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Para a epidemiologista Ethel Maciel, a revogação da emergência sanitária no Brasil pode levar à descontinuidade dos serviços

A desigualdade nas ações de controle foi uma marca desde o aparecimento da covid-19 — e passados mais de dois anos, ainda produz efeitos que dificultam a se falar em “fim da pandemia”. Essa é a avaliação de Ethel Maciel, epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Ela considera que o cenário foi ainda pior no Brasil, onde o negacionismo científico adotado como “espinha dorsal” do governo levou à ausência de estratégias de controle: a opção estimulada pelo próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, “era todo mundo sair, se contaminar logo para acabar a pandemia, exatamente o contrário do que preconizamos em saúde pública, que seria testar, encontrar os casos positivos e isolar para impedir o contágio”, afirma.

Pesquisadora na área de epidemiologia de doenças infecciosas, Ethel é presidente da Rede Brasileira de Pesquisas em Tuberculose (Rede-TB) e membro da Comissão de Epidemiologia da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Também desenvolve ações de divulgação científica, inclusive nas redes sociais, onde fala de ciência, saúde pública e acesso à educação. Em sua página no Twitter, que conta com mais de 56 mil seguidores, ela defende que “essas sejam políticas públicas gratuitas e de qualidade”. Desde que o Ministério da Saúde anunciou o fim da Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) relacionada à covid-19, ela tem participado de algumas lives e debates sobre a transição da pandemia, em que alerta sobre a falta de critérios técnicos para declarar o fim da emergência no Brasil. “Precisamos estar em estado de alerta, porque novas variantes de preocupação podem surgir, que coloquem em risco a nossa vacina”, afirmou à Radis.

O início da pandemia foi bem marcado, mas o fim dela não deve ser tão claro assim, especialmente devido às desigualdades na vacinação pelo mundo. Que balanço você faz destes dois anos de pandemia?

Tivemos uma desigualdade no controle da pandemia desde o início. No momento de instituição da pandemia, em março de 2020, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), várias movimentações aconteceram em nível internacional. Havia nos Estados Unidos, ainda no governo [do ex-presidente] Trump, uma iniciativa de enfraquecimento da OMS. Desde o início, as ações coordenadas e articuladas foram sendo minadas intencionalmente. Então, cada país adotou sua estratégia. Dentro do Brasil, isso foi um pouco pior, porque com o negacionismo científico como a espinha dorsal desse governo, nós não tivemos estratégias de controle. A estratégia escolhida pelo governo era todo mundo sair, se contaminar logo para acabar a pandemia, exatamente o contrário do que preconizamos em saúde pública, que seria testar, encontrar os casos positivos e isolar para impedir o contágio. Do ponto de vista da saúde pública, testar e isolar rápido é uma das ações mais importantes, além, claro, da vacina, mas no início a gente não tinha a vacina.

Que desafios temos pela frente, sobretudo em relação à ampliação da cobertura vacinal?

Também tivemos uma desigualdade na distribuição das vacinas: a iniciativa Covax, que foi elaborada pela OMS para promover uma distribuição igualitária das vacinas no mundo, por conta desse movimento de enfraquecimento da OMS, inclusive com diminuição de financiamento, [a iniciativa] não vingou, não deu certo. Vimos países que tinham mais de sete doses de vacina por habitante, e países que não tinham nada. Isso foi bastante difícil. Agora, finalmente, no mundo, a gente passa de um pouco mais de 50% das pessoas vacinadas, mas ainda longe dos 70% minimamente ideais. A gente também enfrenta um movimento antivacina forte nos países desenvolvidos. Esse movimento antivacina não existia no Brasil, até então era insignificante. Mas agora ele começou a crescer graças à fomentação do próprio governo federal. Isso foi bastante ruim, tendo a figura do presidente e dos ministros da saúde como centro, ao veicularem notícias mentirosas.

O que a revogação da emergência em saúde pública de importância nacional (Espin) representa para as ações de enfrentamento à covid, principalmente aquelas adotadas por estados e municípios? Há risco de desassistência?

A revogação da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional representa uma dificuldade, principalmente para estados e municípios, porque não há um prazo de transição para adequação das ações, como licitações, contratação de pessoas e serviços — o que vai levar, em última análise, a uma crise sanitária. Serviços serão descontinuados. Profissionais que estão contratados via decreto terão seus contratos finalizados e isso vai ser bastante prejudicial para a população. O que os secretários [estaduais e municipais] estão discutindo é que eles precisam de uma transição, de pelo menos 90 dias, e a orientação para os estados, via Conselho dos Secretários Estaduais (Cosems), é que eles vinculem o decreto de emergência em saúde pública de importância estadual, e daí também o municipal, ao decreto da OMS, de Emergência em Saúde Pública de Importância Internacional, para que haja uma preparação das ações, como a adequação do SUS, com prazos para contratos e licitações. Acredito que vai caminhar nessa linha.

Países da Europa relaxaram as medidas contra a covid e alguns deles voltaram atrás. O que o cenário internacional pode ensinar ao Brasil sobre o fim da emergência?

Sim, alguns países relaxaram, mas voltaram atrás. Estamos vendo Xangai [na China] com lockdown severo. Temos momentos muito distintos [no mundo]. E nós temos percebido um aumento de internação e óbito no Brasil não acompanhado do aumento de casos. Por quê? Porque as pessoas estão deixando de fazer testes. Elas estão tendo síndromes gripais, não estão procurando testagem. O parâmetro que nós tínhamos — em duas semanas a gente avalia o aumento de casos, depois internação e óbito — não temos mais. Estamos vendo um aumento de internação e óbito muito parecido com o que aconteceu lá no início da pandemia quando nós tínhamos poucos testes. É uma situação que preocupa. Nós precisamos melhorar nossa testagem, nosso monitoramento e genotipagem, para seguir acompanhando o que está acontecendo, principalmente o surgimento de novas variantes.

Como você avalia a pós-epidemia de zika e o que ela pode deixar de lição para a pós-epidemia da covid? De que maneira o país vem se preparando para lidar com a chamada covid longa ou síndrome pós-covid?

A lição das epidemias do passado, principalmente a epidemia de zika vírus que está bem próxima de nós, em 2016, é que a gente precisa preparar o sistema para o acesso das pessoas que necessitam de cuidado e atendimento em relação à covid longa, às sequelas da covid. A estimativa da OMS é de que aproximadamente 20% das pessoas que tiveram covid tenham alguma sequela. Algumas dessas sequelas vão necessitar de serviços estruturados, multidisciplinares, com profissionais de diferentes áreas atendendo. Nós precisamos estruturar isso. O que aconteceu no zika vírus é que temos hoje mais de 3 mil crianças com sequelas importantes e não conseguem atendimento ou têm atendimento precário. Precisam de neurologista pediátrico, gastroenterologista, por exemplo, e são especialidades difíceis de se conseguir no SUS. A gente precisa de estruturação de serviços para síndromes pós-covid.

“Viva o SUS” foi uma bandeira que se fortaleceu durante a pandemia. O SUS sai de fato fortalecido ou as estruturas criadas foram temporárias ou insuficientes?

O “Viva o SUS” virou uma bandeira, mas a gente não pode ficar só na bandeira, no cartaz, na palavra. O SUS precisa ser financiado. E as estruturas que foram criadas de forma temporária precisam ser integradas para atendimento da população. Precisam ser permanentes e isso exige planejamento e, principalmente, financiamento. Temos um longo caminho a percorrer. Mesmo quando a pandemia acabar, mesmo quando o decreto da OMS for revogado, coisa que ainda não foi, pois a pandemia continua, nós ainda teremos muitas ações no pós-pandemia. A gente ainda não chegou nisso e precisamos estar em estado de alerta, porque novas variantes de preocupação podem surgir, que coloquem em risco a nossa vacina e a gente precise vacinar toda a população novamente. Precisamos estar em alerta. Nós precisamos que o Ministério da Saúde defina critérios para que o decreto possa ser reativado. Quais serão os indicadores e sinalizadores? Isso precisa ser explicitado para os secretários estaduais e municipais de saúde e principalmente para a população. (L.F.S)