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■ Em colaboração para Radis

Uma cena rotineira no Fim-do-Mundo é ouro nas mãos da escritora Lilia Guerra. De um tumulto contra um assediador no ônibus lotado, começa a história de Maria Expedicionária, protagonista do romance O céu para os bastardos (Editora Todavia). “Não tenho competência para acusar. Júlio César agiu como o pior dos desalmados. E é como se o mundo inteiro soubesse disso ao olhar para mim”, narra essa mulher que, apesar de muitos apelidos — Sá Narinha, para a vizinhança do bairro; Mariinha, em sua terra natal; e Xispê, para o filho da patroa —, continua um mistério para sua autora. 

“Eu olhava para ela e pensava que tinha alguma coisa a mais com essa mulher”, conta Lilia, que então a promoveu de coadjuvante — aparecendo pela primeira vez em um conto do livro Rua do Larguinho, lançado em 2021 — para narradora principal das histórias, tragédias e fuxicos do bairro fictício Fim-do-Mundo. Uma personagem complexa que sonha em largar o trabalho de empregada doméstica e vive tomada pela culpa e pelo desgosto com o filho, Sá Narinha é uma observadora arguta — assim como Lilia. 

É das experiências que vivencia desde criança no Conjunto Habitacional Cidade Tiradentes, na periferia da cidade de São Paulo, dos comentários preconceituosos que escutou na companhia de sua mãe e avó nos serviços nas “casas de família” e das histórias que acompanha hoje na rotina como auxiliar de enfermagem do SUS, que Lilia constrói seu universo literário. A vontade de realizar um desejo materno antigo resultou em seu primeiro livro, Amor Avenida (2014), no qual registra a história de sua mãe e seu pai, uma relação extraconjugal entre patrão e empregada que dividiam quase 50 anos de diferença em idade — ela, 16 anos; ele, 60. 

Já acostumada a habitar suas crônicas e contos com uma profusão de personagens, seus romances não seriam diferentes. Sá Narinha é acompanhada por gerações de famílias do bairro, viúvas, irmãos, filhos únicos, primos, mães solteiras e donas de casa; ambulantes, babás, contadores, professoras, manicures, entregadores, feirantes e ladrões. “Na minha opinião, os personagens chegam às pessoas mais facilmente do que eu”, afirma a escritora também de Perifobia (2018), livro de contos finalista do Prêmio Rio de Literatura em 2019, Crônicas para colorir a cidade (2022) e Novelas que escrevi para o rádio Vol. 1,2 e 3 (2022).

Numa conversa descontraída, gentilmente concedida no seu dia de folga, Lilia Guerra se debruçou sobre suas inspirações literárias e falou sobre a ligação entre seu trabalho na rede pública de saúde e a literatura e quais os próximos passos de sua escrita — com sua obra ainda em preparação, Cavaco do Ofício, ela foi uma das selecionadas do Prêmio Carolina Maria de Jesus de Literatura Produzida por Mulheres 2023, do Ministério da Cultura (MinC). 

Uma coincidência entre ambas — Carolina de Jesus e Lilia Guerra — não nasce nessa ocasião. Para qualquer malcriação ou descrédito, Lilia já sabe: “como Carolina Maria de Jesus falava para as pessoas lá no Canindé, ‘vou te colocar no meu livro, se você não se comportar’”.

— Foto: Renato Parada.

Como a literatura entrou na sua vida?

Sou uma mulher de 48 anos, tenho duas filhas, sou casada há 33 anos. Moro num bairro periférico de São Paulo, um Conjunto Habitacional (Cohab) chamado Cidade Tiradentes, lugar para onde vim com dez anos de idade na época em que os aluguéis da região central de São Paulo começaram a ficar impossíveis de pagar. Hoje vejo que era [um processo de] higienização no Centro e nos bairros considerados mais nobres. Fomos banidos para os arredores da cidade. Mas, falando de literatura, fui educada primordialmente por mulheres. Morávamos eu, minha mãe, minha avó e eventualmente minha tia nesse bairro, que era bem estruturado, e tinha uma biblioteca. Quando vim para o conjunto habitacional, encontrei uma escola ainda em construção. Não tinha uma sala de leitura. Apesar de semi alfabetizada, minha mãe me incentivou a ler desde muito cedo, e me matriculou na biblioteca quando eu tinha seis anos, até porque era um espaço gratuito. Ela me fez acreditar, e era verdade, que a biblioteca era um espaço importantíssimo. Mas a minha história com a literatura começa muito tempo depois, quando comecei a ter informações sobre o meu pai. Não fui criada nem registrada por ele. Então quando minha mãe começou a me falar sobre ele, percebi que ela queria contar essa história que tinha vivido. Era muito importante para ela. Assim começou o meu contato com a literatura e a escrita. Esse resgate de memórias resultou no meu primeiro livro, o Amor Avenida.

A narrativa de O céu para os bastardos aborda dificuldades cotidianas vivenciadas nas periferias de forma tão tão minuciosa e detalhista que fica difícil não perguntar o quanto existe de familiar para você naqueles causos e diálogos. De onde você partiu para escrever o livro?

É familiar. Sou servidora pública e costumo dizer que o serviço público entrou na minha vida assim que comecei a transitar pelos bairros do Cohab. Nós víamos a necessidade das pessoas. As mães precisavam sair muito cedo para trabalhar, os filhos precisavam ir para creche — quando havia. Tudo isso ficou na minha memória. Algo que costumo dizer e a [personagem] Sá Narinha também fala no livro é que resolver as coisas que tem conserto ou aquilo que dá para ser resolvido é tudo que queremos. Nós conversávamos muito sobre esses caminhos possíveis na região. Nós não sabíamos para quem falar, então conversávamos e sonhávamos com as resoluções. Sempre que eu pude, coloquei essas falas com a Sá Narinha e a vizinhança. Na minha opinião, os personagens chegam às pessoas mais facilmente do que eu. As pessoas prestam mais atenção no que diz a Sá Narinha do que se eu fizesse, por exemplo, um post sobre o quanto está difícil a situação dos ônibus. Eu sou mais uma, não [acontece] só comigo. Além disso, esse não é um assunto recorrente nos livros. Pelo menos, eu lia muitos livros e não via os personagens vivendo esse tipo de aflições e conflitos diários.

— Foto: Renato Parada.

Em uma das passagens do livro, um assediador é expulso do ônibus, o que acarreta uma troca de experiências entre os passageiros sobre o direito à cidade. O que podemos aprender com esses personagens?

Não sei se a palavra seria aprender, mas talvez refletir. Porque me interessa muito saber se os leitores que estão sendo alcançados já viveram essas situações. Porque, na verdade, o pessoal aqui do entorno, que vive dentro do ônibus lotado e nas filas, não é o [meu] maior público, não são as pessoas que mais me leem ou leem os livros que existem por aí que falam desses assuntos. Eu não alcanço tanto esse público, eu tenho essa noção. Eu me interesso em saber se é uma história em que a pessoa imagina ou para pra pensar, porque já li comentários de que não é bem assim, não pode ser desse jeito. Teve um dia em que participei de um podcast e falei que, aqui no conjunto habitacional, podem morar duas ou dez pessoas dentro de um apartamento. Por isso, em dias quentes, as pessoas ficam na rua, porque é muita gente para ficar dentro de casa. Para quem não conhece ou nunca parou para pensar, soa inverossímil mesmo. Escrevo pensando em fazer com que reflitam e procurem imaginar que isso acontece aqui nas beiradas da cidade. Acredito que todos os bairros da cidade têm seus problemas, de trânsito, de circulação, de criminalidade. Mas existem coisas que comento com determinadas pessoas e percebo que elas nunca pararam para pensar nisso, não é algo que faz parte da realidade delas, mesmo morando na mesma cidade.

Além de escritora, você trabalha como auxiliar de enfermagem. Como o seu trabalho inspira a sua literatura e vice-versa?

O que posso trazer da enfermagem para a literatura é a escuta. Todo cuidado começa pela escuta e pela observação, ao procurar entender as necessidades das pessoas. Como servidora pública, estou ao lado para saber como vamos resolver tal problema e para que a pessoa saia com uma resposta. Trago muito isso para a literatura: ouvir, refletir e observar. O que posso levar da literatura para o trabalho é a mesma coisa. Muitas vezes converso com as pessoas que eu atendo. Fala-se que o brasileiro não lê muito, mais ainda nos bairros periféricos. Quando eu converso com as pessoas, eu às vezes pergunto: você é sócio de alguma biblioteca? Você lê ou tem lido? E trago muito das experiências para a literatura. É impossível não trazer. Ouvir, olhar, me inspirar e falar ‘acho que isso dava um conto ou uma crônica’, ‘vou fazer uma anotação rápida aqui para me lembrar’.

Qual o maior mérito de O céu para os bastardos?

Quero muito que, no futuro, não seja mais uma rotina essas questões e problemas que a Sá Narinha e os personagens trazem. Para quem fala muito que a literatura não pode ser panfletária, é um enfrentamento. Venho de uma posição tão marginalizada que, para mim, também não tem problema se o livro ficar à margem dessas discussões críticas. Quem quiser achar que é panfletário e literatura de menor importância, para mim está tudo certo. O que importa é que fique registrado. 

Como você quer que seus personagens sejam lembrados?

Ontem a Sá Narinha não era protagonista, e hoje ela é, mas ela pode voltar a transitar numa outra posição em outro livro. Gosto muito de deixar isso claro naquilo que eu escrevo: não somos protagonistas sempre. Trabalho mais com o estar do que com o ser. Hoje ela ‘está’ como protagonista. Ontem ela ‘estava’ em Rua do Larguinho. Eu gostaria que os meus personagens fossem lembrados assim: por viver em diversas situações. Hoje estarem como suporte e apoio para uma história. Amanhã a história central é a deles. Acho que isso é muito comunitário. Isso é muito do que eu vivo aqui.

Por que você escreve?

Costumo dizer que eu me comunico melhor escrevendo do que falando. A oralidade e o verbal me encantam muito. Acho que eu sou meio devagar nas respostas e para pensar também. Trago isso da infância, porque a minha avó, assim como a minha mãe e a minha tia, eram trabalhadoras domésticas. Também fui durante um tempo da minha vida, antes de ser auxiliar de enfermagem. Uma característica do trabalhador doméstico é o silêncio. Quando eu era criança, era muito comum que as empregadas domésticas levassem os filhos, porque não existiam creches naquela época. São coisas que eu até gostaria de conversar com a minha avó. Hoje ela não está mais aqui, mas ela falava para mim: ‘Eu tinha uma patroa muito boa! Ela me permitia levar você comigo.’ Eu queria falar para ela que [a patroa] pagava tão pouco que ela não teria condições de pagar uma creche. Não era tanto bondade, era necessidade mesmo. 

E como essa realidade de sua avó, empregada doméstica, influenciou sua escrita?

Eu me lembro muito que antes da gente entrar [na casa da patroa], eu e minha avó íamos no caminho conversando muito. Quando eu aprendi a ler, eu lia as coisas para ela, as placas das ruas, os cartazes, o que estava escrito nos muros, ela tinha muita curiosidade de saber. Ela ficou assombrada quando comecei a ler. Eu andava com ela para quase todos os lugares e, sem deixar transparecer demais aquela curiosidade, ela perguntava: ‘O que está escrito ali?’ Às vezes era uma pichação num muro, e eu ficava pensando que ela deve ter passado 20 ou 30 anos por aquele muro querendo saber o que estava escrito. Mas quando chegávamos nas casas [dos patrões], ela falava: ‘ó, quieta, hein! Silêncio, não fala nada’. Eu quase sempre precisava ficar em silêncio, até mesmo em casa nós falávamos com muito cuidado. Minha avó costumava falar que matos têm olhos e paredes têm ouvidos. Morávamos sempre em casas muito frágeis em que alguém podia chegar na porta e ouvir uma conversa. Cresci habituada com esse falar pouco, baixo e com cuidado. Quando eu comecei a escrever, pensei: agora eu consigo me comunicar melhor.

Quem são os bastardos do título do livro?

Eu não tive contato com meu pai. Tive somente nos primeiros três anos de vida, com visitas. Sou fruto de uma relação extraconjugal. Meu pai era um homem casado. Quando nasci, meu pai tinha 60 anos e minha mãe, 16. Era uma relação patrão e empregada. Demorei a perceber que eu não tinha essa figura masculina e paterna. Não percebia até alguém começar a perguntar para mim: ‘E seu pai?’. Isso acontece mais quando começamos a frequentar a escola. Eu tinha um registro com aquele campo vazio em filiação. Mas a minha família, todas de mulheres que não eram casadas, tinha uma preocupação muito grande com a religião. Aquela crença de que a criança que não é batizada, é uma criança pagã: se morresse sem ser batizada, ela não vai para o céu. Lembro da minha mãe contando quando procurou a igreja para falar sobre o meu batismo, ela descobriu que não poderia me batizar porque não era casada. Ficava, então, aquela preocupação de que o céu não era para os bastardos.

“Eu vivia com a minha avó; minha mãe trabalhava nesse regime de dormir no emprego e voltar para casa nas folgas semanais.”

Quais são as suas inspirações artísticas? 

As minhas inspirações são muito mais musicais do que literárias. Hoje, por coincidência, estou usando uma camiseta da Clara Nunes, é a capa do álbum Nação, que eu gosto muito. Tenho as minhas inspirações literárias, obviamente. Só que eu não frequentei a academia e a faculdade, sou aluna da Educação de Jovens e Adultos (EJA) — tive que fazer uma pausa grande nos meus estudos entre o ginásio e o colegial. Então, não tinha muito contato com professores que poderiam me indicar livros. Tenho autoras e autores que gosto muito, mas meus primeiros livros foram os discos. Até porque eu vivia com a minha avó; minha mãe trabalhava nesse regime de dormir no emprego e voltar para casa nas folgas semanais. A minha avó não sabia ler, então ela investia muito em música. Ouvíamos o rádio loucamente, o tempo todo. Minha avó ouvia muito samba. Tenho nitidamente na memória o dia que foi noticiado o falecimento da Clara Nunes na TV [em 1983]. A nossa casa foi recoberta por um luto carregado de muitos dias. Era como se ela fosse da nossa família. Sou apaixonada pela Dona Ivone Lara, que foi profissional da enfermagem, depois fez serviço social, além de intérprete, compositora, e foi escritora também. Música para mim é matéria-prima.

“Sou preta, periférica, uso transporte público e tudo isso diminui a minha expectativa de vida. Vai que eu morro e não falei de tudo que eu queria falar?”

Você já declarou que não sabe quantos livros vai conseguir escrever e, por isso, insere o máximo de personagens nas suas histórias. Quais são os próximos passos da sua literatura? 

Eu levo isso muito a sério. Falo sempre que sou preta, periférica, uso transporte público e tudo isso diminui a minha expectativa de vida. Vai que eu morro e não falei de tudo que eu queria falar? Então vou falar agora. Eu participei do Prêmio Carolina Maria de Jesus, em 2023, com um livro de contos chamado Cavaco de Ofício, que foi contemplado. Estou trabalhando nele agora. Sigo escrevendo sempre que posso. Muitos projetos iniciados também. Tenho um especificamente para crianças e adolescentes, de literatura infantojuvenil. Gosto muito de conversar com esse público. Visito muitas escolas, sempre recebo convites e faço questão de ir. Como Carolina Maria de Jesus falava para as pessoas lá no Canindé, ‘vou te colocar no meu livro se você não se comportar’.

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