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Quando Pitty cantou, em 2003, que “nada é orgânico, é tudo programado”, talvez tenha produzido uma das críticas mais precisas ao mundo que habitaríamos nas décadas seguintes. Os imperativos de “Admirável Chip Novo” — “pense, fale, compre, beba, leia, vote, (…) gaste, viva” — continuam ecoando, agora amplificados pelas nossas telas de estimação.

Caminhe pelas ruas ou entre no ônibus e verá anúncios de apostas. Ligue a televisão e elas estarão estampadas nos uniformes dos times de futebol. Nas redes sociais, influenciadores e artistas ostentam uma vida de sucesso enquanto comercializam a ideia de ganhar dinheiro com facilidade, bastando baixar um aplicativo. Não é mágico?

A psicologia comportamental demonstra que nossas ações não são fruto exclusivo da vontade individual, mas resultado da interação complexa entre emoções e contexto social. Quando uma indústria investe bilhões na criação de ambientes capazes de atuar como cassinos, estimulando impulsividade, permanência e expectativa de recompensa, não podemos tratar os danos produzidos como consequência exclusiva da responsabilidade individual. Existe um sistema por trás de tudo isso.

É nesse contexto que precisamos compreender o funcionamento das apostas on-line, as chamadas bets. Como aponta a Linha de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, do Ministério da Saúde, essas plataformas operam por meio de estratégias sofisticadas de marketing, design persuasivo e recompensa que exploram dimensões subjetivas da experiência humana em favor do lucro.

Essas empresas também jogam. Não apenas com o dinheiro, mas com o desejo e a expectativa de milhões de brasileiros de ascender socialmente; com a esperança de transformação de vida; e com diversas vulnerabilidades emocionais e cognitivas. Os sujeitos tornam-se combustível para o funcionamento dessa “máquina de moer gente”. Esses mecanismos favorecem o desenvolvimento do jogo problemático e podem produzir intenso sofrimento psíquico, especialmente entre grupos mais suscetíveis, como homens jovens, pessoas negras e indivíduos em sofrimento decorrente de luto, separação, aposentadoria ou desemprego.

“Eu não sabia, não tinha percebido”. Em alguns casos, jogar deixou de ser entretenimento. A ludopatia, também conhecida como transtorno do jogo, é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um problema de saúde mental. Assim como ocorre com as dependências relacionadas ao álcool e ao tabaco, muitas pessoas têm dificuldade em controlar o comportamento de apostar quando expostas a determinados estímulos.

Existem programas e grupos comunitários específicos para o cuidado de pessoas que sofrem com alcoolismo e uso de outras drogas. Talvez tenha chegado a hora de pensarmos estratégias semelhantes para pessoas com problemas relacionados aos jogos e para suas famílias. Contudo, não podemos nos restringir às intervenções clínicas. Precisamos regular a publicidade, controlar as ofertas e desenvolver estratégias educativas capazes de promover uma crítica ao consumo digital.

A falta de percepção desses mecanismos nos faz viver sob uma dupla ilusão: a de que não há malefícios nos jogos em excesso e a de que a responsabilidade é inteiramente individual. Soma-se a isso a ilusão do autocontrole, constantemente reforçada pela mensagem “jogue com responsabilidade”. São tantos anúncios veiculados que eles podem ser compreendidos como Determinantes Comerciais da Saúde (DCS).

Quando alguém se torna dependente de algo, tende a privilegiar comportamentos capazes de produzir prazer imediato. Resistir ao impulso da recompensa torna-se difícil. O ambiente é um fator determinante e não pode ser negligenciado. A internet favorece esse processo por oferecer acesso facilitado, múltiplas formas de pagamento e a privacidade necessária para uma atividade frequentemente solitária, sem deslocamento físico e sem a presença de outro. Isso facilita a perda de controle e intensifica o sofrimento.

Mas é fundamental retirar essa discussão do campo da moral. Dependência não é falta de caráter. Por isso, precisamos pensar nos determinantes sociais e comerciais do vício em apostas e construir uma visão mais ampla do problema.

A publicidade transmite, a todo instante, a mensagem de que apostar é inofensivo, divertido e recompensador. A propaganda intensiva, como diria Pitty, não é orgânica. Há sempre uma programação, uma intenção no background de cada roteiro, trilha sonora e personagem escolhido para protagonizar a peça publicitária.

As bets não vendem apostas. Elas vendem esperança. Utilizam algoritmos capazes de antecipar desejos, explorar medos e manipular perdas. Quando o sofrimento humano se transforma em fonte de lucro, precisamos parar e avaliar a instalação desse sistema. Afinal, ele já se tornou uma questão política e sanitária.

■ Fellipe Leal é psicólogo e residente em Saúde da Família pela Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), em Minas Gerais.

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