Hospitais bombardeados, ambulâncias destruídas e profissionais de saúde transformados em alvo. Para Alessandra Vilas Boas, diretora-executiva adjunta da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Brasil, esse cenário tem se tornado cada vez mais comum nos conflitos contemporâneos. Em entrevista à Radis, ela explica por que os efeitos da guerra sobre a saúde vão muito além das mortes provocadas pelas bombas e descreve os sinais de colapso dos sistemas de saúde em países como Sudão, Sudão do Sul e Palestina (Faixa de Gaza).
Com mais de duas décadas de experiência em organizações humanitárias, comunicação estratégica e saúde global, Alessandra acompanha de perto as consequências dos conflitos armados sobre populações vulneráveis. Ela integrou equipes internacionais de Médicos Sem Fronteiras na África do Sul e na Itália, participou de missões de emergência no Haiti e na Indonésia, atuou em projetos humanitários na Colômbia, Níger e Brasil, além de ter sido integrante do Conselho Administrativo de MSF-Brasil e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde ministrou cursos sobre ajuda humanitária internacional. “O sistema de saúde, nessas áreas atingidas, já não consegue responder às necessidades básicas da população”.
Como as guerras afetam a saúde da população para além das mortes e ferimentos causados pelos bombardeios?
As guerras impactam profundamente a saúde das populações de formas que vão muito além da violência direta. Em contextos de conflito, o acesso a medicamentos e tratamentos é frequentemente interrompido, deixando pessoas com doenças crônicas, como HIV, câncer, diabetes ou tuberculose, sem acompanhamento adequado. Gestantes e crianças também ficam particularmente vulneráveis, já que dependem de cuidados contínuos que muitas vezes são abruptamente suspensos. Além disso, a ruptura das cadeias de abastecimento dificulta a chegada de medicamentos, vacinas e insumos essenciais. As condições de vida também se deterioram rapidamente: a falta de água potável, saneamento básico e abrigo adequado favorece a disseminação de doenças infecciosas e aumenta o risco de surtos de cólera, sarampo e infecções respiratórias.
Também geram consequências psicólogicas e relacionadas à falta de alimentos?
Outro impacto crítico é a insegurança alimentar. Conflitos armados interrompem a produção, o fornecimento e o acesso a alimentos. Em países como Sudão e Gaza, por exemplo, a guerra tem levado a níveis alarmantes de desnutrição infantil. Ao mesmo tempo, o impacto psicológico é profundo e duradouro. Populações expostas à violência constante, à perda de familiares e ao deslocamento forçado enfrentam níveis elevados de estresse, ansiedade e trauma. Portanto, as consequências da guerra para a saúde são amplas e persistentes: vão desde a interrupção de tratamentos para doenças preexistentes até o aumento de surtos e epidemias, fome, sofrimento psicológico e deslocamento em massa.

Quais são os principais sinais de colapso de um sistema de saúde em territórios em guerra?
O colapso de um sistema de saúde não acontece de forma repentina. Ele se manifesta por uma série de sinais claros que comprometem progressivamente a capacidade de atender a população. Um dos principais sinais é a interrupção de serviços essenciais, como programas de vacinação, tratamento de HIV, tuberculose e malária, além dos cuidados materno-infantis. Também observamos a fuga ou ausência de profissionais de saúde, deixando hospitais e clínicas sem equipes suficientes para atender à demanda. Outro fator crítico é a destruição, o saque ou os ataques a unidades de saúde. Mesmo quando as estruturas físicas permanecem de pé, elas deixam de funcionar plenamente por falta de pessoal, equipamentos ou medicamentos. Como consequência, as poucas unidades que seguem funcionando passam a trabalhar sobrecarregadas, com número insuficiente de leitos, profissionais e recursos. Quando esses fatores se combinam, o sistema de saúde já não consegue responder às necessidades básicas da população.
Qual situação recente mais marcou as equipes de MSF em relação ao colapso da saúde pública?
É difícil destacar apenas uma crise, porque hoje existem diversas emergências humanitárias acontecendo simultaneamente. Mas vemos sinais muito claros de colapso dos sistemas de saúde em lugares como Sudão, Sudão do Sul e Gaza. No Sudão, esse colapso aparece na combinação de destruição da infraestrutura, interrupção de serviços básicos e surtos recorrentes de doenças evitáveis, como sarampo, cólera e hepatite E. Já no Sudão do Sul, um episódio recente ilustra de forma dramática essa realidade. No final de abril deste ano, MSF foi obrigada a fechar o hospital de Lankien após um bombardeio que destruiu estoques e suprimentos médicos. A unidade funcionava havia 31 anos e era essencial para uma região onde cerca de 250 mil pessoas dependiam daqueles serviços. Após o ataque, o hospital foi saqueado, incendiado e vandalizado. Esse tipo de incidente não é isolado. Desde o início de 2025, instalações e profissionais de MSF foram afetados por pelo menos 12 ataques e eventos violentos no Sudão do Sul. E, como sempre, a população está pagando um preço altíssimo pelos ataques à assistência médica. Em Gaza, o colapso se expressa na combinação entre a destruição de estruturas de saúde, as restrições à entrada de medicamentos e ajuda humanitária e o aumento constante das necessidades médicas da população. A demanda cresce rapidamente, mas o sistema local já não consegue responder.

Como crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas costumam ser impactados?
Esses grupos estão entre os mais afetados porque dependem de cuidados contínuos e de condições básicas de sobrevivência que frequentemente desaparecem durante os conflitos. No caso das crianças, a vulnerabilidade é particularmente elevada. Elas são desproporcionalmente afetadas pela desnutrição, pela falta de vacinação e pela interrupção dos cuidados básicos. Em Gaza, por exemplo, equipes de MSF registraram aumento de partos prematuros, bebês com baixo peso ao nascer e mortalidade neonatal associados à desnutrição materna. Entre os idosos, o impacto está relacionado à interrupção dos cuidados regulares e à maior fragilidade física. Em Mornay, no Sudão, nossas equipes perceberam que muitos idosos sequer conseguiam chegar às clínicas. Como resposta, passamos a utilizar carroças puxadas por animais como ambulâncias improvisadas para transportar pacientes. Já as pessoas com doenças crônicas enfrentam o risco permanente da interrupção de tratamentos para HIV, tuberculose, diabetes e outras enfermidades. Com o deslocamento forçado, muitas perdem o acesso aos medicamentos e não sabem onde poderão continuar o tratamento.
“O mais preocupante é que esses ataques vêm sendo cada vez mais normalizados. Em muitos casos, hospitais e profissionais de saúde passam a ser tratados como suspeitos, e não como pessoas protegidas pelo Direito Internacional Humanitário”
O que diferencia os conflitos atuais em relação aos impactos na saúde pública?
Como organização médico-humanitária, o que temos observado é um agravamento sistemático dos ataques contra profissionais humanitários, civis, instalações de saúde e ambulâncias. Um ponto central é o enfraquecimento do respeito ao Direito Internacional Humanitário e às normas internacionais que deveriam proteger pacientes, profissionais e estruturas de saúde. Quase dez anos após a adoção da Resolução 2286 do Conselho de Segurança da ONU, que reafirma a obrigação de proteger os serviços de saúde em conflitos, a realidade observada em campo é de deterioração. O mais preocupante é que esses ataques vêm sendo cada vez mais normalizados. Em muitos casos, hospitais e profissionais de saúde passam a ser tratados como suspeitos, e não como pessoas protegidas pelo Direito Internacional Humanitário. Ao longo da última década, 21 profissionais de MSF morreram em 15 incidentes enquanto trabalhavam em missões humanitárias. Isso mostra o nível de risco enfrentado pelas equipes que atuam onde os cuidados médicos são mais necessários.
“Reconstruir hospitais é fundamental, mas reconstruir equipes, serviços, programas de prevenção e a confiança da população no sistema de saúde é um desafio ainda maior”
É possível reconstruir um sistema de saúde depois de anos de conflito?
Sim, mas é um processo complexo e demorado. O tempo necessário depende da dimensão da destruição, das necessidades da população e da capacidade de recuperação das instituições locais. Médicos Sem Fronteiras tem um papel específico nesse contexto. Podemos apoiar a recuperação de unidades de saúde, montar hospitais de campanha e oferecer atendimento em clínicas móveis. Mas a reconstrução integral de um sistema nacional de saúde exige investimentos de longo prazo, recursos consistentes e coordenação entre diferentes atores. Mesmo quando os combates terminam, os efeitos da guerra sobre a saúde pública permanecem por muitos anos. Reconstruir hospitais é fundamental, mas reconstruir equipes, serviços, programas de prevenção e a confiança da população no sistema de saúde é um desafio ainda maior.







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