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Os relatos de Janaina, Tatiane e Joana, apresentados nesta edição, revelam muito mais do que histórias individuais. Eles sintetizam a realidade de milhares de mulheres que, no Brasil, assumem diariamente a responsabilidade de cuidar de idosos, crianças e pessoas com deficiência. São experiências marcadas por afeto, dedicação e compromisso, mas também por sobrecarga, invisibilidade e desigualdade.

Cuidar de um idoso dependente é, muitas vezes, entendido como um gesto natural de amor ou de dever familiar. No entanto, por trás dessa dedicação silenciosa, existe uma estrutura social frágil que se sustenta, em grande medida, sobre trabalho não remunerado. 

Estima-se que cerca de 4,2 milhões de familiares se dediquem ao cuidado direto de parentes idosos no país, enquanto apenas cerca de 1 milhão de cuidadores são profissionais contratados. Esse desequilíbrio revela o peso que recai sobre as famílias — e, dentro delas, principalmente sobre as mulheres. Em aproximadamente 85% dos casos, o cuidado é realizado por filhas, esposas, noras ou netas. Não se trata de uma coincidência. A divisão desigual desse trabalho reflete normas sociais profundamente enraizadas, que associam o cuidado à figura feminina como se fosse uma extensão natural de sua identidade e de sua afetividade. Assim, aquilo que exige tempo, energia, preparo e renúncias passa a ser visto apenas como um gesto de amor.

O cuidado cotidiano está longe de ser simples. Ele implica jornadas longas, esforço físico, atenção constante e grande desgaste emocional. Muitas cuidadoras precisam reorganizar completamente suas vidas, como mostram as histórias trazidas na reportagem de Paula Passos nesta edição. Elas reduzem sua jornada de trabalho ou abandonam a carreira, comprometendo a renda, a segurança financeira e até a aposentadoria futura. Sem apoio institucional adequado, muitas dessas mulheres enfrentam dificuldades financeiras, exaustão física e sofrimento emocional.

Reconhecer o valor social do cuidado é um desafio urgente. Trata-se de um trabalho complexo que exige sensibilidade, atenção constante, conhecimento e uma grande capacidade de empatia. E cuidar não pode ser uma tarefa solitária. Quando a sociedade reconhece essa responsabilidade como coletiva, ela dá um passo essencial para garantir dignidade, proteção e qualidade de vida tanto para as pessoas com deficiência e idosos quanto como para aqueles que dedicam suas vidas a cuidar.

Nesta edição, Radis apresenta o resultado da pesquisa realizada com seus leitores em 2025, como parte do Projeto Radis Aberto, que tem como idealizador o coordenador e editor-chefe do Programa Radis, Rogerio Lannes. Esta pesquisa, executada pelo editor e jornalista Luiz Stevanim e pela jornalista Licia Oliveira, contou com a colaboração de toda equipe. 

É no exercício de escuta ativa que o Programa Radis reafirma o compromisso de fortalecer os espaços de diálogo junto à sociedade. Este posicionamento coloca a comunicação como eixo estruturante, não apenas acessório, assumindo que o acesso à informação e a participação social são partes indissociáveis do próprio direito à saúde. E é por meio da interlocução que respeita o outro que se estabelece o diálogo entre as pessoas, como bem-dito pela pesquisadora Inesita Araújo, em entrevista que concedeu ao repórter Adriano De Lavor. 

No Pós-Tudo, o pesquisador emérito da Fiocruz, Paulo Buss, e colaboradores alertam que causas relacionadas a fatores ambientais, sociais e políticos, que estiveram presentes na pandemia da covid-19, ainda persistem e não foram devidamente avaliadas, o que fatalmente resultará em novas pandemias para as quais o mundo segue despreparado.

O Dia Internacional da Mulher, comemorado no mês de março, é ao mesmo tempo uma data de celebração e de reflexão. Celebramos a força, a coragem e a contribuição das mulheres na construção da sociedade — nas famílias, no trabalho, na ciência, na cultura, na política e em tantas outras áreas da vida social. Ao longo da história, mulheres abriram caminhos, romperam barreiras e ampliaram direitos, muitas vezes enfrentando resistências profundas.

Entretanto, esta data também nos obriga a olhar para uma realidade que ainda persiste: a violência contra as mulheres. Em diferentes formas, ela continua a marcar a vida de milhões de mulheres. Muitas sofrem em silêncio dentro de suas próprias casas; outras enfrentam assédio, discriminação e desigualdade em espaços que deveriam garantir sua dignidade e segurança.

Lamentar essa violência não basta. É necessário reafirmar o compromisso coletivo com políticas públicas eficazes, com a responsabilização dos agressores e, sobretudo, com a construção de uma cultura de respeito e igualdade.Nesta edição de março, Radis reafirma a admiração e o respeito a cada mulher que, com sua história e sua luta, ajuda a transformar o mundo num lugar melhor para todos e todas.

Justa Helena Franco, Subcoordenadora do Programa Radis

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