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No consultório da psicóloga Ruth Gelehrter da Costa Lopes, em São Paulo, os idosos revelam a angústia de sentir que, por conta da juventude que ficou para trás, suas vidas passaram a ser consideradas descartáveis. “Ouvimos que o isolamento ocorreu para não contaminar os velhos, mas também que eles poderiam morrer para a sociedade continuar ativa. Isso é o mesmo que dizer que os nossos idosos são inúteis, que não vale a pena investir neles, que estão atrapalhando o caminhar produtivo da sociedade”, afirma Ruth, que é professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e coordenadora da Clínica Psicológica Ana Maria Poppovic, que faz atendimentos terapêuticos para idosos em grupos. Doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em questões de envelhecimento e finitude, a psicóloga analisou, em conversa com a Radis, o fenômeno do etarismo, e defendeu que é preciso buscar um novo olhar sobre os idosos e sua fragilidade.

De que forma a pandemia reforçou o preconceito aos idosos?

O etarismo aponta para uma realidade que estava subnotificada ou escondida. A pandemia escancarou esse preconceito e os velhos foram culpabilizados. Ouvimos que o isolamento ocorreu para não contaminar os idosos, mas também que eles poderiam morrer para a sociedade continuar ativa. Isso é o mesmo que dizer que os nossos idosos são inúteis, que não vale a pena investir neles, que estão atrapalhando o caminhar produtivo da sociedade. Há muito que sinalizamos que os estereótipos em torno do envelhecimento falam de uma velhice que é desconhecida, e de como essa visão está presente em todas as áreas do conhecimento e do senso comum. Basta vermos os dados de violência, a realidade dos mais velhos, a falta de acesso aos recursos públicos e as políticas públicas despreparadas para o acolhimento de idosos para percebemos que o preconceito está mais impregnado do que a gente poderia imaginar.

Por que a fragilidade é um dos principais elementos da rejeição de idosos?

A fragilidade física é tida como um defeito dos velhos. Eles são vistos como um estorvo porque correm mais riscos. Precisamos debater este tema. A gente está falando que indivíduos frágeis e que possuem problemas físicos não têm lugar na nossa cultura? Isso é muito sério. Olhar para as necessidades dos mais velhos é ampliar os horizontes de um bem-estar que reverte para o coletivo. Tanto que a gente fala que uma cidade amigável para os idosos é favorável para todos.

É possível pensar que há diferentes velhices?

Não existe uma velhice, mas velhices, no plural. Quando a pessoa atinge a idade cronológica definitiva, no sentido das definições que existem, passa a fazer parte de um bloco homogêneo. Mas as realidades socioeconômicas são diferentes. Há corpos desgastados por trabalhos braçais, diferentes de corpos que puderam ser cuidados. Há as diferentes cronicidades, alguns tipos de envelhecimento exigem mais amparos físicos. Essa não é uma característica da maioria das pessoas que envelhecem. Há cada vez mais possibilidades de envelhecer bem. As pessoas que não são subjugadas aos estereótipos negativos podem dar muitas contribuições no âmbito familiar, de voluntariado e também profissional. Elas podem continuar colaborativas se houver um pacto intergeracional. Mas é preciso fazer acordos e preparar os velhos para estes muitos anos de possibilidade produtiva. Se não tiver preparo ou se a pessoa não se sentir inserida e participante, o envelhecimento longevo vai ser um peso para os sujeitos e para a sociedade. 

Como a pandemia revela o preconceito que estava latente?

O preconceito estava disfarçado na ênfase dada pela mídia às velhices joviais e extremamente produtivas. Ao idoso que não tinha características de velho. Havia um pacto do silêncio. Com a pandemia, os discursos salientaram intensos preconceitos, inclusive na cultura médica. No começo da covid-19, quando saíram os protocolos de prioridade, foi um escândalo. Eu vi muita indignação no meu consultório, porque os velhos tinham certeza que seriam preteridos na assistência para um jovem, já que não havia como investir em todos, caso necessário. No fundo, há toda uma cultura que se organiza para facilitar a eliminação deles.

O etarismo é reflexo da desatenção do Estado?

O Estado não tem cuidado de seus idosos. Há uma tendência de trabalhar as patologias, mas nunca os potenciais da velhice, o que acentua os preconceitos e os estereótipos. As atividades, os investimentos, as propostas de criação de espaços são muito pequenas e pontuais e não dão conta do que os velhos querem, apesar de que há serviços interessantes e criativos. Na área da gerontologia, há projetos pulverizados. Não há uma coordenação, em nível federal, que chame atenção para as demandas e deixe que cada região pense como articulá-las. Mas tem muita coisa boa em atividade, funcionando com sobrecarga e com profissionais que não foram preparados na graduação para se questionar sobre o tema do envelhecimento.

E como as dificuldades da pandemia têm sido vivenciadas?

As pessoas se viram trancafiadas e estão tentando saídas ativas. Esses velhos, embora estereotipados, não têm uma postura de desengano com a vida. Eles estão deprimidos, aflitos, porque querem fazer coisas, têm potencial. Acham que é uma pena não poder continuar se movimentando e receiam que isso lhes faça muito mal. Minha mãe tem 96 anos e, até a pandemia chegar, nadava e dava aula de língua estrangeira. Envelheceu muito ao ficar parada. Ela quase não vê e ouve, tem diabetes, mas é uma pessoa muito atuante. Como ela, têm muitas pessoas adoecendo por força dessas circunstâncias do enclausuramento. Temos de escutá-las. São questões da velhice? Não, são questões do ser humano, pensamentos de quem está encurralado na vida, não de velhos necessariamente. É para isso que chamo atenção. O que é velhice? Para a gente saber o que é temos que perguntar o que cada um desses idosos deseja, seus incômodos, sem generalizações. 

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