A trajetória da professora, socióloga e sanitarista Maria Cecília de Souza Minayo acompanha a consolidação da saúde pública e dos direitos sociais no Brasil. Da infância humilde ao reconhecimento científico internacional, a pesquisadora emérita da Fiocruz construiu não apenas uma carreira de destaque, mas uma trajetória marcada pelo olhar humanizado, pela contestação das desigualdades e pelo pioneirismo nos estudos sobre o impacto da violência na saúde coletiva.
Em conversa com Radis, Cecília contou que, apesar de ter muitas fotos suas por aí e de sempre pedirem para fazer fotografias com ela, nunca se preocupou muito com esses registros. Também confessou que tinha pavor das câmeras fotográficas de sua infância: “Quase não tenho fotos dessa época, que já era difícil, e eu ainda pensava que a máquina fosse sugar meu sangue”. Hoje, a pesquisadora ri ao lembrar da história e diz que já se acostumou: “Parece até uma coisa, aonde vou todo mundo quer tirar foto comigo”.
Aos 88 anos, sua trajetória reúne muitas fases e experiências, com uma rotina de muito trabalho, pesquisa, escrita e sala de aula, ouvindo as pessoas sempre com muita dedicação, equilibrando com outros aspectos da vida e atravessando as adversidades, mas sempre sendo ela mesma. E sem perder a esperança e a inocência: “Sempre fui uma menina bem comportada, sabe? E brinco que acho que vou morrer ingênua porque eu continuo desse mesmo jeito”, afirma.
A pequena Maria Cecília de Minas
Maria Cecília de Souza Minayo nasceu em 22 de março de 1938, em Caxambu, distrito de Rio Piracicaba, cidade mineira a 110 quilômetros de Belo Horizonte. Como aprendeu a ler antes de entrar para a escola, devorava de “cabo a rabo” as páginas da revista religiosa “São Geraldo”, que a família recebia em casa. Ela conta que sempre foi uma menina mais comportada e, ao iniciar a vida escolar, deparou-se com a professora Ruth. Apesar de rígida, como era comum à época, era uma pessoa por quem Cecília tinha uma grande admiração: “Uma bruta professora, que ensinava alunos do primeiro ao terceiro ano na mesma classe”.

Uma das poucas imagens fotográficas que Cecília tem da sua infância teve o dedo de dona Ruth para acontecer. Durante a visita do então prefeito de Belo Horizonte a Caxambu, Cecília, com 7 anos de idade, foi escalada pela professora para discursar. “Foi a primeira vez que me vi naquele lugar e me senti confiante. Muitos anos depois, minhas irmãs recuperaram a foto e o meu discurso e me deram de presente, só não vou conseguir mostrar a vocês porque não está aqui, está no sítio que nós temos”, disse durante sessão de fotos para Radis.
Do tempo no internato em Itabira (MG), a partir dos 9 anos, até a formação como professora no curso Normal, Cecília se dedicou aos estudos e se tornou, como diz, “a primeira aluna da classe”. Filha de pais que começaram a trabalhar muito cedo, ela agradece a possibilidade de estudar que eles lhe proporcionaram e conta que a vida da família sempre foi muito regrada, o que ficou como uma marca em sua trajetória. Para ela, a formação recebida era bastante completa: “Era dureza, mas, por exemplo, tenho até hoje coisas que bordei na época, no colégio, e a minha irmã que estudou lá também aprendeu a tocar violino e toca muito bem até hoje”. Ao concluir os estudos, lecionou no mesmo colégio por mais alguns anos, antes de se mudar para o Rio de Janeiro.

De professora à cientista social
Ao se mudar para a capital fluminense, ainda na década de 1960, Cecília encontrou a educação popular e, posteriormente, as ciências sociais, formando-se em Sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi no ofício da educação popular que o seu caminho se cruzou com o de Carlos Minayo Gomez. Nascido na Espanha e com doutorado em Química pela Universidade de Salamanca, ele veio trabalhar no Brasil. Posteriormente, Carlos também se tornou pesquisador da Fiocruz, no Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/Ensp). No exílio, por causa da perseguição da ditadura militar, os dois se casaram em 1976 e tiveram a primeira das três filhas, a qual perderam aos 11 anos, já de volta ao Brasil.
Após o retorno ao país, Cecília ingressou, em 1981, no mestrado em Antropologia do Museu Nacional e decidiu pesquisar a realidade dos trabalhadores do minério de ferro em Itabira (MG), cidade em que viveu uma parte da vida. A dissertação, concluída em 1985, gerou o livro “Os homens de ferro: estudo sobre os trabalhadores da indústria extrativa de minério de ferro da Companhia Vale do Rio Doce em Itabira, Minas Gerais” (1986). Nesse período, conciliava a maternidade — com duas crianças pequenas e depois o nascimento da terceira filha — com o trabalho e as atividades acadêmicas. O reconhecimento começou a aparecer e ela foi para Fiocruz cursar o doutorado e ministrar aulas para a pós-graduação.

A virada para a saúde
O ingresso no doutorado na Fiocruz marcou uma grande mudança, pois, na sala de aula como professora e sempre em debate com os alunos, Cecília percebeu que a saúde coletiva precisava ir além dos dados quantitativos, incorporando uma escuta qualitativa e sensível. Ela concluiu essa etapa em 1989, mesmo ano em que foi aprovada no concurso da instituição, com a tese depois transformada no livro “O desafio do conhecimento” (1992), que se tornou grande referência em pesquisa qualitativa na área.
Nesse cenário, em que buscava entender a relação entre saúde e questões sociais, entrou também o tema da violência. Em 1988, Cecília fundou o Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves) e passou a se dedicar a um campo em que pôde investigar algumas das maiores feridas do Rio de Janeiro e do Brasil: a violência armada; contra populações em situação de vulnerabilidade, como idosos e crianças; a violência de gênero; e as taxas de sofrimento mental e suicídio entre policiais civis e militares. Hoje, o Claves é um departamento, embora tenha mantido a sigla original. Suas pesquisas humanizam os dados estatísticos, e o departamento se tornou uma referência, com impacto também na formulação de políticas públicas.

A liderança agregadora
A disposição para o trabalho e o aprendizado a levaram a assumir posições de liderança, tornando Cecília a primeira mulher a presidir a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), entre 1994 e 1996, período em que oxigenou o debate acadêmico sobre a saúde coletiva. Quando se despedia da presidência, nasceu um novo projeto para ampliar ainda mais a circulação de conhecimento na área: a revista Ciência & Saúde Coletiva. Como editora-chefe desde o início, ela viu o periódico não apenas crescer, mas se tornar a publicação científica brasileira mais lida e influente no Google Scholar.
Logo em seguida à saída da presidência da Abrasco, tornou-se vice-presidente de Informação, Comunicação e Ambiente da Fiocruz, no final dos anos 1990, e ajudou a reorganizar a pós-graduação na instituição, além de promover mudanças que tornaram a informação e a comunicação áreas de reconhecimento na Fiocruz.

O reconhecimento de uma longa caminhada
Com o passar dos anos, Cecília foi sendo cada vez mais reconhecida por suas contribuições e recebeu o título de pesquisadora emérita da instituição em 2018. Ela continua liderando projetos e trabalhando ativamente. Durante nossa entrevista, ela nos levou para ver alguns dos prêmios expostos em sua casa, como a Medalha de Mérito da Saúde Oswaldo Cruz e o Prêmio de Direitos Humanos da Presidência da República.
Mais recentemente, recebeu o prêmio internacional da Academia Mundial de Ciências (o TWAS Awards 2022-2024, com cerimônia presencial em 2025), na categoria de Cientista Social. Foi a única brasileira entre os premiados globais daquela edição e o prêmio foi um reconhecimento à contribuição da pesquisadora em relação aos estudos sobre violência, assim como sua atuação com a pesquisa qualitativa em saúde pública. Ela se sente honrada com o reconhecimento, mas não vê como uma conquista individual apenas, mas coletiva, e que ajuda a repercutir os estudos desenvolvidos na instituição e no país.
A avó de quatro netos é também a cientista social mais citada no Brasil. Pesquisadora com a escuta atenta nos trabalhos de campo, Cecília é uma autora que sempre prezou pela linguagem simples em suas obras. “Escrevo para as pessoas lerem. Sempre escrevo conversando com o meu leitor”, diz. Maria Cecília Minayo é um exemplo vivo de que a pesquisa com método é aquela que não perde a capacidade de se indignar e, acima de tudo, de acolher.

Parceiras de pesquisa
As pesquisadoras Simone Gonçalves de Assis e Edinilsa Ramos de Souza partilharam de grande parte da trajetória de Cecília Minayo no campo da saúde coletiva, especialmente em relação aos estudos sobre violência e seus impactos na saúde. Como orientandas, companheiras de pesquisa e amigas de Cecília, a pedido de Radis, ambas escreveram breves depoimentos, contando um pouco dessa convivência.
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Difícil falar sobre a querida Cecília. Pequena fisicamente, mas imensa no espírito e na energia que imprime a cada ato de sua vida. Tive o privilégio de conviver com ela desde 1989, se a memória não me falha. Nosso encontro começou quando ela aceitou orientar meu mestrado. Naquele momento, ajudou-me a encontrar objetivos, direção e perseverança em um caminho que era totalmente novo para mim e que, sem que eu soubesse, marcaria toda a minha trajetória profissional.
Meu trabalho tinha, inicialmente, um desenho quantitativo, mas, sob sua orientação, ganhou também uma dimensão qualitativa. Foi ela quem me apresentou à triangulação metodológica, uma abordagem que eu sequer imaginava existir e que acabou se tornando uma das bases da minha forma de fazer pesquisa e de tentar entender o mundo. Sua busca permanente pelo rigor metodológico e pela compreensão aprofundada dos problemas de saúde — especialmente da violência — forneceu o alicerce que sustenta minha atuação profissional até hoje, já aposentada e atuando como pesquisadora voluntária da Ensp/Fiocruz.
Ao longo de mais de três décadas de convivência afetuosa, foram incontáveis as conversas sobre pesquisa, orientação de alunos e as reflexões acerca das “novas e velhas formas da violência” nos séculos 20 e 21. Cada etapa desse percurso compartilhado foi uma oportunidade de aprendizado e crescimento. O que mais me impressiona e conforta é vê-la hoje, às vésperas dos noventa anos, com o mesmo vigor intelectual, a mesma energia para trabalhar, a mesma curiosidade diante do conhecimento e a mesma generosidade com as pessoas.
Costumo brincar que Cecília é feita de titânio. Mas talvez sua força venha de algo ainda mais profundo: de um forte senso de missão. Creio que esse sentimento, inicialmente cultivado por sua formação religiosa e depois ampliado pelo compromisso com a ciência e com a saúde coletiva, alimenta sua capacidade de reunir disciplina e afeto, conhecimento e generosidade, rigor e esperança.
Conviver com Cecília é aprender, diariamente, que é possível acreditar em um mundo melhor sem perder o senso crítico e que a construção desse mundo depende do trabalho persistente, da solidariedade e da confiança nas pessoas e do cuidado com o planeta, nosso maior bem. Esse talvez seja um de seus maiores legados.
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Simone Gonçalves, pesquisadora do Claves/Ensp/Fiocruz]
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Cecília Minayo foi minha orientadora de mestrado e doutorado e teve uma profunda influência na minha formação. Juntas, nós criamos o Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde, o Claves, que atualmente se chama Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca.
Convivemos desde o final da década de 1980, quando o Claves foi criado, contando inicialmente com cinco pessoas, que eram a Cecília Minayo, o Otávio Cruz Neto, eu — Edinilsa Ramos de Souza — e Simone Gonçalves de Assis, juntamente com o professor Saúl Franco, que era um colombiano que posteriormente foi para a Opas [Organização Pan-Americana de Saúde].
Estamos juntas nessa jornada, que foi a da criação de um grupo de estudos que se dedicou a estudar a violência. E a Cecília sempre conduziu o Claves de uma forma muito tranquila, agregadora, carinhosa e generosa com todos que ali chegaram. Eu, particularmente, tenho essa experiência de conviver com ela há praticamente 40 anos, o que para mim é uma honra, algo que prezo muito.
Nós dividimos o nosso crescimento, as nossas dificuldades, o nosso desenvolvimento científico e de ensino, dentro da Ensp e da própria Fiocruz. Então, tenho muita honra de poder contar mais do que como uma colega de trabalho, nós somos praticamente uma família, porque convivemos tanto tempo juntas, trabalhando, rindo, chorando juntas, que a gente tem um afeto muito grande, envolvido nisso tudo.
Ela é esse ser iluminado que é praticamente uma unanimidade. Para onde ela vai tem aquele séquito de pessoas que a admiram, que vão atrás dela, que vão conversar, pedir autógrafos e fotos. Eu já presenciei isso inúmeras vezes e eu me sinto honrada por ser uma pessoa que tem essa proximidade com a Cecília.
Eu acho que essa visão que existiu em relação à criação do Claves — e tornar essa questão da violência como um problema de saúde — foi algo muito marcante na nossa trajetória e acredito que também em relação ao país. É uma coisa que eu considero muito importante, uma ideia que se concretizou. E que hoje a gente já tem várias pessoas formadas no Claves e pelo Claves. E isso é um motivo de grande orgulho para nós.
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Edinilsa Ramos, pesquisadora do Claves/Ensp/Fiocruz
Cecília Minayo nas páginas de Radis
As pesquisas de violência e saúde trouxeram a pesquisadora como entrevistada para algumas edições de Radis, mas gostaríamos de destacar especialmente:
- Radis 254 (novembro de 2023): “Muitas famílias não têm para onde ir, não têm escolha. Elas precisam morar ali, esse é um dos motivos de sofrimento”, afirmou Cecília na reportagem de capa “Tiros que adoecem”, assinada pelo repórter Glauber Tiburtino, que aborda os graves impactos físicos, mentais e econômicos que a política de “guerra às drogas” e o confronto armado geram na população de favelas e periferias do Rio de Janeiro. A reportagem se baseou no estudo “Saúde na Linha de Tiro”, coordenado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec). Para Cecília, a questão da violência no país está “acoplada à desigualdade”.

- Radis 144 (setembro de 2014): A pesquisadora concedeu entrevista à repórter Ana Cláudia Peres sobre a onda de intolerância e linchamentos que estavam acontecendo naquele momento no Brasil. Em “Violência: ‘quanto maior a coesão, menor a coerção’”, a pesquisadora avaliou como o uso das redes sociais e o acesso ao mundo digital deixavam a situação mais latente: “A internet tanto expõe extremos de violência quanto alimenta grandes correntes de solidariedade, de mudanças sociais”.
- Radis 64 (dezembro de 2007): Também foi entrevistada por Marinilda Carvalho, na época editora de Radis, para analisar o filme “Tropa de elite” (2007), que provocou muitos debates no segundo semestre daquele ano ao mostrar o cotidiano de soldados do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Para Cecília, o filme é provocador porque faz vir à tona comportamentos que chocam: “No nosso imaginário, a violência sempre aumenta (e isso não é verdadeiro); existe uma crença de que só uma repressão muito forte do Estado ou de algum ‘justiceiro’ poderia controlar a delinquência; há um sentimento de que sempre vencem a corrupção e a impunidade”, avaliou na época.
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