Fotografia: Ministério da Saúde.

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Documentário Se não fosse o SUS... lembra a importância do controle social e do Sistema Único de Saúde para salvar vidas na pandemia

-A senhora teve covid?

A pergunta abre o documentário Se não fosse o SUS..., uma produção do Conselho Nacional de Saúde (CNS) com apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS) e do Centro de Educação e Assessoramento Popular (Ceap). Não é uma pergunta retórica. A ela, seguem-se as respostas de quem adoeceu e passou pelo susto e pela dor de ver alguém próximo sucumbir à covid-19. Famílias inteiras. “Minha filha pegou, minhas duas irmãs e o meu neto. Ele ficou muito mal”, conta uma usuária. “Fiquei internado 23 dias no Hospital de Campanha do Autódromo [no Rio de Janeiro] e foi difícil”, lembra outro.

É apenas o mote para uma conversa de 25 minutos sobre saúde pública, controle social, a crise sanitária evidenciada pela pandemia e a potência do Sistema Único de Saúde no seu enfrentamento — e além. “Ainda mais pra gente que é de baixa renda, que não tem condições, Deus me livre, se não fosse o SUS!”, diz Angela de Aquino Santos, resumindo, em poucas palavras, um sentimento comum.

Os relatos na voz de usuários, trabalhadores e profissionais de saúde são intercalados por cenas do cotidiano nos serviços: os corredores nas unidades básicas, o trabalho de busca ativa nos lugares mais remotos, a visita da agente de saúde aos doentes acamados, a demanda reprimida pela pandemia na Clínica da Família. “Eu consigo dar um atendimento e olhar para essa população de acordo com as necessidades desse território”, explica uma médica de família e comunidade. Mas o filme, dirigido por Guilherme Castro, conta ainda sobre o movimento da reforma sanitária que resultou na criação de um novo modelo de saúde para o Brasil. Como pano de fundo de todo o documentário, breves depoimentos de representantes do Conselho Nacional de Saúde relembram detalhes do nascimento do SUS como fruto da luta pela abertura democrática.

É possível assistir ainda a um breve trecho da icônica fala de Sergio Arouca na abertura da 8ª Conferência Nacional de Saúde. Em 17 de março de 1986, o sanitarista perguntava: “O que nós estamos dizendo é o seguinte: se a saúde é ou não é um direito da pessoa humana? E, ao ser o brasileiro uma pessoa humana, deve corresponder ao brasileiro o direito à saúde. Se a saúde é um direito a quem cabe garantir esse direito?” A mais célebre das frases de Arouca — “Sem saúde não há democracia” — é lembrada em seguida por uma das entrevistadas do documentário. Como que para demonstrar que saúde é direito de todos e dever do Estado, o filme recorda o desmonte do SUS — que começou bem antes do início da pandemia, mas foi inteiramente desnudado nos últimos dois anos — e expõe as consequências desastrosas da lentidão das ações e da ausência de uma coordenação nacional, o que acabou custando muitas vidas, milhares, mais de 620 mil, à época em que o documentário foi filmado.

Em meio ao descaso oficial durante a pandemia, o controle social assumiu um papel de peso. No documentário, isso fica claro com o destaque dado à luta pela vacina, à defesa da ciência e às estratégias de combate à rede de desinformação, às fake news e ao negacionismo, assim como a criação de um comitê de acompanhamento da covid para fazer monitoramento dos casos e problemas que a pandemia trouxe à tona. “Enquanto o SUS salvava, a iniciativa privada negava acesso às pessoas que pagam por planos privados de saúde”, fez questão de registrar no documentário Moysés Toniolo, integrante do CNS, em referência aos abusos de toda ordem, como comprovados pela CPI da Covid.

Salvando vidas

Durante o lançamento virtual do documentário, em 27 de janeiro, transmitido ao vivo pelo Facebook e pelo canal do Youtube do CNS, o presidente do Conselho, Fernando Pigatto, enfatizou que esse é um momento de luto e de luta, mas também de “esperançar” pelos milhões de brasileiros e brasileiras que tiveram suas vidas salvas pelo SUS. Fernando Leles, representante da Opas, homenageou aqueles que dão a vida pelo sistema público de saúde: profissionais que estão nas unidades básicas ou nas UTIS ou indo de casa em casa, mas também técnicos e gestores que fazem a diferença. “Direitos não são dados, são conquistados. O SUS foi criado porque houve um movimento de reforma sanitária abrangente há 40 anos. Mas se mantém ainda hoje, passando por tantos momentos difíceis, reajustes macroeconômicos, restrições financeiras de toda parte, porque o coração da participação continua batendo, fazendo pulsar todo o sistema, oxigenando, colocando em movimento”, disse.

Se não fosse o SUS... conclui uma trilogia iniciada antes com os filmes Saúde (2017) e SUS em defesa da vida (de março de 2020) e funciona como um convite à mobilização em defesa do maior sistema público de saúde do mundo. Durante a live de lançamento, no chat, enquanto era exibido o filme, internautas interagiram com frases como: “Meu plano de saúde é o SUS”, “Eu amo o SUS, patrimônio do povo brasileiro” ou “Valorizar o Sistema Único de Saúde é valorizar a nossa cidadania”.

Impossível não lembrar das imagens dos profissionais do SUS atravessando o país, de barco, a cavalo ou a pé, para levar a vacina a cada um dos brasileiros, como mostrado na galeria de fotos enviadas pelos leitores e publicadas por Radis em sua edição 223, em abril de 2021. [Veja aqui: https://bit.ly/34FCeVd]. “Ai de nós, se não fosse o SUS”, disse mais um usuário na conversa. “Se não fosse o SUS estaríamos passando de 1 milhão de óbitos”. Se não fosse o SUS, muitas vidas não teriam sido salvas. Se não fosse o SUS, teria sido impossível responder à pandemia. Se não fosse o SUS...

Serviço:

Se não fosse o SUS... Documentário dirigido por Guilherme Castro. Uma produção do Conselho Nacional de Saúde (CNS) com apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS) e do Centro de Educação e Assessoramento Popular (Ceap). Disponível online: https://bit.ly/34ECL9I

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