Oito anos depois que um grande incêndio fez desaparecer fisicamente mais de 90% do seu acervo original, o Museu Nacional mostra novos sinais de recuperação ao exibir duas exposições que partem de suas próprias cinzas. As mostras, em cartaz até 30 de agosto de 2026, no tradicional museu da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, também promovem interessantes diálogos entre memória, ciência e arte.
As exposições “Bastidores da ciência” e “Rescaldo das memórias” se complementam. A primeira revela as cinzas da resistência, mais vivas do que nunca. Como o nome sugere, mostra as expertises do museu — uma casa que também é espaço de pesquisa, ciência e arte — e que se ressignifica. Em 2018, cerca de 18,5 milhões dos 20 milhões de itens que existiam no antigo palácio de São Cristóvão foram destruídos pelo fogo.
“Bastidores da ciência” revela aquilo que o fogo não queimou: motivações, métodos, técnicas e descobertas de quem trabalha ali e que enfrenta o desafio de virar a página sem esquecer o que aconteceu. Entram em cena a restauração, a paleoarte, a modelagem digital, a taxidermia, as ilustrações científicas e diferentes técnicas de conservação de acervos, aproximando o público dos bastidores da produção do conhecimento.
As marcas da fuligem à vista, misturadas aos tijolos originais e colunas aparentes, emolduram processos de trabalho de restauração e de conservação de itens antigos e diferentes modos de “criar” novos artefatos para o acervo. Uma oportunidade de admirar o trabalho de pesquisadores e perceber que o que se faz no museu também é arte.

Das cinzas à nova vida
“Rescaldo das memórias” emociona pelo encontro explícito entre ciência e arte. A partir dos diferentes tons das cinzas do incêndio em 2018, catalogadas pelo paleontólogo Sergio Alex Kugland de Azevedo, o artista Vic Muniz reconstruiu imagens de obras que foram consumidas pelo fogo. A fachada do próprio museu, desenhada com cinzas e posicionada entre as vigas originais do prédio — que se mantiveram em pé, mesmo com o desabamento dos andares superiores —, é o destaque entre as fotografias, que também retratam borboletas e conchas, afrescos de Pompéia e uma esfinge egípcia.
No centro da sala — onde começou o incêndio, em 2018 — esculturas em polímero recriam artefatos consumidos pelo fogo: pequenas estatuetas; a múmia egípcia de um gato; o crânio de Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado na América do Sul, com mais de 10 mil anos de idade. Tudo também revestido com as cinzas do incêndio. Como a mitológica ave fênix, que renasce das próprias cinzas, o museu, que completou 208 anos em 2026, reinventa-se ao questionar a linearidade do tempo por meio da arte.
Entre as duas exposições, no hall de entrada do museu, alguns itens que sobreviveram às chamas capturam o olhar do visitante: as estátuas de Orfeu, na mitologia grega o filho de Apolo e Calíope que viaja até o inferno para resgatar sua amada Eurídice; e de Cibele, a deusa protetora dos reinos que salvou da destruição o filho, o poderoso Zeus do Olimpo, originalmente localizadas na fachada do prédio, foram as únicas que resistiram à ação do fogo. Como a reafirmar o poder de resistência, emolduram imponentes a escadaria principal, ainda interditada ao público.
Ao centro das duas, na entrada do museu, está um artefato do espaço que encanta adultos e crianças: o meteorito de Bendegó, com 5.360 quilos e 4,5 bilhões de anos. O objeto, encontrado por um menino por volta de 1784 próximo ao riacho homônimo, no sertão baiano, foi incorporado ao museu, em 1888. Um dos maiores já registrados no hemisfério Sul, estima-se que o meteorito de ferro e níquel tenha se formado há mais de 100 mil anos.
Acima dele, o esqueleto de uma baleia cachalote, suspenso no teto, também é alvo das câmeras dos visitantes. Encontrado no litoral do Ceará há pouco mais de 10 anos, os ossos da baleia, incorporados recentemente ao museu, ensinam de maneira lúdica a diferença entre o que é esqueleto e um fóssil, assim como sinalizam para o caráter dinâmico de recomposição do acervo, que se constrói a cada dia.
As exposições contam ainda com a “recepção” de um ser inusitado. Do lado de fora do museu, está um animatrônico — boneco controlado remotamente e projetado para imitar a aparência e os movimentos de seres vivos — de um Oxalaia quilombensis, um dos mais importantes dinossauros já descritos no Brasil. Com cinco metros de altura e 15 metros de comprimento, a réplica foi doada pelo Parque Terra dos Dinos, localizado em Miguel Pereira, região centro-sul fluminense.










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