Ilustração digital de Felipe Plauska.

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Ativistas avaliam papel da comunicação na produção (e na redução) das desigualdades em saúde

Como a comunicação contribui para produzir ou reduzir desigualdades? Qual a relação entre a produção de (in)visibilidades e a manutenção de vulnerabilidades na saúde? Quando propus incluir na programação do 13º Abrascão uma roda de conversa a partir destas perguntas, eu imaginei ser obrigatório que o GT de Comunicação e Saúde promovesse uma sessão onde representantes de usuários pudessem avaliar, a partir de suas vivências e experiências, a importância das ações de comunicação e saúde no SUS. Como representante do GT na comissão científica do congresso, avaliei que o momento exigia a promoção de espaços de escuta que ampliassem o olhar do setor Saúde para a importância da comunicação em práticas e políticas públicas.

O que eu não imaginei, no entanto, foi o quanto o tema despertaria interesse nos congressistas, embora já antecipasse as inúmeras contribuições que trariam Matuzza Sankofa e Preto Zezé ao debate. Matuzza, mulher trans, redutora de danos com vasta experiência no trabalho com populações em situação de rua e de desigualdade; Preto, ativista, empreendedor e articulador social, uma das principais lideranças contemporâneas de representatividade das favelas. Em comum, trajetórias marcadas por exclusão e violências, vivências essencialmente associadas à luta pelo direito de existir e de resistir. E de se comunicar.

Os dois, vítimas atentas de vulnerabilidades provocadas e atenuadas por (in)visibilidades, instigaram em suas falas, ora pelo riso ora pela lágrima, a escuta de quem pensa e de quem articula políticas e práticas de saúde. Primeiro dia de congresso, sala cheia, pessoas sentadas ao chão, muitas delas interessadas em continuar o debate sobre a comunicação como direito democrático à saúde, tema da mesa anterior — quando profissionais e pesquisadores expuseram importantes diagnósticos sobre a voz do usuário na saúde. Faltava escutar os próprios usuários.

Matuzza e Preto não se furtaram à tarefa e traçaram um vasto panorama sobre potências e limitações da comunicação, observando a importância dos contextos, traçando diagnósticos concretos e oferecendo valiosas dicas a partir do olhar de quem vivencia políticas públicas sob o ponto de vista dos “destinatários”. Na plateia, olhos e ouvidos atentos aos depoimentos emocionados e aos “causos” contados, que demonstraram a complexidade do desafio posto para os que defendem a comunicação como direito essencial e inalienável da conquista da cidadania e da construção da saúde. 

Ao fazer o convite aos dois ativistas, pedi unicamente que contassem suas histórias e comentassem o tema da mesa, uma maneira de promover prioritariamente a escuta — aspecto muitas vezes ignorado nos processos de comunicação na área de saúde, em grande parte somente interessados em transmitir conhecimentos, divulgar normas e estabelecer protocolos. 

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Das ruas à inclusão

Mesmo ciente dos perfis dos convidados, foi difícil segurar a emoção e o desconforto ao escutar Matuzza se apresentar. Mulher trans, 30 anos, mineira, casada e mãe de um filho de cinco anos, a presidente do Centro de Convivência É de Lei (que trabalha com pessoas em situação de rua) e fundadora da Casa Chama (ONG que promove ações de inclusão para pessoas transexuais) declarou temer pelo futuro do filho, em um país onde mais se matam pessoas trans, cuja expectativa de vida média é de 35 anos. “Não sou eu que me coloco como travesti. Foram a sociedade e a cisgeneridade que o tempo inteiro me enquadraram com discriminação, apontando as diferenças. São vocês, que dizem o tempo inteiro, que nós, pessoas trans, somos diferentes; são vocês, pessoas brancas, que dizem o tempo inteiro onde pessoas racializadas entram ou não entram”, provocou.

O silêncio na sala acompanhou o depoimento que veio a seguir, pausado e lento como são ditas as memórias tristes. Da mesa, eu vi rostos atônitos e olhos marejados acompanharem a trajetória da menina expulsa de casa aos 14 anos na mineira cidade de Itabira; que nas ruas de Belo Horizonte foi violentada e obrigada a se prostituir e a praticar pequenos furtos para sobreviver; que viveu a violência do abrigo para menores e do sistema prisional; que na vida adulta, já em São Paulo, foi resgatada por uma de “suas” pares, travesti, redutora de danos. 

Depois de todos esses “percursos de vulnerabilidade”, como ela mesmo definiu, Matuzza contou que entendeu que só sobreviveria caso “se juntasse as minhas e passasse a denunciar, se meu corpo virasse político só de eu andar de dia e eu o usasse para sair por aí”. A existência virou resistência, disse a ativista. “O que querem é que as travestis pretas fiquem à noite nas esquinas, na prostituição. Mas eu resolvi dar um passo além disso. Eu resolvi ir até as pessoas, trocar um pouco e humanizar a minha existência”, contou.

Em um tom suave e provocativo, ela relatou episódios tristes, inquiriu a audiência sobre preconceitos e questionou a falta de acolhimento como impedimento ao acesso ao cuidado. “Por que que algumas populações são evadidas dos serviços de saúde? Porque a gente não se vê ali. Sempre são as pessoas cis, hetero e brancas que estão cuidando. E as pessoas racializadas, trans, LGBTs, sempre no lugar de serem cuidadas”, registrou, indicando que é também possível ver estes grupos como cuidadores. “É isso que eu tenho feito já há 10 anos, trabalhando com redução de danos. É uma trajetória longa, de oferta de cuidado, até chegar aos lugares onde estou hoje, que são de gestão”.

Matuzza convocou quem a escutava a quebrar protocolos e a renunciar a privilégios. “O maior compromisso de uma pessoa antirracista e antitransfóbica é descobrir que ela vai perder privilégios”, disse, convocando quem a escutava à reflexão e à ação de incluir pessoas trans e pretas nos espaços de tomada de decisão. “É em nome dessa cor de pele e das minhas que ainda estão em vulnerabilidade, que estão em presídio, que estão em situação de rua, que eu crio força para encarar todos vocês aqui e dizer que é uma responsabilidade de vocês lidar com o que vocês criaram. É uma responsabilidade de vocês, que detêm privilégios, que estão em lugares de poder, de mudar esta realidade”. Foi aplaudida de pé. [Leia o depoimento completo no site da Radis].

Do hip hop à Cufa

Presidente nacional da Central Única de Favelas (Cufa), Preto Zezé fala ao ritmo de uma metralhadora, coerente com o passado forjado no movimento hip hop dos anos 1990, no Ceará. Nascido em Fortaleza há 47 anos, o ativista narrou sua trajetória das Quadras (favela instalada no meio de uma zona nobre da cidade) até hoje, em São Paulo, onde circula entre celebridades e autoridades e é seguido por milhares de pessoas nas redes sociais. Uma caminhada vitoriosa, mas nem por isso fácil. “A minha história é comum, padrão dos jovens negros, de favela, que já nascem sob a pressão de trabalhar e estudar ao mesmo tempo”, apresentou-se.

Bem-humorado e articulado, Preto mandou seu recado sem meias palavras, arrancando risos e aplausos nos muitos “diagnósticos” que fez do momento atual, partindo de sua própria história. Ele narrou a luta empreendida por sua mãe para criá-lo e a seus irmãos, sozinha, protegendo-os do racismo e do preconceito que havia no entorno onde moravam. Suas estratégias nem sempre agradavam o jovem Preto, que em muitos momentos não entendia o cuidado materno.

“Mesmo não tendo lido nada de Silvio de Almeida (advogado, filósofo e professor universitário, atual ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania), minha mãe estava protegendo a gente de usar determinadas roupas, porque na cabeça dela aquilo atrairia para a gente a polícia; não deixava a gente andar em determinados lugares porque considerava perigoso. Na prática, ela conseguiu enfrentar o racismo estrutural que a cada 23 minutos mata um jovem negro no Brasil”, avaliou, enaltecendo o papel de liderança das mulheres nas favelas.

Ainda sobre o racismo, ele declarou só entender ser preto aos 15, 16 anos de idade, quando se descobriu diferente ao escutar a música O Negro Limitado, dos Racionais MCs, e valorizou o lugar da música na construção de sua identidade: “Descobrir ser preto no Brasil não é tão prazeroso, porque você volta o filme da sua vida e vê a quantidade de privações e de violências que você sofreu”, revelou. Neste contexto, ele valorizou a importância de nomes como Malcolm X, Martin Luther King na construção de sua biografia, e do movimento hip hop, ao “organizar a revolta, politizar o nosso ódio e empurrar a gente para uma lógica de trabalho coletivo e comunitário” — impulso que o levou a atuar politicamente nas favelas de Fortaleza.

O encontro com o músico e ativista Celso Atahyde, quando ainda lavava carros no estacionamento da Assembleia Legislativa do Ceará, no ano 2000, foi decisivo para sua ligação com a Cufa, uma organização criada na favela e dirigida por favelados e cuja agenda reúne ações que visam transformar estigma em visibilidade positiva para os territórios periféricos. “A favela foi construída sobre o estigma”, sinalizou Preto, salientando que é preocupação do grupo que coordena “construir um processo em que os favelados, mesmo na sua ignorância, mesmo com seu déficit cultural e intelectual, produzissem as suas próprias soluções”.

No ritmo de MC, com a plateia reagindo com palmas e risos a sua fala, ele destacou que a Cufa — presente nos 26 estados e em cerca de 580 cidades — atua no sentido de construir uma agenda pública capaz de qualificar lideranças no território e pautar políticas públicas. “A ideia é pautar a favela como potência”, declarou, lembrando que hoje 18 milhões de pessoas moram em favelas no país, produzindo R$ 187 bilhões em consumo — o que segundo ele corresponde ao PIB de países como o Paraguai e a Bolívia juntos. Preto também criticou a concentração da tomada de decisão nas mãos de homens brancos e defendeu a discussão sobre geração de renda nas favelas. 

Por fim, elogiou a iniciativa do GT em discutir a comunicação com usuários. “Fico feliz de vir aqui e discutir comunicação nesse mês de novembro, quando só se discute morte, quando preto morre, preto é preso. Preto e favelado não é só isso. Fico feliz em discutir sobre como usar a comunicação para construir essa rede que durante a pandemia nos permitiu chegar a mais de 5 mil favelas em todo o Brasil, mobilizando R$ 878 milhões e atingindo mais de 15 milhões de pessoas”, declarou. Também foi ovacionado pelo auditório. De pé.

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Comunicar-se com o território

Como a gente se comunica com as pessoas que estão nas ruas? Como a gente se comunica com as pessoas que trabalham e se sustentam da rua? As perguntas definiram a fala de Matuzza, que reforçou ser necessário “entender quais são os lugares de privilégio e quais são as formas que a gente se comunica”. Ela recorreu à experiência vivida no início da pandemia de covid-19, quando a orientação das autoridades era de que todos permanecessem em casa. Segundo ela, em nenhum momento os integrantes do Centro de Convivência É de Lei (leia reportagem na Radis 136) ou da Casa Chama deixaram de atuar. 

“Eu trabalho com uma população que não tem casa, em sua grande maioria. E as pessoas estavam na Cracolândia e não sabiam por que que a cidade tinha se fechado, não sabiam da existência da covid-19”, recordou, quando defendeu a importância dos contextos na construção de uma estratégia de comunicação e saúde. Matuzza afirmou que os modelos de comunicação que temos acesso não são indicados para quem vive nas ruas, para quem está “em uso problemático de uma substância ou que está na Cracolândia”, por exemplo. “Não é a TV Globo ou as redes sociais que vão acessar a travesti que saiu aqui do Nordeste e que está em São Paulo se prostituindo para pagar a pensão onde mora, no final do mês”, exemplificou.

Neste sentido, ela recomendou que a comunicação deve levar em consideração os contextos do público a que está destinada e defendeu as ações de redução de danos como uma alternativa para se acessar pessoas em situação de rua e em outras condições de vulnerabilidade. “A comunicação precisa ser feita entre pares, individualizada, sem juízo de valor e a partir da realidade dos territórios e da realidade das pessoas que ali vivem”, definiu a ativista, sugerindo que ações criativas no território podem ser mais efetivas do que soluções tecnológicas, que podem ser excludentes com as pessoas mais vulnerabilizadas. Neste sentido, criticou o que se considera invisibilidade: “A gente fala o tempo inteiro sobre populações invisíveis, mas como podem estar invisíveis 35 mil pessoas na rua? O invisível ali é a nossa possibilidade de se comunicar e de informar essa população”.

Comunicar-se com as motivações

Preto concordou com Matuzza: “A invisibilidade de alguns setores e territórios é uma decisão política, é um projeto”, sustentou, refletindo que o fenômeno de não enxergar determinadas parcelas da população é reflexo do processo de escravidão. “Isso mantém fisicamente alguns corpos invisíveis, faz com que não apareçam realmente nos lugares de maior visibilidade”. A mesma lógica, avalia ele, se dá na construção de políticas públicas, que é viabilizada por uma representação política que não reflete a diversidade da população brasileira.

Diante deste contexto, Preto defendeu a criação de uma agenda de construção de visibilidade positiva, estratégia adotada pela Cufa e que se reflete inclusive na diminuição do estigma relacionado à favela. Ele citou ações como a divulgação do campeonato de futebol Taça das Favelas como uma estratégia de divulgação do território nos meios de comunicação. “Ali não é só futebol. Na verdade, o futebol é uma estratégia para mobilizar os olhares da população para aquele lugar, das marcas e das empresas para aquelas pessoas e aqueles jovens. Isso é visibilidade positiva”, avaliou.

O presidente da Cufa também considerou ser oportuno pensar no contexto político atual de negacionismo e desinformação que se instalou no país, para que se pense em ações de comunicação. Para ele, após “quatro anos de bombardeio permanente de produção de oralidade paralela”, o desafio é se contrapor ao discurso político que se desenhou a partir de insatisfações e motivações da população que permaneceram invisíveis.

Neste sentido, ele considerou ser essencial que se aproveite o momento para se reaproximar das pessoas, não para impor um discurso, mas sim para entender quais são suas motivações, de modo a construir uma agenda que contemple suas necessidades. “A comunicação hoje tem bons diagnósticos, boas teorias, bons filósofos e intelectuais, até boas políticas, mas o nosso desafio é como é que nós vamos trabalhar do meio para a ponta. É aí que está o gargalo”, diagnosticou.

Preto indicou ser preciso entender que o perfil do país mudou e que as estratégias de comunicação precisam lidar com um Brasil que é mais tecnológico e, também, mais evangélico. Para isso, considerou ser essencial que as pautas dialoguem com temas mais “conservadores” como dinheiro, renda e família, de modo que haja “vida real” nas propostas e políticas. Além disso, recomendou que o know how da comunicação na saúde praticado por conselhos se estenda a outras políticas públicas. “A saúde é um exemplo. Nós temos muito a aprender com o SUS, para que outras políticas possam se tornar realmente políticas de Estado e a população possa sentir isso”, declarou.