Ao desembarcar pela primeira vez na América do Sul, em sua 26ª edição, a Conferência Internacional de Aids (Aids 2026) colocou o mundo diante de uma questão incômoda: por que os avanços científicos em relação à prevenção e ao tratamento do HIV não estão disponíveis a todas as pessoas? O encontro promovido pela Sociedade Internacional de Aids (IAS) no Rio de Janeiro, em julho, ocorreu em um país estratégico, pois a resposta brasileira à aids dada pelo SUS tem mostrado, ao longo de décadas, que sem equidade não há garantia de saúde.

O mundo, porém, parece caminhar em sentido contrário: os cortes de investimentos implementados por Donald Trump, nos Estados Unidos, já prejudicam a oferta de assistência às pessoas que vivem com HIV e afetam pesquisas e estratégias para prevenção de novas infecções. Em paralelo, empresas e laboratórios multinacionais insistem em colocar o lucro acima da vida, o que afeta principalmente populações e países com mais vulnerabilidades.

Os repórteres Adriano De Lavor e Lara Souza acompanharam os debates durante a Aids 2026 e mostram como cientistas e ativistas estão trabalhando para diminuir o abismo entre os avanços científicos e a oferta real de cuidado, mesmo em um contexto global desfavorável. O relatório do Unaids, programa das Nações Unidas para HIV/aids, divulgado no encontro, indica que cerca de 41 milhões de pessoas vivem com HIV no mundo, porém 8,9 milhões delas ainda continuam sem tratamento, sendo 46% crianças. “Não são apenas números, são vidas humanas”, declarou Winnie Byanyima, diretora executiva da organização.

Uma das contradições que melhor explicita a disparidade entre o que a ciência avançou e o que de fato tem chegado às pessoas que mais precisam foi denunciada nos protestos no encontro: Brasil e outros países da América Latina ficaram de fora dos acordos com o fabricante Gilead para produção e venda de genéricos do lenacapavir, uma versão injetável da PrEP [Profilaxia Pré-Exposição], mesmo tendo participado das fases de teste. A estratégia que o SUS atualmente oferece gratuitamente a populações-chave por meio de comprimidos diários poderia encontrar ainda melhor adesão em uma simples injeção, com duas aplicações por ano. “Lenacapavir: testado no Brasil, negado aos brasileiros”, expressavam cartazes de manifestantes.

As discussões durante a conferência mostram que o problema da aids não é falta de dinheiro nem de esforço científico: o que faz com que pessoas continuem sem acesso a tratamento e prevenção são decisões políticas. Essa realidade é ainda mais agravada pelo avanço do conservadorismo e de restrições aos direitos de mulheres, pessoas LGBTQIAPN+ e grupos que necessitam de cuidados específicos por conta de vulnerabilidades.

O que parece faltar na atual resposta global ao HIV é a noção de equidade que o SUS colocou em seus princípios e fez com que o programa brasileiro de aids se tornasse referência mundial na oferta de tratamento antirretroviral, em um tempo em que o diagnóstico parecia ser uma sentença de morte. Beatriz Grinsztejn, pesquisadora da Fiocruz e atual presidente da IAS, lembrou o legado estratégico do Brasil ao ressaltar que a ciência deve andar de mãos dadas com boas decisões em políticas públicas para enfrentar as desigualdades. 

As barreiras que impedem a população de usufruir, em seu cotidiano, dos benefícios advindos da ciência é tema de outra reportagem, assinada por Jesuan Xavier, que aborda os impasses das patentes, nos 30 anos da Lei de Propriedade Industrial (Lei nº 9.279 de 1996). A pandemia de covid-19 mostrou que o Brasil continua dependente da importação de medicamentos e insumos estratégicos para o SUS, mesmo tendo pesquisa de ponta em várias áreas, e isso se deve em grande parte a interesses mercadológicos que espoliam investimentos públicos, mas não trazem retornos efetivos à população. “Patente não pode estar acima do direito à saúde”, declarou Susana van der Ploeg, integrante do Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual (GTPI).

Afirmar a soberania do direito à saúde e o valor da vida acima da mercadoria é lembrar a luta de Sergio Arouca (1941-2003), cujo legado é revisitado em texto de Licia Oliveira, que resgata registros históricos do sanitarista a partir do acervo do Programa Radis. Presidente da histórica 8ª Conferência Nacional de Saúde e da própria Fiocruz durante a redemocratização, Arouca foi um dos responsáveis por ancorar o SUS sobre os alicerces de que a saúde é dever de Estado e direito de todos.

Na definição do pensador brasileiro Carlos Nelson Coutinho, cidadania é a capacidade conquistada pelos indivíduos de “se apropriarem dos bens socialmente criados” — em outras palavras, de terem o direito de usufruir de todas as potencialidades da realização humana. Se a ciência e o SUS têm a possibilidade de oferecer recursos que garantem qualidade de vida, promover o acesso a esses bens e serviços é, antes de tudo, tornar essas pessoas cidadãs.

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