A trajetória da médica e sanitarista Mariângela Simão está diretamente ligada à resposta brasileira ao HIV/aids. Sua experiência com saúde coletiva, no entanto, começa bem antes da implementação do SUS, com a Constituição Federal de 1988. Em mais de 30 anos de atuação no serviço público, destaca-se a sua passagem pela direção do antigo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde [hoje Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (DATHI)] , entre 2006 e 2010, quando desempenhou um papel fundamental na ampliação da distribuição de medicamentos antirretrovirais pelo SUS. Foi durante sua gestão que o país consolidou uma política de acesso universal ao tratamento do HIV, tornando-se referência internacional na resposta à epidemia.

Mariângela também esteve à frente da direção do departamento de Direitos, Gênero, Prevenção e Mobilização Comunitária do programa conjunto das Nações Unidas de resposta global à epidemia de HIV/aids (Unaids) e, até agosto de 2026, respondia pela secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA) do Ministério da Saúde. Ela deixa a SVSA para assumir o cargo de Relatora Especial das Nações Unidas sobre o direito de toda pessoa ter acesso ao mais elevado nível possível de saúde física e mental. Sua nomeação foi anunciada durante a 62ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, realizada em Genebra, na Suíça, no mês de julho.

Durante a Aids 2026, quando ainda integrava a equipe do Ministério da Saúde, Mariângela falou brevemente com a Radis sobre os desafios colocados ao enfrentamento da aids no mundo, quando defendeu o protagonismo do Brasil e do SUS na resposta ao HIV, descreveu um cenário ainda marcado pela presença de estigma contra as pessoas que vivem com o vírus e pela redução de financiamento internacional e reafirmou o compromisso do país com a oferta de produtos e serviços de saúde.

— Foto: Laudomiro Bezerra

Qual a sua avaliação sobre a 26ª Conferência Internacional sobre Aids?

É muito importante que essa conferência aconteça no Rio de Janeiro, pela primeira vez na América do Sul, reunindo uma diversidade enorme de países, pesquisadores, movimentos sociais e governos. E isso não é apenas bom para o Brasil, que tem o que mostrar, especialmente com o Sistema Único de Saúde, mas também é bom porque a gente ainda tem muito a aprender. O mundo está mudando muito rapidamente.

Que posição o Brasil ocupa hoje na resposta global contra a aids?

Em um mundo tão polarizado, o Brasil continua sendo um dos pouquíssimos países que têm um Sistema Único de Saúde, com acesso universal, que provê tratamento antirretroviral para todas as pessoas que têm indicação e provê os meios de prevenção. Mas não é só por isso que o Brasil faz diferença na resposta à aids, mas porque tudo isso é feito com recursos domésticos. Vivemos um momento global de retração de recursos para países que há muitos anos dependem de recursos externos para movimentar suas respostas à aids. O fato de o Brasil ter começado a ofertar tratamento precocemente, via SUS, ainda quando era um país de renda média baixa, dá alento às pessoas. O Brasil mostra que participação social é possível, que uma resposta inclusiva pode ser feita e que acesso a serviços e produtos de saúde podem ser uma realidade, mesmo sendo uma nação em desenvolvimento.

— Foto: Laudomiro Bezerra

Você está na luta contra o HIV há muitos anos. Como avalia o papel da comunicação neste processo e como enxerga as mudanças que vêm ocorrendo ao longo do tempo?

A comunicação tem um papel muito importante. São diferentes momentos, mas alguns deles estão voltando. Eu sempre falo do estigma e da discriminação, porque ainda são presentes na vida das pessoas que vivem com HIV, entre os grupos mais afetados e no desenho da doença no Brasil. No passado, a comunicação desempenhou um papel importantíssimo no combate ao estigma e à discriminação. Hoje existe um movimento muito conservador no mundo, a pauta dos costumes está sempre sob ataque, com muito desrespeito à diversidade. Isso está acontecendo também nos Estados Unidos, que é o país mais rico da nossa região. Neste contexto, a comunicação tem uma obrigação moral de trabalhar com a informação correta. Em um mundo com tanta desinformação, a comunicação é o melhor meio que a gente tem para levar as informações corretas e combater fake news.

Como o tema da Aids 2026 — Repensar, reconstruir e crescer — pode inspirar os profissionais de saúde que trabalham no SUS?

A realidade dos profissionais da saúde é sempre essa: repensar e reconstruir. Porque a gente que trabalha em saúde, desde antes do SUS — do qual eu sou fã —, tem que olhar para trás e ver o quanto a gente caminhou, porque são tantos desafios pela frente, que você fica desacorçoado se olhar só para a frente. Então é preciso olhar para trás, ver o que já alcançou e olhar para frente para ver o que mais tem para fazer para a saúde dos brasileiros e brasileiras.

De que modo o protagonismo das pessoas vivendo com HIV contribui para essa caminhada?

Política pública só se faz sob pressão, né? Hoje o Brasil consolidou a participação social, porque tem mecanismos, tem leis, tem bases legais para isso e tem o culturalmente possível. Isso no SUS, né? A gente passou recentemente por um período em que até o nome da aids havia sumido da estrutura do Ministério da Saúde. E com isso se perdeu, por um período, a energia que o movimento social pode trazer para a resposta à aids. Mas isso está retornando. Você vê essa conferência cheia de energia, cheia de gente jovem, muito feliz de estar aqui, é isso que faz a diferença.

“É um dever do Estado, no Brasil, prover os meios para as pessoas terem saúde”

Então dá para sair daqui com esperança?

Ah, com certeza! Apesar de que a gente continua brigando pelo preço! As novas tecnologias têm que vir com um preço acessível. Um preço acessível não para a pessoa, individualmente. Em muitos países não há acesso universal, e a pessoa tira do bolso para pagar. Não é disso que a gente está falando. A gente está falando que é um dever do Estado, no Brasil, prover os meios para as pessoas terem saúde. E isso quer dizer que os medicamentos têm que ter um preço justo. Um preço justo que remunere inovação, mas que ao mesmo tempo torne possível que se faça uma política pública de acesso desde que se tenha recurso. Tem que ter recurso, né? Mas que pague não preços distorcidos ou preços da política. (ADL)

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