1. Pós-tudo

Que tempo é esse?

O tempo em que vivemos parece tão estranho que temos dificuldades em nomeá-lo. Não sabemos exatamente o que é, mas sabemos que é algo que se instalou depois daquele tempo que conhecíamos. A abundância de termos é tal que já parecemos viver em tempos de “pós-tudo”: pós-verdade, pós-humanismo, pós-feminismo, pós-normal, pós-moderno e até pós-pós-moderno. Tais conceitos estabelecem uma cerca em torno de uma parte da realidade e a rotulam como algo do passado. 

Não fica só nisso. Também parecemos atravessar tempos de “eco-tudo”: ecofeminismo, ecofenomenologia, ecomaterialismo, ecossocialismo, ecocapitalismo, ecovilas e até ecoansiedade. Isso parece sugerir que muitas vezes “pós” é “eco”. É como se tudo no passado fosse “não-eco” ou até mesmo “anti-eco”. Será que hoje em dia somos tão “eco” assim?

Mas não para por aí. O sufixo “ceno” também está se tornando de uso comum por razões semelhantes: indica que a história mudou ou está mudando. Contudo, o sufixo “ceno” — aplicado a eras geológicas — sugere irreversibilidade, já que tais tempos ao que se sabe não voltam para trás. O Antropoceno — ainda que o estabelecimento científico tenha refutado o termo — é irreversível, assim como as mudanças climáticas às quais agora precisamos nos adaptar. Outras denominações que ainda são menos consensuais que Antropoceno incluem, por exemplo, Chthuluceno, Tecnoceno, Novaceno, Plantationoceno, etc. Respectivamente, se referem à era de crise ecológica monstruosa, ou de domínio tecnológico, ou de hiperinteligência, ou de monoculturas agrícolas, dentre outras menos usadas.

Dentre todos os pós, ecos e cenos, tem um que particularmente me intriga: o tempo pós-normal. Definido como um tempo de transição de um normal conhecido para outro ainda desconhecido, o termo suscita dúvida acerca do que seria um tempo normal e qual foi a última vez em que teria se dado.

Será que o mundo como conhecíamos acabou? Será que é essa impressão de “fim de mundo” que tem feito a palavra “apocalipse” migrar dos debates religiosos para a mesa do bar? A essa altura, cabe uma reflexão sobre esse substantivo. Comumente empregada como sinônimo de fim do mundo, apocalipse — na sua raiz etimológica grega — significa revelação. Creio que de fato esses tempos de pós-tudo, eco-tudo e tudo-ceno apontam para o fim de um mundo. Foi revelado a nós que o modo de vida hegemônico moderno — pautado na produção de uma riqueza que é compartilhada por poucos e que se dá às custas da natureza — é absolutamente insustentável. Ainda que boa parte dos indicadores de bem-estar tenham melhorado ao longo deste século, a emissão de gases estufa, a perda de biodiversidade e a desigualdade social só pioram. 

Como se isso não bastasse, somos antropocêntricos, antropomórficos e excepcionalistas, tanto como espécie como enquanto indivíduos. Nós nos julgamos o centro do mundo, construímos e avaliamos coisas tendo nossa própria forma como referência, e nos achamos excepcionais, elevados em relação a todo o resto do mundo natural. Em suma, a gente “se acha”. Além disso, o rápido avanço da tecnologia de informação também tem contribuído para um outro tríptico: anomia (colapso de moral e ética), atomização (avanço do isolamento e do egoísmo) e atrofia (uma crise da imaginação).

Mas não fique triste. Como isso tudo já nos foi revelado, não estamos caminhando para o apocalipse. Uma vez que apocalipse significa revelação e este cenário já nos foi revelado, ingressamos no pós-apocalipse. Não é uma caminhada em direção ao fim, mas sim o despertar de um novo começo. As cinco gerações que hoje compartilham o espaço-tempo planetário têm uma oportunidade rara: erguer uma nova civilização, plantando as sementes de um novo mundo. Vamos começar?

■ Fabio Rubio Scarano é professor titular de Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e curador do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro

Radis Digital

Leia, curta, favorite e compartilhe as matérias de Radis de onde você estiver
Cadastre-se

Revista Impressa

Área de novos cadastros e acesso aos assinantes da Revista Radis Impressa
Assine grátis