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O mês de março marcou o terceiro ano da primeira morte por covid-19 no Brasil. De lá para cá, o país contabilizou setecentos e trinta mil outras mortes. Muito além dos óbitos oficiais registrados, calcula-se um número bem superior, computando-se os casos não notificados e as sindemias, que têm a ver com o efeito influenciador do vírus para desencadear ou potencializar outras enfermidades.

Mesmo para quem sobreviveu às estatísticas fatais, atravessou e saiu da pandemia ileso, os efeitos continuarão a se fazer sentir por algumas gerações e trarão na lembrança os danos irreparáveis com altíssimos custos sociais, humanitários, econômicos e políticos deixados pelo vírus. São reflexos do negacionismo de um governante que rejeitou a ciência e as instituições, apostou em remédios ineficazes e qualificou a pandemia como uma gripezinha quando deveria conduzir o país que governava, protegendo a população, ao invés de deixá-la exposta à covid.

Nesta edição, os leitores conhecerão histórias e trajetórias de pessoas que sentem a dor da perda de entes queridos que não voltarão mais, de sonhos que foram bruscamente interrompidos, de vidas que não poderão ser retomadas, assim como danos irreparáveis não podem ser esquecidos.

Falar desses momentos de dor é um ato de generosidade e ensinamento para não condenar a peste ao esquecimento. Ao mesmo tempo, ajuda a acender um alerta de que ninguém está imune e novas variantes podem surgir e pegar desprevenidos os mais de 80% de brasileiros que não tomaram a vacina bivalente. As lembranças com todos os sentimentos que despertam são importantes para determinar as ações no presente. E não se pode virar uma página sem antes ler todo seu conteúdo. Sem memória, não há identidade, só um sentimento de vazio.

A pandemia não impôs só o distanciamento social. Os relatos dos entrevistados pela repórter Liseane Morosini dão a dimensão do sofrimento e das dificuldades que viveram, assim como sofreram outras milhares de pessoas, diante das despedidas que não puderam acontecer, mesmo na iminência da morte do ente querido, e dos rituais funerários solitários, que não puderam ser acompanhados.

Para muitos que ficaram a pandemia negou a chance de externar a dor do ritual de despedida não acontecido, porque não puderam contar suas histórias de profundo sofrimento, importante para a elaboração do luto. Um luto que é diferente para cada pessoa, no tempo e na intensidade, e que ainda hoje precisará ser compreendido, respeitado e acolhido com empatia.

É assim, sem virar páginas de injustiças e desigualdades, que pessoas que perderam muito por causa da doença e do descaso, como os entrevistados por Radis, tentam reconstruir suas vidas. Alguns deles também se organizaram coletivamente em associações, como a Avico Brasil (Associação de Vítimas da Covid), cobrando reparação e justiça; ou relembram o ocorrido através dos nomes de seus mortos gravados nos azulejos que compõem um mural na Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, para que a comunidade não esqueça das vidas perdidas.

Radis espera que os milhares de leitores espalhados por todo o Brasil leiam e se solidarizem com as histórias e memórias contadas nesta edição, e acolham familiares, amigos, vizinhos e conhecidos que tenham sido vítimas dessa pandemia. Se o acolhimento não for suficiente, orientem a busca de um profissional que possa ajudá-los.

Para a psicanálise, é a partir do atravessamento da dor que se dará a promoção da cura, mas  esta travessia será sempre mais leve se houver escuta, afeto e acolhimento para essa dor.

Ainda nesta edição, Ana Paula Godoi, moradora da Maré, reproduz o que os comunicadores populares discutiram numa oficina. Ela relata os entraves que as ações policiais trouxeram para a vacinação contra a covid e outros atendimentos que deixaram de ser prestados. Para além da dor pela ameaça da pandemia, os moradores tiveram de viver com o sofrimento da falta de segurança pública, com a vida afetada pelos confrontos violentos que deixaram também vítimas fatais.

Conhecer os leitores de Radis, saber como são ouvidos e o que pensam do que é publicado na revista, é uma preocupação de toda a equipe. Mas foi o coordenador e editor-chefe Rogério Lannes quem levou essa preocupação para sua pesquisa e se propôs a discutir o “lugar do outro na comunicação pública”. Isso resultou em longas conversas com alguns leitores, de diversos locais do Brasil e compuseram uma brilhante tese que o repórter Glauber Tiburtino retrata em alguns trechos nesta edição.

A íntegra da pesquisa completa poderá ser conhecida acessando o site informado no final do texto.

Boa leitura!

* Justa Helena Franco Subcoordenadora do Programa Radis
Comentários para: A dor que ainda não acabou

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