era quase madrugada quando Maria percebeu que alguma coisa estava errada. Na época com 25 anos, ela foi até o quarto que dividia com a namorada e a encontrou desmaiada. Cibele, um ano mais nova, precisava de atendimento médico urgente após uma tentativa de suicídio. Logo Maria entrou em ação, ligando para a emergência e recebendo instruções do que fazer. Levou a namorada às pressas à Unidade de Pronto Atendimento (UPA), no Rio de Janeiro, enquanto ela oscilava entre o delírio e a perda de consciência.
Ao chegar lá, Cibele foi levada diretamente para uma sala, onde iniciaram um procedimento com uso de uma sonda. As enfermeiras que estavam atendendo logo começaram a fazer “cara feia”, como Maria contou à Radis. Quando Cibele reclamava de dor, chegou a ouvir frases como: “Agora tem que aguentar, ninguém mandou [fazer isso]”.
A namorada relatou sentir como se estivessem “castigando” Cibele. Ouviram frases falando de Deus ou lamentando por ser “uma menina tão bonita”. Atualmente estudante de Ciência da Computação e moradora do Rio de Janeiro, ela estava vivendo um quadro de depressão grave e, após esse episódio, conseguiu seguir o tratamento até a melhora.
Cibele disse que não gosta de lembrar desse momento da sua vida, por isso pediu para que não fosse identificada — os nomes usados na sua história são fictícios. Ela relata que não percebeu o que estava acontecendo por estar dopada, mas quando soube ficou triste e confusa. O seu caso, infelizmente, não é isolado.
Denúncias de tratamento antiético motivado por crenças e julgamentos morais de profissionais de saúde são constantes na imprensa. Em abril de 2025, uma paciente de um hospital público do Rio de Janeiro ouviu que “só Jesus salva, só Jesus liberta” quando reclamou sobre o desaparecimento de suas guias [fios de conta ligados às religiões de matriz africana]: elas haviam sido jogadas fora. A mulher tratava um câncer de mama, segundo noticiou o G1 (24/4/25).
No mesmo estado, em janeiro de 2024, o Ministério Público Federal (MPF) recomendou a um hospital particular que elaborasse um protocolo de atendimento aos pacientes praticantes das religiões de matriz africana. A decisão ocorreu após a denúncia de uma pessoa que sofreu queimadura de segundo grau no antebraço esquerdo durante procedimento cirúrgico na lombar. O homem afirmou que foi queimado exatamente onde havia uma tatuagem em homenagem ao orixá Ogum, conforme noticiado pela Folha de S. Paulo (9/1/24).
Situações em que convicções pessoais e religiosas interferem no atendimento de profissionais de saúde podem gerar diferentes formas de violência e violações de direitos. Essa é a discussão que Radis aborda: qual é o limite entre o que o profissional de saúde acredita e a ética profissional?
A palavra é respeito
A liberdade individual encontra limite quando passa a causar dano a outras pessoas. Essa ideia, associada ao filósofo inglês John Stuart Mill (1803-1876), é amplamente difundida nos estudos sobre ética. O pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), docente e coordenador-geral do Programa de Pós-graduação em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva da Fiocruz, Sergio Rego, afirma que o ser humano é um ser social e deve-se levar em conta como as suas ações repercutem nas outras pessoas.
A base das decisões profissionais precisa ser técnica. “Ela não deve ser baseada na fé, na crença ou na interpretação específica de uma pessoa ou de um grupo acerca de escritos que são considerados sagrados”, afirma o médico, que também é membro do Conselho Científico da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB).
Na prática, todos têm direito à sua crença e ela pode ser válida para o indivíduo, mas não deve ser imposta ao outro. “A teodiceia é como a filosofia vai explicar as decisões de acordo com a vontade divina, o que inclui o sofrimento como sendo algo positivo, porque Jesus sofreu”, afirma Sergio. Segundo ele, existem religiões que pregam que o sofrimento é uma punição. De acordo com esse raciocínio, se a pessoa acredita que uma tentativa de suicídio ou aborto é pecado, ela vai entender que precisa de punição.
Sergio explica que essas visões podem também ser influenciadas por concepções políticas. “Uma vez eu estava no elevador de um hospital e ouço um estudante comentando com outro em voz alta: ‘Esse plantão, eu suturei um bandido sem anestesia, mandei amarrar na maca e o bicho pulava que nem porco’”, relembra. Ele declara que há algo de perverso na forma como esses profissionais estão sendo formados e comprendem a sua missão, a ponto de se sentirem confortáveis em relatar isso em público.
O que a pessoa acredita não deveria importar para fins de exercício profissional, principalmente no atendimento em saúde, no qual ele é a autoridade e existe desequilíbrio de poder, afirma Sergio. “No exercício profissional, uma palavra que é fundamental é: respeito”, declara.
“Para a gente saber o que é melhor para outra pessoa, a gente tem que perguntar”, diz. O pesquisador explica que nem sempre se colocar no lugar do outro é suficiente. “O máximo que vou conseguir é imaginar como eu, com os meus valores, história de vida e crenças, reagiria se estivesse nessa situação específica”, reflete.
Para isso, é importante a defesa de direitos como autonomia do paciente, autodeterminação, consentimento e confidencialidade, acrescenta Sergio. Esses e outros direitos estão agora assegurados na Lei nº 15.378, sancionada em abril de 2026, que institui o Estatuto dos Direitos do Paciente.
Sergio explica que a lei é uma conquista, mas sozinha não é suficiente. “Precisamos fazer com que seja implementada”, diz. “É importante que tenha comissões de bioética, de direitos dos pacientes e ouvidorias dentro dos hospitais, para que essas denúncias possam chegar a quem é de direito”, completa.
As pessoas têm medo de denunciar porque o desequilíbrio de poder é grande. De acordo com o pesquisador, é comum o receio de uma retaliação, por isso a necessidade de existir uma estrutura que possa fazer essa mediação. Ele explica que uma régua importante da ética é se perguntar se quem cometeu o ato teria coragem de assumir o que fez e arcar com as consequências.
A violência afasta pacientes
Aos 23 anos, Laila Marques, relações públicas (RP), marcou uma consulta com uma ginecologista em sua cidade, São Luís (MA). Durante o atendimento, contou que queria fazer o preventivo e respondeu às perguntas básicas, como a data da última menstruação. Quando perguntada sobre métodos contraceptivos, explicou que não usava nenhum e, antes mesmo de conseguir continuar, foi interrompida pela médica, que começou um grande sermão sobre riscos de gravidez, chamando-a de irresponsável e afirmando que ela era muito jovem. A RP também notou que em nenhum momento ela falou sobre infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), apenas gravidez.
Quando, enfim, acabou o sermão, Laila explicou que é uma mulher lésbica, que estava em um relacionamento exclusivo há alguns meses e por isso não usava contraceptivos. O tom da profissional ficou ainda mais agressivo e ela se recusou a fazer o preventivo na paciente, afirmando que, “por ela ainda não ter tido relações sexuais”, não poderia fazer, considerando relação sexual apenas a heterossexual.
Laila exigiu o procedimento, já que a consulta havia sido paga, afirmando que era “lésbica e não virgem”. Porém, como estava muito nervosa pela situação, o preventivo foi bem doloroso. A RP conta que agora, com 32 anos, teria uma postura diferente, simplesmente teria ido embora.
Experiências como essa acabaram fazendo Laila ter um pouco de receio de ir a consultas. Ainda mais por ser uma mulher preta e gorda e, por causa de suas características, sempre ser avaliada de forma superficial e com preconceitos. Ela tenta não deixar de fazer suas consultas de rotina, mas guarda o trauma.
O corpo de pessoas com vagina e os direitos reprodutivos são assuntos delicados quando se fala de respeito ao limite profissional. Outro exemplo é como abortos legais são desencorajados ou negligenciados. Crianças e adolescentes vítimas de estupro muitas vezes têm seu direito negado por pessoas que se posicionam contra o aborto [Leia mais sobre na Radis 283].
Em agosto de 2020, uma menina de apenas 10 anos, grávida vítima de estupro, teve que sair da sua cidade no Espírito Santo e procurar atendimento em Recife (PE), por meio de ação judicial. A criança, que foi estuprada pelo tio desde os 6 anos, foi recebida junto com a avó por ativistas radicais pró-vida na frente do hospital, com cartazes chamando o médico que faria o procedimento de “assassino”.
O movimento Católicas pelo Direito de Decidir, que defende o direito da mulher às decisões relacionadas ao próprio corpo, incluindo o aborto, lançou a cartilha “Ética Profissional e Ética Cristã”, que tenta dialogar sobre crises e conflitos de crenças em pessoas cristãs.
O pesquisador Sergio afirma que, de acordo com a Constituição Brasileira, a vida — nesse caso, desde a concepção — “não pertence ao indivíduo, é um bem tutelado pelo Estado”. A proibição do aborto em qualquer situação e da eutanásia são exemplos disso.
Psicólogos cristãos
A psicóloga G*, de Goiânia, com 32 mil seguidores no Instagram, foi denunciada ao Conselho Regional de Psicologia (CRP) por se autodeclarar “psicóloga cristã”. Em um vídeo em sua página, defendeu-se dizendo que o motivo da denúncia foi o fato de “ter expressado sua fé”. A situação, na verdade, é que ela produz conteúdo nas redes sociais em que utiliza a autoridade de psicóloga para falar de saúde mental aliada a valores evangélicos.
Ela conta que ora pelos pacientes antes de cada sessão e agradeceu por ter tido a “honra de ser denunciada em nome de Deus”, mas defende que sua prática terapêutica não discrimina ninguém. E não parou de produzir os vídeos após a denúncia.
Uma busca feita por Radis nas redes sociais identificou outros perfis que utilizam a mesma nomenclatura e defendem essa “especialidade” na psicologia. Existem, inclusive, cursos de graduação e pós-graduação unindo a formação em Psicologia com a visão cristã. Os anúncios falam que as pessoas sentem que “a espiritualidade aparece na prática com mais frequência do que a formação universitária preparou para enfrentar”.
Os valores dos cursos variam entre R$ 500 e R$ 10 mil e alguns afirmam ter o reconhecimento do Ministério da Educação. Um deles, que se denomina “psicoteológico”, tem como objetivo estimular a fé e a ética cristãs nas atividades profissionais ligadas à psicologia, psiquiatria e afins. Defende a igreja como corpo de Cristo e como comunidade terapêutica [Leia sobre os riscos de aliar saúde mental com religião nas comunidades terapêuticas na Radis 284].
O Conselho Federal de Psicologia (CFP) se manifestou sobre o assunto por meio da Resolução nº 07/2023 que dispõe sobre a laicidade no exercício da profissão. Em entrevista à Radis, Ivani Oliveira, mestra em Psicologia com ênfase em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e presidenta do CFP, explica que a instituição tem o compromisso inegociável da psicologia com a ciência, a ética e a defesa irrestrita dos direitos humanos.
Na prática, significa dizer que o profissional pode ter sua crença religiosa como direito individual e inalienável do cidadão, protegido pela Constituição Federal, afirma Ivani. “O limite ético e técnico ocorre no exato instante em que o profissional utiliza a sua posição de autoridade científica, o espaço do consultório, a divulgação pública da profissão ou o título de psicóloga(o) para induzir, impor ou promover dogmas e convicções pessoais”, explica.
Ivani defende que, enquanto a fé permanece no âmbito da vida privada do cidadão, ela é uma expressão individual livre. A partir do momento em que é levada para o atendimento ou para a publicidade dos serviços — incluindo as redes sociais —, ela invade o campo ético, fere a laicidade e compromete o rigor científico da profissão.
A respeito da denominação “psicologia cristã” e sobre os cursos, Ivani ressalta que a psicologia é uma ciência e profissão regulamentada, cujos métodos e intervenções derivam do acúmulo científico universal, testado, validado e plural. “Ao atrelar a palavra psicologia a um recorte confessional específico, seja ‘cristã’, ‘espírita’ ou de qualquer outra matriz, cria-se um conceito híbrido que induz a sociedade ao erro. O público passa a acreditar que dogmas, doutrinas ou preceitos morais de uma religião possuem validação científica”, diz.
A presidenta do CFP conta que continuamente chegam demandas e denúncias ao Sistema de Conselhos sobre a Resolução 07/2023, como o caso relatado nesta reportagem. “Recebemos denúncias que envolvem desde o uso de redes sociais para ofertar ‘terapias confessionais’ atreladas ao título de psicólogo(a), até relatos de pacientes que sofreram tentativas de direcionamento moral ou doutrinário em sessão, incluindo violência simbólica contra a diversidade sexual e de gênero”, afirma. Segundo ela, todas as denúncias tramitam sob o devido processo legal nos CRPs, assegurando o contraditório e a ampla defesa.
Ainda que o profissional acredite que a sua espiritualidade é positiva para a saúde mental, não deve mencionar ou induzir isso em nenhum espaço. Ivani explica que, embora a religiosidade possa funcionar como fator de suporte para muitas pessoas, também pode ser fonte de intenso sofrimento psíquico, culpa e repressão (como nos casos de rejeição familiar por motivos religiosos). “Pressupor que a fé é um bem universal limita a avaliação profissional para as contradições do sujeito e impõe um viés moral sobre a experiência do paciente”, declara.

Direitos Garantidos pelo Estatuto do Paciente
- Autonomia e Consentimento: permite aceitar ou recusar procedimentos após receber informações claras
- Diretivas Antecipadas: validade de declarações escritas com escolha ou recusa de tratamento para quando o paciente não puder se expressar
- Direito ao acompanhante: em internações e procedimentos
- Informação e Sigilo: acesso ao prontuário médico, respeito à privacidade e confidencialidade dos dados
- Atendimento sem qualquer tipo de discriminação (religião, sexo, raça, orientação sexual, identidade de gênero, entre outras)
Serviço
Leia a cartilha Ética Profissional e Ética Cristã:
https://bit.ly/eticaprofissionalecrista



