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“A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago”. (Carolina Maria de Jesus, no livro Quarto de Despejo, em 1960)

O artigo 6º da Constituição Brasileira estabelece que a alimentação é um direito social, como a saúde, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer e a segurança. Então, o que justifica o vergonhoso quadro de milhões de brasileiros sem ter o que comer num país que até recentemente havia deixado o Mapa da Fome? Como um país que produz safras recordes de grãos ignora a fome de milhões de pessoas em seu território?

Radis buscou respostas para essas perguntas e registra nesta edição um importante panorama da fome no Brasil. É preciso ter consciência de que a pandemia, além de tirar a vida de quase meio milhão de brasileiros, fez crescer o desemprego e a desigualdade, trazendo como efeito mais perverso o aumento da fome. Mas não só a covid-19 é responsável por este estado de coisa, já que a insegurança alimentar, desde 2016, vem trilhando o perigoso caminho rumo à fome, que já atinge 19 milhões de pessoas.

O ajuste fiscal, que congelou salários e investimentos por 20 anos, praticado no governo anterior, as reformas excludentes como a da Previdência e Trabalhista, a extinção de programas de combate à fome e políticas públicas de acesso à renda, são equívocos perversos que não enfrentam as verdadeiras dificuldades do país, mas que pesam sobre os mais pobres, fazendo-os pagar o preço de uma crise que não produziram, às vezes com a própria vida.

O enfrentamento justo deveria começar por uma Reforma Tributária séria, em que os mais ricos pagassem os reais impostos que lhe cabem, e uma auditoria da dívida pública, que avaliasse de que forma os juros que sangram os recursos do país são pagos para emissão de títulos públicos, uma negociação entre o Tesouro e o Banco Central, em que só quem sai ganhando é o mercado financeiro. Aliás, o lucro dos bancos continuou batendo recordes, enquanto milhões vagam em busca de emprego, renda e comida.

Uma análise mais detalhada das reformas implementadas vai identificar que a Trabalhista, por exemplo, não foi capaz de gerar os empregos que prometia e só ajudou a colocar na informalidade e na “pejotização” — quando o empregado passa a ser pessoa jurídica ao invés de dispor do contrato de trabalho — milhares de trabalhadores que ficaram sem amparo trabalhista algum. O que se consolidou, na verdade, foi um sistema de desproteção social que se agravou nos dois últimos anos.

Junto com a pandemia, a inflação volta a assustar os brasileiros, com o aumento de preços e a alta de alimentos, devido ao modelo agrícola equivocado, voltado principalmente para a exportação e sujeito às oscilações do mercado internacional, com isenção de tributos sobre as exportações. O agronegócio mantém seu ganho, enquanto a fome aumenta no campo e nas cidades.

A pandemia, consequência do vírus e da falta de vacina, além de trazer grande atraso na educação, contribuiu para aumentar a insegurança alimentar de milhares de crianças e adolescentes, já que com a transferência das aulas para o espaço virtual, muitos estudantes perderam o único local em que podiam realizar refeições mais nutritivas ou a única do dia. E muito pouco foi feito para socorrer esse enorme contingente de crianças e jovens. A ausência e a falta de competência de uma coordenação central se fazem notar porque poderiam minimizar o estrago que a falta de alimentação traz nessa faixa etária, assim como o acesso às ferramentas necessárias para o aprendizado, o que escancara e aumenta a desigualdade.

Ainda nesta edição, Radis traz um instigante texto de Ynaê Lopes dos Santos que trata do trabalho e suas consequências na pandemia ao longo de cinco gerações, além do relato de como estão vivendo e sobrevivendo as pessoas que vivem da arte no Brasil e que estão longe dos palcos.

A solução para todas as questões que estão por traz da falta de emprego, da renda e da fome parece distante e envolve uma série de fatores estruturais que estão impregnados na sociedade brasileira. Mas é preciso um recomeço urgente, porque como ensinou Herbert de Souza (o Betinho, 1935-1997): “quem tem fome tem pressa” e a vida não pode esperar.

Radis lamenta a morte do grande amigo e incentivador de nosso trabalho, o pesquisador e ex-diretor da Escola Nacional de Saúde Sergio Arouca (Ensp), Antonio Ivo de Carvalho, que faleceu em 10 de junho. Antonio Ivo foi um dos idealizadores do SUS e de dezenas de projetos envolvendo a saúde pública, controle social, redução das desigualdades sociais, acesso aos serviços e formação de gestores para a saúde. Atualmente era coordenador do Centro de Estudos Estratégicos (CEE) da Fiocruz, projeto que concebeu em 2014. A memória de Antonio Ivo segue conosco!

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