Por Licia Oliveira e Glauber Tiburtino
Com colaboração de Luiz Felipe Stevanim e Rogério Lannes
Fotos: Eduardo de Oliveira
Em uma tarde ensolarada e levemente fria do inverno carioca, de julho de 2026, Cecília Minayo gentilmente abriu as portas de sua casa para receber parte da equipe de Radis e podermos conversar com ela por pouco mais de duas horas, incluindo a sessão de fotos. “Senhor fotógrafo, eu tenho que sair bonita”, ela brincou com Eduardo de Oliveira, fotógrafo de Radis. Como boa mineira, sempre acolhedora, Cecília nos esperava com café, bolo e água e insistiu para que ficássemos à vontade. “Eu já começo dizendo que tenho um tremor. Esse é o meu charme. Por isso, não sirvo ninguém. Vocês se sirvam, por favor”.
Socióloga, antropóloga, professora, pesquisadora, cientista social e, enfim, sanitarista. Maria Cecília de Souza Minayo, aos 88 anos, recebeu a primeira carteirinha de registro profissional de sanitarista em cerimônia realizada em 7 de abril deste ano. Bem antes disso, porém, construiu um importante legado acadêmico em que ajudou a consolidar a pesquisa qualitativa e as ciências sociais no campo da saúde coletiva.
Em constante atividade, no dia seguinte à nossa entrevista, Cecília viajou para Vitória (ES), para participar do evento comemorativo dos 25 anos da Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violência (PNRMAV), que ajudou diretamente a construir, e foi homologada pelo Ministério da Saúde em 2001. Também referência nos estudos sobre violência e saúde, ela conta que a elaboração da política foi coletiva, a partir da escuta de um grande grupo de pessoas que trabalhavam diretamente na prevenção e no cuidado de traumas, como profissionais das emergências e bombeiros, entre outros. “A lógica que a gente trabalha não é a da segurança pública. A nossa lógica é de proteção à vida”, frisou.
Os estudos sobre violência, área à qual se dedicou sem ter planejado previamente — “Eu fui escolhida”, disse —, ganharam centralidade em sua trajetória após sua chegada à Fiocruz. Cecília participou ativamente da fundação do Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (Claves), da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp), da qual foi coordenadora e hoje é pesquisadora-emérita.
Para Radis, Cecília relembrou a infância no interior de Minas Gerais, seu ingresso na educação popular, a parceria de vida com Carlos Minayo e a longa trajetória no ensino e na pesquisa, antes e depois de ingressar na Fiocruz, onde primeiro veio fazer o doutorado e depois se tornou servidora da instituição desde 1989. Fundadora e editora-chefe da Revista Ciência & Saúde Coletiva, autora de 45 livros, sendo sete individuais e outros 38 como organizadora ou em colaboração, além de ser premiada internacionalmente, Cecília Minayo segue atuando por um Brasil melhor e mais igualitário. “O que me ensina sobre o Brasil é vivenciar a cidadania da melhor forma que eu posso”.

“Para mim, se faltar leitura é como faltar água”
O que a senhora guarda nas memórias de infância no interior de Minas?
Minha infância foi num lugar pequenininho que se chamava Caxambu. Não é a cidade Caxambu do Sul de Minas, não. Era uma região muito ligada à escravidão, um distrito pequeno da cidade de Rio Piracicaba [município mineiro a 110 quilômetros de Belo Horizonte]. Sou filha de um homem que lutou a vida toda, começou a trabalhar com 13 anos, porque perdeu o pai, e a mãe era doente. Seus pais tiveram 14 filhos. Caxambu era um lugar que não tinha médico. Nós todos nascemos da mesma parteira, que foi a parteira da minha mãe. Médico, a gente ia a Piracicaba quando precisava, mas era uma coisa muito rara. Eu aprendi a ler antes de entrar para a escola. Minha mãe me ensinou, aprendi porque gostava de ler. E até hoje, para mim, se faltar leitura é como faltar água. Entrei para a escola com 7 anos e como eu já sabia ler, a professora me mandou ficar lá num banquinho escrevendo repetidamente: “Deus é bom Pai”.
E como foi sua formação até se tornar professora?
Meu pai tinha muita preocupação com as filhas mulheres, em dar uma formação para elas — onze filhos vivos, oito mulheres e três homens —, e a principal opção para as mulheres, naquela época, era ser professora. Quando eu terminei o terceiro ano primário, meus pais me enviaram e a minha irmã logo abaixo de mim, para eu não ficar sozinha, para um colégio de freiras em Itabira (MG). O colégio era um internato. Ficávamos lá porque, naquela época, de onde nós morávamos até Itabira eram nove horas de viagem. A gente andava a cavalo, depois pegava uma jardineira [veículo parecido com ônibus, usado para levar passageiros entre as décadas de 1940 e 1950], e mais duas linhas de trem: a linha Central do Brasil e Vitória-Minas. Então, só íamos para casa em julho e no período de dezembro a início de fevereiro, quando voltávamos. Tenho uma coisa comigo: desde pequena, eu senti o sacrifício que o papai e a mamãe fizeram por nós. Eles não tinham muito dinheiro e pagar um colégio interno, naquela época, era muito caro. Então, eu não ficava chorando. Claro que eu tinha saudades, mas a minha irmã chorava demais e eu sentia por ela… enfim, estudamos lá e fiz a formação até ser professora.

E como foi a vinda para o Rio?
Quando eu me formei, trabalhei um pouco lá em Minas, como professora, mas fui convidada pelas irmãs, que já tinham colégio aqui no Rio, para vir trabalhar e eu vim. Tenho 88 anos, vocês podem imaginar as dificuldades com faculdade, com tudo. O governo de Minas propiciava um tipo de formação — no período de férias, os professores tinham aulas de determinadas matérias, que os tornavam proficientes para ensinar para o ginásio e para o ensino normal. Eu fiz essas coisas todas, até vir para cá. Assim, comecei a trabalhar no Rio.
Como se encontrou com a educação popular?
A coisa que mais me chamou atenção quando cheguei ao Rio foram as favelas. Eu vinha de um lugar relativamente pobre, mas não era paupérrimo. Ninguém passava fome. A gente via as pessoas mais simples, mas elas se sustentavam: trabalhavam na roça ou em casa… então, comecei a pensar: vou formar professoras. Essas professoras têm que entender a realidade — uma realidade que eu também não entendia. Não me recordo exatamente quem me levou a primeira vez, mas alguém do meu convívio me levou à primeira favela com a qual eu trabalhei. Foi no alto da Penha [bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro]. E o que mais me chamou atenção foram as famílias compostas de mulheres e crianças. Eu perguntava: “E o marido?” “Ah, ele sumiu, não sei onde está”. “E a senhora está com outro?” “Sim, ele cuida de mim e está bem comigo”. Comecei a trabalhar com as estudantes do curso de formação de professores e a levá-las comigo, para elas conhecerem essa realidade. Depois a gente começou a trabalhar com a educação popular, com a formação de jovens e adultos. Mais tarde, quando houve a construção dos Conjuntos Habitacionais da Penha e de Brás de Pina, tinha um conjunto chamado Guaporé, que foi onde eu mais trabalhei com a educação popular. Eu me lembro de um menino de 12 anos, que roubava, andava com arma, e todo mundo no Guaporé alucinado com esse menino: “De onde esse menino tirou isso?”. Porque eram pessoas em situação de pobreza, mas que não conviviam com a violência como é hoje. Nós sabemos que essa violência tem uma história e que ela foi crescendo.

A senhora também atuou na Baixada Fluminense. Como isso ocorreu?
Dom Adriano Hypólito [1918-1996, conhecido pela defesa dos direitos humanos e pela atuação contra a ditadura militar], bispo de Nova Iguaçu, me convidou para trabalhar lá com educação popular, com as mulheres trabalhadoras. Eu me mudei para lá junto com uma colega. Isso já foi na época da repressão, um tempo muito difícil. Nessa época, fui fazer faculdade. Eu vinha para o Rio estudar sociologia, e voltava todo dia para Nova Iguaçu, onde trabalhava. Foi uma época boa, mas a gente vivia num clima de medo, de uso de linguagem cifrada, porque era um período de intensa repressão.
Como foi viver sob a ditadura militar?
A educação popular foi uma das últimas coisas com a qual a ditadura militar implicou. Mas comecei a receber muito recado, de que meu nome tinha sido falado nos interrogatórios na prisão. Quem me avisava era uma grande figura, o advogado Modesto da Silveira [1927-2016]. Ele era amicíssimo e mandava me avisar. Felizmente eu não fui pega. Eu estava livre, mas sabia que estavam me vigiando. Inclusive o pai de uma aluna minha no colégio, que era policial federal, veio falar comigo: “Toma cuidado, você tem família em Minas, volta pra lá, senão vai acabar presa”. Decidi pedir a uma amiga, casada com o editor da José Olympio, para ficar na casa dela, pois estava sendo procurada e estava muito nervosa. E quem não fica, não é? Ela me acolheu. Era uma mansão, que já não existe mais, na beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. Não fui presa, mas levava a causa de quem estava. Na época, a única instituição com poder de falar alguma coisa com os generais era a Igreja. Procurava primeiro a CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil], mas Dom Aloísio Lorscheider [1924-2007, presidente da CNBB entre 1971 e 1978] me orientava sempre a procurar Dom Eugênio Sales [1920-2012, arcebispo do Rio de Janeiro entre 1971 e 2001], porque ele era a única pessoa que os generais ouviam. Também fui atrás do advogado Sobral Pinto [1893-1991], que foi o advogado maior dos presos políticos. A primeira vez que o procurei, sentei na frente dele, falei sobre o assunto e ele me respondeu: “pode deixar”. As pessoas saíam da prisão. Era o que eu conseguia fazer naquela época. Um período muito difícil.

E como a senhora conheceu o Carlos Minayo?
Carlos veio da Espanha para ser chefe do Departamento de Química na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), porque ele é doutor em Química, formado pela Universidade de Salamanca. Com o impacto que ele teve quando viu as favelas e a pobreza, ele falou: “não vou ficar nesse departamento”. E começou também a trabalhar com educação popular. Conheci Carlos por causa disso. Ele resolveu ir morar na Rocinha junto com uma colega e um colega. A polícia veio atrás e prendeu um deles. Ele teve que sair de lá correndo e foi para a Penha, onde possuía outros conhecidos. Foi assim que eu o conheci. E então começamos a trabalhar juntos. Ele teve que sair do país, em 1971, porque a mãe estava muito mal de saúde. Foi para a Espanha para acompanhá-la, mas não pode mais voltar, porque a repressão aos movimentos populares se acirrou. A gente já tinha uma relação que não era casamento, nem noivado, acho que nem namoro era. Éramos companheiros de trabalho, mas daí veio esse amor. Quando a gente resolveu se casar foi em 1975. Quer dizer, já tinha quatro anos que ele estava fora e que não conseguia voltar. Ele chegou até Buenos Aires, mas não conseguiu entrar no Brasil. E ele caia de amores pelo país. Carlos costuma dizer: “Eu sou mais brasileiro do que vocês, porque eu escolhi o Brasil”. Mas como ele não conseguia voltar, eu fui a seu encontro.
Como foi sua passagem pelo exterior e como foi o contato com Paulo Freire [1921-1997, educador brasileiro]?
No exílio, os brasileiros que trabalhavam com educação popular e formação operária criaram uma instituição chamada Centro de Estudos do Desenvolvimento na América Latina (Cedal), da qual Paulo Freire era o presidente. Era uma instituição financiada pelo Comité Catholique em Paris. Eu almocei com ele várias vezes, sentado ao meu lado, falando do que gostava e não gostava, segurando a mãozinha da mulher dele. Carlos foi destinado a ficar nos Estados Unidos e acompanhar o movimento operário de lá. Ele sempre esteve junto aos trabalhadores. Eu terminei a graduação no Queens College, da New York University. Lá tivemos nossa primeira filha. Vivíamos com 500 dólares. Não passávamos fome, mas não tinha uma sobrinha. Fiquei quase três anos lá. Morávamos em Manhattan (NY). Tínhamos muitos grupos de discussão, Carlos fazia esse trabalho. Eu não, eu era dona de casa. Foi a primeira vez na vida que eu não tinha um emprego e nunca tinha dependido de marido. Quando minha filhinha estava com três meses, o Cedal achou importante Carlos ir para a Espanha para ajudar o movimento operário da América Latina, porque estava acontecendo o autoritarismo em vários países. Ele era responsável por levar o pessoal da América Latina e pelo contato com os movimentos operários da França e da Itália. Até que em 1979 houve a abertura, a anistia no Brasil. Eu estava grávida da segunda filha. Falei: “Carlos, está tão bom aqui, estamos bem assistidos”, porque a Espanha também já tinha sistema universal de saúde, já naquela época. Ele disse: “Vamos voltar para o Brasil, porque se a gente não for agora, a gente não vai voltar nunca”. Foi uma decisão dele. Eu me lembro de Carlos, no avião, abrindo tudo quanto havia nos cantinhos de sua bolsa, para ver se tinha alguma coisa para rasgar. Mas não tinha nada. E nós entramos normalmente, porque já era possível voltar.
Nessa volta, a senhora foi fazer o mestrado no Museu Nacional. Como foi esse processo até a chegada à Fiocruz?
A volta foi muito difícil. Em 1979, o Brasil estava numa grave crise econômica. Aquele lema da ditadura “Brasil Grande” caiu no chão. Não tinha emprego. Carlos fazia bico, pegava uma coisa aqui e ali, até que foi convidado para trabalhar na Fase (Federação dos Órgãos para Assistência Social e Educacional). Logo depois, ele foi chamado para a Fundação Getúlio Vargas (FGV), trabalhou lá até entrar na Fiocruz. Um colega meu, o José Sérgio Leite Lopes, me chamou para fazer o mestrado em Antropologia no Museu Nacional. Ele foi meu orientador. Era uma seleção dificílima, mas eu passei. Foi assim, eu estudando e fazendo bicos, o Carlos trabalhando, com uma criança pequena e a outra recém-nascida. E aí fiquei grávida da terceira. A primeira filha nós perdemos, uma filha que o Papai do Céu levou. Ela morreu com 11 anos. Teve um câncer agressivíssimo. O maior sofrimento de uma mãe, eu já passei na vida… as duas outras filhas estão aí, graças a Deus. Eu devo muito ao Museu Nacional. Eu já havia feito estudo com os trabalhadores da Baixada Fluminense. Quando chegou a hora de escrever a dissertação — naquela época o mestrado durava quatro anos — o José Sérgio sugeriu: “por que você não estuda os trabalhadores da Vale do Rio Doce?” Como a minha família acabou se mudando para Itabira (MG), onde eu e minha irmã estudamos, eu ia para lá uma semana por mês para o trabalho de campo e assim, com uma dissertação sobre os trabalhadores da Vale, concluí o mestrado.
Como foi pesquisar a realidade dos trabalhadores?
Da dissertação veio o livro “Os homens de ferro: estudo sobre os trabalhadores da indústria extrativa de minério de ferro da Companhia Vale do Rio Doce em Itabira, Minas Gerais” (1986). E olha que coisa engraçada, o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) premiou o projeto. A gente estava tão sem grana e esse dinheiro veio em muito boa hora. Mais tarde, quando eu voltava em Itabira para ver a família, o pessoal da Vale e outras pessoas da cidade falavam comigo que eu precisava escrever de novo porque muita coisa havia mudado. A Vale foi privatizada em 1997. Realmente tinha mudado muita coisa. Voltei e fiz outro livro que se chama “De Ferro e Flexíveis”, porque continuávamos falando dos trabalhadores de minério de ferro, mas flexíveis, porque a vida deles mudou totalmente. Algo que todo mundo falava era: “Vai privatizar a Vale e a vida dos trabalhadores vai pelo chão”. Realmente, eles passaram a receber menos, mas ainda muito mais do que qualquer outro trabalhador de Itabira, que não estivesse envolvido na mineração. Eu tentei mostrar neste livro os dois lados. O que melhorou para eles, o que piorou, o que os trabalhadores achavam bom antes e depois da mudança. Para mim, este livro é o mais completo da minha produção.
E depois do mestrado, o que veio?
Ainda passamos por um período de dificuldades. Eu trabalhei muito com tradução.Tudo que me pediam, eu fazia. Qualquer coisa que aparecia e que fosse capaz de trazer um dinheiro para casa, eu fazia. Isso no início dos anos 1980. Fui para a PUC-RJ trabalhar em pesquisa com uma pessoa por quem tenho um carinho enorme, Luiz Parga Nina, que coordenou o Endef (Estudo Nacional de Despesas Familiares), no IBGE. Foi o maior estudo que já houve no país sobre as condições de vida dos brasileiros. Descobriram coisas sobre a fome e as necessidades, tudo que ficava escondido na época da ditadura e do “Brasil grande”. O Parga Nina, depois do IBGE, foi para a PUC para desenvolver um projeto que se chamou “Configurações de Situação de Pobreza”. Trabalhei com ele por três anos. Foi a partir desse trabalho que me chamaram para a Fiocruz.

“Se eu posso dizer que eu tenho uma especialidade, é o trabalho de campo. É ouvir as pessoas”
Como foi essa transição para Fiocruz e a área da saúde?
Eu fui para Fiocruz levando esse cartão de visita de pesquisadora que trabalhava com as questões sociais, na época do Frederico Simões Barbosa [diretor da Ensp entre 1985 e 1989]. Ele me recebeu com muito carinho. Entrei no Departamento de Ciências Sociais, acho que eu era a única que já tinha feito trabalho de campo. Na época, o presidente da Fiocruz era o Sergio Arouca [1941-2003], o chefe do departamento era o Nilson do Rosário Costa, mas quem me convidou foi o Victor Valla [1937-2009, historiador social estadunidense, naturalizado brasileiro, professor emérito da Fiocruz]. Mas o Valla, que foi o meu orientador no doutorado em Saúde Pública, dizia: “você me ensina”. Porque não se fazia trabalho de campo [na Fiocruz, naquela época]. Se eu posso dizer que eu tenho uma especialidade, é trabalho de campo. É ouvir as pessoas. E traduzir isso de forma acadêmica. E lembro que começamos uma grande pesquisa no Complexo da Penha, daí já voltei para lá de uma maneira diferente.
O livro “O Desafio do Conhecimento” é referência em estudos qualitativos na saúde. Pode falar mais sobre essa obra?
Na Fiocruz, eu comecei a dar aula sobre o que eu sabia: pesquisa qualitativa. E posso dizer que devo o livro “O Desafio do Conhecimento” aos meus alunos, particularmente aos alunos médicos. Porque naquela época estava começando a pós-graduação no IFF [Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira] e eu colaborei na sua criação. Eu terminei o doutorado e me pediram para dar aulas do mestrado de Saúde da Mulher e da Criança. Fui do primeiro grupo de professores do IFF. Na época, a pós-graduação de lá era só para médicos, hoje é multidisciplinar. Os médicos chegavam e eu falava das condições de vida da população, das possibilidades da pesquisa qualitativa, das especificidades dessa abordagem, da epistemologia da compreensibilidade. E eles praticamente não entendiam, alguns desdenhavam. Diziam: “O que é isso? Isso não é ciência”. Assim escrevi o livro. Eu preparava a aula e depois a refazia com as críticas, buscando colocar o conhecimento de uma forma muito simples. Se vocês lerem esse livro, vão ver que é uma abordagem sociológica, antropológica, mas com uma linguagem absolutamente simples, porque eles me ensinaram me provocando.

Na sua visão, de lá para cá, a saúde coletiva já conseguiu superar essa divisão entre pesquisa qualitativa e quantitativa?
Acho que ainda tem muito epidemiologista ‘duro’, que só aceita o número. Mas eu diria que houve um desenvolvimento impressionante dessa época para cá. Para mim, a questão que foi ficando clara, conforme fui trabalhando com essas pessoas, era que não bastava colocar teoria para eles. Essa teoria tinha que estar relacionada com a prática e a partir de uma linguagem simples. Quando falo linguagem simples — porque a linguagem médica não é simples —, estou falando de uma linguagem inteligível do ponto de vista acadêmico. Acho que consegui isso, o livro está na 15ª edição. E tem um livrinho azul, menor [“Pesquisa Social: Teoria, Método e Criatividade”] que já deve estar em sua 49ª. edição. O Claves [Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli, da Ensp/Fiocruz, é composto basicamente por pessoas que fizeram mestrado e doutorado comigo. No início, Otávio Cruz Neto, Romeu Gomes, Edinilsa Ramos de Souza, Simone Gonçalves de Assis, Suely Ferreira Deslandes e Kathie Njaine. E o grupo foi crescendo. O Abel Packer [diretor do programa SciELO], me disse que eu sou a cientista social mais citada no país. Exatamente por causa dessa produção, que é muito utilizada, não apenas na área da saúde, mas por muitos outros campos de conhecimento.
Como o tema da violência entrou em suas pesquisas?
Sinceramente, não foi uma escolha. Eu fui escolhida. Foi uma época de muita repressão na Colômbia e vieram, pelo menos que eu conheci, três pesquisadores que foram acolhidos pela Fiocruz, quando a instituição foi retomando seus caminhos, na época do Arouca. Uma das pessoas foi Saúl Franco. Saúl é uma grande pessoa, médico e pesquisador. Atualmente, ele faz parte de um movimento pela paz, na Colômbia. Saúl convenceu o Arouca que a Fiocruz precisava estudar violência como uma questão de saúde pública. O que a Fiocruz, a USP, a Unicamp estudavam a esse respeito? O que a gente chama de causas externas. Quer dizer, os acidentes, os traumas, as lesões. Estudavam, quantificavam e publicavam sobre isso. A epidemiologia também trabalhava com isso. Um dia, eu estava sentada na minha salinha, vem o Saúl, senta na cadeira e fala: “Nós vamos precisar assumir o tema da violência na Fiocruz. E você vai ser quem vai levar esse tema para frente”. Falou em nome dele e do Arouca. Foi assim que começou. O que eu conhecia de violência eram as notícias de jornal, mas não podia ficar nisso. Então, o que a gente fez? Tinha duas pessoas, Simone Assis e Edinilsa Ramos, que estão comigo até hoje. São pesquisadoras maravilhosas e supercompetentes, trabalhavam com o Saúl. Ele foi para a Opas [Organização Panamericana da Saúde], depois para Colômbia, e dizia que precisava de alguém para segurar isso. Nós nos reunimos, chamei o Otávio Cruz Neto também. Éramos quatro pessoas. E decidimos fazer um trabalho empírico, de campo, para a gente conhecer alguma coisa. A nossa grande epidemiologista é Edinilsa, ela viu que no estado do Rio, na época, as maiores taxas de violência eram em Duque de Caxias. Então propus fazer um trabalho de campo em Caxias para estudar isso, junto com os movimentos populares, unindo temas como violência na escola, dados de morbimortalidade, violência social e a atuação dos movimentos sociais. Enquanto eles faziam o trabalho de campo eu me dediquei a estudar o tema conceitualmente. Reunimos tudo isso num grande seminário no auditório de uma faculdade em Caxias e devolvemos à sociedade nossos primeiros conhecimentos.
“A gente não faz pesquisa para a gente, faz para o outro”

Quais as contribuições do Claves para o campo de estudos de saúde e violência?
O Claves tem uma regra: tudo a gente publica. Tem duas qualidades que acho que vou deixar para eles: a primeira é essa, tudo o que o Claves faz, nós publicamos. Porque a gente não faz pesquisa para a gente, faz para o outro. A outra coisa é: projeto tem início, meio e fim. Começa e termina na hora certa ou antes do prazo. Isso nos deu esse reconhecimento. A gente não enrola com projeto. “Ah, mas não deu tempo…”. Se não está dando é por algum motivo. Nós estamos com uma pesquisa enorme, estudando a saúde dos presos do Brasil. É uma amostra de cerca de 30 mil entrevistados, de todos os estados. E entrevista na prisão tem que ser com papel e caneta, porque não pode entrar nenhum aparelho digital. Foi criada uma política para a população carcerária pelo Ministério da Saúde, que se chama Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade no Sistema Prisional (PNAISP). Nós estamos verificando como está a aplicação dessa política. Essa pesquisa, contradizendo o que acabei de mencionar como norma, está atrasada, infelizmente. Não por nós, mas porque atuar com um tema e uma população tão sensíveis depende da boa vontade de muita gente: para permitir a entrada, para ouvir as pessoas selecionadas pela amostra e tudo mais. Todo o material manuscrito dos 26 estados e do Distrito Federal vem pelos Correios. Um volume incalculável! Tem coisas que não dependem da gente, mas do que depende de nós, sempre entregamos. Concluindo, sobre a violência, a gente não criou uma teoria, porque já existe uma teoria da violência dentro da filosofia e da segurança pública, e não queríamos criar mais uma. Mas a gente trabalhou muito para criar a Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violência (PNRMAV), que fez 25 anos, agora, no dia 16 de maio de 2026.
Como foi trabalhar na construção dessa política?
Eu fiquei encarregada de ser a coordenadora da política, mas ela foi feita por um conjunto de pessoas que trabalhavam na emergência, com bombeiros, com pessoas que trabalham com traumatizados e com prevenção. Quando a gente acabou o rascunhão da proposta, foi feito um seminário com 60 pessoas do país todo que tinham a ver com o assunto. Lá na Opas, nós passamos três dias reunidos e vieram muitas sugestões de alteração. A política está aí até hoje. Em alguns lugares sua efetividade é melhor, em outros, pior. A lógica com que a gente trabalha não é a da segurança pública. A nossa lógica é de proteção e promoção à vida. Por exemplo, contribuir para que pais e mães não batam nas crianças, não as maltratem. A PNRMAV tem diretrizes que guiam as ações do setor saúde. E o Claves é o principal parceiro do Ministério da Saúde para formação dos profissionais por meio de cursos presenciais e à distância e por avaliações periódicas sobre o desempenho do SUS, seguindo as diretrizes. Recentemente, eu estive fazendo um prefácio para um livro sobre a violência contra a mulher coordenado por pesquisadores do Sul do país. Eu terminei o texto dizendo que temos que trabalhar com os homens. Eu tenho certeza de que muitos homens já entenderam a lógica das mudanças no campo feminino, que quer igualdade, mas a maioria está se sentindo muito ressabiada, muito ressentida, com o papel e o lugar da mulher, sobretudo quando ela fala: “Eu não quero mais”. Aí vem o ódio. Esse ódio provoca o que nós sabemos: maus-tratos e feminicídio.

Como foi sua atuação à frente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco)?
Os anos 1970, conforme houve a abertura política, foram significativos para muitas áreas. Um exemplo disso é que várias instituições acadêmicas nasceram nessa época, no fim da ditadura militar. A Abrasco é também dessa época. Eu fui presidente entre 1994 e 1996 [sendo a primeira mulher a presidir a associação]. Quem me antecedeu foi o Arlindo [Fábio Gómez de Sousa], que me convidou e disse que queria que eu fosse presidente porque, no CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] e na Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior], nossa área tinha uma fama péssima, de que era apenas uma área política, e não acadêmica. Então, os dirigentes estavam colocando pessoas de outros campos de conhecimento para avaliar nossos projetos. Eu ganhei a eleição com a ajuda dele e começamos por fazer uma avaliação da pós-graduação. Eu gosto de trabalho de campo! Fomos ver o que estava acontecendo, ouvindo os coordenadores e fizemos uma avaliação, reunindo as pessoas, conversando, distribuindo as atribuições. Fizeram parte pessoas como Paulette Goldenberg, Francisco Viacava, Maurício Barreto, Madel Luz, e outros, com um roteiro traçado coletivamente por nós. No fim da avaliação, fizemos um grande seminário e decidimos publicar os resultados, criar um Fórum dos Coordenadores de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, que existe até hoje e uma Revista científica da área.
Essa revista Ciência & Saúde Coletiva, da qual a senhora foi fundadora nessa época e ainda é editora, completa 30 anos em 2026. Na sua visão, como ela contribuiu para o campo da saúde coletiva e a divulgação científica?
Eu estava para sair da presidência da Abrasco. O Seminário era a coroação do meu tempo. A minha ideia era colocar uma pessoa para editar, mas eles pediram para eu levar adiante. Eu ainda não entendia nada de revista científica. Mas se vocês virem, na primeira edição a gente já tratava de políticas de saúde, de temas importantes, com pesquisadores que estão vivos aí hoje. Então, as pessoas começaram a adotar a revista. Nós fizemos um pequeno conselho editorial e foi decidido que a gente tinha que se diferenciar um pouco dos Cadernos de Saúde Pública e da Revista de Saúde Pública, para não ficar mais do mesmo. Então, acatamos a sugestão de construir uma revista temática. Qual foi a justificativa? A saúde coletiva estava crescendo — ela não estava e não está consolidada — ela está sendo construída até hoje, mas naquela época ainda era infinitamente menor. Quando nos dedicamos a um tema, ele serve aos pesquisadores, aos docentes e ajuda os estudantes. Essa marca existe até hoje. Ciência & Saúde Coletiva trabalha com temas. Por exemplo, nós vamos lançar no 34º Congresso do Conasems (Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde), entre 12 a 15 de julho, um número temático sobre Saúde Digital.

Como foi o processo para o reconhecimento acadêmico da revista?
Primeiramente, mandei um pedido para o SciELO, que também estava começando na época. O SciELO é que manda a nossa revista para o mundo inteiro. O editor, que era o Abel Packer, dizia na época: “ainda falta isso, falta aquilo”. Eram duas edições por ano, pois estávamos começando, tínhamos que arrebanhar mais gente. Passamos a fazer quatro por ano. E começamos a subir para o SciELO. A grande questão de uma revista não é você escrever, é ser lida. Ser lida por quem? Ser avaliada por quem? Ter condição de competir com quem? Se isso é bom ou ruim, não sei, mas é assim. Depois de três anos, comecei a mandar cartas para o Medline. Medline faz parte da maior biblioteca estadunidense, uma das mais importantes do mundo. Então, tem uma parte toda de saúde lá. E todas as boas revistas de saúde do mundo estão lá. E nós, nada. O responsável nem ousava me responder. Até que eu fui convidada para uma reunião nos Estados Unidos para discutir revistas científicas. Eu fui com a cara e a coragem. A primeira coisa que falei foi do nosso trabalho de revista temática. O coordenador do evento me disse: “Não acredito que vocês fazem temática”. E eu disse: “sim, fazemos quatro por ano”. Ele disse: “Puxa, nós aqui tentamos fazer temática e não conseguimos”. Eu fui fazendo amizade com um editor lá, um editor maravilhoso e disse a ele: “Eu preciso de uma ajuda sua. Eu preciso que o diretor de Medline conheça nossa revista”. Ele falou: “Olha, eu vou ter que ir ao Brasil, vou visitar você e vou ver a revista”. Então, realmente, ele veio. Era uma pessoa muito legal. Ele foi lá no Claves, foi na revista, viu que estava todo mundo trabalhando sério. Então, ele mandou uma carta linda para o diretor do Medline. Aí, o diretor do Medline aproveitou e o convidou para fazer parte do conselho deles. O importante é que veio o aceite. Mas ainda faltava uma coisa. Faltava o ISI [Institute for Scientific Information, que é hoje a Web of Science]. Era o instituto que fazia as estatísticas das revistas. Pois eu mandei uma carta e imediatamente recebi um ‘sim’. E assim nós completamos a lista dos indexadores mais importantes. Fomos indexados, se eu não me engano, em 24 bases de dados nacionais e internacionais. Mas as três principais são essas que eu estou falando: SciELO, Medline e o ISI, que hoje é Web of Science. Foi uma construção coletiva, com os editores e com esse grupo maravilhoso que temos lá. São seis mulheres que levam o cotidiano da revista. Qual é o nosso problema hoje? É administrar o excesso. Tem demanda demais. Acabei de ver uma demanda que veio do Ministério da Saúde, dos 20 anos da Política de Promoção da Saúde e querem publicar um número temático. Porque é uma revista que é lida. Eu também preciso falar dos meus companheiros editores-chefes da revista. Eu tenho o Romeu [Gomes], que é um companheiro e tanto que levanta todos os dias às cinco horas da manhã para trabalhar. Tem o Antônio Augusto [Moura da Silva], um epidemiologista de cepa, que é outra pessoa que trabalha incansavelmente, e agora nós colocamos outra colega, ela era editora associada, da área de Nutrição, que é a Vânia Fonseca. Ela está conosco desde que começamos a avaliação dos trabalhos de nutrição. Cada um de nós tem um pedacinho de trabalho. Sobretudo, os três trabalham muito na avaliação dos artigos. Eu fico assim sobrevoando porque é muita coisa para resolver nesse circuito. Mas são pessoas que sem elas a revista não andaria. E as colegas do dia a dia, das quais eu já falei: a Rai, a Telma, a Luiza, a Valéria, a Danúzia e a Anadrielle. São seis mulheres absolutamente comprometidas com o desempenho da revista.

Com a regulação recente da profissão de sanitarista, a senhora representou toda a categoria profissional ao ser a primeira pessoa a receber a carteirinha. O que esse reconhecimento representa para a senhora e para o campo da saúde coletiva?
É um reconhecimento profissional, sobretudo para quem está fazendo graduação em saúde coletiva. Isso significa que eles podem se apresentar no campo da saúde com a identidade própria. Isso é muito importante. Antes eu falava o quê? Sou professora, antropóloga, socióloga… então agora eu posso dizer: eu sou sanitarista. Sanitarista não precisa ser somente da área de epidemiologia ou de planejamento, pode ser também das ciências sociais. Para mim foi uma emoção muito grande. Eu tenho recebido muito reconhecimento. Isso me honra muito.
E como é a Cecília Minayo fora das pesquisas? E qual o balanço da parceria de vida ao lado de Carlos?
Quando chego em casa, eu brinco assim: “vou tirar a fantasia”. Tiro a roupa de trabalho, estou em casa e sou outra pessoa. Primeiro, com o Carlos, nós nos conhecemos no trabalho, dentro dos mesmos ideais. Não foi algo que se tornou uma surpresa depois. Isso não quer dizer que não tivemos dificuldade e que não tivemos várias briguinhas, que também tivemos, claro. Se há algum casal que fale que não tem briga, eu até fico em dúvida. Mas nosso companheirismo surgiu a partir do trabalho. O Carlos é muito generoso e ele é muito otimista com a vida. Mesmo doente, é otimista. Ele não se enverga, você não o acha deprimido, ele é de bem com a vida. Agora, em relação ao casal, quando a gente resolveu que ia se casar, a gente fez o seguinte pacto: o casamento vai ser para o crescimento dos dois. Senão não vai prestar. E eu acho que a gente cumpriu isso. Acho que eu nunca tirei o brilho dele, ele nunca tirou o meu lugar. Tudo o que nós temos foi construído pelos dois. E com as duas filhas, os dois genros, o netinho e três netinha é só alegria e felicidade! Uma bênção Divina! Alegria de ter dado às filhas a melhor formação acadêmica e como pessoas, possível.

Na sua visão, qual o lugar da comunicação para a saúde coletiva e para a democracia?
Betinho [Herbert José de Souza, 1935-1997], um grande sociólogo brasileiro, dizia que a comunicação é o caminho da humanidade. Acho que o Programa Radis nunca perdeu o foco. Eu leio. Acho que a Radis é fantástica. Vocês acompanham muito bem os temas sérios e fortes da saúde e fazem isso com uma linguagem muito gostosa de se ler. Enfim, eu só tenho que elogiar e dar os parabéns. Acho que, sobre o atual momento, eu não posso dizer muito, mas quando eu fui vice-presidente [de Informação, Comunicação e Ambiente, na Fiocruz, entre 1996 e 2000], eu tive que fazer algumas intervenções no Icict [Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde], porque o Icict tinha se tornado biblioteca. É ótimo ser biblioteca, mas não pode ser só. E num momento em que a informação e a comunicação estavam estourando no mundo, era uma fraqueza total. Então, acho que eu intervi um pouco. Inclusive, incentivei as pessoas a saírem, fazerem mestrado, doutorado, porque acho que esta é uma área fundamental. E, sobretudo, para a Fiocruz. Porque tem uma coisa boa da Fiocruz que as pessoas acreditam nela. O que a Fiocruz fala, as pessoas acreditam. Quando você fala que trabalha na Fiocruz, as pessoas falam bem. A avaliação da instituição, em geral, é elogiosa. Então, eu acho que a comunicação séria, segura e fundamentada faz parte do repertório institucional que serve o SUS.
“Quando há uma boa gestão, vemos a saúde melhor e as pessoas mais felizes”
Como a saúde coletiva contribuiu para as transformações trazidas pelo SUS nas últimas décadas?
As transformações foram muitas, o país cresceu muito. A universalização ainda não se completou, mas alcançou grande parte do país. Há 15 ou 20 anos atrás, o Rio de Janeiro tinha uma cobertura de saúde da família de cerca de 5%; hoje chega a quase 80%. Essa questão das especialidades também é fundamental, porque se você conversar com qualquer pessoa sobre o SUS, ela vai dizer que um parente não conseguiu operar. Essa é a frase que você vai ouvir. Esse encaminhamento é fundamental, precisa ser aperfeiçoado. Não sei como, nós vamos ter que achar um jeito para isso. Não quero entrar na questão da contratação de profissionais, porque é muito complexa. Mas eu me lembro de um grande pesquisador que dizia assim: “Os males do SUS são falta de dinheiro e problema de gestão”. Quando há uma boa gestão, vemos a saúde melhor e as pessoas mais felizes. Se olharmos a expectativa de vida dos brasileiros, nos anos 1980 era de pouco mais de 60 anos. A gente, às vezes, não acredita. Hoje, nós estamos chegando aos 76,6 anos. E ainda não aumentamos mais por causa dos homens que estão morrendo por causa da violência. Isso é resultado da atuação do SUS, dentre outros elementos como a diminuição da natalidade. A mortalidade infantil, que nos anos 1960 chegava a 120 por 10 mil no Nordeste, hoje no país como um todo chega a 10 por 10 mil. Se a gente pegar esses dois indicadores, que no mundo inteiro são indicadores fundamentais, eu acho que o SUS é vitorioso. E que vale a pena a gente investir nele. Tem questões que não são específicas da saúde. Por exemplo, a violência não é uma questão específica da saúde. Ela atravessa a saúde, provoca gastos, internação, morte de pessoas, sofrimento mental. Uma quantidade de questões estão em volta. Acho que o próximo passo do SUS é investir em qualidade, gestão e financiamento. Se você for olhar o financiamento do SUS per capita, ele é muito menor do que em outros países que têm serviços universais. Mas sempre haverá aqueles que vão dizer que o SUS gasta muito.
“Qualquer pesquisa na área da saúde tem que trazer uma contribuição concreta, seja teórica, seja prática”
Como a produção de conhecimento também pode impactar políticas públicas?
Tem uma categoria teórica com a qual a gente trabalha no Claves desde que eu entrei lá, que é pesquisa estratégica. O que a gente chama de pesquisa estratégica? É aquela feita com todo o rigor de qualquer pesquisa básica, mas que tem um propósito. Ou esse propósito é direto, com a população; ou com os gestores locais, os profissionais ou o Ministério da Saúde. Esse impacto sempre existe. Nós acabamos de fazer um estudo sobre como está a Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violência (PNRMAV). Não está muito boa, não, viu? Mas fizemos e está lá no Ministério da Saúde. É um instrumento. Quer dizer, ao mesmo tempo que trabalhamos com epidemiologia, com ciências sociais, eu quero chegar a um objetivo. Com os meus alunos de mestrado e doutorado, nas teses que eu oriento, eu digo que pesquisa tem objetivo geral, objetivo específico e objetivo estratégico. É uma invenção, minha este último, mas é uma invenção com propósito, porque acho que qualquer pesquisa na área da saúde tem que trazer uma contribuição concreta, seja teórica, seja prática.
“Sempre pesquisei saúde com o olhar das ciências sociais”

Para finalizarmos, depois de décadas ouvindo pessoas, pesquisando a sociedade brasileira e produzindo conhecimento sobre saúde, o que pesquisar saúde ensinou à senhora sobre o Brasil?
Eu sempre pesquisei saúde com o olhar das ciências sociais. Eu não sei se pesquisar saúde me ensinou muito sobre o Brasil, o que me ensina sobre o Brasil é vivenciar a cidadania da melhor forma que eu posso, sabe? E votar. Alguém me pergunta se eu voto: eu voto. Eu quero votar. Carlos vota? Vota. Não estou falando que o voto é a salvação do mundo, mas é acreditar que podemos. Para mim, o SUS está em construção. Sempre esteve, mas continua em construção. Nós podemos aperfeiçoar muita coisa. Em todos os temas que a gente estuda, tem lições aprendidas e questões que ficam para serem resolvidas ou tratadas. Outro ganho da saúde é que, por meio dela, dialogamos com outras áreas. Por exemplo, nós temos uma boa relação com a Secretaria de Administração Penitenciária, com o Ministério Público, com o pessoal da Justiça. Por quê? Porque existem os direitos humanos, direitos das crianças, direitos dos jovens. Acho sim que o olhar das ciências sociais ajuda a entender as dificuldades e os rumos que a gente pode tomar. Porque esse país não é qualquer país, sabe? É tanta esperança. Eu costumo dizer que brasileiro não morre de tédio, porque há tanta coisa para fazer. Acho que conheço muito mais o Brasil hoje do que conhecia, isso sem dúvida. Mas continuo também muito ingênua, alguns dizem. Porque eu tenho esperança. Não sou pessimista. O que eu acho péssimo é encontrar um brasileiro que, frente a um problema, diz: “Por isso mesmo eu queria ir morar ‘não sei onde’, eu queria morar na Itália, queria morar na Noruega ou na Dinamarca”. Sabe por quê? Porque eu acho que, quando a gente fala isso, a gente tira o corpo fora. E qualquer um de nós tem que botar um tijolinho na construção do país. Pode ser pequeno, mas esse é o meu tijolinho, minha marca.

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