Cientistas que estudam o clima no mundo preveem a chegada do Super El Niño no segundo semestre de 2026. O El Niño é um fenômeno que modifica a temperatura do mar no Oceano Pacífico e altera os padrões de umidade, temperatura e chuvas em diferentes partes do planeta. O Super El Niño é a versão mais intensa do fenômeno, e deve afetar diretamente o Brasil, interferindo no regime de chuvas e causando ondas de calor.

Ainda que não haja uma relação direta com o Super El Niño, a onda de calor que atingiu a Europa no primeiro semestre dá mostras de como o aquecimento global afeta a vida no planeta e causa estragos. 

Radis reuniu uma série de perguntas sobre o Super El Niño e preparou um guia para a melhor compreensão do fenômeno, que vai demandar esforços estruturais da saúde e exigir planejamento de profissionais e gestores para que os impactos sejam minimizados.

O que é o Super El Niño?

O El Niño-Oscilação Sul (ENOS) é um fenômeno oceânico-atmosférico de grande escala que modifica a temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial e altera padrões de circulação atmosférica, transporte de umidade, temperatura do ar e chuvas em diversas regiões do planeta.

O Super El Niño é a versão mais intensa do fenômeno, quando o aquecimento ultrapassa 2°C da média histórica do oceano. Essa versão mais intensa e rara do evento, capaz de amplificar significativamente seus efeitos sociais, econômicos e ambientais, está prevista para a temporada de 2026/2027. 

Quando vai acontecer?

Não há data certa, porém a Organização Meteorológica Mundial estima que há entre 70% e 80% de probabilidade de o fenômeno atingir sua intensidade máxima nos últimos meses de 2026. Especialista do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o climatologista José Marengo, estima que o país vai sentir os efeitos a partir de setembro.

Quais os efeitos no mundo?

Os especialistas preveem ondas de calor mais intensas (como as que já têm sido registradas na Europa), secas severas em alguns países, chuvas extremas em outros, aumentos de incêndios florestais — o que pode gerar impacto na produção (e no preço) de alimentos.

E no Brasil?

A previsão é de chuvas intensas e enchentes na região Sul, secas extremas no Norte e no Nordeste (com possíveis apagões elétricos no Nordeste e maior chance de queimadas no Norte), ondas de calor acima da média e tempestades no Sudeste e no Centro-Oeste. O fenômeno pode amplificar riscos já existentes em territórios marcados por desigualdade, ocupação de áreas suscetíveis a inundação e deslizamento, déficit de saneamento, fragilidade da infraestrutura urbana e exposição crescente a calor, seca, queimadas e insegurança hídrica, aponta nota técnica produzida pelo Observatório de Clima e Saúde (Icict/Fiocruz) com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Qual a relação do El Niño com a insegurança alimentar?

O Programa Mundial de Alimentos da ONU (WFP) adverte que América Latina e Caribe enfrentam maior risco de insegurança alimentar devido ao El Niño. A agência explica que a alteração na temperatura e no volume de chuvas pode dificultar a produção de alimentos pelas famílias.

Como conter os efeitos?

O Greenpeace alerta que, apesar de ser um fenômeno natural recorrente, os efeitos do El Niño são potencializados pela crise climática, que por sua vez é impulsionada pelo desmatamento, avanço da pecuária e queima de combustíveis fósseis. A instituição sugere que diante dos riscos previstos é necessário monitorar comunidades em situação de vulnerabilidade e garantir recursos para prevenção e adaptação. Para isso, considera fundamental fortalecer órgãos de proteção e fiscalização do meio ambiente e de resposta às ameaças.

Como proteger a saúde diante do El Niño?

O El Niño deve ser tratado como um fator condicionante de risco climático e sanitário, não como causa única de desastres ou agravos, aponta a nota técnica do Observatório de Clima e Saúde (Icict/Fiocruz). O documento recomenda uma agenda preventiva de preparação do SUS, da Defesa Civil, dos serviços de saneamento e da assistência social, com planejamento territorial, vigilância sensível e comunicação de risco orientada às populações mais vulneráveis. 

O documento também orienta a ativação preventiva de salas de situação climática e sanitária, a revisão de planos de contingência para enchentes, seca, queimadas e arboviroses, reforço da vigilância de doenças infecciosas, além de agravos respiratórios, eventos relacionados à exposição a fumaça e calor, saúde mental e interrupção de cuidados de pessoas com doenças crônicas. Os especialistas consideram essencial o papel da atenção básica na identificação, acompanhamento e manutenção do cuidado de pessoas com condições crônicas de saúde. A prioridade é proteger populações em situação de vulnerabilidade.

Recorde de calor na Europa

Junho de 2026 foi o junho mais quente já registrado na Europa Ocidental e o segundo mais quente em todo o planeta, afirma o observatório europeu Copernicus (G1, 9/7). A temperatura média na região foi de 20,74°C — 3,05°C acima da média histórica para o mês, superando o recorde anterior, de junho de 2025.

A onda de calor extremo na Europa provocou mais de 10 mil mortes em excesso no período. Mais de 9 mil delas envolviam pessoas com 65 anos ou mais, segundo dados da EuroMomo, rede apoiada pelo Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças e pela OMS. O calor extremo pode causar morte por hipertermia ou agravar doenças cardiovasculares e respiratórias.

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