O cearense radicado no Rio de Janeiro José Osmar Alves Ferreira precisou de um novo coração aos 40 anos, por conta da doença de Chagas. Em Sergipe, no município de Japaratuba, foram os rins de Genilson da Silva Santos que pararam de funcionar quando ele tinha apenas 39 anos, devido a uma hipertensão até então desconhecida e não tratada. Em ambos os casos, o transplante de órgãos foi a resposta para que José Osmar e Genilson continuassem a viver. Mas até lá, longos caminhos foram percorridos e diferentes redes tiveram que ser mobilizadas.
Em média, por ano, no Brasil, mais de 9 mil pessoas recebem órgãos de doadores vivos e falecidos. E, com isso, ganham uma nova esperança. O transplante de órgãos é um dos procedimentos mais complexos de assistência à saúde. No país, ele é gratuito e regulado exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Por trás de toda essa operação funciona um sistema robusto, mas que depende de algo que não se compra: a solidariedade humana.
Há 14 anos, José Osmar mal conseguia subir os degraus até sua casa, na Rocinha, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Hoje, após passar pelo transplante cardíaco, é maratonista. Mas para que, aos 54, ele esteja vivo e correndo pelas ruas do Rio e de outras cidades pelo país, precisou contar com a generosidade de uma família anônima, que sem o conhecer lhe deu a chance de receber um novo coração e estender sua caminhada pela vida.
No povoado São José, a cerca de 55 km de Aracaju, em Sergipe, Genilson Santos encontrou em seu seio familiar o rim que o libertou da máquina de hemodiálise. Foram quase três anos de intermináveis sessões. O resultado dos exames de compatibilidade com a irmã cinco anos mais nova, Ana Paula Santos, foi a senha para o retorno a uma vida com a qual estava se desacostumando.
Outros Josés e Genilsons, no entanto, multiplicam-se pelo país. Em meados de junho de 2026, quase 49 mil pessoas aguardavam órgãos no Brasil, segundo dados do painel de monitoramento do Ministério da Saúde (https://bit.ly/paineltranplantes). Por trás de cada nome na lista de espera, existe uma história parecida com a deles: alguém aguardando para voltar a trabalhar, caminhar ou simplesmente viver sem depender de uma máquina.
O Registro Brasileiro de Transplantes (RBT) — principal anuário estatístico sobre o tema, editado desde 1997 pela Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) — aponta que 2025 registrou números recordes de transplantes hepáticos e renais. Já o transplante cardíaco, que vinha em ascendência desde 2020, diminuiu 4,3%. Números que informam, mas também revelam.
Sistema Nacional de Transplantes é SUS
Em um país de dimensões continentais, com mais de 210 milhões de habitantes e um sistema de saúde universal, público e gratuito, o transplante de órgãos é um dos procedimentos mais desafiadores, por toda a logística operacional e custos envolvidos. O Brasil é referência internacional no tema e em números absolutos de transplantes de fígado e rins, hoje, fica atrás apenas dos três países de maior população no mundo — Índia, China e Estados Unidos. É o que ressalta à Radis a enfermeira Patrícia Freire, coordenadora-geral do Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde (SNT/MS).
Quarto colocado no mundo nessas modalidades, porém, com um diferencial fundamental: “Em muitos países o acesso ao transplante depende de modelos de seguro, financiamento privado ou cobertura parcial entre o paciente e o seu seguro. No Brasil, não”, explica Patrícia. “O SUS organiza e financia essa rede, que é capaz de ofertar transplantes de altíssima complexidade, medicamentos imunossupressores e realizar o acompanhamento pós-transplante de forma totalmente gratuita para a população”, acrescenta. Atualmente, mais de 80% dos transplantes realizados no país utilizam integralmente recursos públicos.
Mesmo nos casos em que os pacientes podem custear a cirurgia e optam por fazer o procedimento em hospitais particulares, a rede de regulação de transplantes é única e coordenada pelo SUS. “No Brasil, o transplante é uma atividade de interesse público regulada pelo Estado e organizada pelo Ministério da Saúde. Isso quer dizer que mesmo quando o procedimento ocorre em um hospital privado, toda a parte da doação, a inscrição na lista, a alocação do órgão e os critérios de distribuição seguem regras públicas”, pontua Patrícia.
Ainda segundo ela, o hospital pode ser público ou privado, mas tanto um quanto outro precisa ser autorizado pelo SNT para que possa atuar no processo de doação. E faz uma ressalva importante: “O órgão doado é sempre público”. Patrícia enfatiza que o Brasil não é apenas um país que realiza muitos transplantes, é um país que realiza transplantes em larga escala, com base no sistema público, universal e solidário. “Então, isso coloca o SNT como uma das maiores políticas públicas de alta complexidade do mundo”, analisa.
A Central Nacional de Transplantes (CNT) é um braço operacional do SNT que funciona 24 horas por dia, sete dias na semana. Como o tempo é um fator decisivo, sua atuação é estratégica na distribuição nacional de órgãos. Em interação com as centrais estaduais, a CNT viabiliza o transporte de órgãos, tecidos e das equipes de captação e de transplantes, via acordos com as companhias aéreas da aviação civil e com a Força Aérea Brasileira (FAB). Só em 2025, foram realizados quase 5 mil voos para transporte de órgãos e equipes país afora.
A partir dos casos de José Osmar e Genilson Santos, que um dia estiveram no centro dessa rede de cuidados, Radis ilustra o funcionamento do Sistema Nacional de Transplantes, com base no tripé que sustenta o serviço: lista de espera, doação e transplante. A reportagem também aborda desafios, mostra dados estatísticos e traz detalhes que permeiam todo esse processo crucial para que milhares de vidas sejam salvas anualmente no Brasil.
José Osmar: Bate, coração
Foi no meio da tarde de uma quarta-feira, 8 de agosto de 2012, que o telefone da casa de José Osmar tocou com a notícia que transformaria sua vida. Sofrendo com as dificuldades impostas por uma insuficiência cardíaca severa, ele mal conseguia respirar. Qualquer movimento, por menor que fosse, cobrava um fôlego que ele já não tinha, fazendo a vida perder o sentido naquele momento.
Do outro lado da linha, uma funcionária do Instituto Nacional de Cardiologia (INC) — principal referência de transplantes cardíacos no Rio — fez o tão aguardado anúncio: “Seu José, venha para o hospital imediatamente. A equipe identificou um coração que ao que tudo indica é compatível para você”. Aquelas palavras mudaram seu ânimo: “Naquele momento, acho que não precisava mais nem de transplante, porque eu fiquei tão feliz que gritava dentro de casa, pulava de alegria, foi uma felicidade muito grande”, relembra.
Esse capítulo de sua história havia começado quatro anos antes. Em 2008, quando trabalhava como zelador em um prédio na Zona Sul carioca, o cearense natural de Ipu começou a se sentir mal, com falta de ar, cansaço e inchaço causado por acúmulo de líquido. Após diversas idas a emergências e unidades básicas de saúde, exames identificaram uma cardiomegalia — que é o crescimento desordenado do coração. A suspeita para sequela da doença de Chagas foi confirmada em seguida.
Com o diagnóstico em mãos, José chegou ao ambulatório de Doença de Chagas da Fiocruz, no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), onde foi acompanhado durante quatro anos, sem precisar pagar pelas consultas, medicamentos e exames. Até que os tratamentos convencionais se tornaram insuficientes para o seu caso e o transplante foi apresentado como única solução.
“Lembro que até brinquei, perguntando se teria que ir para São Paulo, porque eu não ouvia falar em transplante no Rio. Aí o médico falou: ‘não, você vai fazer aqui no Rio mesmo e vai fazer pelo SUS’”, relata. José também conta que na época a caçula de seus três filhos tinha pouco mais de um ano, o que sensibilizou ainda mais a equipe médica.
O fim da espera
Do ambulatório da Fiocruz, José foi encaminhado para uma avaliação no INC, onde realizou todo o protocolo de exames, consultas e atendimentos por equipe multiprofissional de saúde. Três meses depois de ser cadastrado na lista de espera, passou pela sonhada cirurgia de transplante, naquele mesmo 8 de agosto, poucas horas após atender a ligação do hospital. Isso porque quando surge um órgão compatível, o tempo é um fator determinante. Um coração, como o que José Osmar recebeu, precisa voltar a funcionar no receptor em até quatro horas após ser retirado do doador. É de fato uma corrida contra o relógio.
“A questão do tempo é muito importante, porque os órgãos vão para o gelo, mas essa é uma situação antifisiológica e por mais bem mantido que seja, sempre há algum tipo de dano celular. Quanto mais tempo no gelo, pior será a performance do órgão”, detalha à Radis a cardiologista Jacqueline Sampaio, coordenadora do Departamento de Insuficiência Cardíaca e Transplantes do INC. Ela frisa ainda que cada órgão possui um tempo de isquemia fria — período de duração fora do corpo humano, se armazenado em condições ideais [veja o infográfico na página XX]. No cargo desde 2011, a médica acompanhou e ainda monitora o caso de José Osmar.
Sobre o dia do transplante, José divide uma curiosidade de bastidores. Ele narra que ao entrar na lista do transplante foi orientado a deixar uma mochila com roupas e itens pessoais preparada e um dinheiro separado para o táxi, de modo que chegasse o mais rápido possível ao hospital, quando convocado. No dia, porém, a euforia foi tamanha que, mesmo com tudo organizado, ele confessa ter cometido uma imprudência: foi de mototáxi. “Fui em uma moto e minha esposa na outra. Eles iam buzinando para o pessoal abrir o caminho, mas ninguém imaginava que aquela moto estava transportando uma pessoa que ia receber um coração”, comenta.
O gesto, no entanto, não passou despercebido: “Quando cheguei no hospital, acabei levando uma chamada da enfermeira, que disse: ‘você veio para receber um coração e vem se arriscando? Podendo até morrer no caminho?’”. “Mas eu tinha que chegar rápido e a única solução era a moto”, defende-se. Momentos depois de se aventurar sobre duas rodas no trânsito carioca, José Osmar passou por toda a avaliação prévia e teve a confirmação de que receberia um novo coração naquela noite.
Correndo pela vida
A sensação de alívio ao despertar da cirurgia, horas depois, ainda está viva na memória de José: “Lembro que quando acordei, estava entubado, vi aquela luz do CTI, todo mundo em volta de mim e de imediato veio na mente o pensamento: o cansaço já acabou”. Ele revela que a leveza ao respirar era algo já inviável há algum tempo. Depois de duas semanas, quando recebeu alta hospitalar, a escada de casa já não era mais desafiadora como havia se tornado nos últimos anos.
“Da rua até minha casa, são quase 70 degraus. Antes do transplante, a cada dois ou três que eu subia, tinha que parar com falta de ar. Quando eu recebi a alta, subir caminhando sem precisar de ajuda de ninguém já foi uma bênção”, relata. Seis meses depois, iniciava a reabilitação cardíaca, no próprio INC, onde permaneceu por cerca de oito meses. Começava ali um novo hobby, que de atividade física de rotina virou paixão: a corrida de rua.
“Quando o paciente recebe alta da reabilitação eles recomendam a prática de atividade física. Como eu já corria 30 minutos na esteira, perguntei ao médico se poderia passar a correr na orla e ele autorizou. Assim, comecei a correr na praia”, relembra. Cada vez mais adaptado àquele novo mundo, conheceu as provas de rua e se inscreveu na primeira corrida — um trajeto de 5 km, já em 2014.
A evolução na modalidade foi natural e a distância foi aumentando: 10, 12, 16 km. Até os 21 da meia maratona. Nesse momento, conta que os médicos ficaram reticentes, mas o autorizaram. Ainda assim, ele queria mais: “Me chamavam de atleta, mas para ser atleta é preciso correr uma maratona”, pensava. E assim iniciou a preparação para correr os 42.195 metros mais desafiadores na vida de um corredor amador. Tudo isso começando a correr após os 40 anos e depois de passar por um transplante cardíaco. Uma jornada para poucos: “Sou o único transplantado de coração que corre por aqui”, orgulha-se.
De transplantado a maratonista
A nova meta de vida foi cumprida em 2017, na 15ª Maratona do Rio, prova que reuniu 11,5 mil corredores. “Quando eu cruzei a linha de chegada, eu chorei. Passar por tudo o que eu passei e estar ali… sempre que termino uma prova agradeço internamente à família doadora, aos médicos, a todos os envolvidos no meu transplante”. Depois disso, ainda chegou a correr mais uma maratona e no momento da entrevista se preparava para sua 14ª meia.
De medalhas penduradas na parede de casa, soma mais de cem. Em suas corridas, José Osmar faz questão de divulgar a doação de órgãos e usa uma camisa com os dizeres: “Atleta transplantado”, na frente, e “Eu tenho um coração transplantado”, na parte de trás, o que gera admiração e aplausos por onde passa.
Para Jacqueline Sampaio, José Osmar representa inspiração: “Ele é um exemplo de alguém que aproveitou muito bem o órgão que recebeu. Tem tanta gente que nasceu com coração normal e não faz exercício, então o vejo como um grande exemplo para todos nós”, afirma. A cardiologista lembra que o zelo e a disciplina do paciente compensam todo o investimento feito. “Acho que cuidar do órgão como o José cuida é um exemplo de entender todo esse processo. É muita gente envolvida, trabalhando sério, muito investimento do Estado, e ele está fazendo o papel dele retribuindo com uma saúde excepcional”.
O ex-zelador e hoje maratonista compartilha do entendimento que deve valorizar o novo coração e por vezes ainda acredita não estar fazendo o suficiente: “Somos orientados a ter cuidado, porque ganhamos uma segunda chance para viver. Então, você tem que dar valor àquele órgão, até porque sua vida depende dele”, diz.
A coordenadora de transplantes do INC alega que o cuidado contínuo com um paciente transplantado é uma extensão natural de um processo iniciado no “sim” de uma família em luto: “A gente pegou o coração de alguém que doou, que estava triste, enlutado, e nos apropriamos dele para passar para outro alguém. É importante que a gente cuide desse órgão. E cuidar desse paciente, fazer com que ele viva muito com esse órgão, é um papel da equipe”, argumenta.
José declara ser grato à família doadora — a qual diz ter o desejo de conhecer um dia — e ao SUS: “Foi tudo por conta do SUS, não paguei nada. É uma gratidão para o resto da vida. Sempre que vou comprar alguma coisa na farmácia, perguntam se eu tenho plano de saúde e eu brinco, dizendo que meu plano de saúde é o SUS, com muito orgulho”.
Antes de encerrar a entrevista, compartilhou com alegria outro feito, como marco de superação: “Quando estava à espera do órgão, tinha que ir para o hospital com alguém me acompanhando, porque eu poderia passar mal no caminho. E hoje eu vou correndo de casa até lá. Então, quando eu chego todo suado é um ressignificado e fico muito feliz”, celebra.
Genilson e Ana Paula: Compatíveis
O estado de Sergipe realizou apenas quatro transplantes de órgãos em 2025. Todos de rins. Três com doadores vivos. Um deles foi o de Genilson Santos, que recebeu o órgão de sua irmã, Ana Paula, a quatro dias de completar três anos de hemodiálise. A saga de Genilson teve início em 2022, quando buscou atendimento médico ao se sentir mal. Até aquele momento, levava uma vida normal, trabalhava como motorista de carro pesado e acreditava estar tudo certo com sua saúde.
“De repente passei a sentir, não dores no corpo, mas aquela moleza, bastante fraqueza, perdia o apetite, não queria mais comer”, relata à Radis. Ele procurou um cardiologista, por desconfiar que poderia estar hipertenso. Em parte, tinha razão — realmente foi diagnosticado com hipertensão arterial, mas a situação era mais séria: a pressão alta há anos sem controle já havia prejudicado seus rins.
Dessa ida ao cardiologista, descobriu que o órgão responsável por filtrar o sangue e eliminar toxinas do organismo estava parando. “Lá disseram que eu só tinha 5% dos rins funcionando e que não seria recomendado sequer voltar para casa. Me orientaram a procurar uma emergência para ‘limpar o sangue’, que deveria estar bastante ‘sujo’. Eu não entendia nada daquilo direito, mas fui buscar atendimento”, narra.
Ele conta que foi apresentado ao tratamento e passou 15 dias internado realizando hemodiálise junto a dezenas de outros pacientes. Em seguida, conseguiu vaga em uma clínica conveniada com o estado e o protocolo passou a ser de três sessões por semana, com duração de quatro horas cada. Para realização do tratamento, Genilson era transportado de Japaratuba até Aracaju. O procedimento, que visa suprir a falência dos rins por meio de uma máquina e tubos que se conectam às artérias, é imprescindível para a sobrevivência de um paciente renal crônico, mas é um processo difícil, limitante e com efeitos debilitantes, explica ele.
Suas irmãs o acompanhavam em algumas sessões e se comoviam com seu desconforto, preso por horas à máquina que o mantinha vivo. Até que viram a notícia de que seu estado iria retomar os procedimentos de transplantes de órgãos após anos de suspensão do serviço. Genilson se animou com a possibilidade e as irmãs logo se dispuseram a realizar os testes de compatibilidade e iniciar os trâmites no Hospital Universitário Federal de Sergipe.
Os exames detectaram compatibilidade maior com Ana Paula, que diz ter sentido alegria em poder ajudar o irmão. Mesmo já tendo uma possível doadora definida, era necessário ainda uma bateria de exames e consultas com ambos, para atestar as adequações e garantir o êxito da cirurgia. Entre esses procedimentos, períodos de greve do serviço e espera pelos pacientes cadastrados na frente, foram-se mais dois anos no aguardo da cirurgia — até lá, passando pela hemodiálise.
Novo filtro para o corpo
Patrícia Freire, coordenadora do Sistema Nacional de Transplantes, explica que, nos casos de doadores vivos consanguíneos, o SNT também é responsável pela regulação de todo o processo: “O doador vivo precisa, da mesma forma que o receptor, passar por uma avaliação rigorosa, tanto clínica quanto laboratorial, para confirmar que a doação é segura para si e adequada ao receptor”, pontua. Ela ressalta que aspectos éticos e legais também são avaliados, para garantir que a doação seja voluntária e que não haja coerção emocional e financeira, conforme determina a legislação (Lei nº. 9.434/1997).
A principal diferença em relação ao doador falecido, segundo ela, é que o receptor não precisa entrar na lista de espera do SNT, já que a doação é direcionada a ele. Doador e receptor são inscritos no sistema informatizado do SNT para fins operacionais e de monitoramento, mas já com a indicação de transplante com doador vivo.
Após a dupla concluir todas as etapas preparatórias, Genilson recebeu o rim de sua irmã, Ana Paula, em 30 de maio de 2025, uma sexta-feira — há pouco mais de um ano da data de publicação da reportagem. A cirurgia foi bem sucedida e a confirmação veio logo assim que o efeito da sedação passou: “Eu me lembro que quando saí do centro cirúrgico, ainda na maca, já pedi logo para ir ao banheiro, querendo ‘fazer xixi’. E foi uma alegria, porque eu passei três anos sem saber o que era ir ao banheiro para urinar”, recorda.
A responsável pelo setor de transplantes do INC confirma: “Quando o rim vem de um doador vivo e é passado direto de uma pessoa para outra, sem precisar do gelo, o paciente já sai urinando. Os melhores resultados de transplantes renais são com doadores vivos”, afirma Jacqueline.
Após a recuperação, Genilson também aderiu à corrida de rua como prática de saúde, assim como José Osmar, e passou a participar de provas ao lado de Ana Paula. Também a exemplo do que faz o cearense radicado no Rio, os irmãos de Sergipe correm com uma mensagem de incentivo à doação de órgãos, que diz: “Quando você doa órgãos a vida continua”. Genilson e José estão aí para provar que sim.
Sem medo de fazer o bem
Antes mesmo dos exames de compatibilidade, a assistente social Ana Paula Santos já carregava consigo a certeza de que um de seus rins seria de seu irmão. Tamanha confiança e expectativa não deram espaço a medo ou dúvida: “Eu sentia Deus comigo o tempo todo, me amparando e dando força. Estava tão leve, com tanta vontade de ser doadora, que não tive medo”, confidencia.
Nem mesmo a demora até o procedimento a fez recuar de sua convicção: “Foram dois anos de espera, mas em nenhum momento pensei em desistir. Só aumentava a vontade de que chegasse logo o momento”, diz. Os irmãos contam que chegaram a viajar até Salvador no período de greve do serviço de saúde em Sergipe, mas a médica que os atendeu na capital baiana tentou desaconselhar Ana de ser doadora do irmão, em função de sua idade — 35 anos na época — e por ter apenas uma filha.
“Como é que uma médica diz uma coisa dessa? A gente saiu de lá super triste, mas eu falei: ‘Genilson, vamos voltar para Sergipe e continuar o trâmite por lá, porque é o meu desejo e ninguém vai tirar isso de mim’. Daí, retornamos ao Hospital Universitário e entramos na fila. E graças a Deus, conseguimos”, relata.
Ana Paula conta que a cirurgia ocorreu sem problemas, mas não esconde as dificuldades do pós-operatório. “A recuperação é dolorosa, não vou negar. Chorei muito, mas em nenhum momento me arrependi. Eram lágrimas de gratidão”.
Passado um ano da doação, Ana Paula continua não hesitando: faria tudo outra vez. E deixa um recado a quem se vê diante dessa possibilidade: “Eu diria que é uma oportunidade que você está dando a outra pessoa, porque só quem passa é que sabe. A realidade de lá [do centro de hemodiálise] é totalmente diferente. Então, só peço a quem tem essa possibilidade que doe, que ajude o próximo”, convoca.
Quando faltam palavras para agradecer
Genilson ainda busca meios de expressar a gratidão pelo ato de amor da irmã: “A gente fica sem palavras por uma pessoa tirar um órgão seu e dar ao irmão, porque não é fácil. Quem está recebendo não sabe como agradecer. Será que obrigado está bom? Será que Deus lhe pague está bom?” E responde ao próprio questionamento: “Para mim, não. Porque eu não acho um rim no mercadinho, nem na feira. A gente só acha de um ser humano e esse ser humano foi a minha irmã. Fico muito grato, aliviado e feliz”.
Apesar da felicidade por recuperar a função renal, Genilson não esquece daqueles que permanecem lidando com o duro processo de tratamento. “Eu fazia as sessões de hemodiálise segunda, quarta e sexta. Quando chega segunda-feira, sempre me lembro deles e fico pensando que estou em casa, bem, mas eles ainda estão lá esperando em uma fila”. E cita a importância da doação de órgãos:
“Tem famílias que negam a doação, tem parentes que não se habilitam, tudo isso porque falta informação. Eu sei que as famílias enlutadas ficam constrangidas, pois sofreram uma perda, mas eu penso que passada essa dor, aquela pessoa vai se sentir aliviada por ter feito uma boa ação”.
Genilson acredita que a falta de informações também afeta muitos dos que precisam receber um novo órgão. Durante seu tratamento, diz ter conhecido outros pacientes renais — um deles há mais de 20 anos fazendo diálise — que optaram por não fazer o transplante por razões diversas, como o receio de perder o benefício assistencial que recebem em razão da falência renal ou mesmo por medo de morrer na cirurgia.
Ele comenta ainda sua experiência com o SUS, por onde realizou todas as etapas do tratamento: “Eu fiz tudo pelo SUS, até hoje faço mensalmente meus exames e consultas”. Segundo ele, muita gente acha que o sistema não cobre nada — “mas se nós conhecermos o SUS, saberemos que ele cobre tudo no sentido de cirurgia, da doação, de remédios, e não é só isso. Trata também de gestantes, de vacina”, enumera. Na sua visão, o que falta é uma melhor fiscalização do seu orçamento.
Hoje, como gesto de gratidão e solidariedade, Genilson, Ana Paula e outros familiares e amigos passaram a se dedicar a ações de incentivo à doação de órgãos. Após acompanhar de perto todo o sofrimento do marido até o tão sonhado transplante, sua esposa, Ana Claudia, fundou um grupo de apoio à causa, chamado “Um sim pela vida” (Instagram: @um_sim_pela_vida), que atua por Japaratuba e adjacências, no interior sergipano. Que a iniciativa finque raízes e se espalhe por todo o Brasil.

O desafio da equidade em um país continental
O transplante de órgãos representa um grande desafio para o cumprimento de diretrizes do SUS, como a universalidade e a equidade. Isso porque a vasta extensão territorial do Brasil e o curto período em que o procedimento precisa ser realizado tornam essa operação ainda mais complexa para quem mora longe dos grandes centros urbanos. “O local de residência pode influenciar em aspectos logísticos, mas não é para funcionar como uma barreira de acesso. O SNT trabalha para reduzir essas desigualdades regionais e ampliar a equidade no acesso aos transplantes”, pondera Patrícia Freire, coordenadora do sistema.
A CNT tem um papel estratégico nessa distribuição. Para que a logística de transporte de órgãos funcione em todo o país — por via terrestre ou aérea — é preciso haver resposta rápida e articulação entre hospitais, centrais estaduais, equipes de captação e transplantadoras. “Basta que a Central Estadual de Transplantes acione a Central Nacional, que fazemos de tudo para que o órgão chegue no local onde o receptor está em condições adequadas para a realização de transplantes”, afirma Patrícia.
Ela frisa, porém, que por questões operacionais e logísticas, a depender do órgão que a pessoa inscrita na lista de espera precise, ela deve estar perto de um centro transplantador.
Números do transplante no Brasil
- Pessoas na lista de espera: 48.924
- Transplantes entre 2023 e junho de 2026: 32.812
- 2025: 9.944
Fonte: Ministério da Saúde (17/6/2026)
Números do transplante de Córnea
- Lista de espera de córneas: 36.506 pessoas
- Transplantes de córneas entre 2023 e junho de 2026: 58.416
- 2025: 17.802
* Os dados do transplante de córnea são contabilizados numa lista à parte.


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