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A história das últimas quatro décadas da pandemia da aids tem mostrado que, na medida em que as populações mais vulneráveis e as pessoas vivendo com HIV/aids passaram a ser chamadas para contribuírem na elaboração de ações comunicacionais, maior foi a sintonia entre estes públicos específicos e a mensagem transmitida. 

A urgência dos primeiros anos do advento da aids se parece muito com o início da pandemia da covid, em 2020. As mensagens de orientação impositiva, geralmente passadas por médicos, visavam criar uma certa tensão entre a população e, a partir disto, uma adesão às diretrizes de cuidados. Igualmente a responsabilização das pessoas, secundarizando — de forma explícita ou tácita, a responsabilidade do Estado — parece estar presente nas duas frentes. No entanto, na medida em que foram inseridas nas ações comunicacionais pessoas atingidas pelo coronavírus que conseguiram superar esta dificuldade, as mensagens saem de um tom técnico e amedrontador e migram para um lado mais emocional, despertando a empatia e apresentando a cura como uma recompensa de resistência na maratona de tratamento.

Fica nítido que somente com a organização das pessoas atingidas pelas doenças, suas vozes passam a ser percebidas, tanto nas diversas mídias como nas estratégias de comunicação estatal. Embora pessoas que vivem com aids tenham fundamental presença desde o início da epidemia do HIV, somente após a organização destes grupos nas diversas redes que se construíram mensagens mais humanizadoras e com lugar de fala autêntico. Com a covid, tal ponto se repete, pois as novas organizações criadas, regionais ou nacionais, vão abrindo brechas na mídia para que a voz dos atingidos seja ouvida. 

Antes do início da pandemia já se observava um crescimento grande de ações via redes sociais virtuais ou plataformas de vídeo e áudio, que passaram a abarcar iniciativas de comunicação e saúde. Embora tenham sua importância por atingirem um determinado público, há que se pensar neste fenômeno com certo critério crítico, não limitando as ações exclusivamente a estas estratégias, mas tornando-as interrelacionadas às outras mídias que a etapa de concepção destas inciativas apontarem.

Segundo o IBGE (2020), 20% dos brasileiros não têm acesso à internet por não possuírem aparelho compatível ou não terem condições de bancar o custo do serviço. Na área rural da região Norte, por exemplo, somente 38,4% de pessoas têm este acesso. Em termos de grupo percentual etário mais relevante, nacionalmente se encontram os jovens de 20 a 24 anos, com 88,4%.

A realidade da interiorização das duas pandemias exige que se pense além do básico, incorporando formas e linguagem próprias das populações distantes das regiões metropolitanas, além da utilização de veículos localmente conhecidos e com credibilidade e forte presença nas cidades interioranas.

Os dados também revelam, o que já parecia evidente: o público jovem concentra o maior acesso. Neste caso, os obstáculos a serem transpostos não se dão na forma de aproximação deste grupo social, mas na forma pela qual a mensagem será passada. Parece, intuitivamente, que a grande maioria dos jovens buscam na internet atividades relacionadas a questões prazerosas. Então inserir mensagens de prevenção e cuidados de saúde se torna uma disputa entre estas apresentações. Assim, a busca de ações criativas se faz necessário como forma de destacar a mensagem em meio a tantas outras, mais consumidas por esta faixa de público.

Com o avanço de medidas que tentam desqualificar a formação dos comunicadores sociais, com qualquer um se achando capaz de repassar informações e, principalmente, emitir opiniões sobre todos os temas, o desafio cresce imensamente. Os programas de TV popularescos, em que o sangue escorre nas telas, revelam isto: sensacionalismo e sadismo na tela, diariamente. Não raro, pessoas acometidas pelo HIV foram alvo de chacota e desprezo por estes “comunicadores”, assim como a naturalização do sofrimento e da morte das pessoas com covid foi ridicularizado em rede nacional, inclusive por autoridades, provando que o combate à desinformação, ao preconceito e às fake news também é parte do ativismo de todos nós.

■ Liandro Lindner é jornalista e professor universitário. Doutor em Ciência (FSP/USP), mestre em Comunicação e Informação em Saúde (Icict/Fiocruz)
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