Em 15 de agosto de 1986, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)estava em festa. Nesta data, a instituição reintegrou ao seu quadro dez pesquisadores que haviam sido cassados em 1970, durante o regime militar. Eles tiveram suas pesquisas e trabalhos de mais de 20 ou 30 anos descontinuados, com o desmonte de laboratórios e a perda de coleções, no episódio que ficou conhecido como Massacre de Manguinhos. O retorno, que ocorreu durante a gestão de Sergio Arouca (1985-1989), reuniu mais de duas mil pessoas em frente ao Castelo Mourisco, como reportado na Súmula 15 (publicação do Programa Radis, anterior à revista atual).
A cerimônia contou com a presença de artistas e políticos, como Grande Otelo (1975-1993), Mário Lago (1911-2002), Ulysses Guimarães (1916-1992) e Darcy Ribeiro (1922-1997), na época vice-governador do estado do Rio de Janeiro. Foi um dos momentos mais marcantes do processo de redemocratização da instituição, pois, nas palavras de Sergio Arouca, o episódio do Massacre foi uma perseguição à ciência. “No meio disso tudo tem o ódio ao pensamento científico. É porque, talvez, a relação que o pesquisador mantém com o problema, naquele instante quase que solitário, ao colocar diante do seu objeto perguntas, isso transforma. Esse pensamento solitário vira na realidade um ato solidário com a justiça social e com o avanço”, disse, durante seu discurso.
Augusto Cid Mello Perissé, Domingos Arthur Machado Filho, Fernando Braga Ubatuba, Haity Moussatché, Herman Lent, Hugo de Souza Lopes, Masao Goto, Moacyr Vaz de Andrade, Sebastião José de Oliveira e Tito Arcoverde Cavalcanti foram reincorporados à Fiocruz, com grande parte deles restabelecendo suas funções, reorganizando os laboratórios ou dedicando-se à docência. No entanto, Masao Goto (1919-1986), médico de grande destaque na área de micologia (estudo dos fungos), não chegou a reassumir o cargo, pois faleceu em 7/9/1986, por problemas cardíacos, dias após a cerimônia de reintegração.
Quarenta anos depois, no mesmo local, nas escadarias do Castelo, a Fiocruz rememorou esse momento concedendo, postumamente, o título de pesquisador emérito a cada um deles, no dia 5/8 — data em que se comemora o Dia Nacional da Saúde e o nascimento de Oswaldo Cruz. Herman Lent (1911-2004) foi o único que chegou a receber o título em vida, mas também foi homenageado simbolicamente.
O evento também concedeu o título a Walter Oswaldo Cruz (1910-1967), filho de Oswaldo Cruz e um dos mais atuantes pesquisadores da instituição naquela época. Ele faleceu em 1967, três anos antes da cassação dos outros pesquisadores. Entre os homenageados estiveram também todos aqueles que idealizaram e foram responsáveis pelo evento de reintegração de 1986. Além disso, houve tributo ao técnico Francisco José Rodrigues Gomes (1911-1991), conhecido como Chico Trombone, e à madre Maria de Fátima Maron Ramos (1931-2011), chanceler da Universidade Santa Úrsula, uma das pessoas que acolheram os pesquisadores perseguidos.

Com a presença de familiares, amigos, colegas e herdeiros de pesquisa dos cientistas cassados, a entrega dos títulos e as homenagens também contaram com as falas do atual presidente da Fiocruz, Mario Moreira; de Tânia Araújo-Jorge, diretora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), que recebeu os títulos destinados aos pesquisadores cujos familiares não foram localizados; e de Carlos Fidelis, presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), que também representou o Sindicato Nacional dos Servidores de Ciência, Tecnologia, Produção e Inovação em Saúde Pública (Asfoc-SN), entre outros convidados. As falas destacaram a importância do retorno dos pesquisadores à instituição naquele período histórico e como lembrar é fundamental para não deixar que esse tipo de perseguição volte a acontecer.
Nesse sentido, o depoimento de Francilene Garcia, atual presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da qual Walter Oswaldo Cruz foi um dos fundadores, reforçou o desejo de que não haja mais retrocessos. “Celebrar 40 anos não é só olhar para trás, é afirmar um compromisso: nunca mais o Estado brasileiro perseguirá quem produz conhecimento. Ciência se faz com liberdade e com democracia”, disse em mensagem exibida durante a abertura.
Ary de Carvalho Miranda, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) e chefe de gabinete na época em que Arouca foi presidente da instituição, contextualizou todo o processo sócio-histórico, do período da cassação ao retorno dos pesquisadores, e destacou como o ataque foi voltado à ciência. “Muitas vezes perguntavam: por que pesquisadores da Fiocruz? Na verdade, o que eles estavam atacando era o pensamento crítico. Nós tínhamos uma dívida, tínhamos que honrar estes pesquisadores e dar uma resposta à ditadura e assim conseguimos reintegrá-los à instituição”.
O pesquisador e historiador da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) Gilberto Hochman saudou especialmente os familiares que estavam ali para receber as homenagens e falou sobre a importância de incluir Walter Oswaldo Cruz entre aqueles que receberam os títulos, diante das perseguições que sofreu antes de sua morte, aos 56 anos. Segundo Hochman, se Walter não tivesse falecido antes, com certeza seu nome estaria entre os cassados.
O pesquisador afirmou que aquele momento era “de reflexão sobre o presente e o futuro das relações entre ciência e democracia. Um ato para relembrarmos, mais uma vez e sempre, a violência perpetrada pela ditadura militar contra a universidade brasileira e contra as instituições científicas e, principalmente, e isso é o mais importante, para celebrarmos a vida e a obra desses nossos cientistas”. Além disso, destacou a importância da homenagem póstuma como reconhecimento da responsabilidade também da instituição e afirmou que a reparação ainda é incompleta para a memória e a justiça dos pesquisadores cassados. “Foi uma geração única de cientistas que pensou o Brasil para além dos laboratórios”, disse.
Por fim, a cerimônia também contou com a leitura da carta dos pesquisadores eméritos em memória aos cientistas cassados. A mensagem foi lida pelo pesquisador emérito Renato Cordeiro e afirma que a história nos mostra que a ciência e a democracia exigem que sempre fiquemos vigilantes e que “a ciência é, e sempre será, um instrumento de libertação e justiça social”.
Saiba mais
Durante o evento dos 40 anos da reintegração dos pesquisadores, foram exibidos trechos do documentário “O Massacre de Manguinhos” (1986), dirigido por Lauro Escorel Filho, que traz fragmentos da cerimônia de 1986 e depoimentos de alguns dos pesquisadores cassados, disponível em: https://videosaude.icict.fiocruz.br/filmes/massacre-de-manguinhos/. Também foi relançado em comemoração aos 40 anos da reintegração uma nova edição impressa do livro “O Massacre de Manguinhos”, obra escrita por Herman Lent, um dos cassados, e que foi publicada pela primeira vez em 1978. Em 2019, o livro foi reeditado para a coleção Memória Viva. Este é um projeto que resgata livros que estão esgotados ou indisponíveis e podem ser acessados em formato digital na Porto Livre, portal de livros de Acesso Aberto da Fiocruz (https://portolivre.fiocruz.br/ ), onde é possível encontrar a edição digital de 2019.



