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O primeiro ano da pandemia covid-19 nos ensinou muitas lições no campo da saúde coletiva. Uma das mais importantes, contudo, talvez tenha recebido menos atenção: a questão da ignorância. Assim como o conhecimento, a ignorância é uma construção. Ignorância não é simplesmente falta de conhecimento. Pelo contrário, a ignorância tem sido ativamente construída e produzida socialmente dentro de determinados contextos e processos políticos. Compreender a produção da ignorância é essencial para saber como enfrentá-la com conhecimento e informação.

A importância de observar mais criticamente a ignorância tem sido evidente em quase todos os lugares que olhamos neste primeiro ano da covid-19 — especialmente, mas não somente, no Brasil. É evidente, por exemplo, na falta geral de compreensão dos mecanismos básicos de infecção com SARS-CoV-2. Também está presente na confusão sobre a epidemiologia social da covid-19 — com destaque para as formas que a pandemia afeta comunidades e populações distintas com base em classe, raça e etnia, gênero e outros marcadores de diferença social.

É visível na conturbada e traumática polarização ideológica em torno das práticas de prevenção e promoção da saúde e das alternativas e opções de tratamento. É possível ainda percebê-la nas formas pelas quais esses debates criam cortinas de fumaça artificiais que escondem e mistificam não apenas informações científicas básicas, mas também as relações subjacentes dos sistemas de produção capitalista, relações comerciais e direitos de propriedade intelectual, e estruturas políticas e econômicas que operam para disfarçar iniquidades sociais — que a pandemia poderia, de outra forma, torná-las óbvias. E é quase surpreendentemente vívida na discussão estreita sobre produtos e políticas de vacinas, questões de acesso, e iniquidades globais que fazem com que as afirmações sobre a governança efetiva da saúde global pareçam quase cômicas — se não fossem tão trágicas.

O desafio de enfrentar a extensão e as dimensões da ignorância em relação a esta pandemia torna-se ainda mais difícil porque historicamente o campo da saúde coletiva tem dado pouca atenção à produção da ignorância. Isso é especialmente irônico porque este campo vem enfrentando níveis significativos de ignorância ao longo de sua história.No entanto, talvez porque as demandas de implementação de programas e enfrentamento de emergências em saúde tenham sido tão grandes, tenhamos feito pouco na busca de compreender os fatores e forças responsáveis pela produção da ignorância.

O tamanho expressivo da ignorância em todos os lugares em relação à covid-19 — junto com as contribuições quase obscenas vindas de políticos, formuladores de políticas e líderes de opinião — nos exige dar um passo atrás e desenvolver uma análise crítica mais cuidadosa dos desafios que enfrentamos nesta era da ignorância — mesmo que pareça que estejamos abrindo uma nova área para investigação sem as ferramentas conceituais e teóricas que poderiam nos ajudar a avançar adequadamente com este projeto.

Felizmente, não temos que começar do zero. Há uma história de investigação sobre a ignorância em outros campos e áreas que são relevantes para observar as formas de ignorância que se apresentam no campo da saúde coletiva. Creio ser possível destacar três questões-chave, especialmente úteis para entender diferentes dimensões da ignorância que a covid-19 parece ter descoberto — e quero, de fato, argumentar que ela desencadeou e estimulou o que podemos descrever como: (1) a construção social da ignorância; (2) a epistemologia crítica da ignorância; e (3) o uso da ignorância para fins estratégicos.

Forças sociais e políticas e interesses econômicos têm construído ativamente a ignorância de forma altamente complexa — e em contextos sociais e culturais muito específicos demarcando esse modo de construção social da ignorância. Há ainda complexos processos sociais e culturais de exclusão que fundamentam a epidemiologia social da covid-19 e nos estimulam a refletir sobre o papel que a ignorância desempenha na formação da pandemia. Isso nos ajuda a entender, por exemplo, as razões pelas quais tal ignorância parece ser tão difícil de ser desalojada do que acreditamos ser conhecimento científico “correto” —e ainda porque pedagogias acríticas são destinadas a não oferecer respostas efetivas à pandemia.

E, por fim, há as investigações sobre a ignorância para fins estratégicos que demonstram o uso de afirmações de ignorância para justificar a tomada de posições (de outro modo, questionáveis) por parte de políticos ou gestores e graves falhas feitas nos processos de governança em campos como as políticas econômicas, o desenvolvimento sustentável e mudança climática, e a saúde global.

Tudo isso nos revela alguns dos impedimentos mais fortes relacionados à necessidade de organizar planos concretos e exequíveis para garantir acesso às vacinas contra a covid-19 para a maioria das populações em países mais pobres — além da produção e promoção de medicamentos e tratamentos promovidos irresponsavelmente por lideranças políticas e gestores públicos em diversos países.

■ Diretor-Presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) e professor visitante sênior do IESC/UFRJ