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O engenheiro e professor aposentado do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Carlos Eduardo Morelli Tucci, é imperativo, quando o assunto gira em torno dos recursos hídricos: o que mais afeta a disponibilidade hídrica brasileira é a falta de coleta e de tratamento de efluentes domésticos, uma vez que o esgoto contamina os próprios mananciais de abastecimento de água. Ganhador do International Hydrology Prize, concedido pela ONU, em 2011, por sua contribuição à ciência e à prática de hidrologia, Tucci concedeu esta entrevista à Radis, na qual sugere saídas para o problema do saneamento e do desabastecimento no país.

O Plano Nacional de Recursos Hídricos tem três objetivos: garantir disponibilidade hídrica; racionalizar o uso da água; e promover a gestão de eventos extremos, como secas e enchentes. Onde estamos falhando? 

Os planos que têm sido realizados são apenas diagnóstico e são pouco objetivos quanto à meta quantitativa, prazos e investimentos. A lei fala de eventos extremos, mas não prevê no plano este componente de vulnerabilidade, que não é realizado. O problema é que estamos perdidos no processo e não atingimos as metas que nem mesmo foram definidas. 

O que significa não ter acesso à água potável em um país de dimensões continentais como o Brasil?

A parcela da população que não tem acesso a água segura no Brasil é pequena e na, maioria das vezes, concentrada na área rural. O principal déficit é na coleta e tratamento de efluentes de esgoto doméstico. O déficit é muito alto para um país da renda do Brasil. Isso se deve principalmente à falta de investimentos e à falta de remuneração pelo esgoto na estrutura de serviços de saneamento. O Brasil tem um total de tratamento da carga gerada de esgoto doméstico inferior a 20%. Como a empresa de saneamento pode cobrar pelo esgoto quando coleta, mesmo que não trate esse esgoto, não há incentivo de cobrir o tratamento, já que o retorno econômico se dá apenas com a coleta. Dessa forma, os rios são poluídos e são contaminados os mananciais, as fontes de água. 

Por ordem de importância, quais seriam os principais problemas relacionados aos recursos hídricos no Brasil?

De um a dez, repetiria que o principal é a falta de tratamento de esgoto. Para isso, não tem luz no final do túnel, pois sem planejamento organizado e atendimento de metas de cobertura e sem o interesse das empresas de saneamento, não é possível mudar o cenário em curto prazo. Com a seca recente em São Paulo, pode-se observar que parte importante do volume disponível está contaminada por falta desse tratamento. Portanto, a escassez foi de quantidade e de qualidade. São Paulo desprezou o risco de falta de abastecimento e mostra como não se deve gerir um sistema de abastecimento. Além disso, grande parte da água que circunda a cidade está contaminada por falta de tratamento (42% da carga coletada são tratados). 

Pode nos dar exemplos de práticas bem sucedidas ou medidas que poderiam ser testadas?

Em Milão, na Itália, em 2003, a cidade ficou sujeita a 140 mil euros de multa diária. Em três anos, todo o esgoto da cidade foi tratado, depois de medidas de emergência. Os Estados Unidos, na década de 1970, investiram 300 bilhões de dólares para cobrir com tratamento a maioria das cidades dentro de um planejamento e investimento nacional. Recentemente, o Chile preparou um Plano de Esgoto para cobrir o país com estações de tratamento e está praticamente completo. Basta ter metas e investimentos. No Brasil, o plano da ANA [Agência Nacional de Águas], desenvolvido em 2002, de dar subsídios à coleta e tratamento de esgoto com base nos resultados [Programa Despoluição de Bacias Hidrográficas] era promissor, mas ficou sem recursos nos últimos anos. 

Em relação ao desabastecimento, que medidas preventivas podem e devem ser adotadas por parte dos governos e órgãos públicos? 

As medidas são: reduzir as perdas na rede e aumentar a sua eficiência; penalizar no preço de forma significativa, acima de certos limites, para evitar desperdícios; buscar aumentar a reutilização da água para usos menos nobres como regar; planejar projetos que permitam folga na disponibilidade hídrica dentro de um horizonte de pelo menos dois anos; educar a população sobre os itens de consumo na residência e nas áreas comerciais e industriais; uso de redutor de volume nas descargas.

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