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As relações entre comunicação e políticas públicas, em especial a saúde, estiveram em debate no seminário H1N1 — O caso da influenza A, promovido pela Fiocruz Brasília, nos dias 25 e 26 de agosto, reunindo jornalistas e profissionais da área de saúde. O evento, que faz parte da série As relações da saúde pública com a imprensa, avaliou a cobertura da epidemia da gripe A feita pela mídia brasileira.

“A discussão é rica, por contribuir para a aproximação do profissional de imprensa do Sistema Único de Saúde“, observou na abertura a vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz, Maria do Carmo Leal, ao lado do titular da Diretoria Regional de Brasília (Direb), Carlos Matos, que destacou o papel essencial da imprensa na discussão sobre saúde. A importância foi resumida por Valéria Padrão, da Secretaria de Vigilância em Saúde: “Sem comunicação, nenhuma política pública terá visibilidade e será compreendida pela população”.

Entre os jornalistas, as apresentações trataram dos bastidores de produção das matérias. Eles fizeram uma autocrítica em relação ao que foi e ao que poderia ter sido a cobertura e também cobraram maior atenção por parte das fontes em relação às informações fornecidas à imprensa.

O editor chefe do Jornal da Record, em Brasília, Márcio Motta, considerou a cobertura da gripe H1N1 “difícil”: as primeiras notícias eram alarmantes e não havia, na redação, repórteres especializados. “Tudo foi muito assustador”, analisou, lembrando que, naquele momento, não havia consenso nem sobre a nomenclatura: ora se falava em gripe suína, ora em H1N1, ou em gripe A.

O jornalista explicou que, diante de uma audiência diária de um milhão de pessoas, a preocupação da emissora é atingir o telespectador “carente de informação”, que vive na periferia. No primeiro momento, a cobertura se apoiou nas informações oficiais e tomou como foco o risco de entrada do vírus no país. A repercussão no mercado também gerou pautas: cancelamento de pacotes turísticos e viagens e venda de remédios e produtos como álcool gel e máscaras de proteção.

No contexto de desinformação, Márcio admitiu que pouco se refletiu: “É um trabalho seriado; a gente se concentra no fato do dia, não consegue pensar”, justificou. Apesar da preocupação em evitar o pânico, as matérias refletiam o clima de medo e risco: repórteres recomendavam a diminuição do contato interpessoal, alertavam para a “livre circulação do vírus” e previam que “nem todos seriam vacinados”.

Editor do caderno Brasil, do Correio Braziliense, Leonardo Cavalcanti ressaltou seu “compromisso com o público” e fez questão de “desmistificar” a ideia de que repórter pensa em venda de jornal. “Existe a preocupação em fazer a melhor reportagem”, afirmou. No retrospecto das matérias do Correio, ele reconheceu a imprecisão dos primeiros textos, baseados apenas em informações fornecidas por agências internacionais de notícias.

No momento seguinte, “quando cresceu o risco da pandemia”, o jornal ampliou sua cobertura, dedicando uma página diária ao assunto. Leonardo destacou que era difícil ter acesso às informações oficiais e os repórteres temiam a doença. “Era uma cobertura de risco e de pânico”, definiu. Ele reconheceu que o Correio não se preocupou em abordar um possível lobby promovido pela indústria farmacêutica. A preocupação era outra: “Sou pago pelo leitor para questionar o governo”, resumiu. Ele observou que, além do ineditismo da cobertura, havia outro entrave: “A gente ficou refém da comunidade científica”. Leonardo considerou que “faltou um pouco de empenho”, de alguns gestores e pesquisadores na comunicação com a imprensa. “Eles têm dificuldade em se comunicar. Deveriam estudar mais para a população e menos para o próprio ego”.

Comunicação planejada

Chefe da assessoria de comunicação do Ministério da Saúde, Marcier Trombiere relatou que as ações informativas do governo sobre o H1N1 seguiram o manual de crises em saúde pública, que apregoa planejamento, agilidade da comunicação (em consonância com a área técnica), além de consistência e transparência nos dados. Segundo ele, havia um plano de comunicação que previa diversos cenários, desde a não entrada do vírus no país até a ocorrência de uma pandemia em grau máximo de alerta (nível 6 da OMS).

O plano envolveu profissionais de assessoria de imprensa, publicidade, relações públicas, rádio e mídias sociais, e tinha como objetivo enfrentar a “crise que se deu com o sensacionalismo da mídia”. Naquele momento, lembrou, estimava-se um prejuízo de US$ 3 trilhões só com a alteração na rotina do turismo, por exemplo.

Segundo ele, com as estratégias deflagradas — distribuição de releases, contato com as redações, reuniões com sociedades científicas, entrevistas e lançamento de peças publicitárias, entre outras — o clima de confiança se estabeleceu, embora alguns órgãos tenham insistido em informações precipitadas.

Para Marcier, a crise foi contornada com a rapidez das ações e o monitoramento das dúvidas da população colocadas nas redes sociais — orkut, facebook, formspring e twitter — que geraram cerca de 80 mil interações. Ele também destacou os eventos de mobilização, as entrevistas coletivas e as parcerias — com os órgãos de imprensa, companhias telefônicas, empresas e assessorias de outros ministérios — para o lançamento e divulgação da campanha de vacinação.

Em sua avaliação, a estratégia foi vitoriosa: foram vacinadas mais de 80 mil pessoas em todo o país — cerca de 46% da população. “Um sucesso não alcançado em muitos países ditos avançados”.

Beth Almeida, chefe de redação do núcleo de Comunicação da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS/MS), que também integra o comitê de crises do ministério, informou que o alerta da OMS sobre a H1N1 chegara ao país através do Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS) — rede presente em todos os estados e quase todas as capitais —, cujo foco é o monitoramento de um conjunto de doenças que, pelo seu elevado potencial de disseminação, oferecem riscos à saúde pública. A influenza está na lista de doenças de notificação compulsória de acordo com o Regulamento Sanitário Internacional (RSI).

Beth mostrou que as determinações de comunicação de risco preconizam, entre outras tarefas, a unificação do discurso entre os órgãos e setores responsáveis pelo enfrentamento da doença. O CIEVS possibilita a circulação de notificações, protocolos clínicos e de vigilância. Ela precisou que somente no dia em que o Ministério da Saúde divulgou a circulação do vírus no país (11/5/2009), 35 mil acessos à rede foram computados.

Entre outras ações da SVS, ela citou a produção de boletins informativos para profissionais da atenção básica, da vigilância em saúde e das assessorias de comunicação de estados e municípios, a capacitação de profissionais do Disque Saúde, a ativação de um grupo executivo interministerial e a encomenda de uma pesquisa de acompanhamento da mídia ao Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica da Fiocruz (Icict/Fiocruz).

Desconfiança histórica

Marcier lembrou que há uma desconfiança histórica da imprensa em relação a qualquer comunicação oficial; Beth atribuiu a suspeita a uma “herança do regime totalitário”, quando os entrevistados escondiam dados. Mesmo assim, ambos reconheceram que, após “a crise de sensacionalismo” inicial, a imprensa foi parceira na divulgação do calendário de vacinação. “Estamos bem preparados depois dessa”, avaliou Marcier.

O coordenador de atendimento e produção da assessoria de imprensa do Ministério da Saúde, Rodrigo Hilário, reforçou que houve certa desconfiança no início da cobertura, em especial, no que dizia respeito à divulgação de números. Além disso, a falta de articulação entre algumas declarações oficiais e os choques de agenda — a concentração da “fala oficial” em poucas fontes — também contribuíram para algum descompasso.

Boa relação

Por outro lado, reforçou, os princípios da comunicação de risco asseguraram uma boa relação com a imprensa: a rapidez, a correção e a confiabilidade das informações. Tudo isso também foi possível com o envolvimento dos profissionais de imprensa do ministério em todo o processo — das reuniões técnicas ao contato com os profissionais de redação.

Outro ponto positivo levantado por Rodrigo foram as parcerias firmadas com especialistas, o monitoramento da mídia internacional e o envolvimento direto do próprio ministro da Saúde, José Gomes Temporão, na divulgação de informações nos principais veículos de comunicação do país. Ele contabilizou que, entre os mais de 8 mil pedidos de informação dos veículos à assessoria de imprensa do Ministério da Saúde, entre abril de 2009 e julho de 2010, 23,5% estavam relacionados à pandemia de H1N1.

Chefe de reportagem do Jornal de Brasília, Felipe Trigueiro classificou a cobertura do H1 de imprevisível, o que mobilizou a redação para o acompanha- mento do factual e o fornecimento de serviço. “O cidadão vê o jornalista como esperança”, salientou. Ele informou que a estratégia do jornal para a cobertura também previa a possibilidade de infec- ção dos repórteres pelo H1N1 e estava orientada para repercussão e análise dos dados divulgados pelo Ministério da Saúde. Como se trata de um jornal popular, relatou, muitas informações tiveram que ser traduzidas para o pú- blico. “Jornalista não sabe de nada, apenas reproduz o que os especialistas comentam”, justificou. “O comunicador é apenas um elo da corrente. Sua função é fazer com que a sociedade interaja”, opinou Humberto Martins, diretor da Rádio Câmara, vei- culada pela internet, e apresentador do programa Fator de risco. Ele contou que teve que adaptar suas intervenções às dúvidas dos ouvintes, no início da epide- mia. Também produziu alguns spots com informações preventivas. O programa é veiculado em 1,6 mil emissoras coligadas, o que gerou mais de 8,4 mil acessos para baixar os conteúdos. Na verdade, a estratégia diante da crise não foi diferente daquela que norteia sua prática, e que prevê não estimular automedicação ou procura por tratamentos, ouvir profissionais compro- missados e insistir na necessidade de se consultar um profissional de saúde. “Sou basicamente um perguntador”, definiu.

Fontes qualificadas

O infectologista Ricardo Pio Marins não estava à frente de um cargo de gestão durante a crise, mas está acos- tumado a ser fonte para a imprensa. Hoje na Secretaria de Vigilância em Saúde do governo do Distrito Federal, ele informou que tem como premissa garantir informação para a população. Para isso, considera fundamental que a saúde pública disponha de mecanismos de comunicação, incluindo meios “infor- mais”, que não os do caráter factual dos jornais. “Todo fato tem um contexto e seus antecedentes”, frisou.

Ele lembrou que, apesar de a OMS ter declarado o fim do alerta em relação ao H1N1 (ver Súmula, pág. 6), o agente infeccioso “continua entre nós”, o que significa que notícia não deve se restringir àquilo que comove. O Brasil não estava — e ainda não está — preparado para uma epidemia, alertou. “Não é só coletar informação. Tem que refletir os dados”. Ele orien- tou os jornalistas a submeter os dados epidemiológicos a análise de fontes qualificadas, ou seja, epidemiologistas, e não “qualquer infectologista”.

Coordenador de Comunicação So- cial da Fiocruz, Wagner Oliveira também defendeu uma maior qualificação das fontes, lembrando que muitos erros se cometem e se propagam a partir de in- formações equivocadas, divulgadas por “figuras carimbadas” que não perdem oportunidade de dar entrevistas.

A pesquisadora Kátia Lerner, coordenadora do Observatório Saúde na Mídia do Icict/Fiocruz, ressaltou a necessidade de avaliar o verdadeiro lugar da mídia nas sociedades contemporâneas — um espaço coerente da expressão dos interesses sociais ou um local de controle e denúncia? Para ela, ambas as abordagens são corretas e limitadas. O observatório, que nasceu em 2003, com o intuito de investigar como as informações se ressignificam em seus processos de produção, circu- lação e recepção, passou a monitorar, a partir de 2008, o que sai na mídia. Em 2010, acompanha o que se publica sobre dengue e H1N1. O trabalho trouxe alguns desafios. Como definir saúde?, indagou ela, explicando que a análise proposta leva em consideração aspectos quanti- tativos e qualitativos e evita separações dicotômicas do tipo “matéria bem feita versus mal feita”. A questão é saber que sentidos são produzidos pelos meios de comunicação sobre H1N1. Tão importan- te quanto verificar o que é publicado no jornal é analisar os contextos de produ- ção da notícia, as tensões presentes no plano discursivo.

Fala governamental

De acordo com Kátia, verificou-se no observatório uma centralidade de fala governamental nas matérias ana- lisadas, e também alguns pontos que refletem as condições de produção: clima pré-eleitoral, interesses econô- micos e políticos, repercussão inter- nacional, entre outros. Se tivesse que resumir a epidemia em uma imagem, escolheria as máscaras de proteção, que expressaram a vulnerabilidade da população diante do vírus.

A jornalista Lígia Formenti, da sucursal Brasília do Estado de São Paulo, buscou a quantidade de referências ao H1N1 no jornal e en- controu 950. O assunto, informou, recebeu atenção em diversas edito- rias — e também das sucursais — já que se tratava da primeira pandemia do século 21 e o primeiro teste do Regulamento Sanitário Internacio- nal (RSI) no país. A estratégia (e o desafio) foi “analisar o problema para além das informações oficiais”, fornecendo informações claras para se evitar o pânico e a proliferação de “terapias milagrosas”.

Nova imprensa brasileira

Para Luciano Martins Costa, do Observatório da Imprensa, a prática do bom jornalismo deve reunir educação — para formar a consciência social — en- tretenimento e serviço. No entanto, ele observa que a grande imprensa apenas oferece a agenda pública, esvaziando sua capacidade de “formar opinião”. Em relação à cobertura da gripe H1N1, ele citou episódios em que notícias mais alarmavam do que deixavam segura a população. Luciano apontou mudanças na imprensa brasileira a partir dos anos 1990, motivadas pela imediatização e superficialidade características da glo- balização. “A imprensa é burguesa, tra- balha pela manutenção do status quo”.

Para ele, o novo modelo mudou o foco da sociedade para o consumidor, o que se reflete na estrutura das redações. São empresas familiares, com gestão con- servadora, de alta rentabilidade, mas de rápida depreciação no mercado — o que as obriga a investir constantemente em novas marcas e produtos. Investem pouco em capacitação de pessoal, o que as faz ter equipes “insuficientes, homogêneas e intelectualmente pouco ambiciosas”. O jornalismo que se produz é mais opinati- vo que informativo, com um foco político que atravessa todas as notícias. “Não há contraditório nas redações”, analisou.

Luciano defende que as cober- turas sejam preparadas com ante- cedência. Na ausência de especia- listas, o jornal deve cultivar fontes independentes, diferenciando-as dos porta-vozes. Ele recomendou abordar os assuntos com mais profundidade. “Os jornais não discutem os sistemas (economia, política, saúde) porque não se veem como parte deles”.

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