Quando Jeane Tavares se formou em Psicologia, em 2000, havia poucos estudantes negros e negras nas universidades. Nos serviços de saúde, a mesma coisa: eram raros os profissionais de nível superior negros, como gestores, médicos, enfermeiros e psicólogos. Ao longo dos anos atuando na região do Recôncavo Baiano, seu olhar aguçado percebeu algo que era comum às pessoas que atendia, em sua maioria negras, e que fazia parte dos contextos de sofrimento psíquico, luto e ansiedade: eram vidas atravessadas pelas engrenagens do racismo.
Foi quando Jeane resolveu dar uma guinada e, a partir de sua experiência como mulher negra, buscar novas formas de promover um cuidado adequado a pessoas negras, pobres e de baixa escolaridade. E mais: decidiu pautar a discussão da saúde mental da população negra não somente na academia, mas no debate público e nas redes sociais. Hoje, além de referência nos estudos sobre o tema, a professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) é responsável por um perfil no Instagram que conta com 145 mil seguidores interessados no assunto (@saudementalpopnegra).
Para Jeane, a questão da raça é constituinte da sociedade brasileira e condiciona as subjetividades e relações interpessoais. “O racismo não forma apenas a subjetividade das pessoas negras. Forma principalmente a subjetividade das pessoas brancas, que são normalmente os profissionais de nível superior que estão no sistema de saúde e que vão tomar as decisões sobre nós”, aponta. Segundo a pesquisadora, o racismo constitui a nossa forma de se relacionar e de cuidar.
Na companhia de referências como Abdias Nascimento, Lélia Gonzales e Neusa Santos Souza, Jeane Tavares considera que o tema da saúde mental da população negra nunca foi central nas discussões da reforma sanitária e da reforma psiquiátrica, mesmo com a criação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), em 2009. “A rede de saúde mental sabe pouquíssimo sobre negros e indígenas”, constata [Leia matéria sobre a PNSIPIN aqui].
Em entrevista à Radis, ela falou sobre as repercussões do racismo na saúde mental, contou como o tema da subjetividade das pessoas negras foi representado ao longo da história e analisou questões que incidem sobre o sofrimento psíquico, como a violência, a discriminação e as microagressões sofridas por profissionais de saúde no cotidiano. Também abordou as potencialidades da cultura e dos territórios no cuidado.
Psicóloga formada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde concluiu o doutorado em Saúde Pública pelo Instituto de Saúde Coletiva (ISC), Jeane cursa atualmente o segundo pós-doutorado em Saúde Pública, desta vez, na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) e é docente da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Sobre o trabalho nas redes sociais, ela diz que ainda se surpreende com o alcance da página e a repercussão dos temas que aborda. “Brinco que talvez esse seja o meu superpoder: conseguir falar de forma acessível sobre temas complexos”.
Por que é necessária uma abordagem atenta ao “recorte” da saúde mental da população negra?
Vou começar pelo uso do termo recorte. O que discutimos ao longo dos anos é que raça não é um recorte. Raça é um fator central constituinte tanto da nossa sociedade, quanto das subjetividades e das relações interpessoais, assim como gênero e classe. Em relação à saúde mental, diz respeito às situações a que pessoas categorizadas como negras em nossa sociedade serão expostas, independentemente da sua classe. A classe vai fazer com que uma pessoa negra que ascendeu socialmente tenha recursos para não morar numa região periférica, não ouvir tiros, não ter que pegar um ônibus lotado por horas para chegar no trabalho. No entanto, continua sendo negra e exposta a situações de humilhação e discriminação racial para que aprenda, ao longo da vida, o lugar social imposto a uma pessoa negra.
Como o racismo se expressa?
O racismo é uma ideologia que estabelece a superioridade de um grupo racial sobre os demais, diz quais marcadores levam uma pessoa a ser tratada de determinada forma e organiza a distribuição da morte. Da concepção à morte, o racismo nos acompanha todo o tempo e estabelece para nós necessidades de saúde diferentes de brancos e indígenas. Como população negra, temos necessidades muito específicas que vêm dessa exposição ao racismo, não pontual, mas continuada. Outra questão importante: o racismo não forma apenas a subjetividade das pessoas negras. Forma, principalmente, a subjetividade das pessoas brancas, que são normalmente os profissionais de nível superior que estão no sistema de saúde e que vão tomar as decisões sobre nós.
“Como população negra, temos necessidades muito específicas que vêm dessa exposição ao racismo, não pontual, mas continuada”

Por que é importante falar de equidade?
Falar sobre equidade é discutir sobre distribuição de poder e acesso a direitos. Algumas pessoas acham que é sobre empatia, e na verdade quando se usa esse argumento, você leva para o indivíduo, para o sujeito, a responsabilidade ou escolha de ter ou não empatia em relação a pessoas que sofrem. Quando falamos sobre equidade, estamos dizendo que pessoas negras, indígenas, trans, com deficiência, também têm direito ao exercício do poder no sistema de saúde; têm o direito de usufruir das instituições de saúde como profissionais, na assistência e gestão, o que quer que seja, e como usuários. E toda vez que disputarmos poder, haverá resistência e dificuldade de implantação de políticas de equidade.
Como reconhecer as potencialidades da população negra, no campo da saúde mental?
Sobre a descoberta das potencialidades, vou citar a Neusa Santos Souza [1951-2008]: “saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade”, mas sobretudo, “é a experiência de comprometer-se a resgatar a sua história e recriar-se em suas potencialidades”. Quando a gente fala de saúde mental de pessoas negras, a gente lida com essas duas dimensões. Primeiro, que a pessoa negra se reconheça como tal: ela se dá conta da produção social e histórica dos eventos discriminatórios a que ela é constantemente submetida. Logo, não é coisa da minha cabeça, não é porque não sou suficientemente boa, ou porque não sou bonita, ou porque sou nordestina, não é sobre isso. Um dos principais objetivos do cuidado na clínica em saúde mental é que essa pessoa se recrie na sua potencialidade, naquilo que ela pode ser, para além desse lugar de subalternidade colocado desde a colonização.
Como a sociabilidade e a saúde mental da população negra foram tratadas ao longo do tempo?
Os escravizados nunca foram uma população inteiramente submissa. No livro “Negociação e Conflito”, por exemplo, o professor João José Reis [UFBA] mostra como escravizados e senhores entravam em conflito e negociavam. Havia o reconhecimento de que escravizados tinham vontade, desejos, mas ainda entendidos como seres menos inteligentes e ardilosos, em quem não se podia confiar. Para o colonizador os povos colonizados eram “exóticos, diferentes, não humanos”. Então, entendia-se o que chamamos hoje de subjetividade como uma forma de funcionamento de “subseres”: “não eram tão inteligentes, não eram tão adequados, não tinham os mesmos comportamentos” dos brancos.
Como se construiu esse temor em relação ao negro?
No pós-abolição, tínhamos grande contingente de pessoas negras, muito maior do que de pessoas brancas. Havia acontecido a Revolução do Haiti [1791-1804], notícias chegavam sobre os conflitos locais e a concepção do “negro violento” ou perigoso se constitui a partir do imaginário de medo da elite branca brasileira, intensificado no contexto final da escravidão. Neste mesmo período, pseudociências como a frenologia buscavam, por meio da medição da crânios e da análise da aparência física, prever comportamentos. Em 1851, foi lançado nos Estados Unidos o primeiro compêndio de psiquiatria em que há patologização do comportamento de pessoas negras escravizadas, neste momento em que a psiquiatria se organiza no modelo que conhecemos hoje, ainda hegemônico, de patologização de comportamentos e sistematização de sintomas. Logo, surge o projeto de transformar o Brasil no “país do futuro”, moderno aos moldes europeus. E, para isso, o que era necessário fazer? Era preciso “limpar” a nossa população pelo branqueamento, pela eliminação preconizada pela eugenia.

Como a população negra era tratada nesse discurso da eugenia?
Prevalecia a tese de que o Brasil não prosperaria devido à presença expressiva das populações negra e indígena. É nesse contexto que a eugenia passa a fundamentar, inclusive, o sanitarismo brasileiro. Enquanto se fomentava a imigração europeia como estratégia de branqueamento, a população negra e originária era entregue à negligência do Estado, à fome, às doenças, ao cárcere ou ao isolamento manicomial. Com a República, os manicômios consolidaram-se como o depósito dos ‘marginais’ da sociedade e dos dissidentes políticos. Na primeira metade do século XX, o debate científico buscava determinar se comportamentos como violência, hipersexualização e loucura, estigmas projetados sobre a população negra, seriam condições inatas ou adquiridas. Essa discussão era relevante pois servia como base de argumentação eugenista para justificar o controle desses corpos. Contrapondo-se ao Nina Rodrigues [1862-1906], principal expoente do eugenismo brasileiro, tivemos Juliano Moreira [1873-1933], Virginia Bicudo [1910-2003], incluo Lima Barreto [1881-1922] e Carolina Maria de Jesus [1914-1977] como autores importantes que registram e discutiram o sofrimento psíquico em pessoas negras.
E como a população negra se entendia, nesse período?
Costumo dizer aos meus alunos que, no Brasil, os verdadeiros compêndios sobre a saúde mental da população negra não estão nos manuais médicos, eles residem na música, nas danças, na arte, na arquitetura e na tradição oral. É nas manifestações do Candomblé, na culinária e nos movimentos de resistência que encontramos a expressão do sofrimento, do prazer e da subjetividade negra, principalmente nas primeiras décadas pós Abolição. A partir da segunda metade do século XX, o debate se desloca para uma questão central: o modo como o racismo estrutura o sofrimento psíquico e as condições sociais dessa população. Nesse cenário, intelectuais do campo da saúde mental como Virginia Bicudo, Franz Fanon, Neusa Santos Souza, Isildinha Nogueira, Maria Lúcia da Silva e Cida Bento tornam-se referências indispensáveis. A base teórica das discussões sobre a produção social e efeitos do racismo se expande para intelectuais importantíssimos do movimento negro brasileiro deste período como Abdias Nascimento, Clóvis Moura, Guerreiro Ramos, Lélia González e Beatriz Nascimento. É um momento histórico em que houve o fortalecimento do movimento negro, o avanço da Reforma Sanitária e da Reforma Psiquiátrica, além da luta pelos direitos civis e contra a ditadura militar.
Como a questão racial era vista pela reforma sanitária?
Tanto na Reforma Sanitária quanto na Reforma Psiquiátrica, a questão racial era tratada como uma pauta exclusiva do movimento negro, e não como um eixo estruturante da saúde pública. Embora alguns autores, ainda nos anos 80, chegassem a mencionar a importância da raça e da etnia, essa discussão nunca foi radicalizada no campo da saúde coletiva. É preciso lembrar que ambos os movimentos de Reformas nasceram no ambiente acadêmico, majoritariamente liderados por homens brancos. Nesse cenário, o questionamento que se impõe é: onde estavam as mulheres e homens negros e indígenas pesquisadores, médicos, epidemiologistas, gestores, sociólogos e sanitaristas? Por que não aparecem como referências destes movimentos? Por que não temos registros de suas contribuições? O início da mudança política nos campos da saúde pública e saúde mental em relação à população negra ocorre apenas no século XXI, com os impactos das políticas de democratização do acesso ao ensino superior, notadamente a partir dos governos Lula e Dilma. Essa entrada sistemática de grupos não hegemônicos nas universidades alterou profundamente a ordem das coisas. Hoje, assistimos a uma transformação tanto na forma de produzir ciência quanto na própria organização da formação dos profissionais de saúde, forçando uma ruptura com o saber acadêmico tradicional.
O que muda então?
A entrada de pesquisadores negros e indígenas nas universidades a partir do século XXI revelou que “o SUS para todos” precisava reconhecer, especificamente, quais corpos mais adoeciam e menos acessavam o cuidado. Ingressei na universidade como discente em 1995 e, em 2002, iniciei a docência em universidades privadas. Embora não tenha sido contemplada pelas políticas públicas afirmativas, minha trajetória precoce no ensino superior me permitiu observar, de dentro, essa transição. A universidade passou a ser palco de um embate que forçou o repensar das questões de saúde mental da população brasileira. Começamos a ocupar posições de professores, estudantes de pós-graduação e profissionais de nível superior no SUS. Deixamos de ser apenas o objeto de estudo, o paciente, a secretária ou a agente comunitária de saúde, passamos a atuar como gestores de políticas e especialistas na assistência. Essa ocupação de espaços impacta diretamente a qualidade do atendimento e exerce uma pressão política necessária pela construção de um cuidado que faça sentido nos territórios. Afinal, territórios marginalizados são, em sua vasta maioria, constituídos por pessoas negras.
Que lugar a saúde mental ocupa na Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN)?
A PNSIPN surge como um esforço do movimento negro dentro do SUS, mas ainda não está devidamente implantada. Não temos de forma significativa uma sistematização, vamos ter agora com o Observatório [de Saúde da População Negra, leia matéria aqui]. Historicamente, o que existia como fonte de informação sobre a saúde mental dessa população restringia-se ao abuso de álcool e outras drogas. Essa coleta seletiva é, em si, uma expressão do racismo institucional: perpetua o estereótipo de que o sujeito negro é intrinsecamente ligado ao vício e à desordem. Enquanto isso, a atenção primária, que deveria ser centro da promoção da saúde e prevenção, permanece em grande medida alheia sobre as especificidades do sofrimento psíquico de negros e indígenas. Embora os profissionais que ingressam hoje no trabalho em saúde apresentem maior sensibilidade para o tema, a formação ainda não institucionalizou o racismo como um determinante ou mediador da saúde. Nossa rede de saúde mental ainda conhece pouco sobre a subjetividade de negros e indígenas. Após mais de um século de produções, compreendemos quais são as repercussões psíquicas e sociais do racismo. Agora, o nosso desafio é a ruptura com essa ideologia e com os modelos de atenção inspirados nela. Precisamos transformar, de forma radical, tanto a estrutura de formação profissional quanto a prática da assistência, garantindo que o cuidado deixe de ser uma lacuna e se torne realidade no território.
Como o racismo adoece mentalmente?
O racismo nos submete a condições de estresse crônico, chamado de “estresse racial” que mantém o corpo e a mente em um estado de hipervigilância permanente. Estamos, o tempo todo, prontos para responder a um ataque. Esse estado de alerta constante desencadeia desregulações hormonais, insônia, fadiga crônica e uma exaustão cognitiva, gerada pela necessidade de monitorar cada movimento para evitar erros que, para nós, podem ser fatais. Diariamente, somos expostos a imagens de violência, ameaças e mortes. Há o medo real de circular em espaços públicos, como lojas, bancos ou supermercados, sob a sombra constante de ser acusado de cometimento de crimes por critérios estritamente raciais. É o medo diário de que nossos filhos não retornem para casa, o medo da violência nas ruas e em casa, da escassez, da perda repentina do emprego e de bens. Aqui, a interseccionalidade entre raça e gênero é incontornável: o feminicídio atinge, de forma desproporcional, a mulher negra. Não estamos apenas em uma situação de desproteção social; enfrentamos barreiras sistêmicas que obstruem o nosso acesso aos direitos básicos de cidadania. Somos, simultaneamente, o grupo mais ameaçado e aquele que dispõe de menos recursos institucionais de enfrentamento.
“Existe um sofrimento criado pelo racismo brasileiro que é sistêmico e que não para, é transgeracional”

Que outras repercussões ocorrem na saúde mental?
Observamos uma incidência elevada de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), particularmente entre homens negros submetidos à violência policial sistemática. A essa exposição à violência estatal, soma-se a hiperexposição à morte: a perda recorrente de entes queridos é uma experiência comum na trajetória de pessoas negras. Essa vulnerabilidade é, principalmente, territorial. Quando desastres climáticos, como as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul e Minas Gerais, atingem o país, são as populações negra e indígena que habitam as áreas de maior risco. Existe um sofrimento criado pelo racismo brasileiro que é sistêmico e que não para, é transgeracional. O racismo dita modos de compreensão da vida e da finitude, além das crenças sobre autocuidado. Para muitos jovens negros, a previsão de uma morte precoce, testemunhada na prisão ou no assassinato de irmãos, primos, amigos e vizinhos, inibe o engajamento em comportamentos preventivos de saúde. Durante a pandemia de covid-19, por exemplo, escrevi um texto sobre possíveis razões por que homens negros resistiam a usar máscara. Este comportamento não podia ser interpretado apenas como “negligência” com a saúde pessoal e coletiva. Havia um cálculo de sobrevivência frente ao risco de serem prontamente identificados, ou “confundidos”, pela polícia como criminosos. O racismo, portanto, não apenas adoece, ele redefine a relação do indivíduo com o cuidado de si e com o próprio futuro.
E como o racismo repercute no cotidiano dos trabalhadores negros e negras do SUS?
Em minha pesquisa sobre microagressões raciais direcionadas especificamente aos profissionais de saúde negros, observo que, de modo geral, o debate sobre o racismo institucional no SUS foca apenas na relação entre o profissional de saúde branco e o usuário negro. A PNSIPN foi concebida sob a premissa de organizar o SUS de forma antirracista para garantir que a população negra fosse efetivamente bem assistida. No entanto, quando essa política foi estruturada, ainda não contávamos com a presença significativa de profissionais negros em posições decisórias. Num primeiro momento, predominava entre estudantes universitários e profissionais recém-formados a crença, por vezes ingênua, de que o diploma universitário e a ascensão social atuariam como um escudo contra o racismo, conferindo-lhes uma respeitabilidade que diminuiria os ataques. No entanto, concordando com a discussão proposta por Virginia Bicudo na década de 1940, nos parece que o diploma não reduz a violência: a depender da função exercida pelo trabalhador negro, ele a intensifica. O profssional negro, ao ocupar posições de autoridade, torna-se um alvo ainda mais frequente de deslegitimação, assédio, marginalização e exclusão interpessoal no ambiente de trabalho.
Por quê?
O racismo opera como um mecanismo de controle social que é acionado fortemente quando ocupamos espaços de poder. Quando uma pessoa negra acessa um lugar onde sua presença não é esperada, cria-se o que costumo chamar de um “erro na Matrix”. Diante da subversão da ordem estabelecida pela supremacia racial, a deslegitimação entra em ação para que tudo volte à normalidade hierárquica racista. Por isso, quando um médico negro entra em uma unidade de saúde, ele enfrenta ataques em todas as direções: de seus pares, de gestores e da própria comunidade. É fundamental entender que esse ataque não parte apenas de pessoas brancas. Pessoas negras que ainda não passaram pelo processo crítico de “tornar-se negro”, conceito que Neusa Santos Souza fundamenta, também podem reproduzir essa violência, desconfiando da autoridade e competência do profissional negro. Quando alguém questiona “Você é médico mesmo?”, não é uma dúvida sobre identidade profissional, é a manifestação do racismo internalizado que associa o negro à subalternidade.
Que situações ocorrem com esses profissionais?
O profissional negro na saúde, particularmente em posições de alto grau técnico, como a medicina, é submetido a um esquadrinhamento permanente. É frequente o relato de médicos negros que, mesmo apresentando múltiplas formas de identificação, são confundidos com o vigilante ou com a equipe de apoio. Há um peso desproporcional sobre nossas ações que gera o medo de que qualquer erro seja interpretado não como uma falha humana, mas como uma prova de nossa incapacidade racial. Além disso, enfrentamos a sobreposição de violência racial a de gênero, observada nas equipes de enfermagem, área majoritariamente composta por mulheres negras. Assim, quando uma mulher negra assume a gestão de uma unidade ou de uma política, ocorre uma série de comportamentos raciais defensivos para recolocá-la nos espaços de subalternidade.
E que vínculos esses trabalhadores negros do SUS criam com a população atendida?
A identificação desse profissional com a população que atende pode ser processo extremamente sofrido ou prazeroso. Ele pode, por exemplo, criar uma barreira emocional para lidar com essas pessoas e se tornar aquele profissional frio e distante das outras pessoas negras. E na ponta diametralmente oposta, está a crença de que “preciso salvar muitas outras pessoas negras”. Então, ele trabalha mais tempo do que deveria, com remuneração mais baixa, se envolve com questões que vão além de sua capacidade de resolução. A saúde mental desse profissional negro, no SUS, é afetada por estar trabalhando com pessoas negras que precisam de cuidados muito específicos que, às vezes, tambem são seus. Mas é muito bom quando ele já fez todo esse percurso do “tornar-se negro” e está se recriando nas suas potencialidades e pode atender de forma humanizada, técnica, valorizando o território e a si mesmo.
Como a violência afeta mulheres e homens negros?
Enquanto a violência contra homens negros é, em grande medida, pública e letal nas ruas, a violência contra mulheres negras frequentemente se concentra no espaço doméstico. Para o homem negro, o racismo constrói uma presunção de periculosidade constante. Desde a infância, comportamentos de curiosidade ou inquietação são prontamente lidos como transgressão e patologizados, muitas vezes levando famílias a buscarem diagnósticos médicos como uma estratégia para evitar a criminalização desses meninos. Quando pobres, o estereótipo da periculosidade e do comportamento violento, contribui para que entrem precocemente para o mercado de trabalho informal ou para a marginalidade. No ambiente profissional, esse estigma gera um custo psíquico altíssimo. Médicos e enfermeiros negros são frequentemente identificados como figuras de apoio ou ameaça. Isso impõe ao homem negro a necessidade de desenvolver estratégias de enfrentamento exaustivas, como a obrigatoriedade de manter o sorriso constante, uma performance de sociabilidade para neutralizar a impressão de “ser ameaçador”. O custo de não sorrir, ou de expressar qualquer desagrado, é a punição social e a rotulação de violento. Essa hipervigilância, imposta desde o nascimento, exige um controle emocional permanente, transformando cada interação cotidiana, inclusive a clínica, em um exercício de sobrevivência.
E quanto às mulheres?
A violência contra a menina e a mulher negra é estruturada, de modo geral, pela sexualização e pela exploração do trabalho. A erotização precoce é uma marca dessa trajetória. Meninas negras são frequentemente alvos de comentários sobre seus corpos ainda na primeira infância, um reflexo do racismo que as desumaniza ao transformá-las em objeto de desejo ou curiosidade. Quando pobres, a elas é destinado o lugar do serviço e da subalternidade, sobrecarregando-as desde cedo com o trabalho doméstico e o cuidado com o outro.
“Não deve ser normalizado para nós uma criança ou adolescente ir para a escola e ter que ficar pulando poças de sangue na rua, vendo cadáver, vivendo em casas marcadas por disparos de armas de fogo e privadas de condições básicas de sobrevivência”
Como esse contexto mediado pela violência atravessa o futuro dessas crianças?
Crianças negras e periféricas, com pais assassinados ou encarcerados e mães que trabalham exaustivamente ou também assassinadas ou encarceradas, vivem uma infância que nada tem em comum com quem está protegido em condomínios de classe média. O contexto de violência produz sofrimento psíquico e, desde cedo, eles convivem com abandono, impotência e precariedade da vida. Na adolescência negra em territórios marginalizados, o impacto das redes sociais na saúde mental é um campo a ser conhecido e enfrentado. Quer seja pela exposição a vídeos de violência explícita dos “tribunais do crime” que circulam no WhatsApp ou pelo apelo aos jogos e monetização da vida cotidiana, cria-se a noção de um “futuro promissor”. Em territórios faccionados, o direito de ir e vir é suprimido; nossos adolescentes não conseguem transitar pela cidade, sentem-se presos em um aprisionamento que nada mais é do que necropolítica — uma forma explícita de segregação racial. Não deve ser normalizado para nós uma criança ou adolescente ir para a escola e ter que ficar pulando poças de sangue na rua, vendo cadáver na rua, vivendo em casas marcadas por disparos de armas de fogo e privadas de condições básicas de sobrevivência. Essas experiências produzem senso de inadequação, de não merecimento, impotência e, principalmente, desespero, que pode levar ao suicídio, à depressão, à ansiedade e à ruptura com a própria realidade.
“Cada território terá a sua potencialidade, sua história e seus recursos de enfrentamento que vem sendo construídos desde a escravização”

Como a cultura e a saúde mental podem andar juntas, principalmente nos territórios periféricos?
No Recôncavo da Bahia, região marcada historicamente pela resistência e pela herança da diáspora africana, observo que a inteligência dessas populações é subestimada por um sistema pensado apenas para letrados. No entanto, é essa inteligência que permite a sobrevivência diante de um mundo que as exclui. Cada território terá a sua potencialidade, sua história e seus recursos de enfrentamento que vêm sendo construídos desde a escravização. Essas estratégias de cuidado em saúde mental são sistematicamente minadas pelo racismo e pela lógica de fragmentação do neoliberalismo. No entanto, mesmo sob constante ataque, territórios predominantemente negros seguem desenvolvendo tecnologias próprias e coletivas de cuidado.
Como isso se expressa cotidianamente no SUS?
É nossa obrigação, como profissionais de saúde, descobrir junto às pessoas as suas potências. As religiões de matriz africana, por exemplo, são espaços extremamente potentes para a produção de saúde integral, cuidando do corpo e da mente de forma indissociável. Escolas, espaços comunitários, a música, a dança, a arte e a memória dos quilombos são, todos eles, mestres que têm muito a nos ensinar. Os coletivos organizados como as Mães de Acari [na Zona Norte do RJ] e de tantas outras comunidades, que são sobreviventes do terrorismo de Estado, cada uma a seu tempo e a seu modo, lança mão de recursos ancestrais e coletivos para suportar o insuportável. É nesse território de resistência que a saúde mental se faz, não como um recurso médico isolado, mas como uma prática de vida comunitária.
Como tem sido o seu trabalho de comunicação na área de saúde mental, como pesquisadora negra de uma universidade pública?
Comecei a atender pessoas no Serviço de Psicologia da UFRB em 2013 e me dei conta que precisaria muito mais do que minha abordagem clínica me oferecia. Junto com meus estagiários, construímos modos de cuidado culturalmente contextualizados e adequados para pessoas negras, pobres, de baixa escolaridade, com doenças crônicas, e tinha muita dificuldade de encontrar informação sobre o tema. No ano de 2017, quando já estava me encaminhando para o meu primeiro pós-doutorado, decidi abrir um perfil no Facebook para ver se alguém se interessaria por esse trabalho. Pensei que encontraria cinco, dez pessoas interessadas nisso. Mas o perfil @saudementalpopnegra foi crescendo, veio a pandemia e explodiu. Foi necessário comunicar de forma acessível a milhões de pessoas os temas que já faziam parte da minha produção acadêmica e prática: saúde coletiva, perdas e luto, psicologia clínica, tudo ao mesmo tempo. A página hoje funciona como um meio de informação segura sobre saúde mental. As pessoas acreditam em meu trabalho e construímos uma comunidade, que não é gigantesca para os parâmetros da internet, mas formada por muita gente qualificada. Atualmente temos 145 mil seguidores. Uma média de 2 milhões, quase 3 milhões de visualizações. E não são só seguidores negros. Muitas pessoas brancas, indígenas, amarelas seguem a página, porque entendem que a discussão racial faz parte também do cotidiano delas e que elas também precisam participar. Sou muito feliz com esse trabalho porque consigo fazer a tradução de um conhecimento que, em outros tempos, estaria fechado na academia. Brinco que talvez esse seja o meu superpoder, conseguir falar de uma forma acessível sobre temas complexos.
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