Nosso SUS é um jovem adulto. Em seus trinta e poucos anos, para além de projeto emancipatório, se tornou um verdadeiro playground programático. Experimental, artesanal, ao mesmo tempo que servindo à lógica do território, serve às lógicas das territorialidades da política pública. Neste sentido, o reformismo político, a social-democracia, talvez tenha sido a plataforma que mais feições deu a esta criatura. Nos vangloriamos de participações populares, mas em termos macropolíticos, o “projeto emancipatório” é refém da realpolitik: quem vota o orçamento ainda usa terno, gravata e papéis timbrados. 

A gente vai aprendendo a esquecer de escancarar portas. A gente não, a gente é muita gente. Eu que desaprendi. Para o povo Yanomami, o que define muitos de nós, não aldeados, aderidos a uma suposta cultura ocidental, é o esquecimento. Esquecemos que o SUS é meio para emancipação, não é fim. O fim é muito mais a práxis emancipatória que a garantia do direito que pode ser perdido. 

Não se engane: esse direito à saúde pública, conquistado a duras penas, é muito frágil e se perde em um piscar de olhos. No entanto, o medo de perder não pode nos tirar a coragem de fazer. 

Graças a Deus nasci nordestino e ladino-americano. Eu entendo, de minha visão particular, que o Nordeste, para o SUS, tem um papel fundamental, que é o papel de mística. Esta hora bem aqui é a hora em que todos os neuróticos obsessivos ou os cientistas de jaleco reviram os olhos. Ratifico: não existe cuidado do ser humano sem pensar em mística. E isso não tem nada de misticismo. 

De Lévi-Strauss e a ideia de que o profissional de saúde tem um quê de feiticeiro, aos tabus essenciais e universais em Freud, somos profundamente e evidentemente atravessados pelo sentido simbólico. Balint, psicanalista húngaro naturalizado inglês, falava que o médico se prescrevia. Como, assim, se prescrever sem contar com a mística? 

A construção coletiva é o meio de edificação do projeto emancipatório do SUS, de onde vem a ideia da Participação Popular. Do poder simbólico do ritual público, um delegado ganha representatividade em uma conferência. Não existe democracia sem mística, e isso nada tem de mágico. 

O Nordeste, no SUS, tem o papel de lembrar que há vários caminhos que levam à feira. Um lugar como o nosso, tão inviabilizado e muitas vezes precarizado, é lugar de ativa criação. Mas isso não se restringe ao Nordeste geográfico. As comunidades urbanas, muitos lugares dos subúrbios e pequenas cidades, todas pra mim são Nordeste. E a mística quem faz é Paulo Freire. 

Paulo Freire não é pretexto para metodologia ativa. Inclusive uma coisa muito pouco tem a ver com a outra. Paulo Freire é lembrar que só sabemos se somos. Só arrombamos a porta se somos quem arrombaria se a vontade encontrasse a oportunidade. A mística tem isso. Uma corporificação da ideia. E isso tem muito, sim, de artesanal e local. 

Não se trata de abandonar o progresso, mas de recusar promessas de leiautes bonitos, instagramáveis, que não resolvem os problemas — só tampam a falta de sentido. Transformam o Rio de Janeiro em Canadá, São Paulo em Londres: tampam uma ausência de si com a presença de um outro que, muitas vezes, nada tem a ver conosco.

O SUS tem que ser mais um vira-lata caramelo e menos um hamster correndo em sua gaiola sem sair dos mesmos traumas. Seria ele um projeto de emancipação pela construção coletiva, integrando territórios existenciais das comunidades, ou de emancipação nos moldes de um ideal republicano europeu, de um território que deve ser dominado? A crítica não é minha — a literatura já a registra. Mas guarda algo essencial: o real é imperfeito, irregular, colorido, rococó. Será que tantas longarinas de aeroporto, hoje decorando e padronizando unidades de saúde pelo país, conseguem registrar o colorido dessas imperfeições? 

O que é bonito é o que é real. Que é contraditório, construído no olhar acolhedor e na reivindicação vigorosa. Tem longarina, cadeira, porta de vidro, tapete de chita, cobertura de fuxico e estética de abraço de vó. A APS no SUS é um vira-lata caramelo! É um cachorro que come, bebe, dorme e brinca. Não fica preso. Solta e é o que é sem pensar no que pode. É viável por ser real — não por viabilizar um normativo imaginário. 

O real é essencialmente o terror do elaborador de ata.

Rogério Logrado é médico de família e comunidade (Uerj), mestre em Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), residente em psiquiatria (ESP-MA), professor das disciplinas de psicopatologia e psiquiatria (Faculdade IDEA-MA) e supervisor do Programa Mais Médicos Pelo Brasil (UFMA).

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