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Imagine a seguinte situação: final de campeonato, 43 minutos do segundo tempo. Falta na entrada da área. Dezenas de milhares de pessoas em total silêncio, num misto de apreensão e expectativa. A tensão é palpável. Olhos fitados na grama, o grito suspenso. O árbitro autoriza a cobrança, o craque da equipe corre em direção à bola e acerta o ângulo. Golaço! No instante seguinte, um brado uníssono de euforia embala a festa na arquibancada. Mas, ainda que torçam para o mesmo time e partilhem a emoção daquele momento, sem as devidas adequações de acessibilidade no estádio, nem todos os presentes terão vivenciado essa experiência da mesma forma.

É o que relata — e demonstra em suas publicações nas redes sociais — o advogado carioca Cláudio Bazoli. Cadeirante há mais de 25 anos, ele frequenta estádios de futebol desde sempre, mas a partir de 2013 passou a se aventurar fora de sua cidade, ao lado da esposa e companheira de jornada, a jornalista Karla Bazoli. Antes restrito a Maracanã, Engenhão e São Januário — a casa de seu time, o Vasco da Gama —, Cláudio ampliou seus horizontes. No Instagram (@cacadoresdeestadiodefutebol), o casal, que já soma mais de 200 estádios visitados em 24 países, registra os desafios e as possibilidades para um cadeirante acompanhar seu time ou simplesmente assistir a jogos de futebol no Brasil e em outras partes do mundo.

5,2 milhões de brasileiros relatam dificuldade permanente para andar ou subir degraus

Fonte: IBGE

Final da Copa do Mundo de 2014, no Maracanã: “Na Copa ninguém ficava em pé, pois as pessoas obrigatoriamente ficavam nos assentos conforme a numeração”, relata Cláudio – Foto: Acervo Caçadores de Estádios de Futebol

Nos últimos anos, o que até então era um hobby ganhou contornos mais sérios. Desde 2018, eles decidiram catalogar as vivências e experiências acumuladas em visitas a estádios com ênfase na acessibilidade. “A intenção era realmente mostrar as dificuldades encontradas e buscar melhorias”, revela o idealizador do projeto “Caçadores de Estádios de Futebol”. “No começo, não tínhamos um foco definido. Queríamos conhecer estádios, seja para turismo ou assistir aos jogos. E, a partir de tantas dificuldades, começamos a registrar”, completa.

Na cena de jogo hipotética que abre esta reportagem, muito provavelmente Cláudio enfrentaria uma situação incômoda que vivencia com frequência nos estádios. Sem estrutura e planejamento adequados por parte das arenas esportivas, mesmo enxergando perfeitamente, ele provavelmente perderia a visão do lance decisivo, obstruída por torcedores não cadeirantes que se levantariam à sua frente, se o local a ele destinado estivesse no nível dos demais assentos. Uma queixa recorrente. Ou ainda teria seu espaço invadido de forma desordenada por outros torcedores, gerando desconforto, riscos à sua integridade física e um tumulto capaz de comprometer aquele momento.

Mas é preciso frisar: nem todos os estádios proporcionam uma experiência negativa. Há, sim, assimetria na forma como cada administração ou agremiação esportiva lida com seus torcedores PcD [sigla para pessoas com deficiência] — e na maneira como cumprem ou desrespeitam a legislação. Afinal, é bom lembrar que a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), que em 2025 completou dez anos (Radis 278), garante a toda pessoa com deficiência o direito de acesso ao esportee assegura direito a meia entrada ou acesso gratuito à pessoa PcD a eventos esportivos. Além disso, a Lei Geral do Esporte (Lei Nº 14.597/2023) também determina que seja garantida acessibilidade ao espectador com deficiência ou com mobilidade reduzida.

Estádio João Saldanha, Maricá: área do cadeirante pintada e banco para acompanhante, após reivindicações do casal, 2026. Foto – Acervo Caçadores de Estádios de Futebol

Embora não existam números oficiais sobre o quantitativo de pessoas que utilizam cadeira de rodas no Brasil, dados do censo demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que cerca de 5,2 milhões de brasileiros relatam dificuldade permanente para andar ou subir degraus. Isso representa mais de 2,5% da população. Ao cruzar esse dado com a última Pesquisa Nacional de Saúde (PNS, 2019), estima-se que cerca de 3,5 milhões de pessoas utilizem algum dispositivo de auxílio para locomoção — como cadeira de rodas, bengala, muleta, andador ou prótese/órtese. Todas elas têm direito de acessar arenas esportivas com segurança e adequação.

Os números e os depoimentos dos “caçadores” evidenciam a relevância do trabalho desenvolvido pelo casal, que já visitou estádios em 26 das 27 unidades federativas do país. O último estado, o Amapá, deve ser incluído ainda neste ano, fechando o ciclo. “Quando digo que futebol é para todos, é para o obeso, o idoso, a gestante, a pessoa com mobilidade reduzida — inclusive para quem anda, mas pode torcer um pé, fraturar uma perna e precisar temporariamente de uma cadeira”, afirma Cláudio.

Em sua reflexão, ele amplia o olhar para além da própria condição: “É para o autista, que precisa de uma sala sensorial para conseguir acompanhar o clube do coração; para a pessoa com deficiência visual, que precisa de piso tátil”. Sem deixar a bola cair, Karla completa a jogada: “Futebol deve ser lazer, alegria, inclusão — e não exclusão”. Radis conversou com o casal e traz vivências positivas e negativas, obstáculos, metas e o legado de uma iniciativa que começou de forma despretensiosa, mas já colhe frutos e deixa sementes.

Arena do Grêmio: corda cerca o espaço do cadeirante e impede que demais torcedores fiquem em pé na área PcD, possibilitando uma visão privilegiada do jogo – Foto: Acervo Caçadores de Estádios de Futebol
Arena MRV: espaço do cadeirante é cercado por grades e isso é muito positivo pois impede a invasão do espaço e aglomeração de pessoas – Foto: Acervo Caçadores de Estádios de Futebol

Cadeirantes também torcem 

As cinco Copas do Mundo conquistadas entre 1958 e 2002, a larga produção de craques ao longo de décadas e um talento reconhecido mundialmente ajudam a explicar por que o Brasil é uma potência global no futebol. O esporte mais popular do país leva milhões de pessoas aos estádios todos os anos — e Cláudio Bazoli sempre foi um desses apaixonados. A genialidade de Roberto Dinamite o levou, ainda criança, a escolher o Vasco da Gama em meio a uma família de flamenguistas. Ele frequentava assiduamente clássicos no Maracanã, até que um episódio de violência, no auge da juventude, quase mudou definitivamente o rumo dessa história.

No dia 30 de junho de 2000, ao comemorar a aprovação para o décimo período da faculdade de Direito, Cláudio se envolveu em uma briga durante uma festa e foi baleado, perdendo o movimento das pernas. Hoje, 25 anos depois, aos 49 de idade, diz estar completamente adaptado à rotina sobre a cadeira de rodas e grato pela oportunidade de viver. “Agradeço a Deus por ter poupado a minha vida, porque passei a valorizá-la ainda mais depois que quase morri”, afirma.

Ele garante que ser cadeirante não é um problema. E tenta transmitir essa percepção a outras pessoas na mesma situação: “Procuro estimular outros cadeirantes a terem essa mentalidade e a buscar a felicidade. Eu não ando, mas há muitas pessoas que andam e seguem em círculos, sem sair do lugar. Uma deficiência não pode limitar meus objetivos”, declara. Apesar da postura positiva, a primeira viagem internacional como cadeirante esperou 13 anos para acontecer, e contou com o incentivo decisivo de Karla, com quem se relaciona desde 2007.

“Sem a Karla, nada disso existiria”, reconhece Cláudio. “Por eu ser cadeirante, preciso de alguém que ande e consiga me auxiliar. No começo, ficávamos restritos a São Januário, Maracanã e Engenhão. Em 2013, começamos a viajar. Eu tinha medo, achava que não era capaz. A Karla me incentivou a me jogar no mundo”.

Ela conta que apesar da insegurança do companheiro para viajar, sua insistência acabou prevalecendo. “Foram alguns embates até que tirei isso da cabeça dele. Quando ele viu que conseguia, não paramos mais.” O primeiro destino foi a Argentina. À época, tratava-se apenas de turismo em casal, “não de um projeto de acessibilidade”, ressalta ele. Mas a paixão pelo futebol os levou aos primeiros estádios internacionais de uma lista que cresceria com o tempo.

Copa 2022, no Catar: decisão de 3º lugar Khalifa International Stadium – Foto: Acervo Caçadores de Estádios de Futebol

Até a data de publicação desta reportagem, o casal Bazoli contabilizava 211 estádios visitados, 120 deles com partidas assistidas. Sempre que possível, eles retornam a arenas onde antes só fizeram visitas guiadas, para vivenciar a experiência em dia de jogo. Atualmente, preparam-se para embarcar rumo aos Estados Unidos, para a terceira Copa do Mundo — após Brasil 2014 e Catar 2022, um dos maiores desafios do projeto até aqui. Karla relata que a partir das experiências relacionadas à acessibilidade nesses locais eles passaram a documentar tudo e deram esse direcionamento à página no Instagram.

Cláudio observa que não é raro ser o único cadeirante presente nos jogos, o que escancara a exclusão desse público e, ao mesmo tempo, acaba servindo de justificativa para a falta de investimento em estrutura — alimentando um ciclo vicioso. Ele atribui essa ausência a experiências negativas anteriores nos próprios estádios, relatadas em conversas com outros cadeirantes. “Que tipo de inclusão é essa, se dizem que os eventos esportivos são para todos, mas só quem anda consegue ir?”, questiona.

É preciso fiscalizar

Ao avaliarem a estrutura dos estádios brasileiros, Cláudio e Karla fazem um alerta importante: arenas novas ou reformadas, modernas e palcos de grandes jogos, mesmo quando contam com adequações para cadeirantes e outras pessoas com deficiência, ainda apresentam problemas crônicos. Um dos principais é a obstrução visual causada por outros torcedores. Na Arena Fonte Nova, em Salvador (BA), por exemplo, ele se queixa de que a área destinada a cadeirantes fica na mesma altura dos demais assentos — o que resultou em uma de suas piores experiências em estádios brasileiros. “Em lances de perigo, as pessoas se levantam. E o cadeirante não pode se levantar”, explica Cláudio.

Ele alega que a falha é grave e compromete todo o resto. “Tudo lá funciona — tem elevador, é fácil chegar —, mas quando a bola rola, acabou”. Para evitar situações como essa, Cláudio defende a consulta prévia a especialistas no tema e às próprias pessoas com deficiência como uma etapa essencial de planejamento: “Tem que chamar quem entende de projetos para PcD, tem que ouvir cadeirantes, pensar na sala sensorial para autistas, no piso tátil para deficientes visuais. São detalhes que fazem enorme diferença”, reforça.

Outras experiências negativas envolvem dificuldade de acesso às áreas reservadas, falta de fiscalização, ausência de informações prévias e desrespeito por parte de torcedores que ocupam espaços destinados a cadeirantes e seus acompanhantes. “Quem anda, pode circular pelo estádio inteiro. O cadeirante não, ele só tem aquele espaço”, pontua Karla.

Invasão da área PcD, Maracanã, 2025 – Foto: Acervo Caçadores de Estádios de Futebol

Cláudio destaca que a existência de um local delimitado não garante acessibilidade se não houver controle. “Falta organização. O espaço existe, mas o cadeirante nem sempre consegue usá-lo.” Karla relata situações de confronto com torcedores e até com funcionários. Em uma delas, ao pleitear a retirada de pessoas que ocupavam a área que deveria ser restrita, ouviu de um membro da organização: “Se vira aí, é muita gente, não vou me meter”. Ela citou a ocorrência de casos semelhantes no estádio Kleber Andrade, em Cariacica (ES), e na arena do Corinthians, em São Paulo (SP), por exemplo.

Outro desafio frequente relatado por eles é a dificuldade que pessoas com problemas de locomoção enfrentam para acompanhar seu time nos estádios adversários. Mesmo as arenas acessíveis não costumam ter esse espaço apropriado para cadeirantes no setor visitante. “Normalmente a torcida visitante fica no setor superior, mais distante, e muitas vezes o acesso é por escadaria”, diz Cláudio. Ele, que eventualmente viaja para acompanhar o Vasco, conta que já passou por diferentes situações, como ter que ser carregado no colo escada acima, ou mesmo precisar passar descaracterizado no meio de torcidas rivais.

“Aqui no Brasil e nos países da América do Sul os organizadores não esperam que um cadeirante vá ao setor visitante. Não estão preparados para isso”, afirma. Ele ilustra essa situação ao narrar o caso de um conhecido seu, torcedor do Juventude (RS), que estava em cadeira de rodas e não conseguiu acessar a área de visitantes da Arena do Grêmio, em Porto Alegre — local cuja estrutura PcD reservada a torcedores gremistas foi elogiada por Cláudio e Karla, mas que não é a mesma destinada aos visitantes. “Ofereceram a ele e seu pai que ficassem em um camarote. A visão é privilegiada, mas além de ficarem misturados à torcida rival, ele ficou separado dos amigos e não pôde sequer torcer. Isso é exclusão”, aponta.  

Karla relata outra experiência recente, no Espírito Santo, em que não foram informados sobre o local da entrada dos cadeirantes naquele dia e desceram muito longe do lugar correto. Por ser um estádio de difícil acesso, com muitas subidas, não conseguiram assistir àquela partida. Em outras ocasiões, conta que já ocorreu de comprarem ingressos em cidades cujo acesso de PcD é gratuito. Ela argumenta que esse desencontro de informações dificulta a logística: “Às vezes a gente sai do nosso estado e não tem nenhuma informação no site. Você não sabe onde é a sua entrada, às vezes a pessoa vai com carro de aplicativo ou com táxi e fica rodando, não sabe por onde entrar. Simplesmente porque falta informação”. 

Legado São Januário: área PcD cercada – Foto: Acervo Caçadores de Estádios de Futebol

Experiências positivas e legados

Apesar das dificuldades, os “Caçadores de Estádios de Futebol” também acumulam experiências positivas. O casal destaca a receptividade de funcionários, as amizades feitas pelo caminho e exemplos bem-sucedidos de acessibilidade. Em comparação com outros países, avaliam que o Brasil vai bem nas áreas destinadas às torcidas mandantes, embora ainda existam lacunas. Entre os exemplos positivos estão o Beira-Rio e a Arena do Grêmio, em Porto Alegre (RS), e a Arena MRV, em Belo Horizonte (MG). No Beira-Rio, o destaque é a equipe exclusiva para atendimento a torcedores PcD. Nos outros dois, a possibilidade de isolar a área do cadeirante e acompanhante. Medidas simples que podem ser replicadas.

O casal relata receber mensagens de cadeirantes que voltaram a frequentar estádios inspirados pelo projeto. “Quando a gente fala que está mapeando os estádios brasileiros, é justamente para já deixar ‘mastigado’ para o público PcD, para facilitar o acesso”, resume Cláudio. Karla reconhece que o trabalho nem sempre é bem recebido. “Falar de adequações mexe com dinheiro. Mas muitas melhorias são simples, como a instalação de um abrigo para chuva e sol na área do cadeirante, ou uma rampa de acesso ao local.”

O legado também já é concreto. Em São Januário, o espaço para cadeirantes foi cercado após seguidas reivindicações da dupla. Próximo dali, também na Zona Norte do Rio, o campo do Olaria ganhou uma rampa para as arquibancadas. “Fomos a um jogo e não conseguimos chegar à arquibancada. Daí falamos com um responsável pelo clube e agora o cadeirante que for a um jogo do Olaria tem uma rampa lá”, destaca Cláudio.

O casal tem motivado até mesmo mudanças em lei para ingresso nos estádios. A legislação federal já garante à pessoa com deficiência acesso a eventos esportivos e no mínimo direito à meia-entrada. Porém, leis estaduais e municipais podem complementá-la. Após relatarem uma experiência negativa em Palmas (TO), em outubro de 2025, eles foram notícia na imprensa local e motivaram uma nota da Prefeitura, informando a edição de uma portaria fornecendo gratuidade ao público PcD em eventos esportivos no município. “Nosso objetivo é deixar legado e fomentar a experiência para que as coisas sempre melhorem”, afirma Cláudio.

Mas o advogado e cadeirante acredita que as condições só mudarão efetivamente se cada um também fizer sua parte na luta por uma sociedade mais inclusiva. “A mensagem que deixo é: se você tem uma experiência ruim, documente, registre, exija seus direitos. E isso não vale só para estádios de futebol, mas para cinema, teatro, parques, restaurantes… Porque a partir do momento que o cadeirante sai, ele circula na sociedade”, aconselha.

Karla lembra que apesar do foco da página ser a acessibilidade em estádios de futebol, os projetos urbanos das cidades e serviços ofertados ainda são muito insuficientes: “Nós falamos da acessibilidade nos estádios a partir de nossas experiências, mas se eu for falar das dificuldades em hotel, avião, transporte, aí teria que abrir outro Instagram”, brinca. “Até chegar na acessibilidade do estádio, a gente já passou perrengue desde que sai do Rio de Janeiro”, observa. 

Mais do que um guia de serviços ou álbum de memórias, os registros feitos pelos “caçadores” deixam uma mensagem inequívoca sobre acessibilidade no esporte e na vida: mudar é preciso e possível. E dá resultados.

Legado Olaria: rampa para cadeirantes – Fotos: Acervo Caçadores de Estádios de Futebol
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