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“Eu não sei dar aula, eu sei contar histórias”. A declaração inicial de Eliane Brum preparou bem os ouvintes no Salão de Leitura da Biblioteca de Manguinhos na Fiocruz. A repórter, escritora e documentarista comoveu a sala lotada (e a plateia virtual) no último dia 05 de abril, ao abordar o papel da Amazônia para o mundo, durante aula inaugural do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), que também celebrava os 37 anos da unidade.

“Por que a Amazônia é o centro do mundo?” foi a pergunta escolhida para nortear a fala da jornalista. Ela trouxe para o centro do debate as experiências que a levaram até a Floresta Amazônica com o compromisso de protegê-la e lutar por ela. “Eu conto [essas histórias] a partir de uma posição muito explícita: entendo que estamos numa guerra contra a natureza. Uma guerra que começou antes das atuais gerações, mas que irá muito além da gente. E nessa guerra, o meu lugar é de aliada dos povos da natureza e eu luto ao lado deles, especialmente, ao lado delas”, afirmou.

O nascimento da plataforma trilíngue de jornalismo Sumaúma faz parte das iniciativas de Eliane Brum — e de seu cofundador, Jonathan Watts, editor de Meio Ambiente do jornal britânico The Guardian — em firmar essa aliança com a Amazônia e seu povo. Assim como a mudança da jornalista para Altamira, no Pará, cidade-base do projeto Sumaúma, foi uma decisão para se aproximar deste novo centro do mundo. “Dizer que a Amazônia é o centro do mundo não é retórica. Não é uma frase pretensamente de efeito”, declarou. “É algo mobilizador. É uma premissa ética que deve nos nortear no enfrentamento da crise climática”, destacou.

Eliane também classificou o nosso contexto como “momento limite”, uma conjectura que nenhuma outra geração viveu. A escritora faz uso dessa expressão ao contar sobre o seu contato com os povos ribeirinhos removidos de suas casas e expulsos de seus territórios pelo Projeto da Hidrelétrica de Belo Monte. Segundo ela, essa experiência — personificada na história de Raimunda Gomes da Silva e João Pereira da Silva, a qual deu origem ao documentário Eu + 1 e à Clínica de Cuidado em Saúde Mental na Amazônia — trouxe dois ensinamentos: o primeiro, de que “não basta fazer o que a gente sabe, é preciso fazer o que a gente não sabe”; e o segundo, de que “quando há escuta, não precisa de sacrifício”.

— Foto: Raquel Portugal.

Escutar de verdade

E para ser capaz de fazer o que não se sabe e escutar de verdade, é preciso reajustar o que é centro e o que é periferia nos nossos pensamentos, na geopolítica e na nossa prática cotidiana, diz Eliane. “Os centros são onde está a vida, não onde estão os mercados. Os centros desse mundo não são Washington, Pequim, Londres, Frankfurt. Mas são a Amazônia, as outras florestas, os oceanos, o Cerrado, o Pampa, a Caatinga, todos os biomas, onde a natureza resiste”, pontuou.

Outra linguagem e outros valores também devem pautar nosso entendimento da Amazônia e da natureza, reivindica a repórter. “É muito pobre ver a floresta como ativo econômico. Pensar nela a partir do valor econômico que ela tem ou pode ter, mesmo sob o guarda-chuva do desenvolvimento sustentável”. Para ela, essas supostas “soluções” para a Amazônia, difundidas nacional e internacionalmente através de um discurso mercadológico, não conseguem enxergar o verdadeiro valor da vida, que só existe porque a natureza existe e tem relevância e utilidade em si mesma.

“[A floresta] é uma conversa entre milhões de gentes diferentes, humanas e não humanas num intercâmbio constante. Absorver carbono é apenas uma pequena parte do que a floresta é. A floresta cria atmosfera, regula o clima, poliniza, ela nos salva todos os dias”, afirmou. E são os povos indígenas e tradicionais que salvam a floresta diariamente. Logo, a saída está nos seus conhecimentos e nas suas atuações, concluiu Eliane.

Crise climática

— Foto: Martin Carone dos Santos.

A sexta extinção em massa de espécies e a crise climática são causadas por ações humanas, mas quais humanos? Reconhecer e responsabilizar as pessoas certas, uma minoria dominante que está ativa e desproporcionalmente mudando a morfologia do planeta, também faz parte dos planos que Brum propõem para uma mudança de paradigma e um chamado à ação.

Isso porque a lógica social que concede o poder para essa elite é a que está produzindo o colapso ambiental e está calcada num tipo de pensamento branco, patriarcal, masculino e binário, reforça a jornalista. Precisamos de todos — dos homens brancos e mulheres brancas — para reconstruir os alicerces naturais, mas, para isso, “nós, brancos, precisamos sair do nosso papel de colonizador. Precisamos estar nessa luta a partir de outro lugar, em que nós não vamos ensinar qual é a solução, pois ela não virá daqueles que destruíram”.

E Eliane presenciou essa destruição de perto. De tão marcante, faz questão de lembrar a data: dia 27 de agosto de 2022. Assim como Raimunda Gomes e João Pereira viram sua casa, uma ilha no Rio Xingu, queimada e desmatada pela empresa Norte Energia para dar lugar ao lago de Belo Monte, Brum testemunhou o fogo tomando as árvores e a terra da janela da sua casa numa região próxima ao Rio Xingu. “São holocaustos de vidas”, resume. “Tem macacos, pássaros, insetos, cobras, sapos sendo incinerados naquele momento. Toda a imensa população mais que humana da floresta numa dor excruciante. Por isso, precisamos ampliar a nossa ideia de floresta, para conseguimos alcançar o que é ver ela queimando, algo muito maior do que campos de futebol”.

Esses constantes ataques à natureza — realizados seja pelo setor privado, seja pelo poder público — produzem um fenômeno que Eliane chama de “conversão dos povos-floresta em pobres”. Seria arrancar as pessoas de suas identidades e tradições e transformá-las nessa categoria de classe genérica denominada “pobre”, levando-as para as periferias das cidades, assinala. “Toda cidade amazônica é uma ruína da floresta”, diz.

E para ilustrar essa ruína, Eliane recorre a mais uma história, a de Raimundo Braga Gomes, mais conhecido como Raimundo “Berro Grosso”, um ribeirinho que foi removido compulsoriamente de sua ilha no Rio Xingu e remanejado para um dos projetos de habitação — Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs) — construídos pela empresa Norte Energia em Altamira, Pará.

“Ele [Raimundo] me explicou o que é ser rico. Ser rico é não precisar de dinheiro. E não porque já tem muito dinheiro, mas porque ele não precisa, já que tudo que ele precisa está na floresta. Ele constrói a sua casa, come e vive da floresta”, destaca Eliane. O que é ser pobre, então? a jornalista questionou ao ribeirinho. “Ele disse que ser pobre é não ter escolha. Não ter escolha do que comer, de onde viver, nem nada”. Numa casa onde não se tinha lugar para uma rede; sem condições de pagar pelo que queria comer e vivendo sob as condutas e formalidades de uma vida urbana, Raimundo se converteu em um pobre e perdeu sua cultura, “o DNA da alma desses povos”, reforçou.

Apesar de tantas violações e relatos brutais — Eliane também faz questão de mencionar as invasões de garimpeiros à Terra Indígena Yanomami e as reportagens de denúncia da plataforma Sumaúma —, as falas da escritora e repórter são um alerta de quem quer instigar a atenção, o respeito e a estima pela Amazônia. Já que na floresta ela também viveu “experiências de alumbramento”, nas quais uma delas, Eliane conta, a fez pensar sobre a resistência da natureza e a relação entre pessoas não indígenas e a floresta. O chão de estrelas, vivenciado numa noite na mata com Noemia Ishikawa e causado pelos fungos bioluminescentes, fez a jornalista pensar como existem tantas coisas que não sabemos sobre a Floresta Amazônica e que esses eventos e elementos desconhecidos são a maior fração da realidade desse lugar.

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