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Para a psicóloga Ruth Gelehrter, a pandemia escancarou os preconceitos contra idosos

Viver mais passou a custar caro para quem ultrapassou a barreira dos 70 anos e o preconceito contra as pessoas idosas ganhou força com a pandemia. No consultório da psicóloga Ruth Gelehrter da Costa Lopes, em São Paulo, os idosos revelam a angústia de sentir que, por conta da juventude que ficou para atrás, suas vidas passaram a ser consideradas mais descartáveis. “Ouvimos que o isolamento ocorreu para não contaminar os velhos e que eles poderiam morrer para a sociedade continuar ativa. Isso é o mesmo que dizer que os nossos idosos são inúteis, que não vale a pena investir neles, que estão atrapalhando o caminhar produtivo da sociedade”, afirma Ruth.

Ruth é professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e coordenadora da Clínica Psicológica Ana Maria Poppovic, que faz atendimentos terapêuticos para idosos em grupos. Com doutorado em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP), ela é especialista em questões de envelhecimento e finitude. Em conversa com a Radis, a psicóloga analisou o fenômeno do etarismo e defendeu que é preciso buscar um novo olhar sobre os idosos e sua fragilidade. “Estamos falando que os indivíduos frágeis e aqueles que possuem alguns problemas físicos não têm lugar na nossa cultura? Se for isso, é muito sério”, salienta. Segundo ela, é preciso entender que “olhar para as necessidades dos mais velhos é ampliar os horizontes de um bem-estar que reverte para o coletivo”.

Olhar para as necessidades dos mais velhos é ampliar os horizontes de um bem-estar que reverte para o coletivo. Ruth Gelehrter da Costa Lopes, psicóloga

De que forma a pandemia reforçou o preconceito aos idosos?

O etarismo e outros termos que surgiram recentemente apontam para uma realidade que estava subnotificada ou escondida. Mas há muito, a gente indicava que os estereótipos em torno do envelhecimento falam de uma velhice que é desconhecida e de como essa visão está impregnada em todas as áreas do conhecimento e do senso comum. Basta vermos os dados de violência, a realidade dos mais velhos, a falta de acesso aos recursos públicos, as políticas públicas despreparadas para o acolhimento de idosos, que percebemos que o preconceito está mais impregnado do que a gente poderia imaginar. A pandemia escancarou esse preconceito e os velhos foram culpabilizados. Ouvimos que o isolamento ocorreu para não contaminar os idosos e que eles poderiam morrer para a sociedade continuar ativa. Isso é o mesmo que dizer que os nossos idosos são inúteis, que não vale a pena investir neles, que estão atrapalhando o caminhar produtivo da sociedade. Mas isso contraria os nossos estudos. Em uma família de baixa renda, é importante ter um avô ou avó que fique com os netos, cozinhe, lave e passe a roupa. Embora seja preocupante essa participação nessa faixa etária da vida, o que vemos é que ela permite que a família trabalhe e estude, que as crianças façam uma atividade a mais, isentando o Estado desses suportes tão necessários que deveriam estar mais organizados, e infelizmente não estão.

Por que a fragilidade é um dos principais elementos da rejeição de idosos?

A fragilidade física é tida como um defeito, um traço que os velhos possuem. Eles são vistos como um estorvo porque são mais frágeis e correm mais riscos. Mas nós precisamos debater o tema “fragilidade”. A gente está falando que os indivíduos frágeis e aqueles que possuem alguns problemas físicos não têm lugar na nossa cultura? Isso é muito sério porque desdobrando esse preconceito, chegaremos em outros, como o afastamento das pessoas que adoecem e das que possuem dependências, sem pensar o contrário. Olhar para as necessidades dos mais velhos é ampliar os horizontes de um bem-estar que reverte para o coletivo. Tanto que a gente fala que uma cidade amigável para os idosos se torna favorável para todos que moram nela. Não dá nem para dizer que “a longo prazo eu vou me beneficiar”, pois, na realidade, tem que entender que "eu me beneficiaria com isso agora”.

É possível pensar que há velhices nessa velhice estigmatizada?

Sim, a gente costuma dizer que não existe uma velhice, mas velhices no plural. Quando a pessoa atinge a tal da idade cronológica definitiva, digo definitiva no sentido das definições que existem, passa a fazer parte de um bloco homogêneo. Isso não é verdade porque temos realidades de velhices socioeconômicas muito diferentes. Há corpos desgastados pelos trabalhos braçais que são diferentes dos corpos que puderam sempre se preservar, cuidar e fazer acompanhamentos médicos. Há as diferentes cronicidades, com alguns tipos de envelhecimento que exigem mais amparos físicos. Essa não é uma característica da maioria das pessoas que envelhecem, pelo contrário, as pessoas têm cada vez mais possibilidades de envelhecer bem. Usando um termo forte, essas pessoas que não são subjugadas aos estereótipos negativos, podem dar muitas contribuições no âmbito familiar, de voluntariado e também profissional. Elas podem continuar colaborativas se houver um pacto intergeracional. O mercado de trabalho é restrito e muitas vezes os profissionais mais velhos têm de sair para dar entrada aos mais jovens. Muito bem, então vamos fazer acordos e preparar esses velhos para estes muitos anos a mais que eles terão. Porque são anos de muita possibilidade produtiva. Se não tiver preparo para esse envelhecimento ou se a pessoa não se sentir inserida e participante, esse envelhecimento longevo vai ser um peso para os sujeitos e para a sociedade.

Por que você fala que antes da pandemia o preconceito estava latente?

Era um preconceito disfarçado na ênfase dada pela mídia nas velhices joviais e extremamente produtivas. Esse idoso não tinha as características de velho. Certamente era algo menos gritante. Noto que então havia um certo pacto do silêncio. Não se falava, mas todo mundo pensava isso. Eu acredito que quando surgiu a pandemia, as verbalizações, os discursos políticos e alguns discursos médicos, apontaram um olhar forjado em intensos preconceitos, inclusive na cultura médica. No começo da covid-19, quando saíram aqueles protocolos de prioridade, foi um escândalo. No meu consultório, os velhos ficaram indignados porque tinham certeza que seriam preteridos na assistência para um jovem porque não havia como investir em todos, caso necessário. No fundo há toda uma cultura que se organiza para facilitar a eliminação dos velhos. Então, há debates que estão latentes, mas que não podem ainda vir à tona. E isso é uma grande hipocrisia social, porque o debate sobre eutanásia, por exemplo, fica proibido. Já os altos índices de suicídio da velhice são encarados com uma certa naturalização porque as pessoas são velhas. Nesse caso, o suicídio é visto como uma opção.

Até que ponto o etarismo é reflexo da desatenção do Estado?

É fato que o Estado não tem cuidado de seus velhos. O que vemos é que há sempre uma tendência a trabalhar as patologias, mas nunca os potenciais da velhice, o que acentua os preconceitos e os estereótipos em relação à velhice. As atividades, os investimentos, as propostas de criação de espaços são muito pequenas e pontuais e muitas vezes não dão conta do que os velhos querem, apesar de que existem serviços muito interessantes, criativos. As pessoas precisam de ajuda para ver como vão se reinserir, o que precisam e o que bancam. Podemos perguntar para elas mesmas o que querem. Conhecemos experiências isoladas. Na área da gerontologia, há projetos interessantíssimos, mas pulverizados. Não há uma coordenação, até em nível federal, que trabalhe com esses dados e chame atenção para essas demandas e deixe que cada região pense como articulá-las. Mas tem muita coisa boa em atividade, funcionando com sobrecarga e com profissionais que não foram preparados na sua graduação para se questionar sobre o tema do envelhecimento. E isso ocorre em todas as áreas, inclusive na minha, a psicologia. A PUC-SP foi pioneira nesse estudo e, mesmo assim, meus colegas demoraram para incorporar essa reflexão em suas aulas. Por isso que eu defendo que a gente não crie mais um feudo para a gerontologia, mas que a questão do envelhecimento percorra todas as abordagens. Defendo, também, que ocorra uma ocupação de espaços públicos ociosos para atividades com idosos. Podemos fazer propostas de renovação ou de reciclagem de conhecimentos.

O que é preciso fazer para mudar mentalidades?

Tem que ter investimentos em política, uma reflexão pública e a mídia deve participar dessa reflexão ampla, de desmanche de estereotipias, trazendo informações. Olhar para esse público idoso pode mudar a concepção de que há uma única velhice. Eu gostaria que tivesse um espaço para pensar o processo de envelhecimento, não a velhice lá na ponta. Estamos envelhecendo sempre e o que fizermos antes vai ter repercussões mais adiante. Isso pode ser entendido como uma etapa do desenvolvimento. A finitude não precisa ser compreendida como uma tragédia. A escritora Simone de Beauvoir mostrou que há poucas culturas, talvez uma apenas, em que a velhice não tem estigma negativo [A Velhice, 1970]. Em todas as outras ela é vista como uma tragédia talvez porque nos coloque frente à finitude. Temos medo e lidamos muito mal com ela. Levando em conta que é um fenômeno assustador, como disse Freud, é bom a gente conversar sobre ele e trazê-lo mais à tona.

Faltou respeito aos idosos nesse processo do enfrentamento da pandemia?

Sim, se pensarmos nos discursos oficiais e no protocolo de quem tinha prioridade nos atendimentos. Achei interessante que as pessoas foram se rebelando contra esses discursos, ou por ter familiares idosos ou as organizações de idosos que passaram a se posicionar ou foram requisitados a se posicionarem publicamente. Mas não houve acolhimento porque quando ele existe rapidamente se pensam políticas para poder resolver a questão dessas pessoas. É achar que eles importam e ter agilidade para apoiá-los. Houve também muita solidariedade na classe média, de familiares e vizinhos, com os velhos que não deveriam sair. Esse é um gesto que temos que valorizar. Mas quando temos essas situações, a iniciativa tem que vir mais das entranhas.

Você acha que deveria haver políticas específicas de apoio na pandemia para essa população mais vulnerável, além das existentes?

Sem dúvida. Houve aqui em São Paulo uma movimentação para providenciar quartos em hotéis que estavam fechados para os velhos saírem dessas residências pequenas e ficarem protegidos. Acho que ela não foi adiante. Mas eu penso que se a pessoa não tem confiança no Estado, vai ficar desconfiada. É preciso criar um reconhecimento que esse Estado faz parte de você, que ele vem sempre te apoiando e que agora nesse momento é um direito que você tem, você não vai ser abandonado. Esse acompanhamento é algo que temos que criar nesse país. A gente conseguiu implantar bem isso na infância, o que levou à diminuição drástica de mortes por desnutrição e diarreia. Já as políticas para os velhos sequer existem.

Como é o atendimento em grupos de idosos na clínica-escola?

Eu faço a supervisão na clínica-escola da PUC-SP, que recebe predominantemente uma população de baixa renda e uma classe média empobrecida. Tenho orgulho pois esse foi o primeiro serviço no Brasil de atendimento a idosos em grupo numa clínica-escola [foi iniciado em 1989]. Teve o espírito da PUC, humanista, experimentador. Fiz meu mestrado lá e a PUC apostou que esse caminho poderia ser interessante. Confesso que foi muito difícil abrir espaço entre os meus colegas e também receber essa população. Eu tinha certeza que existia essa demanda e que ela iria aflorar na hora que fossem criadas oportunidades. Houve encaminhamentos e, hoje em dia, há uma procura dos idosos por psicoterapia de grupo. Eles querem pensar coletivamente sobre o que está acontecendo e trazem questões de sofrimentos de quem vive muito tempo. São pessoas que têm doenças graves, com filhos separados, casamentos desgastadíssimos e que vivem a perda de autonomia por uma grande cidade como São Paulo. Mas a falta de dinheiro é o fator principal, sempre. Essas demandas demonstram que o que elas querem é poder viver bem e se sentirem inseridas. E que buscam essa inserção no grupo.

Qual o perfil do idoso que frequenta esses grupos e o que eles trazem?

A maioria desses idosos tem de 70 a 82 anos. A gente costuma dizer na psicologia que são pessoas desejantes. As demandas são as mais sublimes. Um diz que gostaria de ter a oportunidade de ter um grande amor, que nunca teve. Outro, que não consegue morrer enquanto o filho não sair do alcoolismo. Temos que ajudar essas pessoas. Que potência ela tem para que um filho adulto saia da dependência? Que angustia é essa que ela está vivendo nesse momento que, inclusive, a fragiliza mais ainda. Muitas vezes as demandas não são da velhice, mas são traços de questões malcuidadas ao longo da vida e que agora elas vão investigar o que bancam e o que não bancam. Vão mexer nesses conteúdos. Só o fato de poder por em cima da mesma dá um alívio. Eles trazem questões como o que fazer com o casamento, a baixa renda, o filho que volta para casa e a mãe que não tem a coragem de dizer não, pois agora não queria amparar netos adolescentes, por exemplo. Chegam para reconhecer o desgaste de uma série de amparos que davam para os familiares e até profissionalmente. Sentem dificuldade de colocar em prática muitos desejos que não puderam ser realizados porque o marido não quer mais viajar, não há dinheiro, ou por falta de autonomia mesmo. Ter um grupo, desenvolver a confiança, com exercícios de sociabilidade, de trocas, transferências, promove uma possibilidade fantástica de a pessoa se repensar.

Como ficaram esses encontros durante a pandemia?

É um grupo predominantemente de mulheres mais velhas. Muitas delas são casadas e falam de maridos em casa e muito sofrimento. Nós suspendemos o atendimento na clínica e passamos a fazer atendimento online. Para meu espanto, a maior parte das mulheres quis participar. O que é importante porque elas estão usando recursos, como o celular, que antes achavam impossíveis de serem usados por estarem velhas. Então isso dá uma potência formidável, que ajuda muito a lidar com esse momento. Na pandemia, o que aconteceu com essas pessoas? Muitas delas estão em espaços de moradia exíguos. Então imagine as senhoras que têm questões, que percebem que podem durar até os 100 anos, que vão ter limitações, e que tentam aproveitar a vida da forma melhor que tem. Fazem um curso, tem uma atividade física, ficam com os netos no período que não há escola, têm suas múltiplas inserções. De repente, não podem sair de casa, o que pode levar à depressão. Uma paciente expressou a aflição de estar trancafiada. É uma mulher que procurava formas de se aprimorar, de gerar um pouco mais de renda para o casal ter autonomia familiar e de repente não pode sair. É frustrante. Outras moram em residências pequenas com filhos, netos, cuidadores do marido. É uma tragédia.

Por que é uma tragédia?

Eu vejo é que essas pessoas que podiam sair e ir até uma clínica, pensar na vida e voltar com outra forma de enxergar as possibilidades nessa rotina, ou nessa vida, ficaram trancafiadas em cômodos pequenos junto com todas essas tragédias da subjetividade de cada membro da sua família. O parente que precisa de cuidados especiais, o outro que bebe, o neto que é agressivo. São situações que já existiam, mas que agora provocam uma reação no idoso. Começamos a ver que o idoso passa a comer errado, se nega a fazer qualquer tipo de movimentação, piorando muito seu quadro de saúde. Já estamos vendo isso no atendimento por telefone e ficamos pensando em como ajudar. O que é melhor? Sair para ir ao médico e correr o risco de pegar o vírus ou tentar ver a questão de outra forma? Como esse grupo já tem uma história anterior, ao se verem na tela, ao se ouvirem, elas ficam mais fortalecidas.

Os homens buscam atendimento em grupo?

Os homens procuram menos suportes para refletir sobre a sua vida, as angústias e suas ansiedades e em sua maioria chegam com demandas pontuais. Por exemplo, opero ou não opero a próstata? Na hora que ele resolve o problema, não volta mais para o grupo. Não é fácil. Mas acho que vale a pena continuar insistindo porque vamos ter uma renovação das velhices. Acredito que a próxima geração já virá com mais possibilidade de conversar entre os sexos, de questionar mais as relações, de ouvir e de falar. Eu lembro de uma época na clínica da PUC que fizemos terapia para casais idosos e percebemos que na nossa cultura geralmente se um casal aguentou até a velhice, mesmo que eles não se deem bem, devem aguentar. Inclusive muitas vezes profissionais de psicologia pensam assim: “Aguenta mais um pouco que daqui a pouco alguém morre e está livre da situação. Não complica”. Mas começamos a ver casais em crise, chegando a um grande nível de agressividade e que não tem espaços para pensar no que eles querem, como é que chegaram naquele ponto e o que podem fazer de agora em diante. Se você está em crise nos 60 anos, e vai durar muito mais, imagina que sofrimento é para essas pessoas estar fingindo.

Profissionalmente, como você percebe a experiência da teleconsulta motivada pela pandemia?

Acho positiva. As pessoas de repente se viram trancafiadas tendo que enfrentar novamente questões que tinham avançado ou algumas que não podiam ter avançado. E as pessoas tentando saídas ativas desse momento. O que eu acho interessante é ver que as pessoas não estão paradas, elas querem outra coisa. Esses velhos estereotipados como “não há o que fazer, não há o que investir”, eles não têm essa postura de desengano com a vida. Eles estão deprimidos, aflitos, porque querem fazer coisas, porque têm potencial. Porque acham que é uma pena não poder continuar se movimentando e receiam que isso lhes faça muito mal. Minha mãe tem 96 anos. Até a pandemia ela nadava e dava aula de língua estrangeira. Ela envelheceu muito ao ficar parada. Ela quase não vê e ouve, tem diabetes, mas é uma pessoa super atuante, ela trabalha. Uma das coisas que essa geriatra me compartilhou é que os pacientes dela estão todos adoecendo por força dessas circunstâncias do enclausuramento. São pessoas dinâmicas, que se movimentavam e estão adoecendo. Com isso ficam angustiados, deprimidos, e temos de escutá-los. São questões da velhice? São questões do ser humano. São pensamentos de quem está encurralado na vida, não de velhos necessariamente. É isso que eu chamo atenção. O que é velhice? Para a gente saber o que é velhice tem que dar voz, tem que perguntar. O que cada um desses idosos quer, deseja, o que está incomodando. Não dá pra fazer generalizações.

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