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Eduardo Real, hoje com 39 anos, passou por 14 internações em comunidades terapêuticas (CTs). Foram cerca de 15 anos de privações de liberdade, intolerância religiosa, humilhações, anulação de si mesmo, castigos e até espancamento. A lembrança da primeira delas permanece viva em sua memória: “Em um dia qualquer, eu fui sequestrado. Dentro da minha casa. Eu lembro que estava chegando do trabalho, e aí tinha esse pastor, o meu irmão havia sido orientado a me segurar. Eu não estava em momento de crise ou de uso. Fui internado involuntariamente, mediante sequestro”, conta.

Por causa de problemas decorrentes do uso de cocaína, a família resolveu pedir ajuda a um pastor evangélico. Como consequência, o rapaz foi levado para um destino desconhecido, na zona rural de Cotia (SP), e lá permaneceu por cerca de nove meses. Vivenciou episódios de violência psicológica e LGBTfobia: o pastor havia feito a promessa de que iria “curá-lo do vício e da homossexualidade”. Quando saiu, mergulhou mais fundo no universo das drogas: foi para longe de casa, conheceu as “cenas de crack”, iniciando um ciclo de uso e internações que parecia sem fim. “Minha porta de entrada para o crack não foi a cocaína nem a maconha, foi a violência que eu passei numa comunidade terapêutica”, diz à Radis.

Hoje, Eduardo é membro do Movimento Nacional de Vítimas de Comunidades Terapêuticas (MNVCT), que ajudou a fundar em 2022. A guinada em sua vida veio do primeiro contato com o material de um grupo chamado Desentorpecendo a Razão, que atua com redução de danos em São Paulo. A partir dali, ele se aproximou da luta antimanicomial e começou a entender que as violências que sofreu eram parte de um processo muito maior de expansão das instituições asilares, que reproduziam a lógica dos manicômios, as chamadas CTs.

“O que me tirou das comunidades terapêuticas foi a participação social, a militância e o cuidado em liberdade”

“O que me tirou das comunidades terapêuticas foi a participação social, a militância e o cuidado em liberdade”, afirma. O envolvimento com a luta antimanicomial trouxe ânimo de viver e ele iniciou acompanhamento no Centro de Atenção Psicossocial (Caps), em Osasco (SP). Desde o ano de 2020, não faz mais uso de crack, voltou a morar com a família e a estudar. Hoje, é formado em Gestão Pública e mestrando em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP).

O cuidado em liberdade na Rede de Atenção Psicossocial (Raps), do SUS, ajudou também a transformar as relações familiares. “Meu pai bebia muito e era muito violento. Ele me acompanhava no Caps e entrou em abstinência. Nunca mais bebeu e virou outra pessoa, um amigão. Isso é uma coisa que me dá força”, relata. Eduardo fez da luta contra as comunidades terapêuticas uma bandeira de vida: “O MNVCT é um movimento de vítimas que acolhe outras vítimas, no sentido de ouvi-las, de dizer que elas não estão sós. A gente transforma nossa dor em luta”.

“Toda e qualquer internação é uma violação de direito, partindo do pressuposto que nós temos conquistado o direito ao cuidado em liberdade”

Em entrevista à Radis, o ativista conta detalhes das experiências que passou nas comunidades terapêuticas e defende que “toda e qualquer internação é uma violação de direito, partindo do pressuposto que nós temos conquistado o direito ao cuidado em liberdade”. 

Em contrapartida, ele ressalta a necessidade de fortalecer estratégias de cuidado às pessoas com necessidades decorrentes do uso problemático de álcool e drogas no SUS. “A gente teve a 5ª Conferência Nacional de Saúde Mental, a maior da história, com mais participação social, e até hoje não tivemos suas diretrizes concretizadas. E ela foi unânime sobre a retirada das comunidades terapêuticas da Raps”, relembra. “As comunidades terapêuticas são lugares de segregação, de higienismo, de violência, de extorsão. São espaços onde a gente recebe uma promessa de cura, mas o que na verdade eles praticam são violências e violações.”

Como você chegou a uma comunidade terapêutica?

Eu agradeço por essa oportunidade de falar da minha vivência, que é uma vivência de muita dor, e muito limitada em espaços de fala. Pouco se fala e pouco se consulta a pessoa que já passou. Geralmente se consultam especialistas; e um dos princípios da luta antimanicomial, eu acredito, é o protagonismo dos usuários, daqueles que vivenciaram a experiência do manicômio. É muito importante toda vez que alguém do movimento de vítimas é chamado. Eu não conhecia comunidades terapêuticas, a minha família também não conhecia, mas a gente passou a ter essa experiência da internação em muitas CTs a partir do momento que eu pedi ajuda, ao perceber que estava tendo problemas com o uso de substâncias. A gente procurou a Rede de Atenção Psicossocial (Raps), procuramos ajuda do Estado, aqui no município de Osasco, e não encontramos. Então, pessoas conhecidas indicaram um pastor, que era proprietário de cinco comunidades terapêuticas, na cidade de Cotia (SP).

Como foi essa primeira experiência de internação?

Comunidades terapêuticas são instituições que estão sempre com as portas abertas. Desde que haja o pagamento, do Estado ou da família. A minha família, sem eu saber, combinou com esse pastor — e a orientação dele foi eu não saber. Em um dia qualquer, eu fui sequestrado. Dentro da minha casa. Eu lembro que estava chegando do trabalho, e aí tinha esse pastor, o meu irmão havia sido orientado a me segurar. Eu não estava em momento de crise ou de uso. Fui internado involuntariamente, mediante sequestro. Acordei dentro de uma instituição, na cidade de Cotia (SP), numa área bem rural. Meses depois que fui entender onde eu estava. Tinha que pegar uma estrada de terra, vários quilômetros para chegar lá. Era uma chácara, a gente ficava num galpão com 80 outros rapazes, de várias idades. Tinha muito idoso. Havia um espaçamento de mais ou menos um metro e meio entre cada beliche. E tinha uma porta com grades e uma janela. Esses eram os únicos lugares por onde entrava ar. 

“Lá fedia muito. Era lá dentro que a gente lavava e secava a nossa roupa, principalmente roupa íntima. No fundo tinha três banheiros, sem porta. Era sem porta porque alguém já havia se suicidado dentro do banheiro”

O que você pode contar da rotina dentro dessas instituições? 

Lá fedia muito. Era lá dentro que a gente lavava e secava a nossa roupa, principalmente roupa íntima. No fundo tinha três banheiros, sem porta. Era sem porta porque alguém já havia se suicidado dentro do banheiro. Então a solução deles foi tirar a porta. A gente fazia necessidade na frente de todo mundo. Do lado das cabines dos banheiros, tinha o quartinho da oração. Era onde se aplicava a punição física, onde se carregava pessoas para aplicar castigos. O castigo era espancamento, ou manter a pessoa isolada escrevendo versículos, ou às vezes isolada sem poder comer e dormir. Um dos castigos era a privação de sono, eles deixavam a pessoa ali, ligavam uma caixa de som com música evangélica, e a pessoa não podia dormir um ou dois dias.

“Os internos eram colocados para orar em cima de mim e de outros caras que eram homossexuais”

E como era a questão da imposição religiosa?

Essa foi a minha rotina por nove meses. A gente só saía desse salão para ir para outro, onde aconteciam os cultos. O culto era das 6h, 6h30 até 9 ou 10h. Quem aplicava o culto eram os próprios internos, tinha sempre um ou outro com uma história na igreja evangélica. A gente era obrigado também, às vezes, a dar culto. E era nesse momento que eu me sentia mais violentado, porque uma das coisas que esse pastor prometeu para a minha família foi “me curar do vício e da homossexualidade”. Era nesse culto que isso acontecia. Hoje a gente chama de “cura gay”. Os internos eram colocados para orar em cima de mim e de outros caras que eram homossexuais. Isso foi mais ou menos em 2011, eu tinha 20 e poucos anos.

Que marcas essa experiência numa comunidade terapêutica deixou em você?

Quando pedi ajuda para a minha família, eu era usuário de cocaína. Mas o meu problema não era a cocaína em si: eram muitos problemas dentro de casa, a violência familiar, a questão de eu ser homossexual e sofrer muito preconceito, a questão de não ter uma rede de atenção no meu município, a questão de ser pobre. Eu era operador de telemarketing e já estava esgotado, adoecido. Eu fui pedir ajuda para a minha família por conta de cocaína. Passei por essa comunidade terapêutica. Lá era dessa maneira: acontecia cura gay, muita violência, vi pessoas sofrendo muita violência física, tendo membros do corpo quebrados. Sempre quando alguém tentava fugir, era onde aconteciam as sessões mais horríveis de espancamento. A fuga era o motivo da pena máxima. E ninguém conseguia fugir, porque eles colocavam outros pacientes como monitores. Eu passei mais ou menos oito ou nove meses nessa comunidade terapêutica. Quando eu saí de lá, saí arrasado, saí destruído. É uma coisa que me marca até hoje. A lembrança é muito viva e eu ainda tenho flashes desses lugares. Essa primeira foi uma que me marcou muito. Quando eu saí de lá, logicamente eu fui buscar usar novamente, eu estava muito mal. E aí, o que aconteceu? Eu fui fazer uso longe de casa. Foi quando eu conheci as malocas do crack, as cenas de uso do crack. A rua me acolheu rapidamente, né? E aí eu passei a ser usuário de crack.

Ou seja, após sair da CT, você retornou ao uso das drogas…

Minha porta de entrada para o crack não foi a cocaína nem a maconha, foi a violência que eu passei numa comunidade terapêutica. É uma compreensão que eu tenho hoje, porque na época era tudo um turbilhão. Não tinha ninguém para orientar, eu não conhecia movimentos. Eu estava no meio do furacão. Bom, depois dessa comunidade terapêutica, foram 15 anos, numa roda de uso muito problemático de substâncias e a violência, o estigma, a situação de rua, e quando eu voltava para casa tinha outra comunidade terapêutica, eu aceitava, era meio que coagido. E vivenciava inúmeras violências novamente em comunidade terapêutica e aí começava o ciclo novamente: Saía, usava, rua, internação novamente. Até que lá por 2015, dentro de uma CT, chegou um material na minha mão, que minha irmã me enviou. Era a única comunidade terapêutica que aceitava me mandarem livros. Minha irmã não tinha dinheiro para comprar livro, mas ela imprimia escondido as coisas no trabalho dela e chegou um material de um coletivo chamado Desentorpecendo a Razão, um coletivo antimanicomial e antiproibicionista de São Paulo, que ajudava a organizar a Marcha da Maconha, uma galera do É de lei [Centro de Convivência voltado para a redução de danos, leia mais na Radis 236]. 

O que o contato com o tema da redução de danos e com a luta antimanicomial trouxe para você?

Era uma crítica à comunidade terapêutica e à violência contra as pessoas usuárias. Aquilo ali me “contaminou”, me encheu de ódio e esperança ao mesmo tempo. Quando eu saí de lá, dessa comunidade terapêutica em que eu estava, eu voltei ao uso, mas fui procurar essa galera e eles me acolheram, me levaram para as reuniões. Eu estava ainda machucado, deprimido, fazendo uso. Eu tinha recidivas e acabava voltando para a comunidade terapêutica. Mas eu já não estava mais passivo. Estava em outra pegada. Passei por outras CTs, o espaçamento entre elas começou a ficar maior, o meu uso começou a ficar menos problemático, e eu cheguei a ter períodos de não uso também, bem grandes, e a vida começou a fluir. A minha última internação foi em 2020. Foi também muito trágica, sim. 

“Eu só saí de lá porque começaram a extorquir minha família, meu pai achou muito estranho e foi lá. Quando ele chegou lá, ele me viu desfigurado, olho muito inchado, por conta das pancadas que deram na minha cabeça. Ele me tirou de lá e comecei a conhecer o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Osasco. Ali mudou radicalmente minha vida”

O que aconteceu?

Nessa eu sofri um espancamento. Eu sofri violência física em outras, mas espancamento, sessão de tortura, eu só tinha visto. No molde de ser amarrado e ficarem te batendo, eu sofri isso em 2020. Eu só saí de lá porque começaram a extorquir minha família, meu pai achou muito estranho e foi lá. Cortaram a comunicação também. E quando ele chegou lá, ele me viu desfigurado, olho muito inchado, por conta das pancadas que deram na minha cabeça. Ele me tirou de lá e comecei a conhecer o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Osasco. Ali mudou radicalmente minha vida. Foi quase um ano de acompanhamento no Caps. Ingressei em um conselho de saúde. Esse movimento que o Caps me levou a ter também me ajudou muito. 

E como você se encontra hoje?

De 2020 para cá, não sou mais usuário de crack. Consegui me formar na Faculdade de Gestão Pública, na Universidade de Santo Amaro. Não fiquei mais em situação de rua. Voltei a morar com a minha família, porque ela também foi cuidada. Em casa mudaram as relações. Meu pai bebia muito e era muito violento. Ele me acompanhava no Caps e entrou em abstinência. Nunca mais bebeu e virou outra pessoa, um amigão. Isso é uma coisa que me dá força. As relações em casa mudaram e nunca mais precisei usar. Agora estou na USP, cursando Graduação em Saúde Pública, e esse ano entrei para o Mestrado em Saúde Pública, em Saúde do Trabalhador. E estou ativamente nos movimentos sociais. O que me tirou das comunidades terapêuticas foi a participação social, a militância e o cuidado em liberdade.

O que representam as comunidades terapêuticas para você?

As comunidades terapêuticas são espaços de segregação, de higienismo, de violência, de extorsão. São espaços onde a gente recebe uma promessa de cura, mas o que na verdade eles praticam são violências e violações. A internação numa comunidade terapêutica por si só já é uma violação de direitos. Independentemente de ser uma internação involuntária ou voluntária, é uma violação. Passei por 14 internações. Algumas foram meses e outras, um mês. Todas no estado de São Paulo, em várias instituições e de vários modelos. Tem comunidade terapêutica católica, evangélica, [do Programa] 12 passos. Tem as comunidades terapêuticas hipermedicalizantes e as que não dão remédio. Apesar de ser uma característica de todas, punir com o remédio. Todas. Todas que passei faziam o uso do famoso “Danoninho”, uma mistura de medicamento, que quando eles querem punir ou conter alguém que está em crise, eles dão essa mistura. Em todas, eu vi; e em algumas eu cheguei a ser dopado.

Eduardo Real transformou os traumas sofridos nas comunidades terapêuticas em luta pela saúde pública e pelo cuidado em liberdade – Foto: Acervo pessoal

Que violações de direitos são praticadas nas CTs?

É muito difícil pra mim descrever sem associar com momentos que eu passei ou com histórias que chegam até mim, das pessoas vítimas de comunidade terapêutica. Hoje eu faço parte do Movimento Nacional de Vítimas de Comunidade Terapêutica (MNVCT), que a gente fundou em 2022. A primeira violação que eu identifico é institucional, parte do Estado. A existência de comunidades terapêuticas, que nós compreendemos como novas formas de manicômio, é uma opção política. A gente pode pegar, por exemplo, na Portaria 3.088 [Portaria do Ministério da Saúde que criou a Rede de Atenção Psicossocial, em 2011], a inserção das comunidades terapêuticas na Raps por um governo que se diz progressista. Nós temos uma árdua conquista erguida, que é a Lei 10.216, com as diretrizes do cuidado em liberdade. Essa conquista não é algo que aconteceu do nada. Estamos falando da não aceitação do que é chamado do “holocausto brasileiro”. Só que essa opção política continuada ao longo dos governos, progressistas ou de direita, são violadoras dessa conquista. O cuidado em liberdade não consegue ser abrangente.

“O vínculo religioso que elas têm com o neopentecostalismo e com a Igreja Católica reproduz formas de violência próprias, como a chamada ‘cura gay’”

Por que essas instituições são chamadas de “novos manicômios”?

Existem violações que são próprias de qualquer forma de manicômio, de instituições totais, relembrando Erving Goffman [antropólogo canadense, 1922-1982]. O manicômio não consegue existir de uma forma que não haja a prática da violência. A contenção por muros já é uma prática de violência. E aí, consequentemente, tem as questões muito próprias das comunidades terapêuticas brasileiras. O vínculo religioso que elas têm com o neopentecostalismo e com a Igreja Católica reproduz formas de violência próprias, como a chamada “cura gay”. No Brasil, existem também “as fazendas”, como a Fazenda Esperança [CT ligada à Igreja Católica]. São lugares asilares no meio rural, que tiram as pessoas do convívio urbano — locais de isolamento, mas também de produção. A Fazenda Esperança de Campinas, por exemplo, é produtora de café, são os internos que produzem. Se a gente pega a característica do público que está nas comunidades terapêuticas, majoritariamente são pessoas negras e pobres. A gente tem uma instituição religiosa, produtora agrícola, utilizando-se da mão-de-obra de pessoas desvalidas, adoecidas e em extrema vulnerabilidade. Isso relembra as fazendas escravocratas, a senzala. 

“Eu lembro de uma CT em que eu acordava às 2h da manhã com todos os pacientes da casa, uns 40 outros caras, orando em volta da minha cama, apontando a Bíblia para mim, ou no café da manhã no refeitório. O cara que se dizia terapeuta falava assim: ‘Vamos orar pelo nosso irmão para retirar o espírito da Pombagira dele’. Na cabeça deles, eu ser do candomblé e homossexual era culpa da Pombagira”

Como essas instituições reproduzem a intolerância religiosa e a LGBTIfobia?

Ser homossexual é visto como um pecado. Há violência contra pessoas LGBTQIAPN+ e pessoas de religiões de matriz africana. É uma das coisas que eu passei também, porque sou candomblecista desde os 18 anos, sou “feito no santo” [iniciado]. Quando se sabia disso dentro de uma comunidade terapêutica, era outro inferno que eu vivia. Eu lembro de uma CT em que eu acordava às 2h da manhã com todos os pacientes da casa, uns 40 outros caras, orando em volta da minha cama, apontando a Bíblia para mim, ou no café da manhã no refeitório. O cara que se dizia terapeuta, que na verdade era outro interno, eleito terapeuta pelo seu bom comportamento ou por sua adesão à religião evangélica, falava assim: “Vamos orar pelo nosso irmão para retirar o espírito da Pombagira dele”. Na cabeça deles, eu ser do candomblé e homossexual era culpa da Pombagira. Eles faziam isso com outras pessoas e elas entravam naquele “transe”, como se acontecesse um exorcismo, o que era um mecanismo de proteção delas, de entrar no jogo para não apanhar, porque ali também tinha violência física. 

“Existe um pacto entre Estado e igrejas para concretizar o higienismo social, a manicomialização em massa”

Poderia aprofundar um pouco mais sobre essa coerção religiosa?

A coerção religiosa acontece antes da internação. As comunidades terapêuticas cooptam as famílias para doar, é um trabalho [que começa] antes e dentro das igrejas, principalmente as neopentecostais e católicas. A coerção começa antes: é falando pra família que “a pessoa está vivendo o uso de drogas porque falta Jesus”, é “ação do diabo”. As famílias ou pessoas estão, de um lado, na vulnerabilidade do uso, e do outro estão numa precariedade imensa devido a essa opção dos governos. A gente tem uma rede de atenção psicossocial, no Brasil, incompleta, insuficiente, precarizadíssima e sucateada. Não dá conta. De um lado, é isso: a agonia da pessoa, das famílias, o drama todo; e de outro, não existe o Estado, não existe o que a gente sonha: uma rede acolhedora. A narrativa de que é “coisa do diabo” cola muito fácil: “vamos tirar essa pessoa do mundo e vamos levá-la pra um lugar espiritual”. No atual governo, pra nossa infelicidade, a gente tem um departamento de apoio a comunidades terapêuticas vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Social (MDS). Esse departamento tem um aporte de recursos, emite editais de cadastramento de CTs, com recursos mais “gordos” do que os destinados aos Caps. Existe um pacto entre Estado e igrejas para concretizar o higienismo social, a manicomialização em massa. Isso é muito preocupante.

Imposição religiosa é uma das marcas das CTs: cena registrada em inspeção do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT) na CT Desafio Jovem Ebenezer, em Paracambi (RJ), em maio de 2025 – Foto: MNPCT

Para quem defende as comunidades terapêuticas, o argumento é que elas poderiam melhorar se houvesse mais fiscalização. Você concorda com esse argumento? 

Quando eu cheguei na luta antimanicomial, ainda tinha pessoas que defendiam essa narrativa: “Se a gente fiscalizar direitinho, se colocar regras, as comunidades terapêuticas vão funcionar bem”, não serão mais espaços dessas violências amplamente documentadas nos relatórios técnicos, por exemplo, do Conselho Federal de Psicologia (CFP), do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT), do Ministério Público do Trabalho (MPT), que mostram que a CT, seja ela clandestina ou regulamentada, é promotora de violências e violações. Essa lógica do “se fiscalizar, fica bom” é também muito própria de um pensamento neoliberal de privatização da saúde. É muito semelhante à narrativa que usam para justificar a terceirização para as OSs [organizações sociais]: terceiriza-se os equipamentos de saúde e quando aparece um escândalo financeiro, a culpa é daquela instituição, e não do modelo. É importante a fiscalização, esse é o dever de instituições como conselhos de categoria, do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e do Ministério Público. Mas a gente sabe que isso, por si só, é “enxugar gelo”. Essa conclusão vem da nossa experiência em comunidades terapêuticas clandestinas e regulamentadas, principalmente as regulamentadas, porque essas passam por fiscalização.

O movimento antimanicomial defende o fechamento de todas as CTs?

A gente compreende que toda e qualquer internação é uma violação de direito, partindo do pressuposto que nós temos conquistado o direito ao cuidado em liberdade. Toda e qualquer internação, seja ela voluntária — o que é uma farsa, pois o entendimento do Movimento Nacional de Vítimas é que não existe internação voluntária, todas elas são sob coação —, involuntária ou compulsória, que são as três modalidades descritas na lei 10.216. Essas CTs que estão sendo financiadas pelo poder público, inclusive agora estão tentando se rotular como acolhedoras, dizer que não são manicomiais, mas a gente sabe que não são. O governo tem essa parceria com as federações [de CTs]. Tudo isso é um jogo, uma barganha com os corpos pretos, periféricos, LGBTs, indígenas, de trabalhadores precarizados que adoecem. No campo da saúde mental, infelizmente, independente do governo, continuamos vivendo os horrores do manicômio.

Como se dá a relação das CTs com o poder público?

A relação das comunidades terapêuticas com o poder público é parte de algo que foi estruturado ao longo da história do Brasil. Eu parto de uma perspectiva de que haveria menos manicômios patrocinados por estados e municípios se no âmbito federal houvesse menos espaço para essas instituições. Mas a gente vê o inverso: uma parceria muito grande do governo federal, desde Fernando Henrique, sendo alimentada ano a ano por todo o governo que entra, Lula, Dilma, Bolsonaro. Isso dá brecha para estados e municípios fortalecerem no âmbito local. A gente também observa um desinvestimento na Rede de Atenção Psicossocial. O ano de 2025 teve baixíssimo investimento na construção de Caps. A gente teve a 5ª Conferência Nacional de Saúde Mental, a maior da história, com mais participação social, e até hoje não tivemos suas diretrizes concretizadas. E ela foi unânime sobre a retirada das comunidades terapêuticas da Raps. De um lado, a gente tem o subfinanciamento; e do outro, a gente tem um grande investimento partindo do federal nas comunidades terapêuticas, uma opção por esse modelo manicomial. E consequentemente, estados e municípios se sentem muito à vontade para manter essas instituições totais.

Na sua avaliação, que alternativas de cuidado existem no SUS e na Raps?

A Rede de Atenção Psicossocial tem várias práticas e serviços. A gente está começando a ter, por conta de muita luta, novas experiências, como os CAIS [Centro de Acesso a Direitos e Inclusão Social], vinculados ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. São experiências que nos deixam otimistas. Existem inúmeras outras experiências e saberes, que não conseguem ser documentados, pensados e discutidos como uma possível política, existe esse desinvestimento na Rede de Atenção Psicossocial. Ainda não há um compromisso federativo pelo cuidado em liberdade. Existe a Lei 10.216, que chamam de Lei da Reforma Psiquiátrica, mas ela já nasce cheia de falhas, e foram incluindo várias coisas nela que a prejudicaram muito. É necessário um grande pacto nacional visando [construir] outra coisa. Quem sabe, na batalha das ideias, como diz Leandro Konder [filósofo brasileiro, 1936-2014], a ideia do cuidado em liberdade vença.

Para finalizar, como é para você hoje atuar na militância do Movimento Nacional de Vítimas de Comunidades Terapêuticas? 

O MNVCT é um movimento de pessoas que já vivenciaram e reconhecem que vivenciaram violências e violações em comunidades terapêuticas. Porque vale ressaltar que muitas pessoas que passaram por CTs são gratas a, inclusive, violências bizarras que passaram. A gente vê muito relato de gente falando assim: “ainda bem que eu apanhei”, “eu comia comida estragada, isso que me construiu”. A gente ouve muito essa narrativa. O nosso movimento também é composto por familiares de pessoas que estão vivas ou que foram assassinadas, assassinatos brutais. Para evitar revitimizações, a gente tenta fazer outros formatos [de encontros] pra nos acolher e nos unir. A gente tem um grupo fixo também, que decidiu se expor, porque não é fácil pra gente contar nossa história. Algumas comunidades estão vinculadas ao crime organizado, tem pessoas que estão sob ameaça. É um movimento de vítimas que acolhe outras vítimas, no sentido de ouvi-las, de dizer que elas não estão sós, e a gente digere tudo isso e transforma em luta. A gente transforma nossa dor em luta. Muitos de nós não vão conseguir fazer isso que estou fazendo aqui, me expondo, contando a minha história. E o que eu passei, muitos outros passaram. E olha que interessante, o nosso movimento é composto majoritariamente por mulheres e pessoas LGBTs. É uma característica muito forte. Tem muitos homens que entram em contato, a gente acolhe de alguma forma, encaminha a demanda, a gente faz a aproximação com a Raps. A maioria das pessoas que sai da comunidade terapêutica não sabe o que é a Raps. A gente faz esse trabalho de aproximação e encaminha denúncia para o Ministério Público e outros órgãos. 

“A gente não deixa a raiva passar, em relação ao que a gente viveu e ao que outras pessoas estão passando. Semanalmente a gente recebe um, dois, três relatos, e a gente vai acolhendo as pessoas”

Significa dizer que a militância trouxe um novo sentido à sua vida?

A gente entende também que a grande terapia para nós não é a medicalização, não é a internação, nem o “manicômio extramuros” — é importante frisar isso, Caps que vincula as pessoas eternamente acaba sendo manicômio. A nossa grande terapia é a luta. As pessoas acabam ressignificando e, na maioria das vezes, se desvinculando do uso problemático de substância. A gente consegue alcançar a abstinência mais do que as comunidades terapêuticas. As pessoas falam: “eu não vou usar, porque eu quero ir pra luta”. A gente fala de ódio, é muito pesado dizer isso, mas é necessário. A gente não deixa a raiva passar, em relação ao que a gente viveu e ao que outras pessoas estão passando. Semanalmente a gente recebe um, dois, três relatos, e a gente vai acolhendo as pessoas. Inclusive, em breve, a gente vai fazer o primeiro Encontro Nacional de vítimas de comunidade terapêutica. A gente está na luta para que tanto as vítimas do manicômio clássico quanto do manicômio moderno, as comunidades terapêuticas, sejam reconhecidas como vítimas de violência do Estado, assim como as pessoas que foram torturadas na ditadura, porque entendemos que a nossa prisão é política. A culpa não é nossa. Fomos presos políticos e passamos por tortura por uma decisão do Estado, independente das instituições que praticaram serem terceirizadas.

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