O nome Minayo é recorrente em teses, dissertações, livros e artigos acadêmicos das áreas de ciências sociais, saúde coletiva e educação, entre outras. Contudo, quem cita a grande referência brasileira em pesquisa qualitativa pode não conhecer a dedicação, a gentileza, a disposição à escuta e, sobretudo, a história de vida da mineira Maria Cecília, que herdou o sobrenome Minayo do esposo espanhol Carlos, seu grande companheiro.

Radis de agosto rende homenagens em vida ao legado de Maria Cecília de Souza Minayo para a ciência brasileira, o SUS e as políticas públicas, destacando a interlocução de suas pesquisas com as necessidades concretas da população brasileira. Mais do que um resumo de sua biografia, a entrevista e o perfil publicados nesta edição convidam leitores e leitoras a conhecerem a genialidade e a simplicidade da mulher que, aos 88 anos, continua com energia para pensar o Brasil e as questões de saúde do seu povo.

Alguns depoimentos nas redes sociais de Radis, quando a entrevista com a pesquisadora emérita da Fiocruz foi divulgada, revelam o encantamento em descobrir a figura por trás do nome tão citado. “Foi referência na escrita da minha dissertação, mas não conhecia seu rosto”, escreveu a leitora Consolação Linhares sobre Cecília.

“Orgulho de ter sido sua aluna no mestrado e no doutorado e ter lhe citado tantas vezes”, disse Taiza Ferreira. “Minayo aparece não só nas ciências sociais como também é referência metodológica pra gente da educação. A mulher é fera nas humanidades”, comentou Gislaine Kalinowski. “Está em quase todos os meus artigos! Muito potente essa mulher”, destacou Emanoel Ribeiro. “Mulher maravilhosa! Aprendi tudo que sei de pesquisa com ela! Uma intelectual completa, pesquisadora generosa, professora incrível, cidadã comprometida, pessoa gentil”, registrou Regina Bortolini.

As múltiplas vozes que demonstram o carinho unânime de diferentes gerações de pesquisadores e estudantes por Cecília Minayo também destacam a essência do que constitui o seu modo de fazer pesquisa: a escuta. A arte de ouvir exige a capacidade de se colocar disponível para o outro, de se abrir ao encontro e de se mobilizar. “Se eu posso dizer que tenho uma especialidade, é trabalho de campo. É ouvir as pessoas”, ela sintetizou.

Inspirados pelos exemplos da própria entrevistada, os repórteres Licia Oliveira e Glauber Tiburtino ouviram, durante mais de duas horas, os relatos da professora, socióloga, escritora, pesquisadora e, por fim, sanitarista homenageada com a primeira carteirinha da profissão, em abril de 2026. A conversa no apartamento de Cecília, no Rio de Janeiro — que contou ainda com a presença do coordenador e editor-chefe de Radis, Rogério Lannes, do fotógrafo Eduardo Oliveira e deste que escreve, agraciados com um cafezinho e um pedaço de bolo na melhor tradição mineira —, permitiu que memórias e reflexões viessem à tona para compor a homenagem a alguém cuja vida se liga diretamente à construção da saúde coletiva brasileira.

A trajetória de Cecília mostra que ela trouxe o olhar das ciências sociais para a saúde e fez da pesquisa um caminho para transformar realidades. Essa vocação aparece em sua passagem pela educação popular, ainda nos anos 1960, continua nos estudos sobre os trabalhadores da mineração, chega à saúde coletiva e se consolida na pesquisa qualitativa e nas reflexões sobre violência.

Seja como a primeira mulher a presidir a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), na criação do Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (Claves) ou da Revista Ciência & Saúde Coletiva (da qual é editora-chefe há 30 anos), ou ainda nas inúmeras frentes de atuação na Fiocruz, Cecília sempre demonstrou uma visão estratégica sobre a ciência, sintetizada na frase: “Qualquer pesquisa na área da saúde tem que trazer uma contribuição concreta, seja teórica, seja prática”.

Nesse mesmo empenho de ouvir, a repórter Lara Souza acompanhou o Encontro do Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas (MNCP), em Fortaleza, que reuniu mulheres de todo o Brasil que vivem com HIV. Em 2021, no marco dos 40 anos da pandemia de aids, tive a oportunidade de entrevistar cinco dessas mulheres e contar suas histórias na reportagem de capa da Radis 231. Cinco anos depois,[1]  as ativistas abordaram temas como a maternidade vivendo com HIV e a eliminação da transmissão vertical no país.

Mulheres que vivem com uma doença pouco conhecida, mas que impacta sua rotina e autoestima, também foram ouvidas na matéria de Paula Passos sobre lipedema. Rogério Logrado, médico de família e comunidade, utiliza a metáfora da “APS Caramelo”, em referência aos simpáticos cachorros caramelos, para defender uma Atenção Primária à Saúde (APS) enraizada no território e atenta à realidade. Em tempos em que as pessoas parecem cada vez menos dispostas a se ouvirem, valorizar a escuta é um caminho para fortalecer a comunicação, a cidadania e o direito à saúde.

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