Nesta edição, Radis reúne três repórteres — Adriano De Lavor, Bruno Dominguez e Glauber Tiburtino — para traçar um panorama das mudanças climáticas no contexto brasileiro. Historicamente focado na mitigação — com a redução de emissões visando conter o aquecimento global em 1,5 °C —, o debate agora incorpora a adaptação com a mesma urgência, encarando a incapacidade no cumprimento dessa meta e a necessidade imediata de proteger vidas e territórios.

A emergência climática deixou de ser uma ameaça abstrata do futuro para se tornar a realidade cotidiana de milhões de brasileiros. Do interior do Semiárido, o aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos — como secas severas, tempestades atípicas e a secagem de leitos fluviais — impõe transformações profundas no modo de vida, no trabalho e na saúde da população. No entanto, esses impactos não se distribuem de maneira uniforme: eles atingem com mais força as populações e territórios que já vivenciam contextos de vulnerabilidade social e econômica.

Frente a esse cenário, emerge com urgência a perspectiva da justiça climática. É inaceitável que comunidades tradicionais, pescadores artesanais, agricultores familiares e catadores de materiais recicláveis — justamente os segmentos que menos contribuem para a degradação ambiental e para as emissões de gases de efeito estufa — sejam os que mais sofrem suas consequências diretas.

Mais do que vítimas, porém, essas populações têm se consolidado como a linha de frente do cuidado e da conservação do meio ambiente. Lideranças comunitárias e movimentos sociais, com protagonismo marcadamente feminino, ensinam cotidianamente que a convivência sustentável com o clima exige o respeito aos ciclos da natureza e o uso de tecnologias sociais comprovadas, como cisternas, bancos de sementes e o manejo artesanal da pesca. Nas cidades, a atividade diária das catadoras e dos catadores é peça fundamental para evitar o esgotamento de galerias pluviais e alagamentos, desempenhando um serviço essencial à coletividade que permanece, lamentavelmente, invisibilizado e desprovido da devida proteção social.

Tratar a crise climática é, também, uma questão de saúde pública. A degradação dos solos e o esgotamento das águas afetam diretamente a segurança alimentar, provocam o surgimento de patologias físicas e desencadeiam quadros de ansiedade e sofrimento psíquico. Nesse panorama, o Sistema Único de Saúde (SUS) desempenha papel central e estratégico. Contudo, para responder às exigências da crise ambiental, o sistema de saúde não pode ser apenas reativo. É imprescindível fortalecer a Atenção Primária, flexibilizar horários de atendimento para trabalhadores do campo e das águas, reconhecer saberes ancestrais e garantir ações ostensivas de prevenção e vigilância em saúde nos locais mais remotos.

Conforme a premissa de que não existe saúde sem um território saudável, as políticas públicas voltadas à adaptação e à transição ecológica não podem ser desenhadas em gabinetes isolados. Para que o Brasil construa caminhos efetivos de resiliência e preservação da vida diante da crise do clima, torna-se indispensável ouvir, valorizar e integrar quem vivencia e defende a terra e as águas todos os dias. Afinal, qualquer solução climática e sanitária justa e duradoura precisa ser construída com a participação direta desses atores — sob a máxima inegociável do: nada de nós sem nós.

Em outro destaque desta edição, os profissionais presentes no Seminário Nacional intitulado “Desmedicalização da Vida” — realizado na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) e acompanhado pela repórter Paula Passos — alertaram para a crise silenciosa do uso excessivo de psicofármacos. O alerta recai especialmente sobre o público infantil e juvenil, cuja medicalização precoce pode transformar sofrimentos sociais e pedagógicos em diagnósticos e prescrições de remédios. A reportagem ressalta que tais práticas são agravadas pelas desigualdades e pelo subfinanciamento do SUS, em um cenário no qual os caminhos prioritários deveriam se pautar pela escuta e pelo acolhimento.

A saúde pública brasileira vive um momento decisivo, no qual defender o SUS deixou de ser apenas uma pauta setorial para se tornar um imperativo de soberania nacional e fortalecimento democrático. As discussões preparatórias para a 18ª Conferência Nacional de Saúde (CNS) deixam claro: quem detém a infraestrutura, os dados e os recursos da saúde dita os rumos do próprio país.

O primeiro grande alerta da 2ª Conferência Livre, Democrática e Popular de Saúde, realizada em 28/8, no Rio de Janeiro, diz respeito à soberania digital. A permanência de dados sensíveis da população brasileira em servidores controlados por multinacionais estrangeiras submete o Estado a vulnerabilidades estratégicas e jurídicas inaceitáveis. Frente a essa dependência tecnológica, a consolidação da soberania digital popular na saúde exige investimento urgente em infraestrutura pública nacional de dados, regulação rigorosa e a proibição irrestrita da comercialização das informações de saúde dos cidadãos.

Além da proteção de dados, o futuro do SUS exige o enfrentamento firme das pressões privatistas e do subfinanciamento crônico. A Carta Compromisso entregue pela Frente pela Vida ao Ministério da Saúde aponta o caminho indispensável: a meta de investir, no mínimo, 6% do PIB na saúde pública, a garantia de um SUS 100% público — pautado pelo direito, e não pelo mercado — e a efetiva valorização da força de trabalho que sustenta o sistema.

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