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Centro Nordestino de Medicina Popular utiliza saberes tradicionais e uso de plantas medicinais para promover saúde

Limpar o terreno, selecionar folhas, raízes e cascas, colher hortaliças. Numa manhã de sábado, Gerlúcia Santos e outros voluntários do Centro de Educação e Formação em Medicina Popular (Cefomp), em Paulista (Pernambuco), reuniam-se para selecionar a matéria-prima de fitoterápicos. Gerlúcia é diretora da instituição e conta à Radis que a produção do canteiro é aproveitada de diversas formas. “Fazemos tinturas, lambedores e xaropes para serem vendidos na farmácia viva da entidade. As hortaliças são distribuídas entre os voluntários. Esse trabalho produz saúde, traz autonomia e gera renda com a venda de produtos e plantas medicinais”, narrou, durante visita que a reportagem fez, em agosto, à instituição. Ela observa que boa parte desse conhecimento foi adquirido em formações oferecidas pelo Centro Nordestino de Medicina Popular (CNMP), uma organização que promove e defende o direito à saúde e à segurança alimentar nutricional sustentável.

Criado em 1988 pelo médico naturalista Celerino Carriconde e pela enfermeira Diana Moraes e outros colaboradores, o Centro Nordestino de Medicina Popular já atuou em mais de 300 comunidades urbanas e rurais de todo o Nordeste. Em sua trajetória, está a constituição de 21 farmácias vivas e hortas comunitárias e o estímulo a associações como a Associação dos Manipuladores de Remédios Fitoterápicos Tradicionais Semi-artesanais do Estado de Pernambuco (Amarfitsa) — que reúne, além do Cefomp, o Centro de Saúde Alternativa de Muribeca (Cesam), o Centro de Práticas de Saúde Natural de Camaragibe (Cepransc), o Grupo de Saúde Condor e Cabo Gato de Peixinhos e o Centro de Saúde Alternativa da Várzea (Cesave).

No plano nacional, o CNMP opera em rede com diversas entidades, tem o apoio e a parceria de organizações de outros países e teve forte influência na aprovação da fitoterapia como política pública do SUS. Por meio da divulgação científica, também dissemina o valor da medicina caseira, resgatando o uso de plantas medicinais e difundindo a cura pelo alimento. “O papel do Centro é o de ser um catalisador de um processo de educação, organização e mobilização. A associação de farmácias foi criada porque não queríamos que os grupos ficassem dependentes. Eles decidem as coisas”, diz Celerino. Para Gerlúcia, o apoio e a formação técnica oferecidos pelo CNMP fortaleceram o Cefomp no auxílio na plantação, manipulação e comercialização dos medicamentos para fins terapêuticos. “Nós temos o saber popular e eles trouxeram a visão científica. Isso melhorou a qualidade do nosso trabalho”, relata.

Mais que remédio

Em Olinda, o muro verde da casa onde fica o CNMP já é um sinal do que o visitante vai encontrar na área interna. A variedade de árvores e plantas indica o quanto a fitoterapia pode tratar diversas questões de saúde. Nos fundos, a horta mostra a potência das plantas medicinais. “Bertalha repõe cálcio, magnésio e outras substâncias. O alho é bom para baixar o colesterol. Reumatismo então é mentrasto. O mel de abelha é bactericida e bacteriostático. Está com ansiedade, pode usar mulungu”, ensina Celerino, que afirma ter conhecido o segredo da medicina popular com indígenas no Panamá.

“Eu aprendi com os indígenas e com o povo. Eu não ia levar saber, mas descobrir saber com o povo”, afirmou o médico à Radis. “Esse conhecimento é importante e precisa ser valorizado. Na primeira reunião que eu fiz com uma mulher do povo, que nunca tinha visto um médico, vi que a autoestima dela aumentou quando falava das plantinhas. É uma troca”, relata.

Para o médico, mais que remédio, a planta, que é acessível especialmente para quem vive em comunidades, também empodera. Ao buscar a cura para seus problemas, as pessoas percebem que a doença está relacionada a processos econômicos, políticos e sociais, ele ressalta. “Uma vez que sabem cuidar de si mesmas, se organizam e vão lutar pelo que falta”, observa. O resultado é um só. “É o empoderamento de cada um, que leva à luta pela posse da terra, pela casa e pelo esgoto. Quando a pessoa se empodera, ela faz um trabalho na comunidade como um todo. É como uma pedrinha na água, sabe?”, reflete.

Celerino defende que o trabalho de saúde não é apenas clínico, mas social. “A função do médico não é atender a pessoa, tratar o sintoma, é também promover a saúde da comunidade. A doença é da comunidade, das condições de vida das pessoas. Então a saúde também é da comunidade. Não tem minha saúde, tem a saúde coletiva, a do planeta, que está ameaçado”, ensina. Saúde, para ele, é uma missão que cada um tem com o seu corpo. “A mediação do mundo é o corpo. Quem não conhece seu corpo e não sabe como se relacionar com ele na relação com o mundo, vai ter doença. Isso começa na escola e com a família. E vejo que as minorias proféticas, como dizia Dom Hélder [Câmara], fazem um trabalho lindo com crianças”, observa.

Medicina popular

“Medicina popular para mim não é uma medicina de pobres, mas uma medicina de promover pessoas. É a medicina do povo, o chazinho da vovó, as práticas antigas dos nossos antepassados. É a prática das populações indígenas, dos quilombolas. A gente vai lá para promover, incentivar as pessoas a valorizarem o seu saber e o seu saber fazer. Essa é a essência desse trabalho”, explica Celerino, um dos pioneiros no estudo de plantas medicinais a levar esse conhecimento para o meio acadêmico. Gaúcho, exilado pela ditadura militar, o médico viveu no Uruguai, Chile, Panamá e Canadá, onde fez especialização em saúde pública. Voltou para o Brasil na época da abertura democrática a convite de Dom Hélder Câmara, então arcebispo de Olinda e Recife, e, com Diana, que é chilena, fincou raízes em solo pernambucano. Desde então, o casal não só aprende como partilha o conhecimento sobre plantas, alimentos e fitoterapia.

Diana reforça que as plantas medicinais produzem efeitos positivos quando bem utilizadas e assegura que a maioria das plantas utilizadas pelos saberes tradicionais contam com embasamento científico. “Sabendo utilizar de forma adequada e aliar esse uso a uma alimentação saudável, vai ter uma melhoria na saúde individual e promover saúde”, observa. Os efeitos benéficos também estão relacionados à maneira de colher. “A planta é mais saudável que o remédio, mas tem que saber coletar. Capim-santo, por exemplo, tem que ser coletado na hora da fotossíntese, que tem mais princípio ativo. Não é pegar a planta e fazer um chá. Uma planta aromática tem que ser colhida na hora do sol, à uma da tarde”, ensina. Celerino completa: “A natureza não tem um princípio de uma coisa só. É o fitocomplexo que atua no corpo inteiro”.

Alimento é vida

Em suas ações, o Centro Nordestino reforça a ligação entre a saúde e o alimento. “Somos o que comemos. A alimentação tem que ser adequada à demanda do corpo. E cada um tem que ter consciência do que come”, comenta Diana. Segundo a enfermeira, o acesso à alimentação saudável enfrenta barreiras como o uso de agrotóxicos, em especial do glifosato, princípio ativo de diversos pesticidas que tem levado a doenças de ordem física e mental. Na defesa da alimentação saudável, este ano o CNMP lançou a campanha Bora Viver sem Veneno, em parceria com a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos. “A proposta é esclarecer e denunciar usos, abusos e danos dos agrotóxicos em relação à saúde das pessoas, dos animais e do meio ambiente”, observa Diana.

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Medicina popular para mim não é uma medicina de pobres, mas uma medicina de promover pessoas. Celerino Carriconde

Diana ressalta que esse quadro poderia ser alterado com a mudança no atual modelo econômico e no modo de produção agrícola. “A agricultura urbana é um caminho para a alimentação adequada. A maioria dos municípios têm áreas rurais que podem ser utilizadas. Mas falta incentivo do Estado em qualquer nível para fazer esse tipo de agricultura que daria alimentação adequada e seria um ganha-pão para muita gente”, afirma, lembrando o contexto de pobreza e fome que afeta milhões de brasileiros. Ela destaca que o acesso a bons alimentos depende também de uma política pública para amparar especialmente os mais vulneráveis. “As pessoas que não têm acesso à alimentação saudável são as que estão em maior insegurança alimentar porque não têm e não sabem comer. Os alimentos ultraprocessados, que são apenas compostos químicos, são os mais acessíveis a essas pessoas”, diz.

INSTRUMENTOS DE CURA

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Em tempos de fome e insegurança alimentar e nutricional, o CNMP se propõe também a ensinar as pessoas como aproveitar integralmente os alimentos e ainda gerar renda. “Há fome de quantidade e de qualidade. Nosso trabalho atual é com a produção de alimentos em casa. Estamos trabalhando com agricultura urbana para estimular hortas nas casas, nas famílias”, afirma Celerino. No final de agosto, voluntários do Grupo Amigos da Sopa aproveitaram um sábado para descobrir o potencial da banana e aprender como utilizar a fruta em vários pratos. A oficina foi oferecida pelo CNMP e, em um texto publicado no Instagram [@centronordestino], a educadora Edjane Araújo afirmou que todos os pratos da oficina foram feitos a partir de alimentos adquiridos em feiras de Dois Unidos, bairro onde surgiu esse grupo que distribui alimentos e realiza ações sociais no estado.

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Celerino destaca que a educação popular, a consciência crítica, o diálogo de saberes e a valorização de iniciativas populares estão na raiz do Centro Nordestino que, além do uso de plantas medicinais como instrumento de cura, tem ações no eixo da igualdade de gênero, reconhecendo o protagonismo da mulher. Uma delas é o Projeto Caminhando Contra a Violência às Mulheres do Araripe, realizado em parceria com o Fórum de Mulheres do Araripe e a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). Composta por 10 municípios, a região registra alto índice de violência contra mulheres. Além do fortalecimento das mulheres, o projeto pressiona o poder público para concretizar ações de combate à violência de gênero, como a instalação de uma delegacia da mulher na região ou de um espaço de acolhimento desses casos.

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